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MACACO MATRICULADO

I
De tudo eu já vi um pouco
Nesse mundo de meu Deus
Vi panela dá pipoco
Que a tampa se perdeu
Vi conversão de ateu
Coisa do “arco da velha”
Mas pus em pé minha orelha
Quando alguém veio informar
Que viu macaco falar
Isso é coisa sem parelha!
II
Disse-me certo sujeito
Que tem consideração
A quem eu devo respeito
Falou-me de antemão:
Me faça uma boa ação
Em nome da amizade!
Já rodei toda a cidade,
Gastei do sapato a sola
E não achei uma escola
Que faça essa caridade!
III
Perguntei com lealdade
Qual é a sua aflição?
Afirmou sua verdade
Com muita convicção
Disse: eu tô criando um cão
Dum macaco que ganhei
Num jogo que apostei
E me sobrou esse bicho
Mas ele tem por capricho
Falar às vezes, que eu sei.
IV
Eu disse: Ih! Me lasquei!
Vou ter que acreditar nessa?
Lá vem você outra vez
Com tua fala as avessas!
Querendo me pregar peça
Nessa de bicho falar?
Fui tentando me livrar
Mas já me vi no fuxico
Vi a sinuca de bico
Disse ele: vamos apostar?
V
Se você matricular
Meu macaco nessa escola
Se ele logo não falar
Eu lhe dou essa sacola
Toda cheinha de dólar
Notas verdes e cheiro novo
Que eu quero mostrar pro povo
Que esse bicho ler já, já!
Eu pensei: vou me lascar!
E prometi esse estorvo.
VI
Para atender ao pedido
Matriculei o macaco
Para não ser mal-ouvido
Enem me tornar velhaco
Com um tema no sovaco
Sem perder o rebolado
Não estava preparado
Disse assim: isso não cola
Um macaco na escola,
Vai dá o maior babado!
VII
Pensa que macaco é gente?
Você está enganado!
É um bicho renitente,
Mungangueiro, enfezado,
Pinturento, acanalhado,
Buliçoso, trapalhão
Fazedor de expressão
Das piores que não presta,
Acabadozim de festa
E criador de confusão.
VIII
Foram os dias num estouro
Já quase o fim da semana
Eu quase tirando o couro
Do comedor de banana
Num entra e não entra em cana
Para dá satisfação
Para uns pais metidos a cão
Perguntando por capricho
Quando vai tirar o bicho
Do centro de educação?
IX
Na quinta ou sexta nem lembro
Eu já meio abufelado
Querendo arrancar um membro
Daquele bicho safado
Eu me sentindo acuado
Sem ter mais razão pra dar
Eu chamei pra informar
E disse sem medo ao dono:
Lhe digo e não desabono
O bicho não vai falar!
X
Vou buscar o seu dinheiro!
Disse o dono cabisbaixo
Eu tomei um jeito ordeiro
Fiquei com cara de tacho
Quando entrou voando baixo
Dez meninos embalados
Eu olhei os condenados
Com cara de “ovo-gôro”
Me disseram um desaforo
Que o bicho tinha falado.
XI
Eu fiquei injuriado
Perguntei: Como foi isso?
Um moleque obstinado
Disse: vou lhe contar isso
E naquele reboliço
Eu fui ficando suado
Num "me deixa contar" danado
Dois berros bem alto eu dei
"Fala um de cada vez"!
"É quero bem explicado"!
XII
Começou o ilinhado:
O bicho entre os pirralhos
Gritou um coordenador
Quando tocou o chocalho:
“Cada macaco em seu galho”!
Um moleque obstinado
Correndo foi dando um brado:
Sai daí desse buraco!
Gritou de lá o macaco:
“Eu estou matriculado”!
XIII
Ali eu engoli seco
Aquela notícia triste
Me encolhi como um marreco
Pensando no que consiste
Desse: é de tudo existe!
Me sentindo encabulado
Pra manter meu nome honrado
Aguentei essa marola
Tendo que deixar na escola
O macaco matriculado.
XIV
Daquele dia pra cá
Eu fiquei com mais cuidado
Pra nunca mais noutra entrar
Me senti gato escaldado
Vivendo sempre armado
Já tomei essa medida
Disse até o fim da vida
Se alguém disser: isso fala!
Tu diz que fala ou não fala?
Digo “o diabo é quem duvida”!
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Atualizado em: Qui 11 Out 2018
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