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As coisas findas

No meio das coisas que tem fim alguma coisa ficará?
Caminhamos entre pessoas e palavras para sentir
Sentimos toques, cheiros e sons
Na estrada cheia de pedregulhos ficam as árvores
Na esquina suja o campinho de terra
O menino com a bola embaixo do braço carrega o eterno
Na praia infestada o cachorro pula ondas como se fosse gente
Nas gavetas antigas do meu guarda-roupa a naftalina se gasta
Na cozinha sebenta as baratas estão ali há milênios
Somos surdos às coisas que ficam
Na minha carteira o cartão do plano de saúde desgastado pelo tempo
Enxergamos fungos em microscópios mas não vermos as calçadas cheias de gente
Gente andando
Gente pedindo
Gente vendendo
Gente se vendendo
Estamos cegos como se olhássemos uma luz muito forte
Não vemos o sol, a lua nem as estrelas
Mas temos computadores e celulares como se lêssemos o mundo
Nossos códigos criam uma linguagem indecifrável
Estamos analfabetos de nós mesmos
A fruta ficará
A árvore ficará
O vulcão, a montanha, os lagos, rios, mares e oceanos ficarão
E o último homem segurando uma flor murcha ficará
Os carros serão nosso estranho legado ao mundo
Os satélites descobridores de galáxias
Os chips sob as nossas peles enrugadas nos guiarão
O homem pisou na lua para nos ensinar a nova etapa da colonização
Próxima parada: Marte
O planeta do vermelho confundira-se com expressões políticas
Estamos perdidos entre bandeiras, satélites e chips
Para alguns a ficção científica é ter água na torneira
Para outros ônibus espacial
Para os sonhadores: a arte
As fagulhas das experiências científicas não chegaram na nossa boca nem nas nossas mão sedentas
Só chegam migalhas e imagens difusas
Ainda enxugo o meu corpo com a mesma toalha da infância
Ainda abraço com os mesmos braços que procuravam minha mãe na tristeza
Beijo com a mesma boca que comia acerola azeda do quintal dos meus pais
Mas agora temos tabletes, androides, micro-ondas, 4k, TV Led e máquina de lavar turbo
Nos forçaram a viver entre o brilho das telas e a arrogância dos tecnicistas
E não temos força para dizer não
O que ficará disso tudo? O que ficará de mim nisso tudo?
Pessoas muito mais inteligentes que eu estão nascendo
Mas elas ainda se espantarão com Proust, Kafka e Carolina de Jesus
Porque isso prova a nossa humanidade estranha, difusa e poderosa
Os humanos provam a humanidade no café da manhã
Para depois saborear botões aleatórios
Temos botões para tudo
Até para amar apertamos para alcançar o outro
Para convencer
Para justificar
Para celebrar
Para duvidar
Para pacificar
Para brutalizar
Aprimoramos nosso gesto e criamos um novo fundamento carnal.
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Atualizado em: Sáb 18 Ago 2018

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