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O ciclo da moeda

1.
Valho 10 míseros centavos. Mas nem sempre foi assim, já tive o meu valor. Sou nômade. Já estive com muitas pessoas. Algumas delas, em mais de uma ocasião, em mais de uma época.
A começar, nasci em meados de 1994. Não sei o dia e nem o mês, a minha espécie não costuma celebrar aniversários. Nossas festas não têm data fixa, são o que chamamos de “Dia de queda do Dólar”. Quando acontece, celebramos muito! É como se estivéssemos valorizadas. Ultimamente isto tem sido raro.
Minha primeira morada foi a caixa registradora de um banco. A considerar as condições da moradia (pouco iluminada e aglomerada por outras iguais a mim), fiquei um bom tempo residindo lá: meia hora. Nessa época, a cada três minutos, um clarão invadia o ambiente, revelando um jovem rapaz selecionando algumas de nós para serem adotadas por outros seres humanos. Ele parecia irritado com o fato de ter que trabalhar numa segunda-feira de manhã.
Como já disse, depois de trinta minutos mudei de casa. Uma mulher resolveu me adotar e fui parar no porta-cinzeiro de seu carro. A ouvi dizer a uma amiga que tinha aproveitado o horário livre da manhã para ir ao banco, pois durante a tarde teria de dar aula e corrigir provas. Fiquei quatro dias morando ali, até que uma garotinha de oitos anos – que aparentava ser filha da mulher – me trocou por doces em uma quitanda.
Passei dois dias morando no caixa da mercearia e fui parar na mochila de uma adolescente que havia comprado cerveja escondida dos pais. Naquele lugar, tive de dividir espaço com um maço de cigarros de menta, vários grampos para cabelo, um batom e uma caixinha de chicletes.
Formamos uma vizinhança bem estranha, mas sempre nos divertíamos. Passávamos a noite contando piadas. Um dos grampos chegou a me apostar com o maço de cigarros de que o batom seria o primeiro a deixar aquela mochila.
Três semanas depois, a jovem acabou me cedendo à papelaria em troca de uma xerox de página de livro. No ato do pagamento, a dona da papelaria deixou que eu caísse ao chão e quando ia me resgatar, o telefone tocou e ela me esqueceu ali, debaixo de uma prateleira.
No dia seguinte, fui parar no lugar mais estranho em que já estive até hoje: escuro, apertado e molhado. Antes disso, só me lembro de o filho de 3 anos da dona da papelaria ter me achado e me levado em direção à sua boca. Uma confusão só. Instantes depois, já estava estatelada ao chão, ensopada e ouvindo os choros da criança. Foi aí que percebi que filhotes de humanos (especialmente os de faixa etária de zero a cinco anos) são nossos predadores.
Após esse episódio, o irmão mais velho do garoto se apossou de mim e me alojou em um cofrinho. Permaneci no cofre por longos meses até a chegada das férias de fim de ano.

2.
Dez anos depois, eu estava em uma agência bancária. Desta vez, não em uma caixa registradora, mas no bolso do gerente do banco. Ele havia comprado um café expresso antes do trabalho e me recebeu de troco. Segundo ele, “só um café expresso bem feito para aguentar a chatice de certos clientes.”
No horário do almoço, ele se encontrou com uma antiga cliente do banco com quem estava saindo nos últimos meses. Ela era professora e tinha uma filha de 18 anos, que também estava presente na ocasião. Durante o almoço, rolou uma conversa sobre a filha da professora estar produzindo e vendendo trufas. E, para impressionar a “ficante”, o gerente do banco comprou uma das trufas. Então, me juntou à outras quatro irmãs minhas e nos trocou pelo doce.
Dias depois, um senhor comprou uma das trufas da garota e fui cedida a ele como troco. Ele me levou para casa e me deixou em cima da mesinha de centro na sala de estar. Ouvi horas de uma conversa dele com sua esposa a respeito da época em que tinha uma mercearia. Parece que depois de um assalto, ele resolveu fechá-la.
Naquela noite, o casal recebeu o filho e a nora para jantar. Foi quando a sogra me emprestou para a esposa de seu filho, que queria comprar um cigarro solto quando saísse dali. Assim, saí da mesinha de centro e fui direto para a bolsa da mulher.
Algo deve ter dado errado com o plano de comprar cigarro, porque fiquei dias dentro daquela bolsa. Lá, conheci um espelhinho de maquiagem muito gente boa, que me fazia refletir muito. Quando finalmente saí daquela escuridão, fui parar em um bazar/papelaria trocado por um conjunto de clips de metal.
Horas depois, a dona da loja “me deu” aos seus dois filhos, que me utilizaram em uma máquina que troca moedas por pequenas bolinhas de borracha.

3.
Mais dez anos se passaram. Eu morava há alguns meses no compartimento de CD’s do carro de um diretor de banco. Ele, naquela ocasião, cometia a infração de dirigir enquanto falava ao celular. Fazia uns dez minutos que o tal diretor dava uma broca daquelas em um de seus subordinados. Ao lado do homem, no banco dianteiro do carona, estava sua esposa, uma diretora de escola particular.
Eles estavam indo rumo ao aeroporto da cidade para buscar a filha da diretora, que estava voltando de uma viagem ao exterior. Quando estacionaram o carro, o marido pediu à esposa que pegasse algumas moedas no compartimento de CD’s para que validassem o ticket de estacionamento quando fossem embora. Assim, me juntei a eles na jornada dentro do aeroporto.
No momento em que encontrou sua filha, a diretora a repassou todas as moedas e a deu a missão de encontrar a “maquininha que liberava o estacionamento” enquanto ela e o marido estariam comprando café em uma loja de conveniência. A jovem adulta acabou me derrubando no chão sem perceber.
Enquanto eu estava toda dolorida da queda, um idoso me avistou estatelada e me colocou em seu bolso. Dividi espaço com um celular antigo, que me informou que o senhor tinha ido até lá para “embarcar” seu irmão em um voo com destino à terra natal deles. Os dois haviam tentado reabrir a mercearia que tinham no passado, mas o negócio não foi para frente devido ao aumento do número de supermercados em bairros periféricos.
Três dias depois, o senhor me repassou para sua netinha comprar bala na escola sem que os pais soubessem. O plano falhou, já que a mãe da garota descobriu e me confiscou. Morei por vinte e quatro horas na penteadeira da mulher. Conversei com um par de brincos e um anel. Acabou que ela me trocou por um chiclete de menta na intenção de disfarçar o mau hálito de cigarro antes de uma entrevista de emprego.
Por fim, fui parar no bolso de um jovem dono de lanchonete. Quando ele me recebeu como forma de pagamento pela caixinha de chiclete de menta, ficou me encarando por um bom tempo, parecia reavivar alguma lembrança. Naquela noite, no jantar, ele comentou com sua mãe e irmão mais velho que do nada havia se lembrado do dia em que se engasgou com uma moeda. Eles deram risada e a mãe contou aos filhos os perrengues passados no episódio em questão.

4.
Seis anos se passaram e chegamos aos dias atuais. Já estou velha e meu valor é insignificante. Quase não sou requisitada. A moda agora são os cartões de débito e crédito, além de diversos cartões que são utilizados nas linhas de transporte público.
Ao longo desses seis anos, vivi no fundo da gaveta de meias do garoto que quase me engoliu há mais de duas décadas. Não vejo a luz do Sol faz tempo, mas sem crise. O escuro acende todas essas minhas memórias de tempos em tempos.
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Atualizado em: Seg 22 Jun 2020

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