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A Névoa do Amanhã




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Caminho desnorteado pela trilha fechada em meio à mata. Devido ao inverno rigoroso sinto os ossos congelarem enquanto respiro com dificuldade. A névoa branca ofusca a visão a longo alcance. Os meus olhos castanhos se perdem, não enxergo absolutamente nada. Com os pés machucados reluto para manter o equilíbrio. As folhas secas transmitem medo e angústia. O silêncio fúnebre invade a minha mente perturbada. Já se passaram quase cinco horas desde que acordei dentro de um buraco cheio de vermes rastejantes. A fome que sinto berra a um nível extremo, a boca seca implora por um copo de água, estou literalmente exausto e cansado. E para piorar a situação não me lembro de absolutamente nada.
            Devo ter batido a cabeça, pois a falta de memória não tinha uma justificativa aparente. Sem recordação do passado ou presente, nome desconhecido e perdido. O que mais poderia acontecer? Ouço a poucos metros um grito medonho, o meu instinto de sobrevivência joga o meu corpo na direção oposta. Corro o mais rápido que consigo, atravesso por entre árvores pontiagudas e flores deterioradas. Quando finalmente chego a um ponto sem saída deparo-me com uma sombra humana.
            Fico estagnado olhando fixamente para o ser diabólico que emitia aquele som estarrecedor, fugir de nada adiantou. A criatura gigantesca de aproximadamente 12 metros de altura não tinha aparência, sexo, cor ou idade. Era um ser misterioso observando-me igual a um pobre animal no zoológico. Suavemente dou alguns passos a frente esbarrando num campo invisível o qual bloqueava a passagem entre mim e a aberração. A forma humanoide era notável, pés, mãos e cabeça, porém o seu tamanho desproporcional á realidade. Seria tudo fruto de uma mente criativa? Uma abdução alienígena? Antes de mais questionamentos insanos surpreendo-me por uma voz feminina aos prantos.

—Volte Marcelo! Volte para mim.
 — Quem está aí? Quem é você?
 — Não se vá...Eu te amo.
— Você não consegue me ouvir? Quem é?

            Fico tonto por alguns segundos o suficiente para tornar os meus sentimentos uma tristeza profunda. Do limbo inconsciente emergem de forma rápida e destruidora imagens diversas, puras lembranças que juntas completavam um álbum de fotografias do que um dia já foi minha história de vida. As dúvidas que me cercavam eram respondidas de forma ininterrupta. A conclusão era óbvia e cruel. Eu estava morto.
            No momento em que aceitei a realidade pude enxergar claramente tudo ao meu redor. O monstro havia ganhado um belo rosto, olhos azuis e cabelos loiros, o seu nome era Anne. A minha doce noiva agora debruçava sobre o meu cadáver, murmurando palavras de luto. Mas eu apenas podia ouvi-la. Um funeral coberto de lágrimas, lamentações e dor.
           
            Nunca imaginei que terminaria dessa forma. Vítima de um estúpido acidente de carro. Não posso culpar o destino já que as duas garrafas de Vodca contribuíram para esse final deplorável. Desviei-me numa curva sem volta. Infelizmente nada mais poderia ser feito.
            Uma luz branca refletiu na minha face poucos minutos após a grande descoberta guiando o meu espírito ao repouso eterno. O novo mundo me esperava de braços abertos.

— Adeus querida, me perdoe.
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Atualizado em: Ter 14 Jul 2020

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