person_outline



search
  • Contos
  • Postado em

Téo, sua mãe e o palhaço

1. Téo
Estava muito empolgado! Minha festa de 10 anos se iniciava. Ontem, eu e minha mãe trabalhamos o dia inteiro para enfeitar a casa e fazer aquele bolo gelado que era tradição nas comemorações de família.
Além disso, um outro ingrediente deixou tudo especial: após muito tempo, meu pai finalmente conseguiria estar em casa no meu aniversário. Ele era palhaço de circo, vivia viajando para lá e para cá. Por isso, eu e minha mãe ficávamos muito afastados dele. Mas, este ano o circo estava instalado em uma cidade vizinha, garantindo umas folgas ao meu velho.
As horas foram passando e nada do papai. Perguntei diversas vezes à minha mãe se havia acontecido algo. Ela sorria, passava a mão em minha cabeça e dizia para que continuasse brincando.
Assim que chegou, puxei ele pela mão até onde as outras crianças da escola estavam. Elas tinham que conhece-lo!
Meu pai, no que parecia ser uma tentativa de se aproximar, me pediu para mudar a música do rádio, pois ele faria a coreografia do Hakuna Matata. Grande ideia! Se tratava de um dos números mais engraçados de seu show.
Obedeço e coloco a música. Meu pai se posiciona para iniciar a apresentação. E de repente… “clap!”. Minha mãe desliga o rádio. Tentei explicar que papai faria o número do Hakuna Matata. Ela pareceu não ouvir e disse que era hora de cantar parabéns. Por que, justo agora, você resolveu cortar o nosso “barato”, mãe?
Alguns minutos depois, todos estavam em volta à mesa. A cantoria já rolava solta: “E para o Téo, naada! Tudooo!… Então é pique, é pique, é pique, é pique…”. Neste momento comecei a sentir um gelado em minha cabeça que se espalhou pelo resto do corpo. Papai estava virando uma latinha de cerveja em cima de mim. Meus amigos caíram na risada. Corri para o meu quarto.

2. A mãe
Meu Téo foi a melhor coisa que aconteceu. A data de nascimento de um filho é um marco na história de uma mulher. Por isso, todos os anos dou um jeito de fazer faxina na casa dos vizinhos e levanto uma grana extra para bancar uma festa digna ao meu menino. Um esforço de que não me arrependo.
Desta vez, graças a Deus, poderia contar com o apoio de meu marido, Maurício. É difícil ter que assumir a responsabilidade de educar quando se está sozinha. Mas, fazer o que? Era necessário Maurício viajar mundo afora. As contas não davam trégua!
Só quem já foi anfitrião de uma festa sabe a dor de cabeça que é. Trata-se de ficar fazendo papel de bombeiro, apagando focos de incêndio aqui e acolá. Estava me desdobrando para atender a todos: servia salgadinhos, reabastecia copos de refrigerante e cuidava para que as crianças não quebrassem nada da minha casa… Onde estava Maurício? Tinha prometido chegar cedo para me ajudar.
Àquela altura, Téo também percebeu a ausência do pai. Por diversas vezes, me perguntou se algo havia ocorrido. Tive que fingir tranquilidade e pedir que ele continuasse se divertindo com seus amigos.
No meio de toda aquela confusão, não pude reparar no momento exato em que meu marido chegou. Só sei que em um determinado ponto, virei para o lado e a primeira onda de ódio da noite me tomou! Maurício, completamente bêbado, estava em meio as crianças tentando fazer a coreografia do Hakuna Matata. Após respirar fundo, desliguei o rádio depressa. Não podia deixar Téo passar vergonha! Evitando chiadeiras, inventei que já era hora de cantar parabéns.
Enquanto todos se encaminhavam para a cozinha, fui até meu marido e o ameacei:
– Você vai cantar parabéns para o seu filho, subir para o quarto e só aparecer aqui depois do último convidado sair! Tá me entendendo? – Ele mal conseguiu responder.
Enquanto o canto de parabéns acontecia, me preocupei em tirar fotografias de tudo. Foi olhando para a lente que a segunda onda de ódio da noite me atingiu. Meu marido virava uma lata cheinha de cerveja na cabeça de Téo!
– Maurício, você perdeu a noção! PERDEU… A… NOÇÃO!
Como podia? O que aquele homem tinha na cabeça? Perguntas que até agora não consegui responder. Minha vontade era afogá-lo em uma piscina de cerveja bem gelada. Assim, veria o que era bom para a tosse!

3. O palhaço
Fiquei horas e horas bebendo sentado em uma mesa de pingue-pongue da praça. Motivos não faltavam. Para começar, meu filho, Téo, fazia aniversário. E naquele dia, exatamente naquele dia, fazia 3 meses da última vez que deram risada de minhas apresentações no circo.
Tudo estava acontecendo de repente. Num piscar de olhos, passei de atração principal para artista dispensável. Havia flagrado o dono do circo falando em me substituir. Babaca! Só de raiva, roubei seu Whisky 12 anos…
Quando jovem, eu queria ser ator. Um dia, voltando do teste que fiz para Malhação, Carmen, atualmente minha esposa, me deu a notícia de que estava grávida. Passamos vários meses daquela gravidez esperando o pessoal da Globo ligar. A resposta nunca veio!
 A ideia de trabalhar engravatado embaixo de um ar condicionado me enojava. Queria trabalhar com arte, mas tinha que começar a ganhar dinheiro. Logo, entrei para o circo. Mas, e agora? O que faz um palhaço quando perde a graça?  Não sei! Ninguém nunca falou sobre isso. Nem sabia se o problema estava comigo ou com o público.
Já anoitecia, estava perdendo a festa de Téo. A FESTA DO TÉO! É isso! Estava cheia de crianças… Seria um bom teste para os meus truques! Sequei a garrafa de Whisky e segui para casa.
Ao cruzar o portão, Téo me puxou para junto de seus amigos. Ótimo! Assim, Carmen não poderia fazer nada para me tirar de lá.
Pedi ao meu filho que colocasse no rádio aquela versão de Hakuna Matata adaptada para o show. Se tratava de um número em que a cada 30 segundos, o ritmo da música mudava, me obrigando a ficar trocando de coreografia. Impossível não rir!
Comecei a fazer o primeiro movimento, mas o rádio parou. Lá estava Carmen! Seus olhos flamejavam. Ela se aproximou e disse algo sobre eu não aparecer mais na festa. Não a respondi verbalmente, mas o fato era que eu não arredaria o pé de lá enquanto não fizesse alguém rir.
Do nada, começaram com os parabéns. Precisava agir rápido! Só havia uma maneira de provocar risos àquela altura: sacaneando o aniversariante! Infelizmente, se fazia necessário. Téo haveria de entender no futuro.
Aos poucos, me aproximei de meu filho. Esperei o canto se animar. Então, abri a lata de Skol que tinha acabado de pegar na geladeira e a despejei no garoto. As crianças deram muita risada. Pela primeira vez em 3 meses, consegui provocar gargalhadas em alguém. Ótimo momento!
Pin It
Atualizado em: Qui 8 Ago 2019

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222