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A imagem do culpado

1.
“Eu sei tudo!” Foi a mensagem que Caroline recebeu quando já se preparava para dormir. Desde então, fazia uma ligação após a outra ao remetente. O único retorno que teve era uma resposta robotizada dizendo: “sua ligação está sendo encaminhada para a caixa de mensagens...”
O tal remetente tratava-se de seu ex-namorado, Marcos. É sempre muito difícil terminar um relacionamento, ainda mais um que tenha durado 4 anos e começado na adolescência.
Caroline, porém, não passou por um processo de término comum. Marcos, não conformado, a seguia todos os dias ao longo de seu trajeto de casa para a faculdade e da faculdade para casa. Mesmo Caroline tendo pedido por diversas vezes que parasse, ele dizia que só pararia quando o namoro fosse restabelecido.
Assim, ela passou a ir à faculdade acompanhada de sua mãe. Após 15 dias de ter tomado tal medida, Marcos não a seguia mais. Caroline chegou até a pensar que Marcos havia desencanado e seguido em frente, o que a permitiu se envolver com um cara que havia conhecido na faculdade (no último final de semana, até saíram juntos e se divertiram bastante).
Eis que uma nova mensagem chegou: “Veja com seus próprios olhos!” E dessa vez, veio junto de uma foto. Caroline começou e tremer e deixou o celular cair...
2.
Marcos viu um homem marcar Caroline em um evento nas redes sociais (“@carolineletícia, bora?”). Ela aceitou (“credo, meu sonho!”). “Ela aceitou! Como podia? Ela aceitou? Sim, aceitou!” Não era possível imaginar. Após 3 meses de término, Carol já saia com outro...
De tão enfurecido, Marcos quase não percebeu que o evento estava acontecendo naquele momento (e que o convite fora feito há dias). Ele pensou em ir ao local e espera-los na porta. Caroline lhe devia explicações!
 Antes que pudesse sair de casa, Marcos resolveu investigar melhor a situação. Entrou no perfil do cara para saber “qual era a dele”. Às vezes, os dois poderiam ser só amigos ou aquilo poderia ser uma tática de Caroline para deixá-lo com ciúme. Ao longo dos quatro anos de namoro, Marcos a fez romper todas as suas amizades masculinas e jamais permitiu que ela fizesse novos amigos.
Segundo as informações contidas no perfil do homem, eles estudavam juntos na faculdade... A FACULDADE! Marcos sempre soube que havia algo naquele lugar. Caroline era tão culpada, mas tão culpada que passou a pegar carona com sua mãe para ir e voltar de lá. Com certeza, tentava despistar algo.
Marcos acessou a página do evento e viu que o organizador fazia uma live. Era um show, desses bem undergrounds. O local destinado ao público comportava algo em torno de 50 pessoas. Uma jovem cantava e tocava violão acompanhada de dois percursionistas (tão jovens quanto).
Em um determinado momento, o produtor resolveu focar a câmera na plateia. E, aconteceu! Marcos viu a cena que mudaria tudo dali em diante. No exato momento em que o público foi destacado na filmagem, Caroline beijava o cara da faculdade. Isso mesmo! Tudo aconteceu ao vivo bem ao fundo da imagem.
Marcos ainda atrasou o vídeo alguns segundos para tirar print. Ampliou a imagem e não tinha como negar: era Caroline mesmo! Alguma atitude precisava ser tomada...
3.
Estava escuro. A última lembrança de Samuel foi a de sentir uma dor forte na cabeça ao sair do show. Na certa, tinha tomado uma pancada. Agora, se encontrava ali, naquele ambiente escuro e apertado.
A ventilação de ar inexistia, mal conseguia mexer a perna. Só podia estar em um porta-malas ou em um contêiner. Mas, por quê?
A pessoa que o sequestrara devia estar louca. Ele não era rico, nem nada! Certamente, o bandido se frustraria quando pedisse o resgate. Quer dizer, apertando daqui e dacolá, daria para juntar uns R$ 200,00. Isto enfureceria mais ainda o sequestrador. Samuel achou um absurdo morrer por conta de duzentos reais naquela altura do campeonato.
Faltavam motivos que explicassem o fato de Samuel ter sido capturado. Ele não tinha brigado com ninguém (desde a 3ª série não entrava numa briga), possuía muitas amizades e até prestava serviço social. Era um cidadão comum: trabalhava, estudava e vez ou outra, saia para se divertir. Nada que provocasse bandido algum. Não estava entendendo nada!
E em um momento de desespero, Samuel começou a se revirar no local tentando se libertar (ou chamar a atenção de quem estivesse ao redor). Uma luz atingiu os seus olhos. O porta-malas havia sido aberto.

4.
- A culpa é sua! – Marcos falava para o corpo do homem estirado ao chão com os membros amarrados e duas balas alojadas no tórax. Sangue se espalhava por todo o canto.
- Por que foi inventar essa história de show? Só fez ela sofrer... – Marcos chorava ao falar. Foi quando fotografou a cena do crime e mandou-a para Caroline.
Teria sido muito mais fácil se aquele show não tivesse existido, pensou ele. A mulher que amava não teria sido convidada para canto algum, o homem não estaria morto e Marcos, por sua vez, não seria um assassino.
Mas, não! Esse homem tinha por que tinha que provocar tudo isso. Além de ter produzido o show, ainda filmou Caroline beijando o cara da faculdade. Marcos não pôde ficar de braços cruzados! Uma atitude precisou ser tomada contra o sujeito que acabara de arruinar a sua vida.
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Atualizado em: Seg 23 Set 2019

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