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Voo Noturno

Quando a menina acordou, no meio da madrugada, havia um esboço de sorriso no canto de sua boca. Abriu os olhos, mas a penumbra aconchegante do quarto fez com que voltasse a fechá-los. Dentro do peito, pulsante, um desejo infantil que todo adulto, ao menos uma vez ao longo da vida, já carregou também ao acordar: ela queria voltar a dormir e continuar a sonhar o sonho de onde ele parou.
            No sonho a menina podia voar! Sob esforço algum que não fosse a força de seu pensamento, seu corpo ignorava as leis da gravidade e subia leve, leve... até que as nuvens beijassem seu rosto.
            Voava não pela simples beleza do ato. O voo era fuga. Entre o ruído dos objetos jogados contra a parede do quarto ao lado, os frascos de perfume destruídos espalhando seus aromas e seus cacos pelo chão, ressoavam também os gritos nervosos e as lamentações chorosas. Barulho cortante, discussão de casal. A menina ferida não mais chorava: levantava-se da cama, caminhava com seus pés já mal tocando o chão. Abria a janela e se jogava.
            O peito desafogado na infinita calmaria do céu noturno. Roçava com a pontinha dos dedos a maciez das nuvens e, através do reflexo luminoso da alma no espelho dos olhos, a menina emprestava ainda mais brilho às estrelas.
            Era um sonho lindo que se dissolvera no alarde da briga enfurecida que mais uma vez ecoava do dormitório conjugal. Inquieta, ela rolou de um lado para o outro o seu corpo de chumbo na confusão das cobertas. A menina não conseguiu voltar a dormir.
            A mesma discussão pungente que alimentava o desejo de abrigo dentro do sonho, impedia o dormir e perturbava o sonhar. A realidade!
            Seus pés tocaram o chão frio, e, dessa vez, tinham o peso do mundo. O trocar de passos era lento. Abrindo a janela, a menina fitava a lua que ia alta, pálida e imponente no céu. Lágrimas desenhavam uma linha molhada e insistente na sua bochecha. O silêncio frio da noite lá fora contrastava com o barulho de dentro da casa.
             Entre silêncio e som, um sussurro que brotava dos lábios daquela criança. Secreta súplica que ela fazia para sua alva confidente. Lavadas pela luz de leite, as pálpebras começavam a pesar mais que os pés. A menina volta para a cama. Não mais o barulho. Era agora apenas o silêncio. Depois era o sono. Em seguida era o sonho. Por fim, o voo.
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Atualizado em: Qua 12 Jul 2017
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