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Fênix - Parte XVIII
Minutos depois nos encontrávamos num restaurante próximo ao hospital.
— Chegamos. – Anunciou. – Espere aqui. – Ele disse saindo do carro. Eu não entendi nada, até que ele deu a volta pela frente do veículo, parou ao lado da porta do carona e a abriu. – Por favor. – Ele disse dando-me a mão para que eu saísse. Não pude me conter. Comecei a gargalhar.
— O que foi isso? – Perguntei em meio ao riso.
— Você já ouviu falar em impressionar no primeiro encontro? – Ele falou de um jeito sedutor.
Eu fiquei séria.
Como ele podia falar uma coisa dessas? Será que ele se lembrava de que o meu marido estava morrendo numa cama de hospital?
— O que houve? Você ficou séria... Foi algo que eu disse? – Interrogou-me preocupado.
— Isso não é um encontro! – Eu quase gritei.
— Ah! É isso? – Ele riu. – Foi só uma piada!
Desfiz a carranca ficando ruborizada.
— Me desculpe. – Disse constrangida. – Eu... Estou... – Eu procurava pelas palavras e eu acho que ele percebeu.
— Tudo bem! Vamos lá! – Ele disse oferecendo-me o braço.
Eu hesitei. Será que ele não podia deixar de lado o cavalheirismo?
— Vamos? – Ele repetiu.
Eu assenti segurando-o pelo braço oferecido.
— Obrigada. – Sussurrei.
Estávamos sentados à mesa escolhendo o que comer.
— Você escolhe? – Ele perguntou.
— Não. O que você quiser está bom para mim. – Eu estava sem fome, então qualquer coisa seria difícil de descer.
— Tudo bem. – Ele aceitou rápido demais. Estranhei. Porém, acho que no fundo ele sabia o que estava se passando comigo.
Ele fez o pedido.
— Conte-me um pouco sobre você. – Ele pediu quebrando o silêncio que pairava entre nós.
— O que o senhor quer saber, doutor? – Perguntei despreocupadamente, brincando com uma mecha do meu cabelo.
— Isso soa tão impessoal... – Leandro franziu a testa.
— O quê? – Não compreendi.
— Senhor e doutor na mesma frase. – Ele deu um sorriso de lado. – Desse jeito eu me sinto velho! E doutor? Não estamos nem no hospital! Estamos aqui como amigos! Chame-me apenas de Leandro. – Ele soltou a última frase num tom suave. Deslizou suas mãos sobre a mesa e alcançou as minhas na outra extremidade. Leandro as manteve presas sob seu contato, enquanto seus olhos percorriam da mesa para meu rosto.
— Leandro? – Ele perguntou querendo que eu refizesse a frase.
— OK! – Cedi. – O quevocêquer saber,Leandro?
— Como você conheceu Fernando? – Ele parecia realmente interessado.
— Eu o conheci quando nós tínhamos quatorze anos, durante o velório do meu pai. – Meus olhos rapidamente encheram-se d’água.
— Se você não quiser contar tudo bem. OK?
Eu assenti.
— Eu não quero ver-te chorar. – Ele disse enxugando o risco traçado por uma lágrima que rolou.
— Está tudo bem. Pode continuar interrogando-me, se quiser. – Eu ri sem humor.
— Não! Vamos deixar o... – Pensou por um instante.
— Interrogatório? – Completei sorrindo.
— Isso... Vamos deixar o interrogatório para outro dia. – Ele correu os dedos por seu cabelo e voltou a dar aquele lindo sorriso de lado. – Agora é sua vez! Interrogue-me! – Exigiu.
— Troca de papéis? – Era uma pergunta retórica. – Interessante! – Animei-me.
— Como foi quevocêdecidiu que se tornaria médico? – Eu tentava acostumar-me chamá-lo de “você” dando ênfase na palavra.
— Está aprendendo! – Ele riu, referindo-se ao fato de eu não estar chamando-o de senhor ou doutor. – Bem, eu nunca havia me imaginado como médico. Meu sonho era ser perito criminal. Cursar biotecnologia e tentar a prova para a Polícia Federal, mas meus pais morriam de medo. Diziam que era uma profissão perigosa. Porém, apesar disso, eu já havia me decidido e não estava disposto a mudar de ideia. Até que a vida me levou para o outro lado. – Ele divertiu-se com aquela observação.
— Sempre a vida! – Comentei.
— Um dia, quando eu estava indo para a faculdade, presenciei um acidente de carro. Eu não pensei duas vezes. Corri até o veículo para verificar o estado de seus ocupantes. Foi quando senti um cheiro muito forte de gasolina. Olhei para o chão e vi que estava vazando combustível. – Meus olhos arregalaram-se.
— O que você fez?
— Liguei para o corpo de bombeiros e comecei a gritar por ajuda. Dois homens apareceram e nós começamos a remover as vítimas. Eram dois adultos e uma criança.
— E como eles estavam?
— A criança, sentada na cadeirinha, chorava assustada gritando pelos pais, mas estava bem. A mãe estava com o cinto de segurança, aparentemente, desmaiada e com um corte profundo na testa. O pai era quem estava em pior estado. Ele estava sem o cinto, com muitos cortes no rosto e preso nas ferragens. Não tínhamos como tirá-lo.
— Era ele quem estava dirigindo? – Perguntei.
— Era e devia ter dado o exemplo, mas não deu. Afastamos-nos com a mulher e a criança, ambas no colo. Quando as colocamos no chão e íamos voltar para ver o que podíamos fazer pelo o homem, o carro explodiu.
— Que horror! – Gritei sem perceber. Todos no restaurante olharam para mim. Senti a quentura no rosto e sabia que estava vermelha de vergonha. – O homem ainda estava lá...
— Sim. – Ele disse pesaroso.
Nossos pratos chegaram. Porém não interrompemos a conversa.
— Obrigado. – Ele disse ao garçom antes de continuar. – E você não sabe como eu me senti. Era uma sensação estranha, pois eu estava dividido. Totalmente! – Ele olhou fixo em meus olhos. – Por isso, eu entendo a sua confusão interna. Era exatamente assim que eu estava. É lógico que eu estava maravilhado com minha atitude. Feliz por ter reagido daquela forma e ter salvado duas vidas. Entretanto, eu sentia-me infeliz por ter sido incapaz de salvar o homem.
— Eu entendo. – Sussurrei. – Foi isso que te fez optar pela medicina?
— Foi! O sentimento de ser útil e poder ajudar as pessoas a sobreviverem é ótimo, não há nada que recompense melhor. – Seu sorriso era amplo expondo dentes perfeitos.
— Imagino! – Eu disse admirada.
— É claro que a medicina tem o seu lado de glória, mas também pode nos frustrar. Tiveram vezes que eu fiquei sem dormir pensando em vidas que eu não pude salvar. Sentindo-me culpado, um verdadeiro incompetente. – Ele parecia-me tão vulnerável, triste.
— O que é isso? Você sabe que é um ótimo médico! É que às vezes a vida nos prega peças e você, infelizmente, não pode fazer milagres. – Tentei animá-lo.
— Eu sei, mas gostaria de poder.
— Não se culpe. Somos humanos... Não podemos tudo. – Afaguei-lhe o rosto que se encontrava sobre os braços cruzados em cima da mesa.
Ele fechou os olhos como se quisesse aproveitar melhor o carinho.
— Obrigado. – Ele agradeceu abrindo os olhos.
Olhei o relógio. Eram quase dez horas. Eu precisava descansar, embora desejasse continuar em sua companhia.
— Desculpe-me. Eu preciso ir. Amanhã o dia vai ser longo para nós.
— Tudo bem. Eu te deixo em casa. – Levantou-se.
— Não precisa. Eu vou dirigindo. Você está sem carro e... – Ele interrompeu-me.
— Eu já disse que te levo! De lá eu pego um ônibus para o hospital e busco o meu carro. – Ele falou como se tudo fosse muito fácil.
— Mas já está tarde... Vai te dar... – Interrompeu-me de novo.
— Está decidido! Eu sou teimoso. Não adianta você me mandar embora. – Ele riu com a insinuação de que eu o estaria expulsando.
— Está certo! – Eu disse levantando as mãos espalmadas. – Eu me rendo.
— Que bom! – Ele disse caminhando para o meu lado.