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O quarto

Dia 1
Toc toc
  Bato na porta de entrada, mas ninguém aparece para atender. Olho para o relógio e já está tarde. O voo atrasou, o taxista era lento. Toc toc. Ninguém abre a porta. Olho pela janela da casa, mas isso se torna impossível, todas estão cobertas por cortinas pesadas e escuras. Coloco a minha mão dentro do vaso das roseiras que ficam ao lado da porta, encontro uma chave e a coloco na fechadura, giro a maçaneta e ponho os meus pés para dentro da casa. As luzes estão acessas, mas não tem ninguém.
 — Joe? — Novamente o meu chamado é ignorado.
  Desço a escada até o porão, o meu quarto. A cama e os livros ainda estão no mesmo lugar. Coloco a minha mochila no chão e subo. Vejo meu pai descer a escada do andar superior. Ele gesticula em libras para mim e eu o respondo. O meu pai perdeu a audição quando ainda éramos criança e com isso a fala foi se tornando cada vez mais difícil para ele, mas se falarmos bem devagar ele ainda consegue ler os nossos lábios.
 — Cadê o Joe? Eu já sei da armação dele. — Conforme me comunico em libras, falo bem alto para que o meu irmão me escute.
 — Você sabe que eu só fiz isso, por que você vive mais para o trabalho do que tem tempo para vir aqui. — Viro e encontro o meu irmão saindo da cozinha com uma faca e as mãos sujas de sangue, ele cheira e coloca um dos dedos na boca, limpado-o com a sua saliva — É carne de porco, a sua favorita.
  Há dois dias recebi uma ligação de Joe, supostamente, assustado e falando sobre como o nosso pai não estava bem. Eu acreditei no início. Mas depois percebi que o Joe nunca me liga, nem mesmo para assuntos graves e segundo é o Joe, só poderia ser mais uma de suas brincadeiras sem graça.
 — Você não pode inventar as coisas e simplesmente me pedir para viajar para esse lugar no meio do nada. Perdi meu tempo.
 — É, mas você veio. — Ele disse. É, eu vim.
Dia 2
  Ainda de olhos fechados ouço passos em cima do porão, como se várias pessoas estivessem se movimentando na sala principal. Subo e quando entro na sala não encontro ninguém, a casa parece tão vazia quanto ontem. Penso que estava sonhando acordada. Vou até à cozinha e pego um copo com água, sento-me perto da janela e arrasto a cortina para o lado, lá fora ainda está escuro e pingos de água batem contra a grama verde do jardim. Caminho para mais perto da janela, algo preto e grande vem na minha direção, colide na janela e cai. Dou um passo para trás assustada e deixo o copo cai no chão, olho para a janela e tudo o que vejo é o vidro trincado, ainda com receio caminho lentamente para mais perto janela e observo além da rachadura, um corvo contorcendo-se no chão, a ave consegue se recuperar e levanta voo. Vejo o animal desaparecendo além das árvores.
  Não volto mais a dormir, fico em meu quarto lendo alguns dos meus muitos livros até que amanheça. Quando finalmente retorno para o andar superior da casa tudo está em silêncio, assim como na madrugada. Caminho até as janelas da casa e abro as cortinas uma por uma, a claridade entra e a casa finalmente recebe luz natural. Na janela trincada consigo ver ao longe o meu pai no jardim apontando para algo nas árvores e Joe ao seu lado. Lembro do quarto do meu pai e decido ir olhá-lo. Quando abro a porta do cômodo não consigo enxergar nada, tudo está escuro e sinto um cheiro forte que me deixa enjoada.
  Ligo a luz. A intensidade da iluminação faz com que os meus olhos se fechem instantaneamente, olho para todos os lados, mas nada parece incomum. Sinto algo tocar os meus ombros e calcanhares, afasto-me, mas não tem ninguém, devo estar sentindo coisas. Ouço uma voz vindo do closet do quarto. “Tem alguém aqui”, é o que consigo escutar. Ela se torna mais alta, e mais alta e então começa a parecer gritos “Tem alguém aqui”. Protejo os meus ouvidos com as mãos, contudo, não adianta, está muito alto. O cheiro começa a ficar mais intenso. Agora percebo que o ar não circula mais pelo local, as janelas estão cobertas pelo mesmo modelo de cortina das outras janelas que pelo visto tampam o restante da casa. A minha respiração começa a pesar, fica cada vez mais difícil de respirar. As vozes começam a brincar com a minha mente. Tem alguém aqui. Tem alguém aqui. Aproximo-me do closet e o odor fica ainda mais presente, arrasto o material de mdf para o lado e vejo um animal sem cabeça pendurada em um cabide. É um porco.
  Por um instante tudo fica escuro em minha cabeça, os meus olhos se abrem novamente e o animal decepado ainda está na minha frente. Desço as escadas correndo. No andar de baixo vejo Joe fechando a última cortina de uma das janelas. O ambiente continua claro, a luz artificial está ligada. Tento gritar, mas a minha respiração ainda está desregulada.
 — Você não deve em hipótese alguma abrir as cortinas — a voz de Joe ecoa na minha cabeça. E então desabo no chão gélido. “Tem alguém aqui”. A voz grita e é a única coisa que fica na minha mente.
Dia 3
  Vozes são tudo o que escuto ao abrir os olhos, mas não tem ninguém comigo. Não consigo lembrar do que aconteceu. A casa está em completa escuridão quando subo as escadas, vou até à janela abrir as cortinas, mas alguém me puxa para trás. É Joe.
 — Não abra as cortinas. — É tudo o que ele fala antes de sair, consigo ouvir seus passos indo para a cozinha, ele retorna e acende velas, colocando-as em candelabros pela casa toda. — Estamos sem energia por tempo indeterminado.
  Tudo o que vejo é a silhueta de Joe andando pela casa. Subo as escadas e encontro o meu pai saindo do seu quarto, assim que ele me avista volta correndo para o cômodo, acelero os meus passos até a porta e o impossibilito de a fechar antes que eu possa entrar, diferente do resto da casa a janela está aberta permitindo que entre um pouco de luz e a brisa da manhã. O meu pai vai até porta e a tranca, quando se vira para mim, começa a falar, mas eu não consigo entender os seus rápidos movimentos com a mão. Ele para e retorna. Tudo o que eu consigo entender é “Tem alguém aqui”, então flashes da noite anterior aparecem na minha cabeça, olho ao meu redor e não vejo nada, vou até o closet e tem apenas roupas. A escuridão consome o lugar e as velas tomam o lugar da luz natural. Pergunto para o meu pai quem está aqui, mas batidas fortes na porta nos atrapalha.
  A porta é aberta bruscamente. Joe aparece e balança um molho de chave na mão. Convida-nos para descer e comer. O prato principal de hoje será carne de porco, novamente. Mas antes, ele pede para que eu saia do quarto, pois, precisa conversar com o meu pai em particular, assunto de homem, ele diz. Desço as escadas e vou até à cozinha. Na mesa, a carne fede e está coberta de moscas, tento afastá-las, mas são muitas. Parece podre. Aperto o meu nariz com os dedos e saio de lá. Espero até que o meu pai e meu irmão desçam para que eu possa falar da impossibilidade de comermos carne estragada. Quando eles finalmente descem, passam por mim e vão até à mesa de jantar, ouço a cadeira ser arrastada e os talheres batendo no prato. Vou até lá e eles estão comendo, olho para o meu prato e a carne está intacta, bem assada e não parece podre. Olho ao redor e percebo que definitivamente algo está acontecendo comigo.
Dia 4
  A luz tremeluzente da vela se apaga. Acendo outra. Não vai demorar para que essa assim como as outras três se desmanche até virar cera. Logo será manhã e eu ainda não conseguir fechar os olhos um só instante. Não sei o que está acontecendo, mas há algo de errado na casa. Ontem fui até a caixa elétrica da casa e parece que alguém desligou o interruptor de toda a casa, não sei quem o fez, mas não temos vizinhos e nem arruaceiros nas proximidades. “Sem energia por tempo indeterminado”, Joe falara. Decido não contar para ele e nem para o meu pai, temos velas suficientes para cinco meses.
  No andar de cima escuto a voz abafada de Joe e de mais alguém, a qual não consigo reconhecer, parecem estar no quarto do meu pai, ainda do último degrau da escada, estico o pescoço para tentar ouvir algo, mas a porta se fecha em um estrondo. Assusto-me, mas decido subir mesmo assim. Não ouço mais as vozes, apenas um grunhido que se parece com o som da voz do meu pai. Eu acho que ele está tentando falar, mas algo o impede. Bato na porta. Joe! Joe! Grito o nome do meu irmão. Sem passos, sem nada. Ninguém está vindo abrir a porta. Forço a fechadura da porta, mas ela se abre rapidamente, fazendo-me cair de joelhos no chão.
 — Você precisa saber esperar — Joe fala e passa por mim. Na cama, vejo o rosto do meu pai enrugado dormindo. É, não tem ninguém aqui.
Lá fora a chuva castigava o jardim, as árvores balançam de forma ritmada de acordo com a direção do vento e os trovões soavam estrondosos. Pela única fresta da janela posso ver o que acontecia do lado de fora. Já era noite e as luzes da vela criava um ambiente sinistro na casa. A cabeça de um cervo empalhado e pendurado, agora parecia um monstro que toma forma uma horrenda e sombra se estende por toda a parede. Direciono novamente a minha atenção para a chuva, mas sinto algo envolver o meu pescoço, como se fossem duas mãos grandes estivessem enroscando-o e não querem mais soltar, tento inalar o ar, mas fica difícil, levanto-me e tento levar as minhas mãos até o pescoço, porém, algo me impede e continua a me sufocar. Uma baba grossa e vermelha começa a escorrer pela minha boca e cai no carpete. Esforço-me para gritar o nome de Joe, mas não consigo. Primeiro a minha visão fica turva e depois tudo apaga.
  Acordo ofegante. Pingos de água caem sobre o meu rosto que está molhado de suor, tem uma infiltração no teto do porão. Olho para o relógio na escrivaninha e ainda é noite, nada aconteceu foi apenas um pesadelo. Mesmo assim toco no meu pescoço e está dolorido, tento falar algo, mas a minha voz sai rouca, a minha garganta se contrai e sai um pouco de sangue pela minha boca, lembro do sonho e caminho até o local da casa, no qual ocorreu o meu suposto sonho. A cortina está um pouco afastada, deixando a luz da lua passar pelo vidro, vou até lá e a arrastado, fechando-a completamente. Olho para o carpete e noto uma mancha vermelha escura, abaixo-me e toco aquele borrão sujo, o sangue ainda está quente e viscoso. Algo tenta se aproximar de mim enquanto levanto, olho para trás e vejo uma sombra correndo e subindo as escadas. Sigo o vulto, ao chegar no andar superior, a coisa entra no quarto do meu pai, apresso-me a ir atrás, mas a porta já está fechada. Tento abrir a porta, mas algo pesado parece impedir até mesmo a maçaneta de girar. Ainda não consigo falar por causa da minha garganta, mas mesmo assim continuo a empurrar a madeira pesada na minha frente. Não obtenho um resultado, então decido tentar pela janela, mesmo que isso dê chance para o que quer que seja sair de lá.
  Olho para a janela em cima. É no segundo andar, então não é tão alto. A chuva já passou, mas o frio insiste em continuar. Subo pela construção de madeira que fica ao lado da janela, encontro dificuldade em apoiar os meus pés junto das plantas que envolvem a madeira. Mas preciso ser rápida. Não consigo enxergar lá dentro, as grossas cortinas tapam a minha visão. Arrasto o vidro para o lado, mas não é surpresa alguma que a janela esteja trancada pelo lado de dentro. Com o braço esquerdo me seguro no parapeito da janela e coloco o cotovelo direito na frente do me corpo, sem pensar muito jogo o braço na direção do vidro, uma fina rachadura se abre, forço mais uma vez e, finalmente, um buraco mediano rompe, posiciono a minha mão para dentro e encontro a fechadura, arrasto o ferro para o lado e a janela destrava.
 
  Coloco a última parte do meu corpo para dentro do quarto. No meu bolso esquerdo sinto o estilete friccionar. O quarto está escuro, a não ser pela luz trêmula da vela, e sem sinal de ninguém, o que é estranho, já que o meu pai deveria estar dormindo aqui. O mesmo odor que eu sentir pela primeira vez que entrei aqui surgi novamente. Sinto uma vontade incontrolável de vomitar e uma líquido espesso sai pela minha boca. As mesmas vozes que gritavam quando entrei aqui retornam, mas agora a frase é diferente "Estou aqui". Puxo o canivete do meu bolso e vou até o closet, deslizo a porta de uma vez e enxergo um corpo também sem cabeça pendurada no cabide. Olho para a cama e o meu pai não está lá. Eu preciso sair daqui. Corro até a janela, mas está trancada, e não abre, tento a porta, mas como esperado ela também não quer abrir. A vela intenta a apagar e uma silhueta aparece na parede, uma grande mão ameaça em vir em minha direção, jogo o meu corpo contra a porta, esperando que alguém ouça o barulho. Aquele membro grande agarra o meu pescoço e o brilho da luz se dissipa, a porta se abre e o meu corpo é jogado para frente e logo desmaio.
Dia 5
  Os meus olhos se abrem com dificuldade. Apalpo abaixo do meu corpo e percebo que estou na casa, na mesinha ao lado consigo ver uma xícara de chá e uma caixinha transparente com pílulas. O relógio aponta que já é tarde e logo mais a noite chegará. Devo ter dormido o dia todo. Sento na cama com dificuldade e apoio o meu corpo na parede, estico o meu braço e apanho a xícara que contém um líquido verde, levo o conteúdo até o nariz e tem um cheiro forte, mas não parece ser ruim.
 — Você vai se sentir melhor quando tomar com os comprimidos — Assusto-me com a voz que sai do canto escuro do quarto, é Joe, eu não o vi ali. — Eles irão vir te pegar a noite.
  Eles quem? Mas quando vou perguntar a porta do porão se fecha, ele se foi e me deixou aqui sozinha. Eu não posso mais ficar aqui. Derramo o chá no mesmo canto escuro do qual Joe saiu e jogo as pílulas debaixo da cama. Pego a minha mochila, mas está vazia, sem as peças de roupa que eu trouxe, está sem nada. Vou até o telefone que fica na mesinha de cabeceira, mas está mudo, preciso ligar o sistema de energia e restabelecer o sistema de telefonia. A porta se abre, volto para cama. Joe olha a mochila jogada no chão e me fita balançando a cabeça negativamente.
 — Você não vai precisar mais das suas roupas. Confie em mim. — É a última coisa que diz antes de sair apressado do quarto, deixando-me sem possibilidades para perguntas e respostas.
  Vejo o relógio e pelo horário sinalizado o sol deve estar se pondo. Apesar do receio de que a porta esteja trancada, subo as escadas e consigo abri-la sem dificuldades. Aqui em cima o silêncio é agonizante, caminho até a janela e puxo a cortina para o lado, diferente do que o relógio indicava, o sol não está se pondo, já anoiteceu e o céu está escuro, nem lua, nem estrelas. Alguém atrasou o meu relógio. Caminho até a porta dos fundos da casa, já do lado de fora vou até o interruptor e ligo todo o sistema, ainda assim as luzes da casa estão apagadas, conecto também a fiação do sistema de telefonia. Retorno para a casa, ainda com receio de que alguém me veja. Vou para o meu quarto e tranco a porta. Consigo ligar a luz. Retiro o telefone do suporte, e está funcionando normalmente, disco alguns números, mas o aparelho para de funcionar novamente. O meu corpo começa a tremer e sinto que vou desmaiar, tento dizer a mim mesma para ficar calma, porém só aumenta a sensação. Do alto da escada uma luz pálida escapa por debaixo da porta e uma sombra anda na frente do porão, desaparecendo depois. Ele já sabe que liguei o sistema.
  Tudo retorna a ficar escuro. Olho para a frente e a luz da vela também se apaga. O que faço agora? Olho para a porta do porão e decido correr, ainda que seja a minha última chance. Subo as escadas e abro a porta, mas antes de colocar os meus pés para fora da cômodo algo me faz tropeçar e caio na escada, o meu corpo colidi com o chão, tento me levantar, mas não consigo, julgo que quebrei algumas costelas. Na porta vejo a silhueta de uma pessoa descendo pelas escadas, esforço-me a levantar, mas sinto uma dor excruciante nas minhas costas, ainda assim consigo me arrastar para trás, mas a madeira da cama me impede de continuar, a coisa vem se aproximando de mim, mesmo com a escuridão eu consigo ver o par de olhos que me encaram, eles brilham de uma forma que eu nunca tinha visto. Do seu braço direito observo um objeto pontiagudo que também reluz no escuro. Antes que a coisa me acerte, dou um chute que parece ter sido no ar, pois, não sinto o impacto em nada, mas por um tempo a figura some da minha frente e eu não sei como, mas consigo me levantar e mesmo andando curvada alcanço a escada, subo mais rápido que posso e consigo sair do porão. Apoiando-me na parede chego até a porta de saída. A minha única e última chance, digo em meus pensamentos, a última oportunidade. Toco na maçaneta e a porta abre com dificuldade. O vento choca contra a minha face e a neblina cobre todo o jardim, dou uma última olhada para trás e resolvo tentar correr. No entanto, ao invés de o meu corpo ir para frente, eu o sinto sendo lançado para trás no ar e se chocando com a parede, escorregando lentamente até atingir o chão. Da minha garganta rasga um grunhido de dor, sem forças para me levantar, vejo as velas que estão colocadas nos candelabros se acenderem e na parede surgem sombras que se aproximam de mim, enquanto a porta a minha frente começa a ranger, de forma lenta e agoniante, fechando e atrás dela está o meu irmão. É tudo o que vejo antes das sombras se revelarem sobre mim.
 
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Atualizado em: Sex 3 Maio 2019

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