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Psicroalgia

HUMBERTO resolvera tomar coragem e ir contra os pais, ele queria ser climatologista, a única reação dos seus pais foi perguntar se ele realmente queria morrer de fome! A mãe disse que ele deveria pensar em Medicina ou Direito. Humberto estava resignado, disse não, foi para a faculdade de Metereologia e nunca mais os pais o viram. Humberto estudou quatro anos e concluiu com êxito.
    Para ganhar uma renda, ele começou a trabalhar como consultor de climatologia para emissoras de TV regionais. Mas nada daquilo foi suficiente para ele. Tinha uma teoria que gostaria de aplicar em termos de climatologia. Mas com suas escassas condições, ele não pôde evoluir com suas pesquisas. O dinheiro das consultorias não dava nem pra pagar o aluguel, menos ainda montar um laboratório.
    Poderia ter voltado para os seus pais e dizer que precisava de ajuda e que estava errado, mas Humberto não temia a tormenta. Pediu auxílio ao professor da faculdade e ganhou uma chance de lecionar. Como aluno ele tinha sido brilhante, para decepção do professor, lecionando o prodígio era um fracasso. Apesar de dominar a matéria como ninguém, Humberto não conseguia ensinar muito bem a matéria.
    A saída da faculdade foi mais uma geada na vida do cientista. Foi nessa mesma época que ele conheceu sua esposa e futura mãe de seus filhos. Com a única coisa que lhe restava, o nome de sua família, Humberto passou a trabalhar numa corretora de imóveis, e para sua felicidade numa área em que não decepcionaria: financeiro. A corretora de imóveis logo se apaixonou pelo sério e competente Humberto.
    Depois de meses de namoro, o climatologista foi morar no apartamento dela. Dividindo as despesas, a ideia de montar o seu próprio laboratório foi ficando esquecida por um longo período de tempo. A chegada dos filhos praticamente enterrou o sonho de continuar com suas pesquisas sobre o aquecimento global. O mundo estava mudando rápido demais para Humberto e ele se importava com o que estava acontecendo.
    Então um dia, sem querer, viu o anúncio de uma equipe de pesquisas de climatologia. A missão organizada pelo governo iria transportar o grupo de cientistas para a Antártica. A estação brasileira ficava em contêineres. O objetivo era descobrir sobre os fatores do degelo e suas consequências nos Oceanos Atlântico e Pacifico. A ida ocorreu após uma discussão com ameaças de divórcio pela sua esposa, que por fim cedeu.
    Humberto após ser admitido na equipe, foi mandado em um avião para a Patagônia. O cientista achou o lugar parecido com as descrições da mitologia nórdica sobre o mundo de gelo e fogo. E em pleno deserto ele viu pinguins. Realmente um lugar com fauna e flora tão impressionantes quanto a Floresta Amazônica. O climatologista não conseguiu conter as ondas de frio, para quem estava acostumado ao Nordeste, o frio doía muito.
    Depois de um mês de adaptação e quatro desistências, o navio partiu para a base científica na Antártica. O guia da equipe era um gaúcho de cinquenta anos chamado Heckman. O grisalho de Santa Catarina, acostumado com as geadas na fazenda em que foi criado, vendo Humberto bater o queixo devido ao frio, resolveu esquentar o momento com uma piada típica dos moradores do Polo Sul.
     — Bah, se um urso mui grande encontrasse um desses pinguizinhos daqui, o que aconteceria com eles amigo?
     — N-nada — disse Humberto batendo os dentes. — No Pólo Sul não tem urso.
    Heckman bateu em suas costas e o levou para proa. O velho guia inspirou o ar frio nos pulmões e depois soltou. Logo depois ele pediu para Humberto fazer o mesmo.
    — Se eu fizer isso eu corro o risco de ficar resfriado — desculpou-se Humberto.
    — Bah chê, é como uma nebulização, para se costumar com o frio você tem que sentir frio.
    — Você está falando por que não nasceu sobre um sol de 40°!
    — Essa temperatura aqui é muito comum, mas abaixo de zero — sorriu Heckman.
    Os dois entraram de volta no navio. À noite, no quarto de Humberto, o metal da embarcação rangia sobre as baixas temperaturas, como um grito de socorro. A esposa ligava todas as noites para ele, o começo da conversa girava em torno de seu bem-estar, depois terminava com uma tremenda discussão. Quinze dias ausente do marido era muito tempo para ela, acostumada a agir como o homem da casa.
    Humberto tentava passar o máximo de tranquilidade para ela. O celular transmitia as chamadas diretamente pelo satélite do governo, então podia gastar todo tempo do mundo desculpando-se por não estar em casa dando apoio a ela, vendo os filhos crescer. Não se sentia um pai ou marido ruim, mas a cobrança da esposa o sufocava, parecia que de alguma forma ela estava contra os seus ideais científicos.
    Para ele, estudar o clima era como garantir um futuro melhor para os seus filhos. Como crianças eles não entenderiam o seu sacrifício, mas ela já era adulta e gostaria que pela primeira vez em sua vida alguém que amasse, lhe desse um ponto de confiança. Isso não veio a acontecer. Humberto sentia no frio medo e ao mesmo tempo liberdade.
   Quando o navio aportou, as botas se cravaram na neve como os caninos de um lobo na jugular de sua presa. Os contêineres davam uma sensação de frigorífico à base brasileira. Mas sem dúvidas para Humberto, aquela era a maior chance da sua vida. Chance essa que não podia ser desperdiçada por nenhum motivo. Nem mesmo sua família poderia atrapalhar suas intenções.
    A base brasileira chamada de Estação Comandante Ferraz ficava numa península do continente glacial, mais próximo da América do Sul, na Ilha Rei George. A primeira expedição brasileira a Antártida foi feita na década de 80 por um grupo de dezenas de cientistas. O continente é o menos habitado do planeta, por ter muito poucas condições de abrigar vida humana.
    Diferente de outros lugares como a Sibéria e o Alasca, a geleira eterna contém fauna e flora escassa. Pinguins, aves e insetos compõem o bioma litorâneo junto a uma vegetação semelhante à tundra, que chega a desaparecer nos períodos de frio intenso. Mas diferente do que as pessoas possam acreditar, as imensidões brancas constituem um belo cenário, tendo planaltos, montanhas e até vulcões.
    Num lugar em que a temperatura pode chegar a -90° C, mais de cinquenta bases científicas foram montadas sobre os cerca de 30 milhões de km3 de gelo acumulado. Seus habitantes se resumem a cientistas e pesquisadores das mais diversas áreas. Em 1959 foi assinado o Tratado da Antártida, no qual se aboliu as disputas de posse da terra. Mas o tratado só entrou em vigor no ano de 1961.
    Em 1991, foi assinado Tratado de Madri no qual 39 países, o Brasil incluso, proibiram a exploração territorial na Antártida por 50 anos. Entretanto, muito dos 26 países reivindicaram territórios, como a Argentina. Outros países a reclamar territórios “extra-oficialmente” foram à Noruega, Reino Unido, Argentina, Chile, Nova Zelândia, Austrália e França. Vários outros países montaram suas bases na Antártida.
    O Brasil aderiu ao Tratado da Antártida em 1975, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), foi criado em 1982, mas o governo não tinha o controle da missão, e o núcleo coordenador era formado por universidades, institutos, além de entidades públicas e privadas. A comissão, entretanto teve participação pelos ministérios da Marinha e Tecnologia. Quatro núcleos de pesquisas foram criados, ou refúgios.
    Além da Ilha Rei George, temos um nas Ilhas Elefantes, outro em Nelson e o navio de apoio oceanógrafo Ary Rongel. A Força Aérea Brasileira realiza sete voos de apoio levando aos cientistas equipamentos e viveres. Os 24 pesquisadores, erma divididos pelos quatro refúgios, dez militares comandavam as operações, estes últimos permaneciam na Antártida por doze meses.
    Humberto e Heckman aportaram na Ilha Rei George. Com permissão dos EUA, eles iriam coletar gelo na área central do continente. Essa técnica de coleta de gelo é um dos maiores instrumentos para estudar o clima. O gelo é um gravador natural da composição do clima, registrando milhões de anos de história climática. As diversas bolhas indicam a concentração de carbono.
    Partes por milhões (PPM) indicava que a concentração carbônica na atmosfera estava batendo recordes. Humberto iria participar com mais três cientistas e dois militares brasileiros. A viagem seria longa. Cortando o território antártico, eles iriam com motos de neve. Heckman estava animado para viajar até o Centro Antártico. Humberto sentia-se ameaçado com a viagem de alguma forma.
    — Tem alguma coisa que eu preciso saber sobre o frio lá fora? — perguntou Humberto a Heckman.
    — Qual a sua dúvida exatamente?
    — Bom, caso aconteça algum acidente, como retornaremos?
    — Estamos com GPS e celulares por satélite. Temos sinalizadores e muitas bases científicas estão agrupadas no entorno.
    — Tudo bem, mas e si acontecer alguma tempestade, sei lá!
    — Estamos no verão cientista, bah! É uma verdadeira Copacabana aqui. Gostaria de te pedir uma coisa, não retire sua viseira no frio.
    — Porque não posso? Como vou enxergar?
    — Os raios do Sol refletidos em seus olhos vão queimar a sua retina.
    Depois da conversa eles começaram a arrumar os equipamentos e as provisões para a viagem. Humberto deu a atender que já começava a odiar a comida enlatada. O velho militar retrucou que a única coisa que odiava na Antártida era a ausência de churrascarias. Humberto sorriu, Heckman parecia um cara legal e divertido. Desde o início dos trabalhos da base brasileira, ele estava lá e a cada dois anos ele voltava como voluntário.
    Heckman adorava tanto a Antártida que já tinha feito um tour pelo continente visitando as diversas bases: África do Sul, Alemanha, Bulgária, China, Coreia do Sul, Equador, Espanha, Rússia, Finlândia, Índia, Itália, Japão, Peru, Polônia, Suécia, Ucrânia, Uruguai e outras. O gaúcho tinha tanto vigor que participara uma vez da maratona antártica, mas como tinha exigido demais dele, abandonou nos primeiros dez quilômetros.
    A viagem seguiu bem até eles chegarem ao ponto de coleta, com as mudanças climáticas, uma nevasca podia ocorrer a qualquer momento. À noite, as estrelas do céu brilhavam com calor e rara beleza como se fosse uma nobre tapeçaria persa.
    O dia começou cedo. Depois de um rápido café da manhã, a broca começou a perfurar o gelo. O sistema muito semelhante aos poços artesianos feitos no Nordeste, com uma caçamba, eles retiravam camadas de gelo em cilindros que eram armazenados em grandes garrafas térmicas. Entretanto, quando chegaram a 1.500 m, invés de um cilindro de gelo, veio água pura.
    — Uê, cadê nosso picolé? — perguntou-se Heckman.
    Humberto bebeu um pouco da água. Depois exclamou:
    — É água doce!
    — Droga — disse Heckman. — Acertamos uma fonte natural de água, CORRAM!
    Não houve tempo para todos escaparem. O gelo rachou e uma cratera enorme se formou, os mais próximos eram Humberto e Heckman. O velho militar e o cientista ficaram numa pequena plataforma de gelo, que não aguentaria o peso dos dois por muito tempo. Os outros integrantes do grupo gritavam para que ambos pulassem, mas se um deles pulasse, o outro teria o gelo como catacumba.
    — Pule! — ordenou Heckman.
    — Não e você? — retrucou Humberto.
    — Se não pular, nós dois morremos.
    — Eu não vou sem...
    Humberto não pôde completar a frase. Ele foi empurrado com tanta força que conseguiu vencer seis metros de abertura da plataforma onde estava. Ele só teve tempo de se virar para trás e notar Heckman cair junto dos blocos de gelo. Mas diferente de outras pessoas nessa situação, ele não demonstrava desespero ou medo, ao contrário, estava sorrindo, pois ele sabia que debaixo do gelo, havia apenas água gelada.
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Atualizado em: Dom 23 Jun 2019

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