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Crime na Riachuelo

A moça não tinha muita experiência, procurava um emprego de secretária. Bem ali, na Riachuelo, foi abordada por um bêbado vacilante, que não conseguia se comunicar sem enrolar a fala.  Ela não sabia se vestir muito bem, blusa vermelha decotada, a saia acima dos joelhos e o scarpin velho prateado pareciam adequar-se ao deprimente cenário local. Soubesse antes não tinha se vestido assim para ir justamente à Riachuelo.   Desviou-se do homem, teve quase que empurrá-lo. Estava indo para uma entrevista de emprego, o número do prédio era 78, primeiro andar, sala 13. Achou a rua um pouco esquisita, mas não se importou muito.
 Na sala de espera não tinha ninguém, nem secretária, um bom sinal, afinal, essa era a vaga anunciada.  Os móveis já estavam desgastados e dava para ouvir alguém ao telefone na outra sala. Decidiu esperar um pouco para ver se a conversa parava, não evitou ouvir, o homem falava sobre horários perdidos, dinheiro à toa, falta de senso de responsabilidade. Parecia ser uma pessoa muito dura com as palavras, talvez ela tivesse que se acostumar com aquilo. “HM Representações Artísticas”, esse era o nome da empresa.
“Maria da Glória é você?”. O homem a surpreendeu, sentada, dormindo no sofá da recepção, uma hora depois de ter chegado. Pediu desculpas pela demora em atendê-la e mandou que entrasse em sua sala. A entrevista foi rápida, o salário acertado e na manhã seguinte, já estava trabalhando.  Sua função era apenas atender às artistas que ligavam marcando horário com o Sr. Augusto, e manter a sala da recepção em ordem. Na sala do Sr. Augusto era claramente proibida de entrar, mas também não fazia questão. Toda vez que alguma mulher estava lá, as palavras do chefe não eram muito amigáveis. Essas artistas não eram gente conhecida, celebridade, mas agiam como se fossem.  Algumas vezes chegou a ouvir alguns móveis se arrastando, copos quebrando, mas no final das discussões parece que elas sempre saíam satisfeitas, ou, conformadas.
A rotina não durou muito, apenas quinze dias depois, numa manhã de terça-feira, Augusto chegou muito agitado ao escritório. Não a cumprimentou, a atmosfera ficou sombria. O telefone tocou, ele não autorizou a transferir a ligação nem a fazer agendamentos no dia. As artistas estavam ficando irritadas, queriam ser atendidas.  Não eram famosas, mas agiam como se fossem, intransigentes, impacientes.
Faltavam alguns minutos para o meio-dia, quando dois homens entraram na sala. Não a cumprimentaram, a atmosfera ficou mais pesada, foram direto para a sala do Sr. Augusto, não deu para ouvir nada, parece que ninguém realmente falou nada. Os dois saem rapidamente, batem a porta. Deviam ser fiscais ou algo assim.  O telefone tocou novamente, as entrevistas continuaram suspensas até segunda ordem.   

A polícia chegou somente no outro dia de manhã.  Sr. Augusto não gostava de ser incomodado, por isso Maria da Glória sequer falou com ele durante todo o dia anterior. A verdade é que ele não havia se manifestado mais depois que os dois homens foram embora. A verdade também, é que a única pessoa no local da morte era ela, Maria da Glória, 20 anos, sem muita experiência. Na sua gaveta, uma Nove Milímetros, de uso exclusivo das Forças Armadas. Jamais usaria uma arma daquela, a polícia sabia, a imprensa também sabia. As artistas da Riachuelo perderam mais um agente, e isso era o que importava. Não dá para ficar sem artista na região, não gira o comércio. A HM Representações fechou e o ponto está sem dono. Vai ficar para alguém da polícia, ou da imprensa, quem sabe. Não se sabe se Maria foi presa, não se falou mais no assunto.

Aqui, na sala comercial ao lado da antiga HM, só se ouve agora um telefone tocar: o meu. Muitas artistas agendando horário, intransigentes, impacientes. Não dá para ficar sem artista na região, não gira o comércio.
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Atualizado em: Seg 2 Set 2019

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