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Berro

Um berro é suficiente para aterrorizar toda uma casa. Mais que isso: Uma rua, uma quadra; dependendo da intensidade, da altura e da duração. Pode fazer uma criança chorar e chamar ou procurar por seus pais; pode fazer um homem se lembrar de superstições e encará-las com algum medo e, ao mesmo tempo, com algum ceticismo; pode fazer uma mulher desejar um homem perto dela para que a livre da angustia que o simples som pode incutir nela. Ângela se deu conta disso enquanto, coincidentemente, ia abrir a porta do banheiro e, nesse momento exato, o tal berro explodiu sem aviso algum. Era repugnante de tão agudo, parecendo que ia rasgar seus ouvidos. A pele de Ângela começou a formigar, todos os pelos se eriçaram como um gato que vê um cão vindo lhe perseguir, latindo. Sentiu vontade que passar as mãos nos pelos para amansá-los carinhosamente e esquecer que a tal coisa houvesse acontecido. Mas não conseguia esconder isso de si mesma, não conseguia enganar sua mente ou corpo por mais que tentasse. Repentinamente, mesmo sem perceber, sua respiração se tornou mais pesada e ofegante. Seu sangue correu mais rápido, talvez ao ritmo do coração atormentado. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, passou alguns segundos paralisada e amedrontada, sem sequer cogitar dar um passo que fosse.
 - Ângela, não é? -, uma voz masculina e grave, mas, de alguma forma, macia como o pelo de um cão bem tratado, saiu de dentro do banheiro. – Você também ouviu isso?
“Você também ouviu isso?”, pensou. Falei por reflexo, mas que coisa idiota de se perguntar. A mulher abriu a porta. Ele viu a silhueta imóvel da mulher com um olhar estranho, distante e perturbado. Andou um pouco ainda nu e molhado, sem ter parado o fluxo da água do chuveiro. Tocou os ombros de Ângela. Estava tão fria quanto ele. Estranho, pensou. Deve ter sido o susto. Só pode... Ele não saberia como lidar com a situação se o corpo dela fosse tão frio quanto o dele normalmente. Mas naquele momento estava ainda aquecido pelo calor do coito e da água quente do chuveiro, porém, mesmo assim, ainda estava frio por dentro.
 - Ei, garota, o que foi? – Disse tentando sorrir e guia-la até a cama – Não quer se sentar aqui um pouco? Quer uma água... com... açúcar? – e quase riu do clichê que aquilo era. Isso era tão parecido com uma cena de novela de televisão que o enojava.
 - Aquilo...
 - Hã.
 - Aquilo foi pra mim... não foi?
 - Como?
 - O berro...
 - O que tem?
 - Você ouviu não ouviu? Você me perguntou se tinha ouvido.
 - Sim, por quê?
 - Eu não acho... – E então como se suas forças a abandonassem completamente e a transformassem em uma boneca de pano, recheada de pelúcia, caiu na cama. Foi acolhida, mas não se sentia segura.
Começou a chorar.
O homem se aproximou, arqueando-se, curioso. Simplesmente não sabia como melhorar a situação. Não tinha mais a lábia polida e experimentada que o fizera levar aquela garota meio estranha e tímida, mas bonita e indefesa que, no entanto, demonstrava muita tristeza em seus olhos, para a sua cama.
 - Uma vez... Uma vez, eu ouvi esse mesmo... Aquilo... Foi estranho, sinto a mesma sensação... Meu pai... Ele tinha uma arma... Nós ouvimos... Nós ouvimos um barulho vindo de baixo, da sala....
E chorou ainda mais intensamente.
O homem então entendeu quase completamente a situação e, com muita graça e delicadeza, deitou-se ao lado de Ângela, que soluçava como alguém respira depois que faz algum exercício físico moderado.
 - Eu vou acabar como ele, não vou?
 - Você já ouviu esse som... outras vezes?
 - Você sabe o que significa ele? Então eu devo...
 - Não deve fazer nada. É muito perigoso... Para mim...
 - Você vai se livrar de mim, não vai?
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Atualizado em: Qua 22 Jul 2020

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