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O suicida de vida "perfeita"

Há muito tempo trabalho como cobrador de pedágios em uma ponte conectora de estados, sob a qual passa um rio de correnteza brutalmente forte, onde se reduzem as mais potentes maquinas de navegação aquática já criadas pelo homem a meros pedaços de madeira e ferro sem uso. Tenho 25 anos de idade e Pego um turno de seis horas, começando às 18:00 e encerrando às 00:00, um trabalho sem muito glamour, admito, e como se ainda não fosse suficientemente fundo, o poço decidiu aprofundar-se mais à terra, pois esta ponte se tornou conhecida por seus altos índices de suicídio, e agravando mais ainda minha situação, meu turno era o mais escolhido pelos suicidas para concretizarem seus planos. A cada três dias, o cemitério subaquático recebia um novo membro, “Um tolo a menos no mundo...é um progresso”, de pensamento frio e expressão imutável, nunca me preocupei com tais fracassados. Mas um dia, uma situação incomum tomou-me a atenção...
“Após chegar em meu posto de serviço, cerca de 17:48, quando já estava entrando em minha cabine para dar inicio a minhas atividades noturnas, avistei um carro que teria exigido certo valor aquisitivo para que seu dono pudesse obtê-lo, um “porsche 911 turbo cabriolet” (se não me falha a memória), estacionar ao lado da mureta esquerda da ponte, a qual ficava em posição contrária a minha cabine. Desse carro saiu um homem bem vestido, terno caro, relógio que mesmo com a já quase inexistente luz do sol, relutava em desistir de seu brilho amarelado e vivo, e estava também, com um celular envolto em sua mão esquerda, a mesma do quase vivo objeto brilhante agora pouco citado. Nem sequer fechou a porta do motorista, dirigiu-se à margem da ponte sem pressa, calmo como se estivesse fazendo uma coisa a qual planejara por meses, subiu a mureta, mas antes que pudesse completar tão horrendo ato, o chamei, deixando, por um momento de descuido, transparecer minha curiosidade:
- Minha ação lhe causa espanto, jovem rapaz? – dirigiu-se a mim assim que me aproximei um pouco mais. Sua expressão era de uma serenidade sem igual, era como se fosse uma “quase felicidade”, o que, sinceramente, encheu-me de espanto e estranheza.
- É claro senhor! – não pudera antes reconhecer a feição do homem porque quando virado a mim, seu rosto ficava em posição contrária ao sol, formando-se assim uma sombra que me impedia de ver com clareza a quem me dirigia, mas ao chegar um pouco mais perto do homem percebi que era meu chefe, um homem de incontáveis patrimônios, família bem estruturada e crente em Deus. Tais coisas despertaram de tal forma minha curiosidade, que já não era possível me conter – Não entendo... tens tudo o que um humano pode querer...e mesmo assim pensas em ferir-te a si mesmo?
- Um pensamento tão...tão...humano...pensar que pode adquirir a felicidade apenas pelo fato de ter dinheiro... sabe, garoto, minha vida inteira foi baseada nesse pequeno instrumento demoníaco dividido em cédulas, moedas, cheques e etc. e veja onde cheguei...Um homem de família estruturada tu disseste? Permita-me corrigir, o que estrutura minha família, da qual achei que fizessem parte também meus “amigos”, é o dinheiro garoto, sem ele não me resta nada, não consegui amar ou ser amado, meu tempo aqui nesta maldita terra foi estragado por pensar da mesma maneira de pessoas como você.
- Ainda é pouco motivo para fazerdes o que maquinas! Conheço à tu e à tua família, és crente em Deus, então por que fazes isso?
- O inferno, hoje, a meus olhos, me parece uma boa opção, rapaz. - e na outrora calma e sem preocupações face do individuo, escorriam pequenas quantidades de sua alma, molhando, aos poucos, o campo de batalha mais brutal entre tristeza e ilusão que eu já tivera oportunidade de ver. O homem adquirira uma postura deprimente, fazendo-me experimentar um sentimento que nunca havia me passado a alma antes...Piedade...
Percebendo que eu não tinha mais palavras, continuou:
- Sabe, garoto, quando a chuva cair, poucos ao seu lado irão estar...e menos ainda irão abrir a porta e te chamar... – por mais radical e depressivo que fosse esse pensamento, nada mais era que a realidade, a realidade de um mundo voltado a seu próprio “ego”, onde já não mais é possível se ouvir um “eu te amo” de uma forma sincera e sem quartas intenções... – há muito tempo já havia abandonado a esperança e trazido a tristeza em seu lugar, entretanto, nunca fui um homem de uma coragem admirável, assim sendo, demorei a tomar a decisão que agora tu presencias.
- sempre vai haver um jeito, basta achar... – foram a únicas palavras nas quais pude pensar, pois já estava no fim de minhas forças, e de minhas palavras também...
- Aceite um conselho de quem por muito já passou: sempre haverão dois caminhos, escolha com sábia conduta, pois um erro na decisão poderá lhe custar a vida, como me custou a minha. paz na ilusão ou tristeza na realidade. E por maiores que sejam seus atos em vida, nunca se vanglorie, pois perante a arrogância só lhe poderá ser concedida uma consequência: afastarás os que poderiam vir a ser as pessoas de sua maior e bem merecida confiança, pondo em seu lugar a espécie mais desprezível de humanos que pode existir, os falsos. Lembre-se sempre, garoto, virtude é só falta de conhecimento. – já não mais havia luz do sol, estávamos agora iluminados pela branca luz da lua cheia, pois os postes de luz ainda não haviam se ascendido, o que dava um tom ainda mais melancólico à situação. O homem subiu novamente na mureta.
Ele já estava decidido, e nada do que eu dissesse mudaria isso...- ouviu-se um som de algo se chocando com violência contra as aguas, e logo após, como era de se supor, sendo levado por sua extremamente violenta correnteza.”
Desde de aquele dia, meu coração amoleceu de tal forma, que já não podia ver alguém chorar sem compadecer-me junto a este. Tomei também uma decisão, que seria de tão grande relevância a mim quanto às outras pessoas que seriam afetadas por ela; decidi que ali, na “minha” ponte, ninguém mais poria fim a sua própria vida, porque eu seria a ultima esperança de tais pessoas, eu abriria a minha porta e chamaria para meu lado tanto quantos pudesse, eu seria para os suicidas o que ninguém foi...um amigo.
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Atualizado em: Qua 11 Out 2017
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