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P01C02 Para criar caso com o Caso Schreber - Parte 1 – Fundamentos religiosos de as Memórias – Capítulo II - Objeto de estudo e Metodologia

Faz-se a análise crítica de Memórias de um doente dos nervos, Daniel Paul Schreber, doravante referidas como as Memórias, buscando o que há de verdade nas "supostas ideias delirantes e alucinações" do autor (f133n), a partir da tradução brasileira de Marilene Carone
[1] e da tradução para o inglês por Ida Macalpine e Richard A. Hunter. [2] O original de Schreber[3] foi consultado, embora com o bias de o autor não ser fluente em alemão, sempre que encontradas divergências entre as duas traduções, quando se procurou palavras específicas e o seu significado em dicionário.
Niederland define as Memórias como "uma complexa rede de ideias, lembranças, fantasias, sensações, conflitos, queixas, desejos insatisfeitos, experiências reais ou fantasiosas"[2] – "suas produções mentais" – configurando um sistema de ideias sobre Deus e as relações que com Ele Schreber alega ter estabelecido. Neste trabalho as "Memórias" são analisadas como o registro do processo de doença vivenciado por seu autor, história da moléstia atual. Importa o que o paciente diz e não a forma como o diz e todo dado dele proveniente é valorizado e pesquisado, independentemente das crenças ou da formação, moral ou científica, do médico que o assiste. Da mesma forma como em uma consulta médica estabelecem-se hipóteses de trabalho pelas quais se procura uma nova compreensão do texto. Para os fins deste trabalho, as Memórias são definidas como um texto escrito em autodefesa, para a suspensão de curatela de paciente recluso em manicômio por acusação de doença mental incapacitante. O argumento principal do autor é provar-se apenas um "doente dos nervos", diagnóstico que não justificaria o rigor judicial e manicomial a que estava submetido.
Schreber tem concepções religiosas próprias formadas por “reflexão madura de muitos anos”, e as quais modifica para conter “as percepções que o levaram a chegar a estas concepções” (f241), termo com que também se refere às Memórias.
Método 
As palavras-chave de as "Memórias" foram procuradas em texto de Teosofia, Maçonaria, Rosacrucianismo, Gnosticismo, Alquimia e Cabala e Zoroastrismo e outros Esoterismos, campos semânticos indicados pela pesquisa de elementos ocultistas em textos de Artaud e a percepção de paralelismos entre Artaud e Schreber, bem como o insucesso da pesquisa em textos de Filosofia, Teologia, Psiquiatria, Psicologia, História da Medicina e Toxicologia publicados preferencialmente até o início do século 20. Obteve-se a compreensão (insight) que suas concepções religiosas formam uma chave para decodificação de seu discurso. É preciso determinar quais são as concepções religiosas de Schreber
Parâmetros 
1º - As palavras não têm sentido 
De Artaud infere-se o óbvio, as palavras não têm sentido,8 adquirem os sentidos que estão internalizados na mente e são apostos a sinais gráficos ou sonoros recebidos no momento da escuta-leitura. Contudo, o receptor não apõe sentidos dados pela Língua, mas apenas aqueles significados de seu conhecimento e os idiossincrásicos, adquiridos no uso da Coisa Real e da palavra que a ela se refere. No momento da emissão do discurso não há a expressão de todo o pensado, uma vez que há “pensamentos que escapam à linguagem articulada,"4 quando o homem se vale de gestos, ao mesmo tempo em que nenhuma mente tem internalizadas todas as palavras necessárias para expressar seus pensamentos. Em consequência, a expressão primeira do pensamento é necessariamente metafórica, obscura, utilizando-se de imagens, e é a Verdade do emissor, visão de Artaud confirmada, em “linguagem clara e distinta,” em Langer, Sentimento e Forma, de 1953.18
2º - Suspender os pontos de vista a priori. 
Em Descartes, é preciso “libertar-se de todas as opiniões já aceitas.”19 Artaud recomenda um “contato mudo com a Realidade” para que sejam percebidos os Princípios que a regem.4 Consequentemente, a recomendação é “não ler a Realidade por compreensão imediata,” pelo automatismo do Inconsciente, que se estende ao texto escrito, quando apenas os pontos de vista que se tem internalizados são apostos automaticamente aos sinais derivados das sensações e estímulos, sinais, imagéticos (leitura do Real), gráficos ou sonoros. Considera-se a compreensão ser imediata quando se faz a leitura de um sistema de Coisas do Real em um campo situacional, ou de um texto ou discurso referente ou não a campos situacionais, um ou uma sucessão, pela aposição de sentidos que estão registrados na mente, atualizados em resposta imediata a estímulos, signos gráficos ou imagéticos e sonoros, sem a procura de outros sentidos e significados ainda não internalizados. Se se pode dizer que um "Outro fala na fala de", pode-se dizer que o Outro escuta a si mesmo na fala de Schreber – nele lê seus próprios pontos de vista.
3º - Os pontos de vista de autor devem prevalecer sobre os pontos de vista do leitor. 
É consequência de se procurar o sentido primariamente no próprio discurso e como única possibilidade para se reconstituir o pensamento do discursante, respeitando-se a recomendação artaudiana de que o sonho (discurso) dos dementes precoces "são algo mais que uma salada de palavras” (têm sentido).
O pensamento de Schreber se construiu a cada instante em que vivenciou eventos em seu mundo externo e interno; este pensamento, que é a sua Verdade, foi interpretado e transformado em palavras a partir de seus próprios pontos de vista. É ele o único que pode descrevê-los, e qualquer sistema de pontos de vista que se coloque como a Verdade acima da Verdade de Schreber tende a se afastar de seu pensamento. Isto é importante a partir de uma obviedade que precisa ser respeitada: qualquer afirmativa do que é a personalidade de Schreber, de quem é Schreber, está em dependência plena de que seu pensamento seja recuperado.
A aparente dificuldade para se recuperar o pensamento do autor de um discurso foi resolvida por Artaud, ao pedir que se “extraia da palavra suas múltiplas consequências,”8 apor às palavras os múltiplos sentidos encontráveis na Cultura/Língua e guiar-se pelos pontos de vista do emissor. O contexto será construído selecionando os sentidos necessários para a compreensão de seu pensamento. Este parâmetro exige uma descentração máxima, em que os pontos de vista do leitor só interessam na medida em que surgem durante a própria leitura do texto, princípio usado por Schreber por estar contida no processo de aprendizado “by rote” (o modo como a criança aprende a língua materna).
4º - Suspensão do julgamento 
Para a compreensão de um discurso é preciso que não se tenha hipóteses a priori. Schreber acusa o alienista e os guardas-enfemeiros de falsificarem seu pensamento (f048), significando considerarem o que interpretam como o seu próprio pensamento, desvirtuando-o. Ao lado de conversar com os doentes mentais sem dicionário, Artaud pede para conceder “crédito ao homem até ao absurdo”13 que equivale a abster-se de julgar o autor de um discurso obscuro. Um discurso sobre problemas vivenciados no contato com as Coisas do Real é a Verdade do discursante, repete-se. Quando os discursos obscuros são proferidos diante de familiares que encaminham o discursante a médicos, há um diagnóstico/julgamento, é uma doença, e se o encaminham a médico psiquiatra, é uma doença mental. É uma hipótese que se coloca antes da busca de compreensão do que o discursante fala. A hipótese a priori é, em si, um ponto e vista sobre o discurso enquanto pré-determina o sistema de pontos de vista que será usado para interpretá-lo.
Deve-se, em consequência, suspender o julgamento, ler as Memórias sem pontos de vista a priori, mas ler e reler a cada momento em que os pontos de vista se alterem em função de uma leitura gerida por uma dada hipótese nascida da própria leitura. A fala de Schreber não foi, ainda, respeitada e seu pensamento tem sido falsificado a cada comentário sobre as Memórias
5º - O sentido está com o emissor. 
Artaud sabe que o sonho (discurso) dos dementes precoces "são algo mais que uma salada de palavras”10 (têm sentido), e pede para se conversar com estes homens sem dicionário. É desta forma que se deve “conversar” com as Memórias, a procura dos limites semânticos dos termos nela usados deve respeitar as definições e as descrições dadas por Schreber e o contexto, situacional e do texto, em que os usa.
É preciso rever Hegel Mente Subjetiva, Objetiva e Absoluta e todas as suas consequências (Doutrina da Subjetividade), passando a considerar a formação do sentido das palavras, aquém da Fala como Necessidade da Fala,4 a partir do indivíduo e não da Cultura. Os dicionários registram a Língua e não os sentidos-significados singulares das palavras, a Fala, e muito menos a Fala dos excluídos da sociedade como doentes mentais. A Psiquiatria, não assumidamente representante da Mente Absoluta, afirma viverem os psicóticos em um mundo à parte, perdidos do contato com a Realidade;11 entretanto, o corolário passa despercebido desde a Medicina Alienista: o sistema de significados, normas e valores (SSNV)7 a ser considerado no contato direto com os psicóticos, e todos os doentes mentais, ou indireto por seus escritos, deve ser o deles próprios e não os da Sociedade de que estão apartados ou os do médico que os assiste representando-a. Contudo, este parâmetro, por extensão, é aplicável a todos os homens e suas expressões verbais e não verbais.
A Linguística, desde antes de Saussure (na esteira de Hegel?), recusa como objeto de estudo uma base empírica sobre a qual se assente a Língua,20 e, consequentemente, os valores idiossincrásicos que todo signo linguístico porta no momento da comunicação (emissor-receptor).
Considerando como Coisa Real (CR) cada uma das coisas do Sistema Realidade, que “só o uso da Realidade verifica a atividade mental [e] a inteligência cria o objeto e o experimenta,”13 os corpos teóricos sobre a Subjetividade excluem o indivíduo. Primeiro e necessariamente, o OBJETO é criado na instância situacional do contato da mente com a CR e, por sua vez e concomitantemente, cria sua representação mental, o primeiro ponto de vista (PV) sobre a CR, o qual passa a ser o signo a eliciar a atualização do OBJETO e da CR.
Deve-se acrescentar que, no campo situacional vivenciado, um Movimento (sentido amplo) da Coisa Real ou entre as Coisas Reais, exerce o papel de um gesto. Desta compreensão de Artaud resultam as fórmulas CR + USO = OBJETO, CR + USO = PV, CR + PV = OBJETO. Todo símbolo proveniente da Cultura é mera CR para o indivíduo que dela faz USO e, assim, cria seu OBJETO. Consequentemente, o indivíduo agrega significado a todo símbolo cultural de que faz uso, e retorna este símbolo à Cultura dando a aparência de não o ter modificado, sendo, logicamente, o portador da significação dos símbolos que usa.21
Embora sejam várias as interpretações possíveis a um texto ou a outro objeto cultural, em se tratando de se saber o que alguém diz em seu discurso ou havendo a pretensão de analisar sua personalidade pelo que deixa escrito, o sentido está com o emissor, principalmente se discursa sobre si mesmo. O sentido dado pelo emissor deve ser buscado no discurso, e a busca pode se iniciar no termo presente na Cultura como em vigor no momento da sua emissão, no conhecimento dos campos situacionais a que reporta e da participação dos outros indivíduos envolvidos, suas ideologias, doutrinas e corpos teóricos.21 Esta concepção a partir das colocações de Artaud está em contexto com o Pensamento de Piaget, para quem a “linguagem é um misto de criação individual e aprendizagem social.”22
6º - Deve-se associar as semiologias médica e linguística, para se compreender o homem através de seu discurso verbal e não verbal.
Afirmando que, na comunicação médico-paciente, “nem o emissor nem o receptor sabem de antemão qual o código transmitirá a informação significativa,” Todorov aponta a diferença entre as duas semiologias, a médica, significações tomadas da natureza, e a linguística, significações dadas pela Cultura, o doente tendendo a certos estereótipos culturais para se fazer compreender. Deve-se ressaltar que esta é uma visão idealizada da consulta médica, em que, ainda, todo sinal emitido pelo paciente será lido a partir do sistema de códigos do médico. Outras ressalvas devem ser feitas.
Primeiro, a interpretação do discurso de um paciente só pode chegar a uma significação, a sua própria, que ele comunica de forma verbal e não verbal, nesta devendo-se incluir seus hábitos, atos e comportamentos em reação aos estímulos recebidos no campo situacional onde se insere. Na linguagem não verbal deve-se considerar também “a faculdade que têm as palavras de criar, sob a linguagem uma corrente subterrânea de impressões, de correspondências, analogias”16 e ler não apenas as palavras, mas “ler sob as palavras,” considerando o discurso em seu todo, o verbal e o não verbal.
Segundo, a nível individual a Língua não existe, mas a Fala, ou seja, o homem, estando doente ou não, absorve e modifica fragmentos da Língua que são transmitidos pela Cultura, usa o sistema de significações, normas e valores da Cultura e o altera por ser o único que vivencia os fatos / Natureza que constituem a sua história, contextualizando-os com sua compreensão de sua história passada. Se for verdadeiro para o doente o é mais ainda para o doente que delira, excluído que está do social.
Terceiro, o contato do homem com as Coisas Reais, materiais ou não, visíveis ou não, não se faz com a Língua como comumente entendida, mas com a Linguagem Total, de que a palavra é apenas um elemento. “(Trata-se de saber) se não existe no domínio do pensamento e da inteligência atitudes que as palavras são incapazes de apreender e que os gestos e tudo aquilo que participa da linguagem no espaço conseguem captar com mais precisão do que elas.”4 Pagliaro aponta ser o que formula Wittgenstein a dificuldade linguística no momento da Fala, quando se usa uma língua comum, a qual “nunca atinge a plenitude afetiva, traduzida por subentendidos, alusões ou matizes estilísticos. Nos falares familiares, locais e regionais, ou nas gírias, o elemento intuitivo-afetivo (vem) em primeiro plano, de tal modo que basta uma palavra, um gesto ou uma inflexão de voz, para evocar uma ideia ou um estado de alma.”12
Em conclusão, o sentido que está com o emissor do discurso se obtém pelo casamento das semiologias médica e linguística.
7º - Deve-se considerar os campos situacionais a que o discurso reporta. 
No teatro artaudiano, a linguagem total, concreta, imitando o campo situacional a que reporta, deve satisfazer aos sentidos.4 Compreende-se estar o discursante, Schreber, inserido em campos situacionais onde seu corpo e mente participam de relações materiais e inter-humanas, das quais seus vários órgãos sensoriais, incluindo a propriocepção, captam estímulos, de que se produz uma sensação interna globalizante, e se registram em sua mente, somando-se a registros semelhantes anteriores, em um processo que se dá sob influências sociais e culturais.
O momento da fala se refere a todo o ambiente situacional onde se insere o indivíduo e/ou reporta a um ambiente situacional que o circunscreve no ambiente mais amplo. “Todos os fenômenos da natureza têm significação no contexto em que ocorrem”,9 o que remete ao campo situacional de quem lê as Coisas Reais e suas relações como fenômenos. O indivíduo constrói não apenas um contexto entre as palavras que usa na Fala, mas também com o campo situacional a que reporta, o que, por sua vez, pode incluir o sentido dicionarizável das palavras. Deve-se assumir que esta “língua comum” é virtual, apenas no momento da comunicação as pessoas, não todas, cedem em suas singularidades – ou aceitam as singularidades do interlocutor – a favor de um sentido consensual, que também pode variar a cada comunicação ocorrida.
Artaud se refere à entidade psíquica de duas faces “conceito x imagem acústica”,4 indicador de Saussure (1945), mas não usa o termo “significante”. Não deixa indicadores de ter feito uso do triângulo semântico de Ogden e Richards, de 1923, em que “a REFERÊNCIA indica o reino da memória onde ocorre a contextualização (dos estímulos atuais) com as lembranças das experiências passadas; o REFERENTE, os objetos que são percebidos e que criam a impressão armazenada na área do pensamento; o SÍMBOLO, a palavra que chama (da memória) o referente através do processo mental da referência.”23 Contudo, a aglutinação de citações de Artaud da Coisa Real como signo de si mesma deixa perceber a noção de Referente. Por impossibilidade do próprio processo de percepção, não é esperado ocorrer a internalização de estímulos na forma reduzida palavra/conceito ou símbolo-referência-referente. Na vivência em um campo situacional há a internalização quase que simultânea de vários estímulos, captados pelos vários órgãos dos sentidos, oriundos de várias Coisas Reais, com integração imediata a registros mentais anteriores de mesma natureza, surgindo deste processo não um referente para cada símbolo, mas vários referentes, no transcorrer de um tempo, como resultado da somatória de vivências em campos situacionais, ainda que virtuais (situações lidas ou imaginadas). É, em outras palavras, colocação de Wittgenstein, contemporâneo de Artaud: “a linguagem tem um significado só enquanto se refere ao campo da experiência possível […] as proposições dotadas de significado são incomunicáveis”.12
8º - A palavra e seus desdobramentos, a Língua e a Fala 
Para Artaud, a palavra e seus desdobramentos, a Língua e a Fala, não são a base do pensamento, pode muito bem ser que “pensa-se e sobre o pensado aglutinem-se palavras.”13 Pensa-se com o material internalizado e a palavra é apenas um elemento internalizado, entre outros tantos. Artaud postula que estímulos oriundos da Coisa Real, ao qual se presta atenção ou atua (USO) e produz uma forma da Coisa Real, como o primeiro objeto; estes estímulos se registram como “escoriações mentais” no substrato orgânico da mente (cimento físico-químico), ou “absoluto informal e inominado do espírito.” Na matriz fervente do Inconsciente os registros, estas “escoriações mentais”, produzem “mil choques interiores” em Caos, e, por associações inconscientes e ilógicas, em dependência de uma ideia dominante, “despertam o pensamento, (que) começa a querer ser (aglomerado sem formas) e recorre a suas formas, a todas suas formas”,24 “aglomerado com forma inominado”, ou seja, “isolado das convenções sociais”, [31] alcançando a consciência, onde se aclara. Este aclaramento do pensamento está em dependência de os nervos o “fazerem durar o suficiente para que as palavras nele se integrem e mantenham duradouramente sua solidez e sua cor frente às exigências do espírito,”13 constituindo-se como “aglomerado formal nominado”, a que se aglutinam outras ideias e pensamentos menores.
No entanto, “ao mesmo tempo em que a aposição das palavras aclara o pensamento impede o pensamento abaixo da consciência de se realizar.” Este aglomerado com forma, ainda inominado de Artaud é dado como “um estado anterior à linguagem (verbal), que pode escolher sua linguagem, música, gestos, movimentos, palavras,”4 deixando claro que há pensamentos ocorridos e conscientizados que “as palavras são incapazes de apreender.”4 A ideia dominante referida pode ser a forma que está registrada junto com a sensação global dos estímulos recebidos da Coisa Real. O expresso verbalmente constitui apenas a ponta de um iceberg, enquanto Artaud tem “por princípio que as Palavras, por natureza e por causa de seu caráter determinado, detêm e paralisam o pensamento em vez de permitir e favorecer seu desenvolvimento.”13
9º - “Evitar atribuir ao indivíduo o que é próprio de uma estrutura social” 
Para Todorov,9 é apenas admissível para o clínico, o romancista ou o ensaísta descrever a parte idiossincrásica do comportamento individual, com a recomendação de “evitar atribuir ao indivíduo o que pertence a uma estrutura social.” Contudo, a busca do significado aposto ao signo pelo autor, é condição sine qua non para não se impor ao discurso individual o que pertence à Cultura (ou é artificialmente agregado a ela por ação política), ou ainda os pontos de vista do receptor e interpretador. “Estrutura social” inclui as ideologias, doutrinas e disciplinas filosóficas ou científicas, consideradas como o “Mundo das Ideias ou mundo objetivo,”25 conjuntos de pontos de vista (PV) sistematizados. Como CR + PV = OBJETO, deste modo, o homem é transformado por estes corpos teóricos em OBJETOS por eles pré-determinados, desconsiderando, na instancia da Subjetividade, todo símbolo proveniente da Cultura ser mera Coisa Real a que o indivíduo agrega significados, idiossincrasias. São a chave para se compreender o ser humano que com discursos obscuros tenta se explicar ao outro. O homem, para Artaud, tem o direito radical à individualidade21 e pede “nada de obras, nada de palavras (escritas)”8 que congelam as cosmovisões e, assim, os objetos que fabricam.
10º - Considerar a Cultura e as subculturas em que se insere o emissor do discurso, em seu tempo e lugar; 
11º - Verificar a abrangência do discurso, se a um referencial universal ou se referem apenas a eventos circunstanciais; 
Verifica-se, ao mesmo tempo se as afirmativas do paciente pertencem a um referencial universal, amplo, ou se referem apenas às circunstâncias que vivencia. A contribuição do social na formação do sentido individual da palavra é importante no ponto em que, para se conhecer o produto da transformação, pode-se partir do objeto que foi modificado. A procura do sentido da palavra usada no discurso pode, não necessariamente, se iniciar no cabedal de informações culturais internalizadas pelo autor, como em vigor no momento da emissão do discurso, não as do intérprete, mas do emissor, considerando estar o discurso impregnado de suas experiências factuais ou conceituais.
Mesmo que extraia completamente o sentido de cada palavra de seu vocabulário ao seu ambiente Cultural, o homem é, constitucionalmente, um interpretador do que vivencia e somente o emissor saberá dar os indícios de onde extraiu o sentido primário da palavra que usa.
12º - Deve-se abandonar a prática de ler o passado com os pontos de vista atuais e manter em mente o estágio do conhecimento na época em que o discurso foi emitido. 
O uso que do conhecimento científico se fazia está demonstrado em Peabody, que, em 1874, afirma dizer a ciência "não meias-verdades, mas a verdade inteira; não hipóteses que expliquem os fenômenos naturais, mas princípios que os explicam,"18 ou seja, a ciência do final do século XIX é soberana. É neste contexto que Schreber foi diagnosticado doente mental e ao se ler as Memórias deve-se reportar à Medicina, Neurologia, Psiquiatria e Psicologia de sua época e considerar a lenta velocidade de deslocamento do dado informacional da fonte geradora até ao uso na prática diária. A afirmação do diagnóstico de Schreber pode aparecer, atualmente, baseando-se no preenchimento de critérios de DSM, o que é um contrassenso, uma vez que o caso Schreber está incluso na fundamentação dos critérios para a doença que se lhe atribui.
13º - Destruir as evidencias 
A interpretação usual de as “Memórias” é a de que se trata da descrição de um delírio e é interpretação aceita por critério de verdade por autoridade. É preciso avançar.
Descartes, “para bem dirigir a Razão e procurar a Verdade nas ciências”, pede duvidar-se metodicamente dos dados sensoriais, das pressuposições culturais e dos resultados de raciocínio até que seja alcançada a evidência, sendo Evidente "a ideia que permite clareza e distinção dos princípios inteligíveis".19 O termo "evidência", ainda hoje, é inconsistente e inconclusivo.26 Para bem dirigir a Razão e procurar a Verdade na vivência da Realidade, Artaud incita à dúvida sistemática até à destruição das evidencias, crê apenas na evidência “que mexe com (o Inconsciente),"13 "a Evidência que se dirige à Razão em jogo de proposições lógicas deve ser destruída."27 Tudo o que procede da razão não é confiável, a evidência é apenas um ponto de vista a priori sobre a Realidade. É um manifesto contra a Lógica.
A Realidade, como sistema de Coisas Reais (para o indivíduo as palavras e os pontos de vista que representam são meras Coisas Reais) se internaliza no Inconsciente, que é como uma matriz fervente, um Caos onde reina o Ilógico.13 O produto de internalizações de vivências de campos situacionais anteriores é usado para a leitura da vivência atual, não com perfeição: “Entre o Real e o Eu, há o Eu as deformações pessoais do Real,”24 estas deformações tomadas como evidências se cristalizam e automatizam a leitura do Real em situações posteriores.
Deste modo, para Artaud, “automatismo do inconsciente” significa dizer que as respostas dadas a questionamentos se transformam em “verdades sobre o Real e se cristalizam (mineralização do inconsciente), gerando uma leitura do Real por automatismo”, compreensão imediata. É necessária “uma espécie de destituição ou desmineralização da evidencia," por um processo de destruição do que está cristalizado no Inconsciente, ser levado a pensar a partir dos fragmentos,24 pelo descongelamento de pontos de vista armazenados, de que forma seja, no sistema neuronal. Com "a vida é queimar perguntas", Artaud adota o método interrogativo de Pedro Abelardo: "a primeira chave da sabedoria é a interrogação.8 Esta dúvida sistemática leva à investigação e pela investigação percebe-se a verdade,"14 o que é manter-se constantemente em Conflito Conceitual e Curiosidade Epistêmica.6 Abandonados os pontos de vista a priori, questionar a Realidade até que se obtenham seus elementos constituintes e não apenas a visão global que dela se obtém ou se obteve por transmissão cultural, fabricando uma nova síntese e, a seguir, duvidar desta síntese como uma nova evidência dada. É a recuperação de todos os dados informacionais internalizados durante os contatos com o Real, todos e não somente aqueles que são chamados à consciência pelos estímulos, ainda que este estímulo seja uma hipótese a ser demonstrada. Obtém-se "uma infinidade de novas impressões e sensações, uma multiplicidade de pontos de vista em que poderiam situar-se e das formas com que poderiam revestir-se, uma imensa justaposição de conceitos, todos, parece, mais necessários e também mais duvidosos,"13 e que colocam em cheque a evidência dada inicialmente. A organização desta "população formigante de dados,"8 por associações mentais, primeiro se faz em um aglomerado sem forma em resposta a uma ideia organizadora dominante, o qual chega ao consciente como aglomerado com forma e inominado, a Ideia, e a mente decide se ela se apresenta ao campo da consciência com força e continuidade suficientes para que possa ser registrada [13] e a ela possam se aglutinar pensamentos menores e palavras, aglomerado com forma nominado. Para Artaud, são ideias (dominantes) diretrizes que trazem o pensamento à consciência, e “a mente decide (por uma destas ideias dominantes) se algo se apresenta ao campo da consciência com força e continuidade suficientes para que possa ser registrado”.13 Este processo atinge "uma organização suprema em que somente as leis da ilógica participam e da qual triunfa a descoberta de um novo Significado, que se apresenta com a aparência de uma inteligência profunda aos fantasmas contraditórios do sono."27 Como resultado, onde parecia haver excesso, surge uma carência, "sem que algum pensamento preciso haja encontrado ao manifestar-se sua fissura sem que tenha havido relaxamento, confusão e fragilidade,”13 como resultado final das destruições sucessivas, destruição da evidencia. A expressão verbal desta ideia nascente se faz primariamente por um discurso necessariamente obscuro. Artaud defende a supremacia das Ideias Obscuras sobre as cartesianas Ideias Claras e Distintas e procura descobrir estes novos Significados "que a razão lúcida não provê […] (pôr o pensar ser) organizado de acordo com leis que lhe são conferidos por si mesmo, fora do domínio da razão clara ou de consciência ou razão."27 Em comparação, no método científico formula-se uma hipótese e esta passa a ser a ideia dominante sobre a qual se aglutinam argumentos teóricos ou informações observacionais, Evidências.28 A hipótese deve "submeter-se a testes mediante análise de suas consequências verificáveis,"28 que corresponde a procurar "fissuras, relaxamentos, confusão ou fragilidade". O resultado obtido pode passar a ser considerado "a Verdade, simples, já aceita ou explicada que não pode ser contradita, sugerida e verificável pelos fatos."29 Na dúvida sistemática artaudiana, a Realidade, como sistema de Coisas Reais, é a base da função mental, explicitado em "só o uso da Realidade verifica a atividade mental;13 não há uma hipótese a priori, o questionamento leva a respostas e estas "sugerem" uma "ideia dominante". O Inconsciente caótico se organiza e as respostas dadas aos questionamentos se transformam em "verdades" sobre o Real e se cristalizam (mineralização do Inconsciente), gerando uma leitura do Real por automatismo", compreensão imediata.
Não se pode dizer, portanto, que Artaud contradiga Descartes, mas que o estende: é evidente aquilo que resiste a uma dúvida sistemática, e é provisoriamente evidente, uma vez que do confronto da mente com novos dados informacionais (estímulos) reabre-se o processo.
Deve-se concluir que o homem não apreende a Realidade, mas apenas fragmentos de sínteses sobre a Realidade, devendo-se, como quis Artaud, “aprender a dançar a anatomia humana para todos os lados” e aprender a manter-se em equilíbrio no meio de tantas destruições sucessivas.
14º - Deve-se promover destruições sucessivas das compreensões obtidas 
Se Artaud havia lançado um desafio – procurar um sentido nos discursos de doentes mentais – tem-se, agora, outro desafio: promover destruições sucessivas em as “Memórias”, delas reobter os fragmentos e reorganizá-los em novas sínteses, partindo do princípio de não ser evidente que Schreber seja portador de Dementia paranoides, sendo apenas evidente que recebeu o diagnóstico de Flechsig, como é evidente que Freud psicanalisou as Memórias aceitando o diagnóstico como verdadeiro. Há que se procurar, respeitando-se o pedido de Schreber, se há algo de verdade em seu delírio.
Para recuperar os pontos de vista do discursante é preciso reobter do discurso os fragmentos e reorganizá-los em novas sínteses, e, a seguir, duvidar destas sínteses como novas evidências dadas.
Seguindo os parâmetros dados, procedeu-se a:
a)     Separação das sentenças do texto, aproximadamente 3445 sentenças na tradução inglesa, sendo que as sentenças referentes a títulos de capítulo foram anexadas à sentença seguinte e as notas de rodapé foram inseridas no corpo do texto no local onde aparecem;
b)     Rotulação das sentenças de acordo com o tema, uma sentença podendo se referir a mais de um tema;
c)     Reagrupamento das sentenças em: descrição do método de schreber; manifestações do conflito conceitual e suas resoluções por curiosidade epistêmica; as concepções religiosas de schreber; descrição do tratamento médico ou social recebido; sentenças com valor semiológico de intoxicação medicamentosa; sentenças com valor semiológico pertencente ao campo semântico política;
d)     Pesquisa das palavras-chave na internet, na ordem em que aparecem em as “memórias”, via mecanismos de busca google, bium - bibliothèque interuniversitaire de médecine, internet archive, e gifford lectures online, e outros excluindo-se páginas referentes a fóruns de discussão e correlatos e endereços de blogs ou correlatos, as quais foram usadas, em exceção, apenas se absolutamente necessárias ao texto, procurando-se, de preferência, textos editados entre 1850-1928 ou referindo-se a este período. Os temas médicos foram pesquisados pela pubmed. Evitou-se, com poucas exceções, a leitura ou releitura de textos, psicanalíticos ou não, que analisam as memórias, não se declinando de transmitir a esta escrita inferências e conclusões geridas por leituras anteriores sempre que necessárias à compreensão, o que, ocorrendo, não levou a conferência e referenciamento bibliográfico;
e)     Leitura e análise de textos contextualizados, positiva ou negativamente, com as hipóteses;
f)      Tabulação de hipóteses surgidas durante a leitura dos textos;
g)     Releitura de as “memórias” após a leitura de textos considerados principais para o trabalho e a cada hipótese estabelecida, com anotação de comentários.
Hipóteses 
Procura-se demonstrar, inicialmente:
Primeiro: as Memórias não constituem a descrição do delírio de Schreber, embora dele possuam os elementos, modificados ou transformados, mas de suas concepções sobre a Realidade que vivenciou em ambiente manicomial, sob o tratamento mental da época e suas consequências bio-psico-socio-culturais. Os laudos emitidos por Weber não contêm informações suficientes para recompor, no todo, o delírio de Schreber, além de ser transformação pelos seus pontos de vista de médico alienista, representando a Medicina Alienista da época, a expressão verbal e não verbal de Schreber visto como paciente;
Segundo: Schreber vivenciou fenômenos no mundo interno e externo, mundos que, em um dado período, estiveram fundidos, entrando em conflito procurando os entender (conflito conceitual), buscando respostas (curiosidade epistêmica), contando quase apenas com sua memória para a busca de dados informacionais que o resolvessem e a consulta do livro-texto de Kraepelin (f076);
Terceiro: Schreber elaborou um discurso através da conversação com os médicos e seus enfermeiros, cuja forma de tratamento o induziu a uma reflexão em busca de um ser moral perfeito dentro de si, fazendo-o encontrar concepções religiosas prévias, as quais modifica para conter as percepções havidas. As Memórias sistematizam ideias organizadas pela formação intelectual e pelo tratamento a que Schreber se submete. As Memórias descrevem, de forma codificada, suas vivências internas e externas, e seus desdobramentos, fenômenos conhecidos ou não da Medicina Alienista da época, bem como manifestações clínicas conhecidas ou não da Medicina a que se submete e as concepções religiosas partilhadas com o grupo social de que participa;
Quarto: filtrados os elementos pertencentes ao meio ambiente socio-cultural, seu discurso deixa restar um núcleo de crenças firmadas − questão de fé − a respeito de seu corpo, mente e destino, mas que também são partilhadas − no todo ou em parte − pelo grupo social em que se insere;
Quinto: o diagnóstico dado a Schreber poderia ter sido modificado, e consequentemente o seu tratamento, no curso de sua doença, pelos dados semiológicos que descreve em ordem cronológica, outro fosse o sistema de leitura médica a que se submeteu;
Quarto: o diagnóstico de intoxicação medicamentosa se impõe desde o início de sua doença;
Sexto: Schreber pertenceu a uma sociedade secreta ou com elementos secretos, cujo objeto de estudo era a procura de uma síntese entre Religião, Religião Comparada, Filosofia e conhecimentos científicos, com elementos da Cabala, do Zoroastrismo e da mitologia alemã;
Sétimo: as Memórias contêm um núcleo de informações que funciona como chave para sua decodificação. Leem-se as “Memórias” incorrendo no erro corriqueiro de quem faz contas. A pergunta “quanto somam 2 + 2?” é respondida de imediato, embora mereçam muitas respostas em dependência da base em que os números estejam escritos: 2 + 2 = 4 na base 10, = 12 na base 3, = 11, = 4 na base 5 em diante. Entretanto, 2 + 2 na base 5 tem o significado de 4 unidades em cinco, não tendo, portanto, o mesmo significado que 2 + 2 na base 10, 4 unidades em 10. Em linguagem matemática, para representar todas as possibilidades, "x na base y", tem-se que a + b = x(y. Em as Memórias, por analogia, as palavras tomam significados diferentes de acordo com o que descrevem, significados delimitados por uma base, as suas concepções religiosas. Não se trata de descobrir todas as associações que cada palavra de as Memórias evoque, mas aquelas que se aglutinem em torno dos denotativos e conotativos das palavras dadas em suas concepções religiosas;
Oitavo: o discurso de Schreber poderia ter sido entendido como não-delírio, ou, respeitando-se a obsessão da certeza de serem a descrição de delírio, Schreber poderia ter tido seu discurso conduzido ao não-delírio pela relação de ajuda para a qual ficou, contra sua vontade, preso em manicômio durante anos e ainda permanece preso no manicômio virtual: Schreber tem um discurso claro e cartesiano que transforma em discurso obscuro com o objetivo de transmitir mensagens que de outra forma estava impedido de transmitir;
Nono: as Memórias contêm palavras e conceitos presentes no todo do Conhecimento vigente na época e lugar de Schreber (Reino das Ideias), com o qual consegue ele estar liens apesar de ter cometido delusões;
Décimo: Schreber descreve o tratamento pessoal e médico recebido durante sua internação, usando os termos de suas concepções filosófico-religiosas e termos médicos de que afirma não ter tido conhecimento prévio, embora disponíveis no meio jurídico, já registrados em 1836;17
Décimo primeiro: o tratamento mental dispensado a Schreber é modificação do tratamento moral, cujo corpo teórico já estava em vigor antes de Pinel e Tuke;
Décimo segundo: o tratamento moral é fruto das preocupações reformistas do Iluminismo, entendido este em seu significado amplo, filosófico e místico;
Décimo terceiro: Schreber cumpre os objetivos do tratamento a que se submete e, mediante apelação judicial com seus próprios argumentos, consegue se livrar da prisão perpétua manicomial, no linguajar artaudiano, e da curatela.
Em termos teóricos, Schreber está na interface entre a Medicina Alienista e a Psiquiatria “moderna”, tendo consultado Kraepelin, que é marca desta mudança.
Há que se diferenciar entre a Medicina teórica e a que ocorre na prática, pois, no Reino das Ideias, o conhecimento antigo convive com a novidade, havendo uma modificação na orientação do tratamento dispensado ao doente mental, ela não é posta em prática em todos os manicômios simultaneamente. Deste modo, a prática da Medicina se distancia da Teoria, e só gradativamente, a Medicina Alienista Prática se transforma em Psiquiatria, não tendo desaparecido, ainda, de todo, por ocorrência de formas atenuadas de suas prescrições. Schreber se submeteu a uma Medicina Alienista: o que diferencia as duas formas de tratamento mental é o uso ou não uso do tratamento moral e da manicomização, bem como o uso de substâncias químicas, embora absurdamente tóxicas, com efeitos no sistema nervoso central, muitas vezes percebidos como sintomas da doença tratada, e a falta de crédito ao que o paciente procura comunicar com sua fala e comportamento.
O texto final deste trabalho foi montado e remontado várias vezes buscando-se diminuir as repetições, inevitáveis em vista de que o modo como Schreber usou as palavras leva ao imbricamento de vários campos semânticos. O autor se declara consciente de que o trabalho contém erros de várias naturezas e aponta um bias importante: dizer daquilo que discursa um alemão a partir da tradução de sua fala para o português e para o inglês. Em se tratando de crenças religiosas e doutrinas de sociedades secretas ou “com elementos secretos”, muitas das quais ainda atuantes, antecipa-se desculpas se alguma opinião vier a ferir susceptibilidades: as citações e as referências não representam as doutrinas, credos ou ritos de iniciação abordados, por se tratarem de fragmentos retirados do contexto em que se inserem. As páginas da edição original de as Memórias, como dadas pela tradução brasileira, serão referidas como fragmentos, com o código fxxx. Não se tendo consultado as fontes originárias de todas as religiões antigas aqui referidas, há um bias a ser levado em consideração: os autores consultados fazem a leitura de seus pontos de vista nos textos antigos e os traduzem para o vocabulário de sua época.
 Referências

1 – MDN

2 – MNI

3 – DPSDN

4 – AATSD

5 – EMM1-5

6 – DEBPDE

7 – PASSCP

8 – AAPN

9 – TTPS

10 – CWAA

11 – RRMPD

12 – APVS

13 – AAT236

14 – LIAM

15 – APPCS

16 – AAEM

17 – JCPTMJ

18 – SKLFNC

19 – RDDM

20 – NRCL

21 – GRPAPS

22 – LOLPPP

23 – ORSS

24 – AAMR

25 – KRPCO

26 – HCETEB

27 – AAMCL

28 – LHEIC1

29 – ALCMC

30 – MCUEU

31 – AAMR61

 


 [1]As páginas do original em alemão estão indicadas como fxxx (SCHREBER, 1985).
Faz-se a análise crítica de Memórias de um doente dos nervos, Daniel Paul Schreber, doravante referidas como as Memórias, buscando o que há de verdade nas "supostas ideias delirantes e alucinações" do autor (f133n), a partir da tradução brasileira de Marilene Carone [1] e da tradução para o inglês por Ida Macalpine e Richard A. Hunter. [2] O original de Schreber[3] foi consultado, embora com o bias de o autor não ser fluente em alemão, sempre que encontradas divergências entre as duas traduções, quando se procurou palavras específicas e o seu significado em dicionário.
Niederland define as Memórias como "uma complexa rede de ideias, lembranças, fantasias, sensações, conflitos, queixas, desejos insatisfeitos, experiências reais ou fantasiosas"[2] – "suas produções mentais" – configurando um sistema de ideias sobre Deus e as relações que com Ele Schreber alega ter estabelecido. Neste trabalho as "Memórias" são analisadas como o registro do processo de doença vivenciado por seu autor, história da moléstia atual. Importa o que o paciente diz e não a forma como o diz e todo dado dele proveniente é valorizado e pesquisado, independentemente das crenças ou da formação, moral ou científica, do médico que o assiste. Da mesma forma como em uma consulta médica estabelecem-se hipóteses de trabalho pelas quais se procura uma nova compreensão do texto. Para os fins deste trabalho, as Memórias são definidas como um texto escrito em autodefesa, para a suspensão de curatela de paciente recluso em manicômio por acusação de doença mental incapacitante. O argumento principal do autor é provar-se apenas um "doente dos nervos", diagnóstico que não justificaria o rigor judicial e manicomial a que estava submetido.
Schreber tem concepções religiosas próprias formadas por “reflexão madura de muitos anos”, e as quais modifica para conter “as percepções que o levaram a chegar a estas concepções” (f241), termo com que também se refere às Memórias.
Método 
As palavras-chave de as "Memórias" foram procuradas em texto de Teosofia, Maçonaria, Rosacrucianismo, Gnosticismo, Alquimia e Cabala e Zoroastrismo e outros Esoterismos, campos semânticos indicados pela pesquisa de elementos ocultistas em textos de Artaud e a percepção de paralelismos entre Artaud e Schreber, bem como o insucesso da pesquisa em textos de Filosofia, Teologia, Psiquiatria, Psicologia, História da Medicina e Toxicologia publicados preferencialmente até o início do século 20. Obteve-se a compreensão (insight) que suas concepções religiosas formam uma chave para decodificação de seu discurso. É preciso determinar quais são as concepções religiosas de Schreber
Parâmetros 
1º - As palavras não têm sentido 
De Artaud infere-se o óbvio, as palavras não têm sentido,8 adquirem os sentidos que estão internalizados na mente e são apostos a sinais gráficos ou sonoros recebidos no momento da escuta-leitura. Contudo, o receptor não apõe sentidos dados pela Língua, mas apenas aqueles significados de seu conhecimento e os idiossincrásicos, adquiridos no uso da Coisa Real e da palavra que a ela se refere. No momento da emissão do discurso não há a expressão de todo o pensado, uma vez que há “pensamentos que escapam à linguagem articulada,"4 quando o homem se vale de gestos, ao mesmo tempo em que nenhuma mente tem internalizadas todas as palavras necessárias para expressar seus pensamentos. Em consequência, a expressão primeira do pensamento é necessariamente metafórica, obscura, utilizando-se de imagens, e é a Verdade do emissor, visão de Artaud confirmada, em “linguagem clara e distinta,” em Langer, Sentimento e Forma, de 1953.18
2º - Suspender os pontos de vista a priori. 
Em Descartes, é preciso “libertar-se de todas as opiniões já aceitas.”19 Artaud recomenda um “contato mudo com a Realidade” para que sejam percebidos os Princípios que a regem.4 Consequentemente, a recomendação é “não ler a Realidade por compreensão imediata,” pelo automatismo do Inconsciente, que se estende ao texto escrito, quando apenas os pontos de vista que se tem internalizados são apostos automaticamente aos sinais derivados das sensações e estímulos, sinais, imagéticos (leitura do Real), gráficos ou sonoros. Considera-se a compreensão ser imediata quando se faz a leitura de um sistema de Coisas do Real em um campo situacional, ou de um texto ou discurso referente ou não a campos situacionais, um ou uma sucessão, pela aposição de sentidos que estão registrados na mente, atualizados em resposta imediata a estímulos, signos gráficos ou imagéticos e sonoros, sem a procura de outros sentidos e significados ainda não internalizados. Se se pode dizer que um "Outro fala na fala de", pode-se dizer que o Outro escuta a si mesmo na fala de Schreber – nele lê seus próprios pontos de vista.
3º - Os pontos de vista de autor devem prevalecer sobre os pontos de vista do leitor. 
É consequência de se procurar o sentido primariamente no próprio discurso e como única possibilidade para se reconstituir o pensamento do discursante, respeitando-se a recomendação artaudiana de que o sonho (discurso) dos dementes precoces "são algo mais que uma salada de palavras” (têm sentido).
O pensamento de Schreber se construiu a cada instante em que vivenciou eventos em seu mundo externo e interno; este pensamento, que é a sua Verdade, foi interpretado e transformado em palavras a partir de seus próprios pontos de vista. É ele o único que pode descrevê-los, e qualquer sistema de pontos de vista que se coloque como a Verdade acima da Verdade de Schreber tende a se afastar de seu pensamento. Isto é importante a partir de uma obviedade que precisa ser respeitada: qualquer afirmativa do que é a personalidade de Schreber, de quem é Schreber, está em dependência plena de que seu pensamento seja recuperado.
A aparente dificuldade para se recuperar o pensamento do autor de um discurso foi resolvida por Artaud, ao pedir que se “extraia da palavra suas múltiplas consequências,”8 apor às palavras os múltiplos sentidos encontráveis na Cultura/Língua e guiar-se pelos pontos de vista do emissor. O contexto será construído selecionando os sentidos necessários para a compreensão de seu pensamento. Este parâmetro exige uma descentração máxima, em que os pontos de vista do leitor só interessam na medida em que surgem durante a própria leitura do texto, princípio usado por Schreber por estar contida no processo de aprendizado “by rote” (o modo como a criança aprende a língua materna).
4º - Suspensão do julgamento 
Para a compreensão de um discurso é preciso que não se tenha hipóteses a priori. Schreber acusa o alienista e os guardas-enfemeiros de falsificarem seu pensamento (f048), significando considerarem o que interpretam como o seu próprio pensamento, desvirtuando-o. Ao lado de conversar com os doentes mentais sem dicionário, Artaud pede para conceder “crédito ao homem até ao absurdo”13 que equivale a abster-se de julgar o autor de um discurso obscuro. Um discurso sobre problemas vivenciados no contato com as Coisas do Real é a Verdade do discursante, repete-se. Quando os discursos obscuros são proferidos diante de familiares que encaminham o discursante a médicos, há um diagnóstico/julgamento, é uma doença, e se o encaminham a médico psiquiatra, é uma doença mental. É uma hipótese que se coloca antes da busca de compreensão do que o discursante fala. A hipótese a priori é, em si, um ponto e vista sobre o discurso enquanto pré-determina o sistema de pontos de vista que será usado para interpretá-lo.
Deve-se, em consequência, suspender o julgamento, ler as Memórias sem pontos de vista a priori, mas ler e reler a cada momento em que os pontos de vista se alterem em função de uma leitura gerida por uma dada hipótese nascida da própria leitura. A fala de Schreber não foi, ainda, respeitada e seu pensamento tem sido falsificado a cada comentário sobre as Memórias
5º - O sentido está com o emissor. 
Artaud sabe que o sonho (discurso) dos dementes precoces "são algo mais que uma salada de palavras”10 (têm sentido), e pede para se conversar com estes homens sem dicionário. É desta forma que se deve “conversar” com as Memórias, a procura dos limites semânticos dos termos nela usados deve respeitar as definições e as descrições dadas por Schreber e o contexto, situacional e do texto, em que os usa.
É preciso rever Hegel Mente Subjetiva, Objetiva e Absoluta e todas as suas consequências (Doutrina da Subjetividade), passando a considerar a formação do sentido das palavras, aquém da Fala como Necessidade da Fala,4 a partir do indivíduo e não da Cultura. Os dicionários registram a Língua e não os sentidos-significados singulares das palavras, a Fala, e muito menos a Fala dos excluídos da sociedade como doentes mentais. A Psiquiatria, não assumidamente representante da Mente Absoluta, afirma viverem os psicóticos em um mundo à parte, perdidos do contato com a Realidade;11 entretanto, o corolário passa despercebido desde a Medicina Alienista: o sistema de significados, normas e valores (SSNV)7 a ser considerado no contato direto com os psicóticos, e todos os doentes mentais, ou indireto por seus escritos, deve ser o deles próprios e não os da Sociedade de que estão apartados ou os do médico que os assiste representando-a. Contudo, este parâmetro, por extensão, é aplicável a todos os homens e suas expressões verbais e não verbais.
A Linguística, desde antes de Saussure (na esteira de Hegel?), recusa como objeto de estudo uma base empírica sobre a qual se assente a Língua,20 e, consequentemente, os valores idiossincrásicos que todo signo linguístico porta no momento da comunicação (emissor-receptor).
Considerando como Coisa Real (CR) cada uma das coisas do Sistema Realidade, que “só o uso da Realidade verifica a atividade mental [e] a inteligência cria o objeto e o experimenta,”13 os corpos teóricos sobre a Subjetividade excluem o indivíduo. Primeiro e necessariamente, o OBJETO é criado na instância situacional do contato da mente com a CR e, por sua vez e concomitantemente, cria sua representação mental, o primeiro ponto de vista (PV) sobre a CR, o qual passa a ser o signo a eliciar a atualização do OBJETO e da CR.
Deve-se acrescentar que, no campo situacional vivenciado, um Movimento (sentido amplo) da Coisa Real ou entre as Coisas Reais, exerce o papel de um gesto. Desta compreensão de Artaud resultam as fórmulas CR + USO = OBJETO, CR + USO = PV, CR + PV = OBJETO. Todo símbolo proveniente da Cultura é mera CR para o indivíduo que dela faz USO e, assim, cria seu OBJETO. Consequentemente, o indivíduo agrega significado a todo símbolo cultural de que faz uso, e retorna este símbolo à Cultura dando a aparência de não o ter modificado, sendo, logicamente, o portador da significação dos símbolos que usa.21
Embora sejam várias as interpretações possíveis a um texto ou a outro objeto cultural, em se tratando de se saber o que alguém diz em seu discurso ou havendo a pretensão de analisar sua personalidade pelo que deixa escrito, o sentido está com o emissor, principalmente se discursa sobre si mesmo. O sentido dado pelo emissor deve ser buscado no discurso, e a busca pode se iniciar no termo presente na Cultura como em vigor no momento da sua emissão, no conhecimento dos campos situacionais a que reporta e da participação dos outros indivíduos envolvidos, suas ideologias, doutrinas e corpos teóricos.21 Esta concepção a partir das colocações de Artaud está em contexto com o Pensamento de Piaget, para quem a “linguagem é um misto de criação individual e aprendizagem social.”22
6º - Deve-se associar as semiologias médica e linguística, para se compreender o homem através de seu discurso verbal e não verbal.
Afirmando que, na comunicação médico-paciente, “nem o emissor nem o receptor sabem de antemão qual o código transmitirá a informação significativa,” Todorov aponta a diferença entre as duas semiologias, a médica, significações tomadas da natureza, e a linguística, significações dadas pela Cultura, o doente tendendo a certos estereótipos culturais para se fazer compreender. Deve-se ressaltar que esta é uma visão idealizada da consulta médica, em que, ainda, todo sinal emitido pelo paciente será lido a partir do sistema de códigos do médico. Outras ressalvas devem ser feitas.
Primeiro, a interpretação do discurso de um paciente só pode chegar a uma significação, a sua própria, que ele comunica de forma verbal e não verbal, nesta devendo-se incluir seus hábitos, atos e comportamentos em reação aos estímulos recebidos no campo situacional onde se insere. Na linguagem não verbal deve-se considerar também “a faculdade que têm as palavras de criar, sob a linguagem uma corrente subterrânea de impressões, de correspondências, analogias”16 e ler não apenas as palavras, mas “ler sob as palavras,” considerando o discurso em seu todo, o verbal e o não verbal.
Segundo, a nível individual a Língua não existe, mas a Fala, ou seja, o homem, estando doente ou não, absorve e modifica fragmentos da Língua que são transmitidos pela Cultura, usa o sistema de significações, normas e valores da Cultura e o altera por ser o único que vivencia os fatos / Natureza que constituem a sua história, contextualizando-os com sua compreensão de sua história passada. Se for verdadeiro para o doente o é mais ainda para o doente que delira, excluído que está do social.
Terceiro, o contato do homem com as Coisas Reais, materiais ou não, visíveis ou não, não se faz com a Língua como comumente entendida, mas com a Linguagem Total, de que a palavra é apenas um elemento. “(Trata-se de saber) se não existe no domínio do pensamento e da inteligência atitudes que as palavras são incapazes de apreender e que os gestos e tudo aquilo que participa da linguagem no espaço conseguem captar com mais precisão do que elas.”4 Pagliaro aponta ser o que formula Wittgenstein a dificuldade linguística no momento da Fala, quando se usa uma língua comum, a qual “nunca atinge a plenitude afetiva, traduzida por subentendidos, alusões ou matizes estilísticos. Nos falares familiares, locais e regionais, ou nas gírias, o elemento intuitivo-afetivo (vem) em primeiro plano, de tal modo que basta uma palavra, um gesto ou uma inflexão de voz, para evocar uma ideia ou um estado de alma.”12
Em conclusão, o sentido que está com o emissor do discurso se obtém pelo casamento das semiologias médica e linguística.
7º - Deve-se considerar os campos situacionais a que o discurso reporta. 
No teatro artaudiano, a linguagem total, concreta, imitando o campo situacional a que reporta, deve satisfazer aos sentidos.4 Compreende-se estar o discursante, Schreber, inserido em campos situacionais onde seu corpo e mente participam de relações materiais e inter-humanas, das quais seus vários órgãos sensoriais, incluindo a propriocepção, captam estímulos, de que se produz uma sensação interna globalizante, e se registram em sua mente, somando-se a registros semelhantes anteriores, em um processo que se dá sob influências sociais e culturais.
O momento da fala se refere a todo o ambiente situacional onde se insere o indivíduo e/ou reporta a um ambiente situacional que o circunscreve no ambiente mais amplo. “Todos os fenômenos da natureza têm significação no contexto em que ocorrem”,9 o que remete ao campo situacional de quem lê as Coisas Reais e suas relações como fenômenos. O indivíduo constrói não apenas um contexto entre as palavras que usa na Fala, mas também com o campo situacional a que reporta, o que, por sua vez, pode incluir o sentido dicionarizável das palavras. Deve-se assumir que esta “língua comum” é virtual, apenas no momento da comunicação as pessoas, não todas, cedem em suas singularidades – ou aceitam as singularidades do interlocutor – a favor de um sentido consensual, que também pode variar a cada comunicação ocorrida.
Artaud se refere à entidade psíquica de duas faces “conceito x imagem acústica”,4 indicador de Saussure (1945), mas não usa o termo “significante”. Não deixa indicadores de ter feito uso do triângulo semântico de Ogden e Richards, de 1923, em que “a REFERÊNCIA indica o reino da memória onde ocorre a contextualização (dos estímulos atuais) com as lembranças das experiências passadas; o REFERENTE, os objetos que são percebidos e que criam a impressão armazenada na área do pensamento; o SÍMBOLO, a palavra que chama (da memória) o referente através do processo mental da referência.”23 Contudo, a aglutinação de citações de Artaud da Coisa Real como signo de si mesma deixa perceber a noção de Referente. Por impossibilidade do próprio processo de percepção, não é esperado ocorrer a internalização de estímulos na forma reduzida palavra/conceito ou símbolo-referência-referente. Na vivência em um campo situacional há a internalização quase que simultânea de vários estímulos, captados pelos vários órgãos dos sentidos, oriundos de várias Coisas Reais, com integração imediata a registros mentais anteriores de mesma natureza, surgindo deste processo não um referente para cada símbolo, mas vários referentes, no transcorrer de um tempo, como resultado da somatória de vivências em campos situacionais, ainda que virtuais (situações lidas ou imaginadas). É, em outras palavras, colocação de Wittgenstein, contemporâneo de Artaud: “a linguagem tem um significado só enquanto se refere ao campo da experiência possível […] as proposições dotadas de significado são incomunicáveis”.12
8º - A palavra e seus desdobramentos, a Língua e a Fala 
Para Artaud, a palavra e seus desdobramentos, a Língua e a Fala, não são a base do pensamento, pode muito bem ser que “pensa-se e sobre o pensado aglutinem-se palavras.”13 Pensa-se com o material internalizado e a palavra é apenas um elemento internalizado, entre outros tantos. Artaud postula que estímulos oriundos da Coisa Real, ao qual se presta atenção ou atua (USO) e produz uma forma da Coisa Real, como o primeiro objeto; estes estímulos se registram como “escoriações mentais” no substrato orgânico da mente (cimento físico-químico), ou “absoluto informal e inominado do espírito.” Na matriz fervente do Inconsciente os registros, estas “escoriações mentais”, produzem “mil choques interiores” em Caos, e, por associações inconscientes e ilógicas, em dependência de uma ideia dominante, “despertam o pensamento, (que) começa a querer ser (aglomerado sem formas) e recorre a suas formas, a todas suas formas”,24 “aglomerado com forma inominado”, ou seja, “isolado das convenções sociais”, [31] alcançando a consciência, onde se aclara. Este aclaramento do pensamento está em dependência de os nervos o “fazerem durar o suficiente para que as palavras nele se integrem e mantenham duradouramente sua solidez e sua cor frente às exigências do espírito,”13 constituindo-se como “aglomerado formal nominado”, a que se aglutinam outras ideias e pensamentos menores.
No entanto, “ao mesmo tempo em que a aposição das palavras aclara o pensamento impede o pensamento abaixo da consciência de se realizar.” Este aglomerado com forma, ainda inominado de Artaud é dado como “um estado anterior à linguagem (verbal), que pode escolher sua linguagem, música, gestos, movimentos, palavras,”4 deixando claro que há pensamentos ocorridos e conscientizados que “as palavras são incapazes de apreender.”4 A ideia dominante referida pode ser a forma que está registrada junto com a sensação global dos estímulos recebidos da Coisa Real. O expresso verbalmente constitui apenas a ponta de um iceberg, enquanto Artaud tem “por princípio que as Palavras, por natureza e por causa de seu caráter determinado, detêm e paralisam o pensamento em vez de permitir e favorecer seu desenvolvimento.”13
9º - “Evitar atribuir ao indivíduo o que é próprio de uma estrutura social” 
Para Todorov,9 é apenas admissível para o clínico, o romancista ou o ensaísta descrever a parte idiossincrásica do comportamento individual, com a recomendação de “evitar atribuir ao indivíduo o que pertence a uma estrutura social.” Contudo, a busca do significado aposto ao signo pelo autor, é condição sine qua non para não se impor ao discurso individual o que pertence à Cultura (ou é artificialmente agregado a ela por ação política), ou ainda os pontos de vista do receptor e interpretador. “Estrutura social” inclui as ideologias, doutrinas e disciplinas filosóficas ou científicas, consideradas como o “Mundo das Ideias ou mundo objetivo,”25 conjuntos de pontos de vista (PV) sistematizados. Como CR + PV = OBJETO, deste modo, o homem é transformado por estes corpos teóricos em OBJETOS por eles pré-determinados, desconsiderando, na instancia da Subjetividade, todo símbolo proveniente da Cultura ser mera Coisa Real a que o indivíduo agrega significados, idiossincrasias. São a chave para se compreender o ser humano que com discursos obscuros tenta se explicar ao outro. O homem, para Artaud, tem o direito radical à individualidade21 e pede “nada de obras, nada de palavras (escritas)”8 que congelam as cosmovisões e, assim, os objetos que fabricam.
10º - Considerar a Cultura e as subculturas em que se insere o emissor do discurso, em seu tempo e lugar; 
11º - Verificar a abrangência do discurso, se a um referencial universal ou se referem apenas a eventos circunstanciais; 
Verifica-se, ao mesmo tempo se as afirmativas do paciente pertencem a um referencial universal, amplo, ou se referem apenas às circunstâncias que vivencia. A contribuição do social na formação do sentido individual da palavra é importante no ponto em que, para se conhecer o produto da transformação, pode-se partir do objeto que foi modificado. A procura do sentido da palavra usada no discurso pode, não necessariamente, se iniciar no cabedal de informações culturais internalizadas pelo autor, como em vigor no momento da emissão do discurso, não as do intérprete, mas do emissor, considerando estar o discurso impregnado de suas experiências factuais ou conceituais.
Mesmo que extraia completamente o sentido de cada palavra de seu vocabulário ao seu ambiente Cultural, o homem é, constitucionalmente, um interpretador do que vivencia e somente o emissor saberá dar os indícios de onde extraiu o sentido primário da palavra que usa.
12º - Deve-se abandonar a prática de ler o passado com os pontos de vista atuais e manter em mente o estágio do conhecimento na época em que o discurso foi emitido. 
O uso que do conhecimento científico se fazia está demonstrado em Peabody, que, em 1874, afirma dizer a ciência "não meias-verdades, mas a verdade inteira; não hipóteses que expliquem os fenômenos naturais, mas princípios que os explicam,"18 ou seja, a ciência do final do século XIX é soberana. É neste contexto que Schreber foi diagnosticado doente mental e ao se ler as Memórias deve-se reportar à Medicina, Neurologia, Psiquiatria e Psicologia de sua época e considerar a lenta velocidade de deslocamento do dado informacional da fonte geradora até ao uso na prática diária. A afirmação do diagnóstico de Schreber pode aparecer, atualmente, baseando-se no preenchimento de critérios de DSM, o que é um contrassenso, uma vez que o caso Schreber está incluso na fundamentação dos critérios para a doença que se lhe atribui.
13º - Destruir as evidencias 
A interpretação usual de as “Memórias” é a de que se trata da descrição de um delírio e é interpretação aceita por critério de verdade por autoridade. É preciso avançar.
Descartes, “para bem dirigir a Razão e procurar a Verdade nas ciências”, pede duvidar-se metodicamente dos dados sensoriais, das pressuposições culturais e dos resultados de raciocínio até que seja alcançada a evidência, sendo Evidente "a ideia que permite clareza e distinção dos princípios inteligíveis".19 O termo "evidência", ainda hoje, é inconsistente e inconclusivo.26 Para bem dirigir a Razão e procurar a Verdade na vivência da Realidade, Artaud incita à dúvida sistemática até à destruição das evidencias, crê apenas na evidência “que mexe com (o Inconsciente),"13 "a Evidência que se dirige à Razão em jogo de proposições lógicas deve ser destruída."27 Tudo o que procede da razão não é confiável, a evidência é apenas um ponto de vista a priori sobre a Realidade. É um manifesto contra a Lógica.
A Realidade, como sistema de Coisas Reais (para o indivíduo as palavras e os pontos de vista que representam são meras Coisas Reais) se internaliza no Inconsciente, que é como uma matriz fervente, um Caos onde reina o Ilógico.13 O produto de internalizações de vivências de campos situacionais anteriores é usado para a leitura da vivência atual, não com perfeição: “Entre o Real e o Eu, há o Eu as deformações pessoais do Real,”24 estas deformações tomadas como evidências se cristalizam e automatizam a leitura do Real em situações posteriores.
Deste modo, para Artaud, “automatismo do inconsciente” significa dizer que as respostas dadas a questionamentos se transformam em “verdades sobre o Real e se cristalizam (mineralização do inconsciente), gerando uma leitura do Real por automatismo”, compreensão imediata. É necessária “uma espécie de destituição ou desmineralização da evidencia," por um processo de destruição do que está cristalizado no Inconsciente, ser levado a pensar a partir dos fragmentos,24 pelo descongelamento de pontos de vista armazenados, de que forma seja, no sistema neuronal. Com "a vida é queimar perguntas", Artaud adota o método interrogativo de Pedro Abelardo: "a primeira chave da sabedoria é a interrogação.8 Esta dúvida sistemática leva à investigação e pela investigação percebe-se a verdade,"14 o que é manter-se constantemente em Conflito Conceitual e Curiosidade Epistêmica.6 Abandonados os pontos de vista a priori, questionar a Realidade até que se obtenham seus elementos constituintes e não apenas a visão global que dela se obtém ou se obteve por transmissão cultural, fabricando uma nova síntese e, a seguir, duvidar desta síntese como uma nova evidência dada. É a recuperação de todos os dados informacionais internalizados durante os contatos com o Real, todos e não somente aqueles que são chamados à consciência pelos estímulos, ainda que este estímulo seja uma hipótese a ser demonstrada. Obtém-se "uma infinidade de novas impressões e sensações, uma multiplicidade de pontos de vista em que poderiam situar-se e das formas com que poderiam revestir-se, uma imensa justaposição de conceitos, todos, parece, mais necessários e também mais duvidosos,"13 e que colocam em cheque a evidência dada inicialmente. A organização desta "população formigante de dados,"8 por associações mentais, primeiro se faz em um aglomerado sem forma em resposta a uma ideia organizadora dominante, o qual chega ao consciente como aglomerado com forma e inominado, a Ideia, e a mente decide se ela se apresenta ao campo da consciência com força e continuidade suficientes para que possa ser registrada [13] e a ela possam se aglutinar pensamentos menores e palavras, aglomerado com forma nominado. Para Artaud, são ideias (dominantes) diretrizes que trazem o pensamento à consciência, e “a mente decide (por uma destas ideias dominantes) se algo se apresenta ao campo da consciência com força e continuidade suficientes para que possa ser registrado”.13 Este processo atinge "uma organização suprema em que somente as leis da ilógica participam e da qual triunfa a descoberta de um novo Significado, que se apresenta com a aparência de uma inteligência profunda aos fantasmas contraditórios do sono."27 Como resultado, onde parecia haver excesso, surge uma carência, "sem que algum pensamento preciso haja encontrado ao manifestar-se sua fissura sem que tenha havido relaxamento, confusão e fragilidade,”13 como resultado final das destruições sucessivas, destruição da evidencia. A expressão verbal desta ideia nascente se faz primariamente por um discurso necessariamente obscuro. Artaud defende a supremacia das Ideias Obscuras sobre as cartesianas Ideias Claras e Distintas e procura descobrir estes novos Significados "que a razão lúcida não provê […] (pôr o pensar ser) organizado de acordo com leis que lhe são conferidos por si mesmo, fora do domínio da razão clara ou de consciência ou razão."27 Em comparação, no método científico formula-se uma hipótese e esta passa a ser a ideia dominante sobre a qual se aglutinam argumentos teóricos ou informações observacionais, Evidências.28 A hipótese deve "submeter-se a testes mediante análise de suas consequências verificáveis,"28 que corresponde a procurar "fissuras, relaxamentos, confusão ou fragilidade". O resultado obtido pode passar a ser considerado "a Verdade, simples, já aceita ou explicada que não pode ser contradita, sugerida e verificável pelos fatos."29 Na dúvida sistemática artaudiana, a Realidade, como sistema de Coisas Reais, é a base da função mental, explicitado em "só o uso da Realidade verifica a atividade mental;13 não há uma hipótese a priori, o questionamento leva a respostas e estas "sugerem" uma "ideia dominante". O Inconsciente caótico se organiza e as respostas dadas aos questionamentos se transformam em "verdades" sobre o Real e se cristalizam (mineralização do Inconsciente), gerando uma leitura do Real por automatismo", compreensão imediata.
Não se pode dizer, portanto, que Artaud contradiga Descartes, mas que o estende: é evidente aquilo que resiste a uma dúvida sistemática, e é provisoriamente evidente, uma vez que do confronto da mente com novos dados informacionais (estímulos) reabre-se o processo.
Deve-se concluir que o homem não apreende a Realidade, mas apenas fragmentos de sínteses sobre a Realidade, devendo-se, como quis Artaud, “aprender a dançar a anatomia humana para todos os lados” e aprender a manter-se em equilíbrio no meio de tantas destruições sucessivas.
14º - Deve-se promover destruições sucessivas das compreensões obtidas 
Se Artaud havia lançado um desafio – procurar um sentido nos discursos de doentes mentais – tem-se, agora, outro desafio: promover destruições sucessivas em as “Memórias”, delas reobter os fragmentos e reorganizá-los em novas sínteses, partindo do princípio de não ser evidente que Schreber seja portador de Dementia paranoides, sendo apenas evidente que recebeu o diagnóstico de Flechsig, como é evidente que Freud psicanalisou as Memórias aceitando o diagnóstico como verdadeiro. Há que se procurar, respeitando-se o pedido de Schreber, se há algo de verdade em seu delírio.
Para recuperar os pontos de vista do discursante é preciso reobter do discurso os fragmentos e reorganizá-los em novas sínteses, e, a seguir, duvidar destas sínteses como novas evidências dadas.
Seguindo os parâmetros dados, procedeu-se a:
a)     Separação das sentenças do texto, aproximadamente 3445 sentenças na tradução inglesa, sendo que as sentenças referentes a títulos de capítulo foram anexadas à sentença seguinte e as notas de rodapé foram inseridas no corpo do texto no local onde aparecem;
b)     Rotulação das sentenças de acordo com o tema, uma sentença podendo se referir a mais de um tema;
c)     Reagrupamento das sentenças em: descrição do método de schreber; manifestações do conflito conceitual e suas resoluções por curiosidade epistêmica; as concepções religiosas de schreber; descrição do tratamento médico ou social recebido; sentenças com valor semiológico de intoxicação medicamentosa; sentenças com valor semiológico pertencente ao campo semântico política;
d)     Pesquisa das palavras-chave na internet, na ordem em que aparecem em as “memórias”, via mecanismos de busca google, bium - bibliothèque interuniversitaire de médecine, internet archive, e gifford lectures online, e outros excluindo-se páginas referentes a fóruns de discussão e correlatos e endereços de blogs ou correlatos, as quais foram usadas, em exceção, apenas se absolutamente necessárias ao texto, procurando-se, de preferência, textos editados entre 1850-1928 ou referindo-se a este período. Os temas médicos foram pesquisados pela pubmed. Evitou-se, com poucas exceções, a leitura ou releitura de textos, psicanalíticos ou não, que analisam as memórias, não se declinando de transmitir a esta escrita inferências e conclusões geridas por leituras anteriores sempre que necessárias à compreensão, o que, ocorrendo, não levou a conferência e referenciamento bibliográfico;
e)     Leitura e análise de textos contextualizados, positiva ou negativamente, com as hipóteses;
f)      Tabulação de hipóteses surgidas durante a leitura dos textos;
g)     Releitura de as “memórias” após a leitura de textos considerados principais para o trabalho e a cada hipótese estabelecida, com anotação de comentários.
Hipóteses 
Procura-se demonstrar, inicialmente:
Primeiro: as Memórias não constituem a descrição do delírio de Schreber, embora dele possuam os elementos, modificados ou transformados, mas de suas concepções sobre a Realidade que vivenciou em ambiente manicomial, sob o tratamento mental da época e suas consequências bio-psico-socio-culturais. Os laudos emitidos por Weber não contêm informações suficientes para recompor, no todo, o delírio de Schreber, além de ser transformação pelos seus pontos de vista de médico alienista, representando a Medicina Alienista da época, a expressão verbal e não verbal de Schreber visto como paciente;
Segundo: Schreber vivenciou fenômenos no mundo interno e externo, mundos que, em um dado período, estiveram fundidos, entrando em conflito procurando os entender (conflito conceitual), buscando respostas (curiosidade epistêmica), contando quase apenas com sua memória para a busca de dados informacionais que o resolvessem e a consulta do livro-texto de Kraepelin (f076);
Terceiro: Schreber elaborou um discurso através da conversação com os médicos e seus enfermeiros, cuja forma de tratamento o induziu a uma reflexão em busca de um ser moral perfeito dentro de si, fazendo-o encontrar concepções religiosas prévias, as quais modifica para conter as percepções havidas. As Memórias sistematizam ideias organizadas pela formação intelectual e pelo tratamento a que Schreber se submete. As Memórias descrevem, de forma codificada, suas vivências internas e externas, e seus desdobramentos, fenômenos conhecidos ou não da Medicina Alienista da época, bem como manifestações clínicas conhecidas ou não da Medicina a que se submete e as concepções religiosas partilhadas com o grupo social de que participa;
Quarto: filtrados os elementos pertencentes ao meio ambiente socio-cultural, seu discurso deixa restar um núcleo de crenças firmadas − questão de fé − a respeito de seu corpo, mente e destino, mas que também são partilhadas − no todo ou em parte − pelo grupo social em que se insere;
Quinto: o diagnóstico dado a Schreber poderia ter sido modificado, e consequentemente o seu tratamento, no curso de sua doença, pelos dados semiológicos que descreve em ordem cronológica, outro fosse o sistema de leitura médica a que se submeteu;
Quarto: o diagnóstico de intoxicação medicamentosa se impõe desde o início de sua doença;
Sexto: Schreber pertenceu a uma sociedade secreta ou com elementos secretos, cujo objeto de estudo era a procura de uma síntese entre Religião, Religião Comparada, Filosofia e conhecimentos científicos, com elementos da Cabala, do Zoroastrismo e da mitologia alemã;
Sétimo: as Memórias contêm um núcleo de informações que funciona como chave para sua decodificação. Leem-se as “Memórias” incorrendo no erro corriqueiro de quem faz contas. A pergunta “quanto somam 2 + 2?” é respondida de imediato, embora mereçam muitas respostas em dependência da base em que os números estejam escritos: 2 + 2 = 4 na base 10, = 12 na base 3, = 11, = 4 na base 5 em diante. Entretanto, 2 + 2 na base 5 tem o significado de 4 unidades em cinco, não tendo, portanto, o mesmo significado que 2 + 2 na base 10, 4 unidades em 10. Em linguagem matemática, para representar todas as possibilidades, "x na base y", tem-se que a + b = x(y. Em as Memórias, por analogia, as palavras tomam significados diferentes de acordo com o que descrevem, significados delimitados por uma base, as suas concepções religiosas. Não se trata de descobrir todas as associações que cada palavra de as Memórias evoque, mas aquelas que se aglutinem em torno dos denotativos e conotativos das palavras dadas em suas concepções religiosas;
Oitavo: o discurso de Schreber poderia ter sido entendido como não-delírio, ou, respeitando-se a obsessão da certeza de serem a descrição de delírio, Schreber poderia ter tido seu discurso conduzido ao não-delírio pela relação de ajuda para a qual ficou, contra sua vontade, preso em manicômio durante anos e ainda permanece preso no manicômio virtual: Schreber tem um discurso claro e cartesiano que transforma em discurso obscuro com o objetivo de transmitir mensagens que de outra forma estava impedido de transmitir;
Nono: as Memórias contêm palavras e conceitos presentes no todo do Conhecimento vigente na época e lugar de Schreber (Reino das Ideias), com o qual consegue ele estar liens apesar de ter cometido delusões;
Décimo: Schreber descreve o tratamento pessoal e médico recebido durante sua internação, usando os termos de suas concepções filosófico-religiosas e termos médicos de que afirma não ter tido conhecimento prévio, embora disponíveis no meio jurídico, já registrados em 1836;17
Décimo primeiro: o tratamento mental dispensado a Schreber é modificação do tratamento moral, cujo corpo teórico já estava em vigor antes de Pinel e Tuke;
Décimo segundo: o tratamento moral é fruto das preocupações reformistas do Iluminismo, entendido este em seu significado amplo, filosófico e místico;
Décimo terceiro: Schreber cumpre os objetivos do tratamento a que se submete e, mediante apelação judicial com seus próprios argumentos, consegue se livrar da prisão perpétua manicomial, no linguajar artaudiano, e da curatela.
Em termos teóricos, Schreber está na interface entre a Medicina Alienista e a Psiquiatria “moderna”, tendo consultado Kraepelin, que é marca desta mudança.
Há que se diferenciar entre a Medicina teórica e a que ocorre na prática, pois, no Reino das Ideias, o conhecimento antigo convive com a novidade, havendo uma modificação na orientação do tratamento dispensado ao doente mental, ela não é posta em prática em todos os manicômios simultaneamente. Deste modo, a prática da Medicina se distancia da Teoria, e só gradativamente, a Medicina Alienista Prática se transforma em Psiquiatria, não tendo desaparecido, ainda, de todo, por ocorrência de formas atenuadas de suas prescrições. Schreber se submeteu a uma Medicina Alienista: o que diferencia as duas formas de tratamento mental é o uso ou não uso do tratamento moral e da manicomização, bem como o uso de substâncias químicas, embora absurdamente tóxicas, com efeitos no sistema nervoso central, muitas vezes percebidos como sintomas da doença tratada, e a falta de crédito ao que o paciente procura comunicar com sua fala e comportamento.
O texto final deste trabalho foi montado e remontado várias vezes buscando-se diminuir as repetições, inevitáveis em vista de que o modo como Schreber usou as palavras leva ao imbricamento de vários campos semânticos. O autor se declara consciente de que o trabalho contém erros de várias naturezas e aponta um bias importante: dizer daquilo que discursa um alemão a partir da tradução de sua fala para o português e para o inglês. Em se tratando de crenças religiosas e doutrinas de sociedades secretas ou “com elementos secretos”, muitas das quais ainda atuantes, antecipa-se desculpas se alguma opinião vier a ferir susceptibilidades: as citações e as referências não representam as doutrinas, credos ou ritos de iniciação abordados, por se tratarem de fragmentos retirados do contexto em que se inserem. As páginas da edição original de as Memórias, como dadas pela tradução brasileira, serão referidas como fragmentos, com o código fxxx. Não se tendo consultado as fontes originárias de todas as religiões antigas aqui referidas, há um bias a ser levado em consideração: os autores consultados fazem a leitura de seus pontos de vista nos textos antigos e os traduzem para o vocabulário de sua época.
 Referências

1 – MDN
2 – MNI
3 – DPSDN
4 – AATSD
5 – EMM1-5
6 – DEBPDE
7 – PASSCP
8 – AAPN
9 – TTPS
10 – CWAA
11 – RRMPD
12 – APVS
13 – AAT236
14 – LIAM
15 – APPCS
16 – AAEM
17 – JCPTMJ
18 – SKLFNC
19 – RDDM
20 – NRCL
21 – GRPAPS
22 – LOLPPP
23 – ORSS
24 – AAMR
25 – KRPCO
26 – HCETEB
27 – AAMCL
28 – LHEIC1
29 – ALCMC
30 – MCUEU
31 – AAMR61

[1]  As páginas do original em alemão estão indicadas como fxxx (SCHREBER, 1985).
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Atualizado em: Seg 4 Jun 2018

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