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As Cobiças de um Lobo - Pt. 1

OBS: O que segue é a primeira parte de uma curta-estória. Conteúdo original.

 

45-57

Foi por um buraco no chão da cela 418-b que o gangster, podemos assim chamar, mais temido e conhecido do país assinou sua sentença de morte. Não de uma cela qualquer, mas pela solitária da maior prisão de segurança máxima do estado. De que ele havia escapado, se é que escapou, não restava dúvidas, mas de como... sem respostas. Mas antes disso não era da esperança de ninguém, nem mesmo dos amigos mais próximos da família, que o primogênito da família Modesto-Lobo, Olavo, fosse preso tão jovem. Nuvens negras e carregadas deram lugar a um céu que estava azul e a chuva começou a cair no mesmo instante em que foi dada a sentença de prisão perpétua ao rapaz. O som da batida do martelo do juíz que sentenciou Olavo ecoou pela sala atingindo com firmeza a multidão que assistia à sentença. Os parentes estavam indignados com as ações do rapaz e o povo não acreditava que um menino de família tão nobre fosse capaz de fazer o que fez.

Nascido em 1945, Olavo fora criado numa família nobre de Rio Grande, RS, seus avós e parentes mais próximos eram conhecidos por todo o estado. Seu pai era político, governador, na época; mas não era corrupto, o que levava orgulho, alegria e alívio ao povo gaúcho. Sua mãe não passava de uma pessoa normal. Era a mulher que todo homem sonhava; cozinhava, cuidava da casa, fazia tudo isso pois gostava. Olavo não teve nenhuma influência ruim na sua infância. Raramente brincava com seus amigos na rua, ou até mesmo dentro de casa. Estudava bastante: inglês às segundas, piano às quintas e esporte às sextas. Tudo o que qualquer criança gostaria de ter, Olavo tinha.

Não havia um porquê de Olavo se envolver à máfia, que na época era um minúsculo grão de areia no Brasil. Não teria se comprometido a isso se não fosse por um motivo: um brilhante colar de diamantes na vitrine daJoalheria Campobeloque cobiçava. Na inocência de sua idade, então 12 anos, decidiu, de qualquer forma, adquirir aquele colhar brilhante para sua mãe. 

O garoto estudava no período da manhã e dia após dia, com chuva ou sol, Olavo saía da escola e traçava seu caminho pelas ruas esburacadas, vielas traiçoeiras e bairros estranhos da cidade para então, finalmente, grudar seus olhos na vitrine da joalheria e passar a tarde admirando o clarão do objeto. Seus pais pouco se importavam. Enquanto Carlos, o pai, passava a semana no Rio de Janeiro; a mãe, Marilene, assistia ao canal de gastronomia durante todo o dia.

Olavo chegava em casa somente na hora do jantar. Tinha noção que poderia, em um estralar de dedos, comprar não só o colar mas como a loja inteira; mas não era isso que queria. Queria fazer sua uma surpresa de aniversário à sua mãe, mostrá-la que já era capaz de cuidar de si mesmo.

 

Foi em um dia sem nuvens de 1957 que Olavo foi se encontrar novamente na frente da loja. Pela parede e pela vitrine podia-se ver um brilho de luar vindo de cada diamante na corrente de ouro, que também brilhava. O brilho refletia nos olhos claros de Olavo, que dessa vez desviou o seu olhar para uma alta figura negra enconstada na parede do estabelecimento ao lado. Esse, o que parecia ser, homem usava um terno com listras brancas e em baixo de seu chápeu marrom, que escondia os olhos e os traços,  só se podia ver a chama de seu quase acabado charuto. No dedo-médio esquerdo notava-se pelo brilho um anel de ouro esculpido com um brasão verde ao meio. Seu perfume de eucalipto era forte, fazendo com que as narinas de Olavo ardessem uma vez que o vento trazia o cheiro até elas.

Olavo começou a sentir um aperto no coração quando o homem se aproximou devagar, jogando uma sombra sobre o pequeno corpo do menino; com as mãos nos bolsos da calça e soltando ainda mais fumaça pela sua boca. Finalmente, virando-se para a vitrine soltou algumas palavras:

  • - Realmente o colar é bonito - disse jogando a bituca do charuto na guia da calçada e apagando-o de primeira com um forte pisão. - Eu mesmo o cobiçaria se fosse relevante aos meus interesses.
  • - Mas por que e como sabe que eu cobiço o colar? - perguntou Olavo virando-se para o homem e levantando sua cabeça para tentar alcançar a linha de vista do mafioso que aparentava ter mais de dois metros de altura. 
  • - Você que não percebeu meu caro - respondeu o homem colocando a mão direita no ombro de Olavo, que com um rápido movimento deu um tapa na mesma mão para que o estranho achasse seu lugar na conversa. - Mas estive lhe observando há duas semanas. A cada momento estava em um canto, fumando um bom charuto cubano, e olhando para você.

Houve silêncio. Olavo não conseguia achar palavras para responder o homem. Sentia que devia sair correndo, atravessando a rua e chegando o mais rápido possível ao departamento de polícia mais próximo; mas também sentia que ao fazer isso, o homem pudesse sacar uma arma ou com um assobio chamar um comboio de comparsas para seguirem ele. Decidiu manter a calma e quebrar aquele estranho silêncio.

  • - Diga logo o que quer de mim, patife! - exclamou Olavo cruzando os braços. - Diga-me e quem sabe não falarei aos meus amigos do poder o que faz.
  • - Ah! Não esperava tal resposta - disse o homem fingindo ter-se assustado. - E por favor, meu jovem, não diga nada aos seus poderosos amigos! - sussurou aos ouvidos de Olavo caindo numa risada.
  • - Ha. Ha. Ha - riu Olavo ironicamente.
  • - Muito bem, mestre Modesto-Lobo - disse homem. Ao ouvir seu sobrenome, Olavo deu um pulo alto, como um cachorro velho que fora chutado. - Fique sabendo que posso lhe conguir esse colar agora mesmo.
  • - Uau! É verdade? - perguntou Olavo agora com um repentino interesse ao homem.
  • - Sim, sim! Mas agora já está ficando tarde e não quero que fique na rua à noite. Portanto vá para casa e volte amanhã às 14h00. Estarei lhe esperando.

 

O homem deu um tapinha nas costas de Olavo e desapareceu no breu da noite. Olavo continuou observando o colar e refletindo sobre homem por mais alguns minutos. Só agora percebi que ele não me deu seu nome. É um sujeito estranho, sim, mas pode me ser útil eventualmente.

Mesmo não muito satisfeito com o dia, o menino foi alegre e aos pulos embora para sua casa. Como sempre encontrou sua mãe alucinada na novela. Subiu correndo pelas escadas de mármore bege como se tivesse achado um ticket premiado da loteria. Entrou em seu quarto e dando um click no controle do ar-condicionado, esperou o quarto ficar gelado e sem banho tomado entrou em baixo das cobertas para dormir um sonho calmo.

Na manhã seguinte, sexta-feira, foi descorajado para a escola. Não contou a nenhum de seus amigos, nem mesmo ao seu melhor, sobre o homem. Não tirava os olhos do relógio com esperança de que o sinal batesse logo; mas a manhã foi longa, quente e abafada. Finalmente o sinal soou. Olavo foi o primeiro a sair correndo da sala e a passar pelo portão da escola. Correu até a joalheria aonde encontrou o mesmo homem alto, dessa vez na calçada oposta à loja. O homem ergueu sua cabeça e lançou um sorriso em Olavo que quase não segurou o desejo de abraçar o moço. Logo começaram a papear:

  • - Não lhe disse, Olavo, que a cada momento estava em um canto? - perguntou o homem retoricamente a Olavo. - Venha, vamos conversar - acrescentou.

 

Os dois começaram a descer a rua pela calçada, lentamente. Olavo ouvindo alguns passos a mais olho para trás e percebeu a presença de dois homens, também de terno acompanhando-os. O garoto finalmente decidiu soltar a pergunta que não se calava em seu coração:

  • - Diga-me, estranho, vocês não vão me machucar, vão?
  • - É claro que não, Olavo! - respondeu o homem. - Afinal, se quisesse te machucar já teria feito.
  • - Hm.. isso é bom - disse Olavo sentindo-se realizado e aliviado.
  • - Sabe, Olavo, creio que mesmo termos dialogado tanto, ainda não me apresentei.
  • -É verdade, pensei sobre isso também. Diga-me seu nome, então.
  • - São poucos que me conhecem. O nome verdadeiro não será pronunciado aqui e a agora, mas caso queira chame-me de Bezo.
  • - Bonito apelido, Bezo.

 

Os dois continuaram andando, acompanhados dos dois homens, até que dois carros grandes estacionaram aos seus lados. Os seguidores entraram em um, e Bezo entrou em outro com Olavo. Dirigiram para fora da cidade, entrando na rodovia. Olavo nem percebera que o sol já havia sido substituído pela lua. A alguns quilômetros do centro de Rio Grande fizeram um retorno, à direita,  entrando em uma estreita estrada de terra cercada por um canavial.

Durante o caminho Bezo conversava com seu companheiro ao lado; mas não falava português, discursava alguma língua morta que dominava. Como estudava muito, Olavo descobriu que se tratava de Latim, e com um pouco de conhecimento decifrou somente duas das várias palavras que saíam rapidamente da boca do mafioso:  “chegando” e “pacote”.

Cinco minutos passados das 21h00 os carros chegaram ao fim da estrada, aonde havia uma pequena cabana de madeira de apenas um cômodo. Todos desceram dos carros. Bezo foi o primeiro a entrar, vindo atrás Olavo entre os dois seguidores. O interior da cômodo estava escuro, havia somente uma lâmpada pendurada por um fio ligado ao teto de telha-à-vista. Não havia chão, era pura terra vermelha de plantação. A luz da lâmpada focava somente no que estava abaixo, fazendo com que os cantos do quarto ficassem escuros como o céu da noite. Em baixo da lâmpada descansava uma mesa com duas cadeiras, uma oposta à outra. Bezo fez Olavo sentar-se em uma das cadeiras e perguntou-o se estava disposto a fazer um trato. Em nenhum momento Bezo falou sobre o que o trato seria, só perguntou continuamente se concordaria ou não em fazê-lo. Olavo, ainda suspeito, disse que faria. Nesse momento saiu de um dos cantos escuros do cômodo um homem mais alto do que Bezo; sua cabeça não atingia o teto por pouco. O gigante sentou-se na cadeira à frente de Olavo e começou a perguntá-lo sobre política e se o menino tinha certeza de que o povo, de fato, escolhia seu representante político. Olavo estava confuso, sem saber o que responder; sentia-se ainda mais intimidado pela aparência do gigante.

 

O homem então começou a contar a história de uma sociedade secreta, formada nos meados de 1700. Referia a seus membros pelo nome deiluminados, e contou como essesiluminadosestavam por trás da Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Primeira Guerra Mundial e a Segunda, a Guerra do Vietnã e disse como um ataque terrorista a dois prédios mudaria o mundo para sempre.

Olavo se assustou quando Bezo se aproximou e pôs sobre sua frente dois ossos de galinha, dizendo que se juntaria aosiluminados, pela primeira vez deixando o menino saber o nome da organização:Os Illuminati.Mesmo com medo o menino entendeu o porquê de “iluminados”. Bezo não conseguiu dizer o que o gigante disse, Olavo seria morto naquela mesma cadeira se negasse a proposta. Assim que aceitou, fizeram-no cavar com seus dedos um buraco na terra dura. O menino começou a berrar e chorar desesperadamente quando viu Bezo se aproximar com uma faca, que foi usada para cortar a palma da mão da criança. Mesmo berrando de dor foi obrigado a tampar o buraco e derramar seu sangue no local.

Já havia passado de meia-noite quando o menino foi deixado na esquina de sua casa. Ao ser jogado pela porta do carro, recebeu uma carta. O local do corte estava tampado de terra, estancando o sangue. Ao abrir a carta se deparou com algumas instruções, e com uma frase que o deixou perturbado:“O seu sangue foi derramado em nome do Senhor das Trevas, Lúcifer, e o trato que aceitou foi feito com ele mesmo.”A carta ainda adicionava que se não seguisse as instruções, o garoto seria usado da forma mais desagradável possível.

Com as portas fechadas o garoto, erguendo sua cabeça e chorando, deu uma última olhada na janela do carro, vendo os olhos do gigante tornarem-se vermelho e um grande sorriso se formando em seu rosto, seguido por um riso que podia ser escutado pela rua toda.

 

Finalmente, após descer a rua, entrou em sua casa. Percebeu que seu pai havia chegado de viagem, mas que já estava no quinto sono, junto com sua esposa. Olavo foi subindo lentamente a escadaria, até chegar no banheiro, aonde lavou o rosto e as mãos, e aonde tomou um banho gelado. Dirigiu-se ao seu quarto, sentou-se na cama e ali desmaiou. No dia seguinte acordou fatigado; tomou um belo café da manhã, sarcasticamente apresentou-se a seu pai e mãe, e foi para a biblioteca municipal, aonde passou o dia lendo sobre sociedades secretas.

Voltando à sua casa foi até seu quarto aonde encontrou na porta um bilhete. Dizia que Olavo deveria comparecer a uma reunião na casa da esquina, que era uma mansão. Contra sua própria vontade, sabendo dos riscos oferecidos a ele por meio da carta que recebera, foi até a reunião. Lá encontrou Bezo e muitas outras faces desconhecidas. Rapidamente fez-se amizade com elas, ficando feliz por aquilo não ser nenhum ritual satânico como pensava. Logo viu Bezo chamando a atenção de todos, fazendo as vozes altas do salaão desaparecerem. Todas as cabeças agora olhavam para ele, inclusive a de Olavo. O homem começou a discursar; primeiramente falando sobre o novo irmão e como havia sido corajoso no ritual, e foi, ah foi. Ninguém tirava os olhos do menino, alguns sorriam outros franziam, mas nada na reunião realmente era do interesse do garoto, nem mesmo as balas de coco que havia chupado há alguns minutos; só pensava em como e quando Bezo presentiaria-lhe o colar.

Papo vinha, papo ia e ele já estava cansado da chata conversa dos homens velhos; haviam 13 na mansão, contando o menino e Bezo. Não saíam do assunto de política, chato demais para alguém de 12 anos. Então repentinamente o badalo de um antigo relógio de pêndulo atingiu o sino no interior de sua estrutura de madeira vernizada, marcando as 3h00 da madrugada.

Um ritual foi iniciado.

Os irmãos se juntaram em um círculo de mãos dadas, juntamente com Olavo. Ele não queria participar, sentia angústia de ter ido à reunião, mas teve. Nada de obscuro foi realizado no ritual, foi calmo, de rezas em latim. A reunião foi encerrada às 4:15 da manhã. Olavo se despidiu dos novos amigos e voltou fatigado para sua casa aonde, novamente, encontrou seus pais dormindo. Foi direto para a cama.

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Atualizado em: Dom 11 Nov 2012
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