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A garota do 312

1.
Janeiro de 1995. Verão. Época de pessoas por trás de óculos escuros aproveitando o Sol sobre a areia. A jovem Maria Eugênia de 17 anos também interagia com o clima quente. Trabalhar de chapeira no Quiosque 312 não era nada fácil.
Pode-se dizer que Maria Eugênia enfrentava uma face do calor não conhecida por suas amigas. Enquanto todas deviam estar na praia, aproveitando o mar, lá estava ela... fritando porções de batata, camarão e afins.
Seu pai dizia que esse era o momento do trabalho para a família. “A diversão deles é o nosso lucro”, sendo assim, o Quiosque era aberto de segunda a segunda na alta temporada. Maria Eugênia sabia que ele tinha razão.
Mas, mesmo assim, tudo o que ela queria era ter ao menos uma folga e aproveitar o verão como as “meninas normais”. Um diazinho não faria muita diferença...

2.
- Mamonas Assassinas?! Na praia do Centro? Eu tenho que arrumar um jeito de ir – disse Maria Eugênia à Clara, sua amiga, durante uma conversa no balcão do quiosque.
Começaria a jornada para convencer seu pai deixá-la ir ao show em pleno sábado. Não seria nada fácil, já que aos fins de semana além dos turistas que já estavam em Caraguá de férias, outros desciam para obter pelo menos 2 dias de descanso.  Era lucro na certa!
Maria Eugênia falou sobre o assunto com sua mãe na correria do expediente. A resposta foi que se ela conseguisse convencer o pai, poderia ir sem problemas. A filha, então, o esperou fechar o caixa para fazer o pedido. Tinha de aproveitar o momento do dia em que o velho ficava mais empolgado.
A resposta não poderia ser pior. Além de gargalhar na cara dela, o pai de Maria Eugênia usou todos os argumentos já esperados a respeito do movimento do quiosque aos finais de semana. “Não era tempo de ninguém ficar em show nenhum pulando feito canguru!”
 Para bem dizer a verdade, Maria Eugênia já esperava por aquilo. Sabia que para convencê-lo seriam necessários mais argumentos. Um bom motivo haveria de surgir.

3.
Na manhã seguinte, a caminho do 312, Maria Eugênia sugeriu ao pai que pedisse para Ezequiel (um vizinho que às vezes dava uma força no quiosque) ajudá-los no sábado enquanto ela estivesse fora. Novo fracasso: “Não vou deixar o atrapalhado do Ezequiel espantar a minha freguesia em pleno sábado!”
Em meio à rotineira fritura de hambúrgueres e porções de petisco, desanimada, Maria Eugênia chegou a pensar que seria a única a não ir ao show. Já perdera praticamente todo o verão. Tudo porque o Quiosque precisava lucrar. Até que uma ideia invadiu sua cabeça. Seria a sua última cartada!
Mais uma vez, ela esperou seu pai fechar o caixa do dia para tentar uma aproximação. Eis que:
- Nem venha, Dona Maria Eugênia! Já disse que não irá nesse show! – antecipou-se o pai.
- Mas eu não vim falar de show! – respondeu a garota – Vim propor um jeito do quiosque faturar mais, papai!
- Como é?! – o pai pareceu se interessar.
O plano parecia funcionar, então, Maria Eugênia prosseguiu:
- Estive pensando... Quantas pessoas não estarão no show? É uma banda famosa... de clamor popular...
- Menina! Você tá cheia de conversa! – seu pai ao mesmo tempo que perdia a paciência, se interessava mais pelo assunto.
- E...se eu for para o show usando a camiseta do quiosque? Não seria uma espécie de divulgação gratuita? – propôs a filha.
Se esta cena fosse em um filme ou desenho animado, daria para ver o cifrão desenhado nos olhos do homem. Com a provocação de Maria Eugênia, ele percebeu que poderia lucrar com aquela história. Logo, permitiu que a garota fosse.
Ele só não enxergou o óbvio: Maria Eugênia se livraria da camiseta assim que ficasse longe de suas vistas.

4.
O show não poderia ter sido melhor. Todas as músicas de mais sucesso foram tocadas. Maria Eugênia e Clara nunca haviam tomado tanta cerveja. Àquela altura, o efeito do álcool nem era sentido, tamanho o calor que fazia.
Clara ainda arrastou Maria Eugênia para uma festa pós-show na casa de Patrícia. Maria Eugênia, a princípio, não gostou nada da ideia, mas não podia deixar a amiga sozinha. Ela, Clara e Patrícia haviam estudado juntas ao longo de todo o período escolar. Mas, ao contrário de Clara, com quem nutria uma amizade, Patrícia era uma inimiga para Maria Eugênia. O motivo: na 3ª série, Patrícia teria pego os lápis coloridos de Maria Eugênia e distribuído um para cada aluno da sala (à exceção de Clara). A partir daí, uma longa história de ódio começou.

5.
Já diria Renato Russo: “festa estranha, com gente esquisita.” Esta foi a percepção de Maria Eugênia ao chegar. Roqueira que era, se sentia deslocada em ambientes onde axé tomava conta. E para piorar, havia perdido Clara de vista.
No momento em que tocava É o Tchan, uma cena chamou sua atenção: um cara branquelo e desengonçado dançava totalmente fora do ritmo enquanto muita gente ria. Outro deslocado de seu habitat natural. O rapaz percebeu que Maria Eugênia observava e a tirou para dançar. Foi um desastre total! Nenhum dos dois levava jeito para a coisa.
Quando a música acabou, Maria Eugênia foi para junto de Clara, que a esperava com dois copos de cerveja às mãos. As duas logo perceberam que o dançarino e seus amigos não paravam de olhar. Clara teve a ideia de chamá-los para beber. Mas antes de Clara dar o primeiro passo, Patrícia chegou primeiro e começou a conversar ao pé do ouvido com o cara da dança esquisita.
Maria Eugênia percebeu que não havia mais nada para acontecer ali. “A intrometida atacou de novo!” Sendo assim, chamou Clara para ir embora.
De repente, o rapaz reapareceu em sua frente e a puxou para dançar...

6.
No outro dia, Maria Eugênia acordou ao lado do homem com quem dançara a noite inteira e lhe desejou bom dia. A resposta foi incompreensível. Foi quando percebeu que eles não falavam o mesmo idioma.
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Atualizado em: Qui 8 Ago 2019

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