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Ainda Sem Título - Capítulo 1- Reflexo

Eu caminhava pelo bairro em direção ao Le chemin, o prédio onde eu morava. As ruas estavam desertas e eu percorria os quase três quarteirões restantes a passos lentos. O sol estava encoberto por nuvens que indicavam chuva, fenômeno um tanto atípico em Teresina, conhecida por ser a capital mais quente do nordeste brasileiro e que passava a maior parte do ano sob um sol escaldante, mas ainda assim comum nos meses de verão do início do ano.

Notei que pela primeira vez eu estava realmente “vendo” o bairro: os grandes prédios residenciais, as belas casas que pertenciam visivelmente a famílias de classe média alta, a arquitetura das fachadas e as muitas árvores, grandes e majestosas, que outrora passaram despercebidas aos meus olhos.

Eu não prestava atenção na direção que seguia, mas meus pés me levavam automaticamente pelo caminho certo, como se tivessem aprendido devido às muitas vezes que eu o tivera percorrido. Tinha chegado à rua que costumava usar como atalho. As pessoas normalmente a evitavam porque era incrivelmente deserta: de um lado existia um muro feito de grandes pedras que se estendia de uma ponta a outra e, do outro, havia apenas os fundos de um depósito.  Dentro do espaço delimitado pelo muro havia árvores ainda maiores do que aquelas que eu acabara de observar, o que tornava o lugar sempre sombreado.

Apenas quando estava na metade da rua notei um homem de pé ao lado do muro de pedra. Ele aparentava ter meia-idade, usava calça jeans preta, camisa social branca e tênis. Era branco, de estatura mediana, cabelos loiros curtos e olhos incrivelmente verdes. Ele me encarava com a feição calma, quebrada apenas por um discreto, mas estranho, sorriso. Desviei o olhar e apressei o passo em direção ao fim da rua. Quando cheguei à esquina e olhei novamente, o homem já não estava mais lá.

Andei ainda mais rápido na direção do prédio. Cheguei à portaria e percebi que estava vazia, o que era muito estranho, pois eu não conseguia me lembrar que o porteiro algum dia faltara. Mas ainda assim a grade de segurança se abriu e eu pude entrar, pensei que talvez o porteiro pudesse ter saído e deixado a grade aberta. Fui ao elevador e subi ao terceiro andar não encontrando pessoa alguma no caminho. Quando cheguei ao número 113 usei a minha chave para destrancar a porta.

Era comum que o apartamento estivesse vazio. Ele era relativamente grande se fosse levado em consideração o fato de que ali moravam apenas três pessoas. Atravessei a sala de estar em direção ao corredor onde ficavam as duas suítes, um quarto, um banheiro, e uma pequena sala onde meu pai costumava trabalhar. Meu quarto era a primeira suíte à esquerda, a outra suíte, a maior, era a do casal, mas costumava servir apenas a minha mãe já que eles nunca dormiam juntos e meu pai usava frequentemente o quarto de hóspedes.

Entrei em meu quarto, sentei na cama e comecei a observar o lugar. Era um quarto comum para um adolescente de 17 anos de classe média alta: um guarda-roupa que tomava grande parte de uma das paredes deixando apenas um pequeno espaço para quando a porta abria, uma escrivaninha com o computador, uma cama de casal, e uma mesinha de cabeceira. O branco do guarda-roupa contrastava com o preto dos outros móveis, e isso fora pensado anteriormente por minha mãe na sua tentativa de elaborar a decoração. A parte que eu mais gostava era o mural que eu tinha posto sobre a cama com as fotos que mais gostava. A maioria eram fotos recentes, restando apenas uma única foto de minha infância: eu no meio de meus pais em um tempo em que ainda ríamos juntos.

Deitei na cama com os braços abertos, ainda com os pés no chão, virei de lado para sentir o cheiro de roupa limpa que vinha dos lençóis. Era um cheiro que me agradava e dava uma sensação de paz. Devo ter ficado naquela posição por um bom tempo. Não sei ao certo.

Levantei e caminhei pesadamente em direção a porta do banheiro ao lado da escrivaninha. O banheiro estava branco e impecavelmente limpo. Enchi a pia de água e lavei o rosto, coloquei as mãos quase me apoiando sobre o mármore preto e olhei no grande espelho. Gotas de água fria desciam pelo meu rosto, delineando a forma da minha face. As pessoas me aceitavam simplesmente por que eu tinha um rosto que elas consideravam bonito. Enquanto uma gota caia da ponta de meu nariz, vi que meus olhos me encaravam com uma tensão inexplicável, estavando mais negros do que de costume. Passei a mão pelos cabelos lisos e igualmente negros, molhando levemente as pontas. A minha pele estava anormalmente branca e, em contraste com o conjunto, ligeiramente pálida.  Eu suava frio e a água que pingava carregava o suor junto consigo. Tirei a camisa que estava usando, só então notando que era vermelha, e a depositei sobre a pia, eu agora ganhara músculos e tinha deixado o corpo franzino para trás, mais por insistência dos amigos do que pela minha própria motivação. Quando molhei novamente o rosto e olhei em direção ao espelho, eu o vi pela segunda vez dentro de meu devaneio.

O mesmo homem que avistei na rua estava ali, me observando, com a face igualmente calma, porém sem o sorriso. Virei imediatamente e procurei pelo estranho, mas não havia nada. Pensei que devia estar imaginando coisas. Mas quando voltei a olhar o espelho ele continuava ali, a me encarar. Eu agora estava realmente assustado. Recuei alguns passos do espelho, minhas pernas estavam trêmulas, o coração acelerado, a expressão tomada pelo medo. Olhei para trás e não havia nada a não ser o Box, mas o espelho dizia que ele estava bem ali, atrás de mim. Recuei outro passo, olhei no espelho, e não voltei a vê-lo. Meu coração pulsava loucamente, com medo da iminente assombração. Examinei novamente o lugar, e não havia nada.

Eu devo estar enlouquecendo, pensei em voz alta. — Mas eu tenho recebido muita pressão ultimamente, uma carga a mais de estresse. — Estava tentando argumentar para convencer a mim mesmo sobre a minha saúde mental. — Deve ser isso...

Quando estava voltando a me acalmar, senti sua mão em meu ombro.

Acordei de um sobressalto. Minha respiração ofegante. Eu tinha a estranha sensação de que estava anteriormente afundando em um lago e quando estava prestes a sufocar tinha então, finalmente, emergido a superfície. Olhava as minhas mãos como se quisesse provar que eu realmente estava ali.

— Foi tudo um sonho — Disse para mim mesmo. Mas tudo parecera tão real que no meu íntimo uma parte de mim dizia que tudo realmente acontecera.

A luz do sol dava seus primeiros indícios, atravessando a janela de vidro sobre a escrivaninha. Olhei o relógio e vi que ainda era madrugada. O quarto parecia o mesmo que vira em meu sonho, exceto pela bagunça de livros e roupas que eu tinha produzido.

Não conseguia parar de pensar no sonho, ou melhor, pesadelo, que tinha acabado de ter. Tudo num realismo incrível. Levantei da cama e fui à cozinha sem pensar realmente no que estava fazendo. Abri a geladeira e bebi um pouco de água, percebendo só agora que estava com muita sede. O pior de tudo era que eu conhecia aquele estranho de outros sonhos. Ele era como um mau presságio. Eu lembrava de outros pesadelos em que ele aparecia. Meus pais sempre tinham as piores brigas depois deles. Uma vez pensei tê-lo visto de relance, desta vez no mundo real, fora de meus pesadelos, em um jogo de futebol quando eu era moleque onde eu acabara com a perna quebrada. Desde então eu entendia as aparições dele como uma mensagem de que algo ruim iria acontecer. E era essa ideia que realmente me preocupava.

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Atualizado em: Qui 12 Ago 2010
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