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Sonhos de Manuela

Manuela tinha sonhos. Quando menina, 6 anos de idade, se via como bailarina. E, não é qualquer tipo de bailarina. Seria daquelas famosas. Todos a conheceriam e parariam para a assistir.
Aos 13 anos, tudo o que queria, era conhecer o astro teen estrangeiro do momento. Iria ao show, tiraria fotos no camarim, trocariam contatos, começariam a conversar (ele saberia português), iniciariam um romance à distância, se mudaria para o país dele e se casariam.
Com 17 anos, Manuela sonhava com a viagem de formatura que iria fazer com seus colegas. Mal podia esperar para curtir uma semana de praia, baladas e curtição.
Quando chegou aos 21, Manu só queria terminar o seu TCC. Aquela rotina de acordar às seis e dormir à meia noite estava muito difícil. Trabalho, faculdade, provas e o maldito TCC... aquilo tinha que parar!
Aos 27, ela só pensava na promoção ao cargo de gerência no departamento em que trabalhava. Sempre foi uma funcionária exemplar e de muitos resultados. Já era hora de ser reconhecida na empresa.
36 anos e tudo o que Manuela mais sonhava era que seu filho, de 8 meses, parasse de chorar durante a madrugada. Tinha que trabalhar e não queria ficar que nem um zumbi durante o expediente.
Aos 44, ela só pensava em comprar um apartamento no litoral. Se nada de errado ocorresse, até o final do ano, teria o suficiente para uma boa entrada. Já tinha passado da hora de ter um refúgio da vida cansativa na capital.
Com 55, Manuela sonhava que seu filho levasse a vida mais a sério. Gostaria muito que ele largasse as más companhias, entrasse na faculdade e se engajasse em uma carreira. Ela não sobreviveria para sempre. Já era hora dele começar a pensar em seu futuro e independência.
Manu agora tinha 68 anos, e tudo o que sonhava era em aproveitar sua aposentadoria recém concedida. Queria visitar parentes, viajar, ir ao cinema e claro, estar próxima de seu neto de três anos.
Aos 83, fazendo uma retrospectiva da vida, Manuela reparou que: não virou bailarina, mas havia feito aulas de balé e sabia dançar bem; não se casou com o astro teen (hoje em dia, tão anônimo quanto ela), mas foi em um de seus shows e se divertiu muito; não foi à viagem de formatura, mas saiu com seus amigos de escola durante todos os finais de semana daquele ano, e por isso, tinha diversas histórias para contar; não foi aprovada no TCC, mas teve a oportunidade de fazer outro trabalho, que de tão brilhante, a garantiu um emprego em uma multinacional; não conseguiu a promoção, mas recebeu uma proposta irrecusável para ocupar um cargo de gerência em outra gigante do ramo; seu filho não parou de chorar nas madrugadas, mas mesmo assim, ela deu conta de todas as demandas do trabalho; não comprou um imóvel no litoral, mas fez belas viagens com o dinheiro que seria do apartamento; o filho não fez faculdade, mas montou seu próprio negócio e prosperou; não conseguiu fazer muitas coisas com a merreca que ganhava de aposentadoria, mas esteve presente em toda a infância de seu neto.
Todos os seus sonhos falharam e, em nenhum momento, a frustração pesou em sua cabeça. Esses sonhos – muitas vezes, longínquos – a permitiram descobrir o verdadeiro valor das coisas boas. Se por um lado, Manuela não alcançou o que quis, por outro, divertiu-se muito ao tentar. A jornada havia sido tão incrível que ela acabou descobrindo a existência de outros universos dentro de seus sonhos, os quais a fizeram igualmente feliz.
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Atualizado em: Seg 3 Fev 2020

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