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Ada, a fada?

Ada era mulher rasteira mesmo quando empinada em alto salto.

Portava-se almejando ser dama, sem fama, só mesmo a do asfalto.

Loira, cabelos cacheados, virava-se ereta, mas seu ferrão espeta;

grunhia ao pobre marido, combalido, em que nada mais ereta.


Punha-se como a estender a mão rugosa para ser beijada, ditosa;

já passara dos oitenta, mas insistia em não ter mais de cinquenta.

Lúcida, pérfida, dessas que ao último suspiro se engasga raivosa;

humilhava o varão abatido em público, com ares de inocente viçosa.


Imaginava fazer qualquer coisa melhor como se fora malabares;

cheia de si, desfilava, sem limites, sua antiga, execrável petulância.

Sua experiência de boa jardinagem, da profundidade de um pires,

era alardeada aos quatro ventos por meio de sua pseudo-elegância.


Certo dia, surge espreitando-se, movida por impetuosa força do mal;

ruma ao jardim, tesoura de poda na mão e pensamentos de estrume;

protagoniza uma devastação nas trepadeiras, de foro certo, irracional;

aniquila o cultivado há anos e, imbecil, deixa seu rastro de perfume.


Ajeita-se, valente, na vassoura desfiada de fina piaçava

e, do alto, num único voleio, cai sobre o monte que fumegava.

Contorce-se como serpente peçonhenta, finalmente abatida,

pois lá jaz Ada, a bruxa que fora fada finamente transvestida.


A verruga com dois pelos, junto do nariz

foge, estarrecida, para longe da meretriz.

Ada nasceu fada, mas perdeu o efe num blefe!

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Atualizado em: Qui 25 Jul 2019

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