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HERÓIS SEM MOLDURAS

Apesar de toda problemática, não se via noutro canto da cidade a disposição alegre daquela comunidade. Glauber era filho legitimo do lugar. Nasceu um ano após a ocupação do terreno, em 1994. Em apenas poucas horas, da noite para o dia, centenas de barracos surgiram num terreno ocioso na Zona Sul da cidade. Quem conhecia o local se espantou com a velocidade com que surgiram tantos casebres aglomerados no alto do morro, às margens da larga avenida. Para lá, rumaram pessoas de todos os cantos da metrópole. Limparam o mato, subiram as folhas de madeirite e ergueram os barracos cobertos com lonas pretas. Os apresentados proprietários do terreno entraram imediatamente com uma ação de reintegração de posse, que até hoje permanece em análise na justiça, sem resultado. Nos primeiros anos passaram todo tipo de perrengues: sem água, energia elétrica e outros serviços básicos. Vinte anos depois, já não havia construções caóticas com emaranhados complicados de cabos elétricos. E naquele domingo de sol, Glauber caminhava pelas ruas pavimentadas que lhe levariam para o centro comunitário, instalado nas dependências do prédio onde funciona o complexo escolar.

A praça no centro da comunidade estava animada naquela manhã ensolarada, com um monte de gente se divertindo. Na quadra, era disputada a final do campeonato local. Muitos se apinhavam nos alambrados laterais, outros se acomodavam na pequena arquibancada de cimento. Um pagode animava o lugar num canto da quadra. Ele saudou os que ali estavam e caminhou na direção de Luana que assistia à partida de um ponto mais distante. Luana também era filha da comunidade. Ela e Glauber cresceram enfrentando juntos todas as dificuldades estruturais mais evidentes do lugar. Cruzavam uma boa parte da cidade para frequentar a escola. Não foram apenas eles; uma grande parte de sua geração submeteu-se às condições precárias na dura realidade do conjunto de barracos. Agora coordenavam os projetos desenvolvidos no centro comunitário. Ele acariciou os cabelos dela, e seu coração bateu mais forte quando beijou seus lábios carinhosamente. Estavam noivos...

***
Mas nem tudo foram flores na ocupação do terreno. Na manhã seguinte, policiais militares chegaram ao local. Munidos de armas tentaram impedir a ação. Um dos policias realizou um disparo que atingiu o irmão de Luana, com 15 anos, na época. O jovem morreu no local. De acordo com o noticiário, o comando de policia alegou que os invasores atacaram os policiais que apenas se defenderam. Em nenhum momento demonstraram interesse em investigar o caso, apesar de não ter havido confronto. Sua família passou um longo período sentindo o duro golpe da realidade absurda e trágica.
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Atualizado em: Seg 7 Mar 2016

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