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Coadjuvantes

Beiça era o apelido de Cesar Albuquerque Valladares.  
Vestia-se como tivesse sido arrumado pela mãe para ir à escola, mesmo com quase cinquenta anos de idade, mas de sua boca qualquer narrativa sobre problemas do cotidiano ganhava uma dimensão épica e fazia quem estivesse por perto pensar e muitas vezes ter vergonha de si mesmo em algum aspecto. 
À primeira vista, parecia ter saído de um retrato de família de 1890.  
Era designer gráfico. Trabalhava em casa e bem, mas não gastava muito de seu tempo trabalhando. O fazia para as despesas corriqueiras e saía aleatoriamente pela cidade durante o dia, sem uma rotinha fixa. 
Era vizinho de Zimi , baterista da banda Crop Circles, no bairro da Liberdade, perto da estação de metrô. 
Viviam no lugar que, segundo eles, mais se aproximava do que um dia foi o Chelsea Hotel, antes de se tornar icônico.  
Um totem sagrado em meio ao caos diurno e o abandono noturno da região central da cidade. Era sagrado apenas para eles, na verdade. 
Zími o conheceu porque frequentavam diariamente a mesma padaria. 
Um dia, Beiça havia bebido durante um jogo de futebol que era transmitido na televisão da padaria e na sequência de um comentário sobre a partida, emendou uma ideia sobre como o que o rebanho mais odeia em quem pensa diferente não é a opinião divergente em si, mas a audácia de querer pensar por si mesmo, sendo essa uma atividade para a qual esse rebanho é inapto. 
Dizia que “a parte das massas sem educação e cultura prefere fazer merda a vida toda do que aprender a fazer o correto, da forma correta. Negam-se a aprender por um tipo de orgulho, e uma estranha repulsa a mudar de opinião, onde a mácula, na cabeça dessa gente, é abrir mão de uma convicção burra e admitir o equívoco, implantado por intuição deficiente, falta de informação, ou por informação falsa.” 
Um dia, na véspera do show do Renaissance e do Curved Air, em São Paulo, Zími lamentava a falta de dinheiro para esse rolê. 
 Tinha pago o aluguel três dias antes, e embora estivesse acostumado à falta de dinheiro nos dias que sucedem o pagamento do aluguel, perder esses shows seria triste. 
Mas Beiça, que tinha em seu quarto um poster da Annie Haslam, mas também não tinha dinheiro para o ingresso, entrou em ação. 
Foram de metrô até os arredores da casa de show, chegando duas horas antes do início, e tendo combinado entre eles no caminho que seria necessário algum teatro, que ficaria a cargo de Beiça, enquanto Zími apenas acompanharia quieto ou falaria o mínimo possível. 
Logicamente, a nata do público alvo tinha meia idade e em média, boa condição financeira. 
Beiça, próximo da bilheteria, simulava uma conversa ao celular, enquanto Zími, ao seu lado apenas ouvia e observava até onde ele poderia chegar. 
Toda vez que alguém, mas de preferência um grupo de pessoas se aproximava para entrar na casa, Beiça se desesperava ao celular, dizendo para alguém que não estava do outro lado, que ele havia esquecido os ingressos em casa. 
Haviam chegado ao consenso, ainda no metrô, que as chances de sucesso na operação eram pequenas, mas ao menos tentariam algo em nome da apreciação de arte. 
Mas não demorou muito, nem foram necessárias muitas tentativas, até que uma família chegou com um ingresso a mais, e um rapaz entre eles abriu mão do ingresso e partiu para outro rolê, pois não tinha interesse no show, e nem ao menos sabia do que se tratava. 
Assim, os dois conseguiram assistir aos shows, lembrando que vinte anos, o Renaissance já era visto nos sebos e feiras de discos com seus álbuns clássicos estampando o que para eles era algo de uma nostalgia que havia muito tempo já era antiga. 
Um evento de valor sentimental inestimável para Zími e Beiça, e que já havia sido adiado pela pandemia. Parecia algo que nunca aconteceria. 
Entraram e logo se separaram, se encontrando novamente apenas na tarde do dia seguinte, na padaria, quando a conversa sobre a noite anterior consumiria a noite seguinte. 
Beiça sempre mencionava que continuava a fazer tudo o que fazia quando jovem, mas que a recuperação física agora era mais penosa. 
Nessas horas, encontrava conforto espiritual trabalhando em seu computador e ganhando o dinheiro do mês seguinte até que estivesse saudável e disposto para começar a gastá-lo com algum critério. 
Para Zími, cuja cara ostentava as marcas de muitas batalhas perdidas, e que viu aos onze anos o pai ser preso em casa, de pijama, numa manhã em que se preparava para ir à escola, e se tornou músico do underground que se sustenta com biscates, Beiça era um folclórico pregador de utopias permeadas de realismo, mas autônomo e até certo ponto, divertido, e que destoava um pouco em uma sociedade que busca formar apenas consumidores sem alma. 
Estavam de olho na mesma mulher, uma garçonete da padaria que frequentavam, mas não havia rivalidade agressiva, pois nenhum dos dois a havia chamado para uma abordagem mais franca sobre o assunto. 
Coexistiam num mundo em que pareciam ser expectadores de um espetáculo deprimente, em que quase todas as outras pessoas estavam num palco, em que triunfam as nulidades e onde a virtude é motivo de piada. 
Viviam um dia de cada vez, pois sabiam que fenômenos naturais muito mais fortes que a humanidade, e que chegam através de ambientalistas sérios que não são ouvidos podem destroçar planos futuros que não correspondam às imposições da natureza. 
Cada um ao seu modo passou pelo período agudo da pandemia sem terem suas rotinas muito abaladas, pois antes dela já não almejavam superar limites humanos de consumo ou comportamentais. 
E no fim de cada dia, podiam olhar de cima, cada um de sua janela, a cidade em repouso, se preparando para um possível novo amanhecer, cheio de caos, correria e baixa qualidade de vida, no espetáculo humano oferecido pela multidão nas ruas do centro paulistano, em que todos são coadjuvantes escravizados sem nem ao menos saberem disso. 
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Atualizado em: Qua 6 Jul 2022

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