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Recordações - Velho Brasil Boiadeiro.

Bom dia meus amigos, o tempo esfriou, as costas estão meio doloridas. As mãos que antes seguravam rédeas, manuseavam laços, pegavam bois pelas guampas e cavalo redomão pelas orelhas, hoje estão meio "intanguidas", "encarangadas", travando! É a tal da idade que vai chegando…
Mãos essas que também foram habilidosas em acariciar um belo corpo macio, cheio de curvas e reentrâncias. Peles morenas, negras ou alvas. Cabelos lisos, crespos ou encaracolados… Dos mais diversos locais, espalhados de maneira caprichosa, pelas vastidões dos campos férteis que só as mulheres possuem.
Hoje vou contar o causo de como foi que o índio Miguelito veio a trabalhar para o meu pai. E se tornou um grande amigo e uma espécie de anjo da guarda. 
Aquela boa alma, foi mais que um companheiro de viagens em campanhas. Levando boiadas e buscando. 
Era um belo sábado ensolarado nas terras do velho Mato Grosso. 
Voltando de uma campanha com sua comitiva, meu velho avô contava com a ajuda de meu pai, tio, e outros 3 peões.
Voltavam da compra de uma boiada nas regiões do pantanal do Rio Negro, lá pras bandas da Nhecolândia.
O ano era 1965, e como tudo naquela época, os dias passavam lentos para meus amados familiares. 
Meu velho avô, estava em maré de aquisição de gado, e como vivia mais no lombo dos burros, que com os pés no chão de suas terras, volta e meia chegava aos seus ouvidos uma proposta de negócio. 
E assim, partiu com a comitiva na busca dos pantaneiros bravios. Me contavam que a coisa não era fácil naqueles tempos. Haviam muitos perigos nessas empreitadas, e o sujeito tinha que ser de opinião, ou, vendia tudo e montava um Secos e Molhados em alguma das muitas vilinhas que se espalhavam como capim, às margens das linhas férreas que serpenteavam rasgando o mapa do nosso amado Estado de São Paulo. 
Mas quem nasceu pro caco do arreio, fincar raiz (financeira) em comércio de porta aberta, em beira de rua, era o fim da picada. Coisa pra velho ou doente das juntas.
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Atravessaram no Porto Epitácio, entrando pelas terras do Bataguassu, seguindo para Passo do Lontra, pras bandas do Corumbá velho, bem lá pra cima no mapa das geografias (assim falava meu avô).
Para aquele tipo de campanha, meu velho avô andava preparado pro que desse e viesse. Carregava uma soma grande em dinheiro, espalhados pela guaiaca e capanga de viagem (tipo de bolsa pequena de couro). Eram as notas do Santos Dumont de 10 mil Cruzeiros. Para pagar pelos bois e para algumas despesas dos marchantes. Diziam que naquela época, o preço do boi havia sofrido uma queda. Então, meu avô, muito vivo, cobres sobrando, foi aumentar seu rebanho, para aguardar uma melhora nos preços, sem muita pressa. 
Armas sempre azeitadas. Revólveres, rifles winchester 44 - 13 tiros, facas, facões e punhais afiados igual língua de sogra. As munições de reserva, viajavam fixadas nos cinturões, e outras mais (muitas) em uma bolsa de couro cheia de arroz (para evitar umidade nas espoletas). 
Segundo o gaiato do meu tio, fosse o caso, fariam uma festa de final de ano sem rojão, só com balas que iam nos sobressalentes.
Naquela empreitada, o velho levou um carroção. Pois o ano estava pra chuva, e ele não tinha pressa no ir, tampouco no vir. Na carroçona levava uns panos de acampar (encerados), cordas, paus, ferramentas diversas, água pros cantis, matulas dos peões, roupas, botinas, munições… tudo zelado com muita atenção por um mulatão cozinheiro, o seu Zico, pai do mulato Simão, que anos depois, virou cozinheiro do meu pai.
Me contavam que o preto velho Zico era mandingueiro, neto de escravos, sabia muito das coisas dos sertões. E tinha uma mão abençoada para temperar as comidas. (Talento que foi herdado por seu filho Simão, e tive a sorte de poder comprovar)
As 5 mulas cargueiras que iam atreladas na carroça, levavam em seus lombos as bruacas carregadas com todo tipo de mantimentos necessários para as os marchantes. 
Arroz, feijão, carne de charque (preferência pelos traseiros), cebola, muito alho, banha de porco e carne na lata, farinha de mandioca biju tostadinha, café, açúcar cristal, rapaduras, pingas, conhaque ,muitas palhas cortadas e fumo bem meladinho, daqueles que se sentia vontade de naquear e comer um pedaço, querosene pras lamparinas...
As montarias eram bem zeladas, tratadas com esmero, afinal, os cascos eram os meios de transporte naquela época esquecida de nossa história. 
Meu avô tinha um carinho especial por uma égua castanha que utilizava como madrinha de tropa. A castanha ia sem arreios, e ostentava em seu pescoço um polaco (sino de pescoço) de alpaca, todo trabalhado em desenhos de flores. Era fixado por uma tala de couro curtido em vaqueta, bem sovado e macio, e fivela em formato de folha. Era para não pisar (esfolar) o pescoço da "mocinha castanha". Assim me contaram da forma como meu avô se referia a sua égua castanha, mestra e madrinha de tropas.
Acredito que muitos que lêem meus causos desconhecem alguns termos utilizados pelos boiadeiros e tropeiros. 
No caso da égua madrinha, ela serve como guia para os burros e mulas. Uma vez que burro e mula, é um híbrido do cruzamento de um asinino (jumento) com um eguideo (eguá). Dessa maravilha da genética animal, muito explorada no passado por nós, viajantes e estradeiros, nascem os muares. As famosas mulas e burros. Animais formidáveis, quase incansáveis, chegando a cobrir, em marcha, o dobro de léguas ou mais que um cavalo ou égua!
Assim sendo, onde a égua madrinha ia, a burrada e mulada seguiam atrás, zurrando e murchando as longas orelhas, trocando mordidas e coices, enciumados da madrinha, que toda elegante, troteava despreocupada, balançando o polaco que de longe se ouvia o seu "blém blém blém".
Ahh que saudade!!!!
Já as tralhas de montaria eram um capricho só. Hoje se tem aquele esmero com os carros, aparelhagens de som estéreo e os tais gps, rodas em ligas metálicas e pneus finos e achatados, igual barriga de jacaré.
Naqueles tempos esquecidos, um bom cavaleiro levava a tralha engraxada e limpa. Se utilizava óleo de mocotó para lubrificar as partes de couro das tralhas de arreio. As argolas, que tinham função de juntas e quinas nos courames das cabeçadas e burçais, eram de alpaca, sempre escovadas para tirar o azinhavre causado pelo suor salino dos animais.
Nos arreios de cabeça, geralmente se usava uma chapa na frente, todo entalhado com botões de rosa e cabeças de cavalos. Era uma formosura. Uns mais abastados de guaiaca cheia, por capricho, revestiam suas tralhas com ouro e prata. 
Aquilo sim era ostentação.
Estribos salva-vidas, daqueles que o peão se safava com vida, em caso de uma rodada (tombo). 
Os laços de couro, quase sempre em duplas, pois os velhos boiadeiros sempre diziam: - quem carrega dois laços, vai seguro. 
Estes eram tratados com resinas de folhagens. A preferida dos laçadores era a guanxuma branca. Essa abençoada erva deixava os tentos de couro do laço bem lubrificados, macios e flexíveis. Conferindo uma aparência esverdeada ao utensílio do cavaleiro laçador. Por essa semelhança com uma rama do mato, apelidaram em tempos idos, as tais manufaturas sertanejas, de cipó.
Naqueles tempos, se enfeitavam bestas e cavalos, mas hoje, os bestas se enfeitam com correntões de ouro e vestimentas dos debaixos deixando as ceroulas aparecendo, demonstrando um total desmazelo em sua apresentação, e por vezes, seus imundos regos nadegais estão de fora. 
É uma tragédia!!!
Ostentação na nossa época, era um calhamaço de notas de Flor de Abóbora (um mil cruzeiros) na guaiaca, bois espalhados pelas invernadas, pastando e berrando. 
Fartura na mesa. Muita linguiça defumando perto dos picumãs do telhado logo acima do fogão à lenha. Uma horta de canteiros bem adubados, terra negra, onde os alfaces cresciam a ponto de uma criança sozinha não dar conta de carregar, de tão frondosa. Almeirões, berinjelas, cenouras, pepinos, tomates (os caríssimos cerejas de hoje em dia, eram pragas), rúcula, abóboras, morangos, espinafre, abacaxis, couve (todas)...
Pomar com laranjeiras frondosas, mexeriqueiras, limoeiros, goiabeiras, mangueiras, jaqueiras, cajueiros, caramboleiras, coqueiros, mamoeiros, pitangueiras…
Ribeirão potável, infestado dos sagrados peixes, das mais diversas qualidades.
Poço caipira com lâmina de 5 ou 6 metros de água abundante, fresca e límpida.
Paiol de milho lotado, que de tão entupido, se colocava fueiros (tábuas) de contenção nas portas, até o alto. Capados rolando de gordos nas cevas do chiqueiro, leitoas parideiras, que a cada parto, eram de 12 a 18 leitões que nasciam sadios. 
Quando se matava um capão ou mais, as gorduras eram fritas em tachos, e a carne guardada nas latas. Durava pra mais de dois anos estando bem selada.
Freezer com as carnes de um boi dentro.
Galinha, cheguei a ver chocando 20 ovos. Era aquele bando de aves que ciscavam pelo terreiro. Era bonito de se ver, quando ia se jogar o milho. Juntava pra mais de 500/600 cabeças, de galo a pintinhos.
Lembro-me, que certa vez, minha mãe se desfez de uma grande parte das galinhas. Pois eram muitas, e não se dava conta de comer aquilo tudo de ovo e asa frita. Sei que juntou dinheiro que dava para comprar um cavalo bom, raçudo. 
Sem contar as bondades que minha amada mãezinha fazia, sem alarde, distribuindo leite, queijo, doces, ovos e galinhas às famílias de alguns colonos de fazendas vizinhas. Tudo na moita. Mas todos nós sabíamos dessas atitudes da italianinha.
Doces de goiaba, manga, carambola, licores de jabuticaba e geleias...as cocadas cremosas, caldeirões de 18 litros com doce de leite apurando em fogo brando, queijos e requeijões… pães doces e salgados, salames, linguiças...
Aquilo pra nós, os caipiras ignorantes, sem educação, sem classe… era o luxo ostentado. Isso e a barriga cheia. Mãos calejadas igual uma casca de jatobazeiro, e as cadernetas das contas nos armazéns, lojas agropecuárias e posto de gasolina, PAGOS!
Hoje o povo come bexiguinha de mortadela miuda, e arrota o melhor dos filés. Vivem pendurados nos cartões de crédito, pagando juros que o próprio satanás calculou, parcelando roupas e sapatos em 8,10,12,18 meses, "sem juros"... Óbvio. Quando terminam de pagar a bíblia sagrada, nem existem mais, os tais objetos de suas vaidades.
Como diria meu velho amigo meu, quando algum garçom perguntava a ele se queria efetuar o pagamento em cartão de crédito, por conta do valor das despesas:
-Meu fio, pagá no prazo um trem que vô cagá daqui a pôco… é pra doido isso!
E batia a mão na algibeira e pagava tudo à vista. 
Aprendi da seguinte forma, que se a coisa não dá para o café com mistura, coma rapadura, afinal, tudo que é doce, é bom!
Enfim, aquela era a nossa forma de viver… barriga cheia e rosto feliz. Era a nossa "ostentação".

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No caminho de ida, meu avô e sua comitiva passaram por Campo Grande, Terenos, Cachoeirão, Piraputanga, Aquidauana… era tudo picada e boiadeiras sem fim.
Assim me contaram, em uma das milhares de histórias e causos, que me hipnotizava, fazendo minha jovem mente viajar para longe. 
Meu avô comprou 505 reses, era uma boa boiada. Todos tourinhos em ponto de canivete (castração). Alguns com 36 meses de vida, outros um pouco mais erados. 
O nelore ainda não dominava o cenário do mercado pecuarista no Brasil, eram poucos que criavam os boizões brancos vindos lá da longínqua Índia. Uma terra que se sabia existir,  por ouvir de algum dos caixeiros Salins Nagib's viajados, ou dos leitores de almanaques, que a tal terra indiana era infestada de uns tipos de gatões listrados, que colocavam a temida onça pintada na carreira sem olhar para trás, era o tal de tigre... Assim diziam!
E comentavam: se o tal nelore nasce, cresce e se reproduz em um lugar cheio desses bichos, como não será o temperamento de tal bovino. 
A boiadeirada ficava receosa. O que se sabia,era que nos tempos do 1800 e guaraná com rolha, nas épocas do Dom Pedro II, havia chegado um casal desses nelores na Bahia, depois subiu pra Capital do Império no Rio de Janeiro, das fazendas fluminenses, foram parar nas distantes Minas Gerais e terras Paulistas. Mas a coisa só ferveu mesmo, a partir dos anos 60. Quando a nelorada começou a branquear as invernadas das milhares de fazendas pelos sertões sem fim desse Brasil lindo.
Mas naquela ocasião, meu avô comprou gado cruzado. Eram basicamente curraleiros, alguns gir e caracus. Mas a maioria era de Pantaneiros, os famosos e temidos bois "Cuiabanos". Tudo colorido. Pelagens das mais variadas cores. Malhados, pintados, chuviscados (mouros), lisos, tostados e brazinos (os araçás). Longos chifres pontudos, afiados igual agulha negra de sacaria. Eram animais sismaticos, muito desconfiados, também, pudera!
Tudo onça braba, cria dos invernistas do bravio chão matogrossense. Aqueles bois, desde o rompimento da placenta, lutavam contra toda sorte de perigos, que só o velho Mato Grosso poderia lhes oferecer. Onças (das pintadas grandes, às pardas), sucuris imensas com mais de 6 ou 7 metros, que se encontravam igualmente capim pelas beiradas das muitas lagoas de águas esverdeadas, corixos, corgos e rios. Esses últimos, sempre infestados  com piranhas vermelhas e jacarés do papo amarelo (dos grandes açús, só mais acima, pro norte). Quando não, algum bugre querendo sentir o gosto de uma "caça" diferente, atirava suas flechas certeiras no guampudo, que era carneado e virava refeição em alguma oca perdida no meio daquelas matas altas de um verde escuro magnífico.
Aquilo era o Mato Grosso, com sua tendência natural pecuarista, em seus primórdios!
Saíram da fazenda com o gado pago, e recibo assinado no bolso. Meu avô ia na culatra da boiada. Meu tio ia de ponteiro repicando o berrante, meu pai como afiador, ajeitando e alinhando o gado na rotina do estradão. 
Faltava um ano para meu pai conhecer minha mãe, e o bicho era danado. Ele e meu tio não perdiam a oportunidade de se deitar com uma moça de vida fácil, e sempre que possível, amarravam os cavalos na frente de alguma zoninha, assim, aliviando as tensões e desejos carnais fervilhantes, de seus instintos mais primitivos. Queriam sentir um corpo macio de mulher !!!
Meus velhos nunca me contaram, mas segundo relatos, meu avô não participava dessas incursões pecaminosas em casas de vadiagens. Porém, o velho, meu avô, visitava um sem tanto de comadres e viúvas lá pras bandas da Dracena e terras dos Junqueiras, a Junqueirópolis.
Como de costume, o fazendeiro alertou meu avô para se alertar com dois bois que seguiam com a manada. Era um preto com uma pinta branca nas ventas, e um brazinão com uma das guampas quebrada. Eram dois capetas. Tanto que marchavam no meio da boiada, sozinhos, com os demais mantendo distância segura de suas raivas e ódios, remoídos e distribuídos em guapassos mortais. Era um perigo.
Meu pai dizia que foi uma das viagens mais tensas que fez na sua vida de buscar-e-levar bois.
Meu tio, sempre lambão, despreocupado, não estava nem aí pra paçoca. 
Sentado no lombo do burrão, repicava o berrante a todo instante, sempre alegre, olhar esperto e a qualquer sinal de coisa estranha, bambeava o 38 no coldre da guaiaca e baixava o chapeuzão na testa, de modo a esconder seus grandes "faróis" azuis.
Pouco mais de semana que vinham balanceando os cuiabanos, lá pras bandas da Bodoquena, descendo pras terras de Miranda, meu tio encontrou com um cozinheiro de outra comitiva, e foi alertado que estariam topando com outra boiada em algumas poucas horas. Eram momentos tensos aqueles.
Já que o berrante repicou na corneta de alerta, deixando todos de orelha em pé. O cozinheiro da outra comitiva se espremeu no meio dos pantaneiros e quando rompeu na culatra, avisou meu avô para ficarem espertos, pois de lá, vinha gado de primeiras soltas (sem costume de estrada), e a coisa vinha "bagunçada".
Meu avô mandou um peão manter o ritmo dos bois no coice (os que iam sempre atrás, mais lerdos), e riscando sua mula nas esporas, foi ter com meu tio lá na guia da boiada.
A conversa foi curta, e por ser caminho batido por eles, aqueles chãos, seguiram por mais meia légua, e logo estavam em frente a uma fazendona grande, que segundo os velhos, havia um grande corredor que levava à sede e curralama do lugar. 
Assim que chegaram em passo um pouco mais acelerado, meu pai foi à galope pedir para falar com um dos chefes da fazenda, para pedir permissão de encostar a boiada no corredor boiadeiro das invernadas. 
Não gastou 20 minutos, e já que meu pai chegou com notícias da permissão concedida. 
Meu tio já repicou a buzina (berrante) em alerta de rebatida, meu pai cercou o corredor do estradão, um peão que chaveava pelos meios da manada se adiantou com meu tio, e foram empurrando os marrucos (bois erados) porteira adentro. 
Era um corredor largo, cabia umas 2000 cabeças de uma vez, com folga. 
Assim que os últimos bois quebraram a esquerda e subiram troteando calmos pelo areião, meu pai recuou rédeas e ficou tampando a boca do corredor. 
Meu tio, avô e pai ficaram na beira do estradão esperando passar a gadaria arisca. 
Demorou uma meia hora, e logo ouviram um som que vinha ecoando de lá dos longes. Era o ponteiro da outra comitiva que repicava sem parar a buzina. Aquilo só acontecia quando o gado estava arisco. 
Quando se conseguiu enxergar a cor do lenço do peão ponteiro, meu tio devolveu acordes em toque de corneta. A boiada do meu avô, pressentindo outra boiada se agitou, mas por sorte, os mourões de aroeira, ficandos de 1 em 1 metro, aguentaram bem o repuxo com os cuiabanos, que seguiriam para terras bandeirantes.
Assim que o ponteiro veio se aproximando, acenou chapéu e veio encostando:
-Aoo paulistada, lá vem onça e vem quente nas brasa… agradecido por vânceis alimpá o corredor pra nois meus irmãos. Topêmo vosso cozinheiro, um mulatão forte indo de carroça, puxando uma mulada cargueira… o preto avisô que vancêis invinha trazêno uns pantaneiro la das banda do rio Negro… 
Meu avô respondeu ao moreno que vinha na guia daquela comitiva:
-Apôis moço, sorte nois num topá antes...nois tá com os boi na rotina mansa já, mai tem dois malino no meio, que ia dá trabaio querêno intrevera (misturar) nos bois d'ocêis…ia de sê estorô na certa. Deus Pai acudiu nois (todos retiravam o chapéu e se benziam com sinal da cruz) , e os homi dexô nois encosta nessa entrada da fazenda.
O rapaz antes de seguir com a viagem finalizou fazendo outro alerta:
-Oia seus moço, nois vai travessá mili boi (mil cabeças) que vem du Aquidauana, tamo na rotina c'oesses bicho a mai de semana corrida, e tão cá peste...custêmo arranca dos pau baixo (pasto sujo, com muitos paus caídos no meio das moitas e ramas) os turuna (tipos de boi), dois fico pá trais de arribada (bois que fugiram, rês desgarrada), e tem dois peão que tão de arribadô pra dexá nas corda as onça… adispois o patrão vê que faiz! Até mai vê meu povo...Que o São Sebastião vai c'ocêis, e a Santa Bárbara segura os aguacêro lá em riba…
E saiu repicando o berrante no baixão estradeiro, acelerando o passo dos bois que ficavam querendo olhar para seus irmãos de espécie que meu avô havia comprado em preço justo e pago à vista.
Segundo meu pai, tirando o simpático ponteiro da comitiva, que geralmente eram homens alegres e de boa convivência (tiro por mim que fui ponteiro), o restante era de cara amarrada, tipo de jagunço, povo mal humorado. 
Meu tio que não deixava por menos, já sacou o revólver e ficou rodando no dedo fazendo graça, mostrando aos maus encarados que se quisessem topar confusão, fariam fumaça sair do cano furado. 
Meu avô teve que mandar meu tio, rapagão sem juízo, parar com aquela demonstração de poderio bélico, evitando alguma rusga sem necessidade. 
Meu pai só observava, não dizia nada, mas pelo que me contavam, brabo mesmo era meu pai, mesmo demonstrando calma e tranquilidade nos olhos. 
Do meio para o fim, aquela outra boiada ia mais calma, alguns bois passavam berrando e olhando para eles, como se pedindo para ir embora para terras paulistas. Coisas de boi.
Contaram 12 peões naquela comitiva, coisa meio sem propósito, uma vez que ainda tinham dois de arribada atrás dos bois fugidos. Então eram 14 peões para 1000 bois! Se admiraram.
Meu avô, velho de trecho e sabido nas coisas da vida, matou o mistério.
A maioria não era peão, e sim, jagunços contratados pelo boiadeiro que havia mandado buscar o gado. Podia ser algum acerto de contas, ou desacerto...e naquela época a coisa era daquele jeito naquelas bandas de um Brasil sem leis. Ninguém perdia tempo com bacharéis das leis faladores com seus cabelos ensebados, gravatas pretas e pastinha de couro embaixo do braço. A coisa era resolvida na bala!
Estava esclarecido o mistério dos tais peões mal encarados e armados até os dentes, parecendo bandoleiros. E eram!
Esperaram uma meia hora, e assim que olharam os culatreiros daquela comitiva pelas costas, meu avô ordenou meu pai ir ligeiro agradecer as gentes daquela fazenda pelo ajutório ofertado a eles. 
Assim que viu meu pai rompendo pras bandas da sede, ordenou meu tio repicar o berrante e dar a solta na boiada. 
Como de costume, rodaram o gado, tiraram a égua castanha madrinha no corredor, e logo que meu tio saiu repicando o berrante pelo estradão, os pantaneiros foram saindo calmos, ao contrário dos burros e mulas, que faltavam se matar para chegar no rabo da madrinha. Coisas de tropas!
E seguiram viagem com meu pai e avô na culatra da boiada, meu tio na guia com mais um peão, gado calmo, passos lentos, como tinha que ser uma viagem. Mas nem sempre era assim meus amigos e amigas. Nem sempre!!!
E foram seguindo viagem, o sol já ia alto, quase meio dia. Agora falo por mim. Nessas horas que o sujeito tinha que ter fibra de aço. A sede apertava, a água estava choca de quente no cantil. Mas tinha que cobrir légua em légua, sempre atento com tudo. Boi, se você descuidar, toma ponteira da guia e adeus Mariana!
Foram topar o velho Zico preto, cozinheiro de mãos cheias, era pra base das 15:00 hs. O Zico era lampino (ligeiro) nos condimentos à base das pimentas que só ele sabia preparar. Rindo, sempre brincalhão, dizia: Segredos dos cativeiros!
Ele era neto de escravos, o Zico.
Contavam que o Zico havia chegado na região trabalhando como braçal da companhia de linhas férreas. Depois descobriram seus talentos para as panelas, e o negro nunca mais assentou dormente. Serviço pesado, para caboclo braçudo e sacudido na marreta. Havia ido para São Paulo, vindo de Minas Gerais logo após a revolução de 1932. Da capital paulista, foi contratado para trabalhar na expansão das malhas ferroviárias do Estado Paulista. Contava o tal Zico, quando estavam sentados em volta da fogueira, que, quando era menino, na fazenda onde nasceu e viveu até os 15 anos, na zona da Mata mineira, ficava doido para montar no lombo de um burro e conhecer terras. Em tais momentos, ele presenteava a todos com um sorrisão dos mais largos, mostrando a brancura dos seus dentes, e falava todo orgulhoso:
-Nêgo tamém gosta de batê perna pros mundo, uai.
E o tal Zico foi se embrenhando cada vez mais para o oeste, até parar na beira do rio Paraná. Naquela época, não faltava serviço para um bom cozinheiro nas incontáveis comitivas, que rasgavam caminho com os cascos de suas tropas e boiadas. Em uma dessas, firmou contrato e amizade com meu avô, e viajaram juntos por mais de 15 anos. As vezes, levava seu filho, o Simão, passando as manhas e ensinando os segredos dos atalhos das boiadeiras paulistas, matogrossenses, goianas, mineiras e paranaenses. 
Boiadeiras essas, cheias de histórias pra contar, hoje, chamadas rodovias, pavimentadas em negro asfalto, sinalizadas e enfeitadas de tal forma, que nem de longe lembram aqueles velhos corredores boiadeiros. Corredores esses, onde a maleita (malária), cobras venenosas, onças, lobisomens e mal assombros nas encruzilhadas, estouros de boiadas e tocaias, escreveram a história, por vezes esquecida, dos nossos heróis sem medalhas, chamados no glorioso passado, de BOIADEIROS.
Eram momentos de alegria que meu pai guardava em suas memórias, assim como eu guardo as minhas e tantas outras. 
Assim que encostaram a boiada perto de uma aguada onde o Zico fez o pouso, pelo adiantado da hora, resolveram encerrar a viagem, pois ainda teriam que atravessar um rio no outro dia. O caudaloso rio Miranda e sua precária ponte de madeira.
Durante os descansos do antes da janta, o Zico comentou com meu avô o quanto eram suspeitos aqueles peões mal encarados da comitiva que havia passado por eles. Meu avô o inquiriu sobre os dois peões que estavam na arribada atrás de dois bois. O Zico não soube responder.
Meus heróis descansavam com um olho aberto e outro fechado, aquela cisma do gado estourar, ou alguma onça pular em algum dos bois. Eram noites como aquela que meu pai e tio dormiam sentados, um de costas para o outro. Carabinas nas mãos, e sempre alertas com tudo. 
Por sorte, naquela noite, as onças pressentindo haver coisa mais perigosa que elas, não se atreveram a perturbar a boiada do meu avô. 
As histórias eram das mais horripilantes. E contavam que quando bandos, isso mesmo, bandos de onças famintas atacavam uma boiada no pouso, era um Deus nos acuda. Mesmo que hoje saibamos, por advento dos canais de documentários, que os felinos onças são territoriais, e costumam se encontrar só para os momentos dos cios reprodutivos. 
Mas nos tempos em que até lobisomem dava cria para aquelas bandas, as onças sentindo a coisa fácil, atacavam sem misericórdia as comitivas. Meu tio contava, que uma vez, lá pras bandas do Barra do Garças, viu um peão que fora atacado por uma dessas panteras. O homem estava com o pescoço em tiras, e o feltro do chapéu estava enterrado no couro cabeludo por conta da força da unhada, que o gatão pintando deu na cabeça do finado. Era peão de comitiva. 
São histórias que ninguém conta mais. Mas eu sei o que os pioneiros sofreram para levar o alimento para as mesas daqueles, que morando nas cidades, viviam caçoando e os chamando de atrasados, grosseirões, chucros, rudes, povo sem modos. 
Meu compadre Dr. Wagner (Guinão) pode contar o que a italianada da família dele enfrentou, tirando toras de matas fechadas com auxílio de bois carreiros, enfrentando o diabo nas febres e nas bocas das onças, surucucús pico de jaca, cascavéis, jararacas, jararacusus, corais e urutus. Dos encantamentos das matas, nem falo então. Quantos se viram perdidos, vagando dias e dias sem rumo no meio das frondosas árvores que subiam aos céus como edifícios silvestres.
Mas diante de tudo isso, homens como aqueles, corajosos pioneiros, bandeirantes modernos do século XX, os quais me orgulho em saber que tenho o mesmo sangue, não se deixavam abater. Diante dos perigos, chumbo na moita, de muitos calibres, em quantidade bastante!
No romper da alvorada, meu pai se lembrava muito daquele dia. Anhumas faziam uma sinfonia bonita e triste, muitas garças brancas voavam, os pica-paus e bentevis estavam serelepes, pegando besouros e importunando abelhas. Diziam os antigos, que, quando os pica-paus ficavam naquele assanhamento, era chuva certa. 
Meu avô, por alguma superstição ou sei lá o que, pediu para o velho Zico acompanhar a comitiva de perto por aqueles dias. Não se alongar muito não. 
O Zico obedeceu meu avô, e saiu uns 10 minutos na frente, e o encontraram antes de atravessarem para Miranda.
A boiada ia tranquila, atravessaram sem problemas. Os velhos contavam que era momento de muita atenção, e muitos morreram durante travessias em pontes. Não havia guarda-corpo como nas pontes de hoje em dia. Se peão desviava atenção, podia ser empurrado com sua montaria e uns tantos bois, para dentro d'água. E de lá, ninguém nunca mais ouviria falar do pobre coitado. 
Caminharam no passo lento da tropa, meu tio, habilidoso, ainda moço, mas muito decidido, ia acalmando os bois, brincando e cantarolando alguma moda, mas sempre tocando o berrante, sempre.
O Zico ia com a carroça e as mulas cargueiras a distância de 500 metros da comitiva, e em determinado ponto, meu pai e tio perceberam que ele havia parado. Meu tio já repicou o berrante na corneta, deixando todos em atenção. 
Conforme se aproximavam de um capão de mato aberto, sem cercas de arame ou madeira, meu tio pediu com um toque no berrante, mais um peão na frente, para conter os bois, e não deixar se embrenharem no sujo (mato de capoeira fechada), segurando a dianteira.
O velho Zico estava em pé na carroça olhando para o mato, para o tio e meu pai:
-Tem uns peão falano aí dentro da capoeira...iscuita ismininu! 
Meu pai pediu para meu tio esperar ali com a boiada, que ele ia ver o que estava acontecendo.
Adiantou a montaria, passou adiante do Zico, que pedia para ele tomar cuidado. O velho cozinheiro era de paz, só mexia com as panelas,  mas naquela hora, estava com o cabo do 38 para fora da camisa e uma papo amarelo 44 carregada nas mãos.
Meu pai me contou que ao se aproximar do mato, ouviu um homem falando em tom de súplica, voz fraca, como se tivesse machucado. 
A folhagem das moitas encobriam a visão de quem passava por aquele local, e naquele momento, meu pai sentiu um arrepio na espinha, e um revirar na boca do estômago, como que pressentindo alguma coisa ruim prestes a acontecer. E estava acontecendo! 
Meu velho com a agilidade da casa dos 20 anos, saltou do burro, entregou as rédeas pro Zico segurar, pegou a carabina, soltou a trava do coldre, engatilhou uma munição na papo amarelo e foi entrando devagar, meio abaixado, e depois rastejando, coisa que aprendeu quando fora servir o Exército. 
Segundo ele, deve ter rastejado uns 10 metros, quando avistou um peão caído embaixo de um burro, e ao que tudo indicava, o animal estava morto. 
 Levantou-se devagar, e ficou escorado em um pé de gabiroba, e então pode assuntar tudo quando estava acontecendo. Era o peão da comitiva que encontraram no dia anterior!
Havia um outro peão mais afastado, que não se parecia nada com peão boiadeiro, pois estava com aquelas roupas e capa de jagunço.
Meu pai aguçou os ouvidos e pela conversa, soube que o peãozinho franzino que estava preso debaixo do burro tinha laçado um dos bois arribados e o deixara preso mais para dentro do mato, e o outro, que parecia ser jagunço, queria matar, carnear e vender os bois para algum açougueiro. Era venda certa, e com o dinheiro, o sujeito cairia no mundo.
Meu pai ouviu o bugre magrelo preso debaixo do burro morto resmungar que aquilo era errado, o patrão ia ficar sabendo e se não mandasse prender, os mataria por aquela desavença desrespeitosa. Uma vez que aquele gado era objeto de disputa por um acerto mal feito, entre o patrão e o antigo dono da boiada.
O tal jagunço pegou o rebenque (tipo de chicote) e bateu no bugrinho magro, mostrando crueldade, e falou que o mataria, assim como matou o burro. Que ele era um índio safado, merecia ficar ali, e virar comida de lagarto e urubu.
O sujeito dos diabos levou a mão no revólver, meu pai saltou da moita igual uma onça, apontou a carabina pra cabeça dele e advertiu o malfeitor:
-Se triscar a mão no revólver, minha cara é a última coisa que vai ver na puta da tua vida, seu vagabundo… 
Meu velho, que ainda era moço e cheio de vitalidade, igual um puro sangue, mandou ele tirar o revólver bem devagar e não dar nem um peido, do contrário, ficaria ali morto, junto com o burro que ele matou na mais pura maldade.
O homem teve juízo e obedeceu meu pai, que ao sentir segurança em dar um passo, gritou por meu tio e pelo Zico. Mas nem precisava, pois meu tio e o Zico, estavam acabando de chegar igual duas esteiras D9 no meio da capoeira. 
Meu tio perguntou espantado,vendo o bugre debaixo do burro morto, e meu pai escorando outro, ainda vivo, mas na mira do rifle:
-Que diabo é isso meu irmão?
Quando meu pai contou, meio por cima, o que estava acontecendo, o velho Zico, ex marreteiro assentador de pinos de dormentes em linha férrea, com aquele bração grosso e mãos igual uma pata de onça, deu um soco tão forte na cabeça do jagunço, que o homem desmontou por cima dos calcanhares, e caiu igual uma jaca madura. Meu pai achou que o homem tinha morrido, e foi cutucar ele. 
O velho negro Zico, com olhar sério, disse que só tinha colocado ele pra dormir, que coisa ruim não morre matada de mão limpa: -Não sinhô!
Meu pai, o tio e o velho Zico foram acudir o peãozinho magrelo. Que estava preso com as argolas dos loros e estribos esmagando suas canelinhas finas. 
Meu tio e o Zico, tal qual duas pás carregadeiras, pegaram o pobre burro baleado na testa pelas pernas e torceram o bicho pelo lado contrário, possibilitando meu pai agarrar o índio pelas axilas e arrastá-lo para fora daquela cilada. 
O índio estava meio zonzo, e demonstrando muito nervosismo, falava tudo embolado, pouquíssimas coisas em português, tudo no dialeto guarany.
Já o Zico pegou ele no colo, igual um boneco, e foi saindo com ele carregado, pelos meios da capoeira, até alcançarem a estrada, onde estava a carroça. 
Meu avô havia deixado dois peões na culatra e outro na ponteira, e estava aflito com a demora deles. Quando viu meu pai, e o Zico carregando o índio no colo, queria saber do que se tratava.
Meu pai contou às pressas para meu avô a situação, logo o velho deu falta do meu tio. 
Agora foi meu avô que apeou da montaria e foi correndo atrás do maluco do meu tio. 
E quando chegou no local onde o burro estava morto, viu meu tio levantando o sujeito, que mal se firmava nos calcanhares, e soltando um murrão na cara do sujeito, que rodopiou e caiu igual um saco de batatas no chão.
Meu avô segurou ele e mandou largar mão daquilo, mas meu tio estava furioso pela covardia do jagunço maldoso.
O vô acalmou meu tio, e sugeriu manear (amarrar as mãos) o sujeito e tirar ele no limpo do trecho. 
E assim que o malvado recobrou os sentidos, com os dois olhos inchados das pancadas e botinadas desferidas pelos delicados 44 bico largo que o tio calçava nas patas traseiras, foi amarrado com maestria em nó de porco (um tipo de laçada em que se faz um 8 dobrado na corda, e quanto mais se tenta escapar, mais o nó aperta).
E de onde estavam, meu tio levou o jagunço de arrasto. Meu pai falava que meu tio parecia uma mulona xinxadeira, das derradeiras mesmo! O rapaz era bruto igual um arado de meia tomba.
Nesse meio tempo, o bondoso Zico deu água para o peão índio, um pouco de paçoca de carne seca com farinha, café, mas o que ele mais queria, era a rapadura. O coitado do índio parece que nunca tinha comido doce na vida.
E ficaram uma hora parados naquela beira de boiadeira, que hoje deve ser asfaltada, e quase ninguém mais deve contar causos daquela época em que o Mato Grosso era um só, onde as onças eram rainhas das matas altas de um verdume absurdo, as sucuris cresciam e engordavam com dietas à base de jacarés e capivaras roliças.
O peão índio, estando mais calmo, de barriga cheia, esboçando um sorrisinho com aquele rostinho estreito, cabelos lisinhos, e olhos apertados, parecendo até um japonês, alisou e apalpou a perna machucada, e olhando pro meu pai, seu salvador falou:
-Má tá doeeendo essa perna..êh...má tô beeeem bão já êh…
E sorrindo pediu se alguém podia emprestar uma palha e um fumo, que ele estava doido pra pitar.
O Zico velho, deu um risão daqueles que só ele tinha no mundo, passou a mão na cabeça do bugre, e enquanto foi pegar os apetrechos de fumar, falou todo alegre:
-Eita índio, que num fosse o nêgo Zico tê as oreia boa, ocê ia tá avuano no bico do urubu inda hoje mêmu… hoje mêmu, sim sinhô!
O índio falou alguma coisa que meu pai e os demais não entenderam, olhou pro céu, ergueu as mãos, depois deu umas batidas no peito, chamou meu pai e assim que meu velho se achegou nele, o bugre tirou seu chapéu e alisou seus cabelos, erguendo as mãos e alisando seus cabelos. A única palavra que souberam entender da língua engraçada e enrolada que o índio falava, era TUPÃ!
O Zico havia feito um cigarrão igual um charuto pro bugre, que assim que acendeu, fez fumaça e dançou, pulou da carroça que nem parecia ter sofrido um acidente. 
Dançou na frente dos bois, do meu avô, do meu pai, tio e do Zico.
Só perdeu a alegria quando parou na frente do jagunço que o teria matado, caso o Zico não tivesse cismado com alguma coisa no mato, e meu pai não fosse tão lampino em uma lida de espreita e emboscada, bem ao modo dos soldados das infantarias do Exército.
Ergueu a cara toda inchada do malfeitor, e falou umas coisas estranhas, rosnando e dando sibilos igual aos das cobras.
E cuspiu no chão e soltou muita fumaça na cara do sujeito.
Voltou-se para a comitiva do meu avô e pediu para soltarem o homem no mato. Bem ali mesmo. E sorriu malicioso. 
Foi até a carroça, pediu licença, pegou mais um naco de rapadura e foi perguntando se a comitiva precisava de mais um peão.
Meu avô olhou pro meu pai, que olhou pro tio, que olhou pro Zico… e por uma unanimidade, estampada nos olhos de todos os presentes, ele acabava de ser contratado!
Meu avô perguntou se aquele burro morto era dele, e o índio disse que só as tralhas eram.
Já veio a ordem do velho, que ficou segurando o jagunço e mandou meu pai e tio buscar os arreios do índio.
Não gastaram 10 minutos, e já voltavam com as tralhas todas e o revólver do matador. 
Meu tio foi entregar o 38 para o índio, mas esse torceu a cara, mandou tacar no meio do mato, e lá deixar os crimes que aquela arma maldita tinha cometido.
Então, tudo certo, índio ajustado na comitiva do meu avô, o bugre pediu para soltarem o homem. 
Meu avô receoso revistou o sujeito, e encontrou um punhal dentro do cano das longas botas. Esta também foi atirada bem longe no meio do mato. 
E assim que soltaram o sujeito, ele saiu correndo para dentro do mato, e o índio sorria, todo satisfeito e falava:
-É já que elas pegam ele..é jáh…
E riu muito mascando um torrão de rapadura.
Quiseram saber quem eram "elas" que pegariam o jagunço, e como resposta, o bugre magrelo fez um movimento com as mãos, iguais às de uma cobra serpenteando.
Também disse que havia deixado um dos bois arribados amarrado mais pra dentro do mato. E riu ainda mais quando contou que o jagunço não encontraria nunca mais o seu burro. Não ia dar tempo!
Meu pai disse que se arrepiou na hora.
Então, meu avô perguntou se ele estava bem para montar, ou se preferia ir na carroça aquele dia. 
O índio olhou pro saco de rapadura, sorriu igual criança e disse:
-Atcho que vô beeeem aqui mêmu mio patrón…
Todos riram demais da tara do bugre pela rapadura!
Meu tio ainda estava de ouvido no mato, mas já ia longe o homem, que enfeitiçado pelo bugre, corria como se fosse perseguido pelo próprio diabo.
Todos montaram, meu avô ia se encaminhando para a culatra dos cuiabanos pantaneiros, quando de súbito esbarrou a montaria e perguntou:
-Ôh índio, me desculpa a falta de educação, mais com essa baruiada toda, nem perguntei a vossa graça, e com tuda certeza, num há de sê índio!
O bugre guarany, fazendo cara de moleque malino sorriu, abriu a boca mascando a rapadura e respondeu ficando em pé e reverenciando a todos:
-Ôh mio patrón e todos os xamiiigo aqui… me llamo Miguel, más...llamame Miguelito…y soy bueno atando y domesticando (sou bom no laço e na doma).
Aquele foi um momento de muita alegria para todos que participaram daquele aventura.
Meu avô acenou com a mão, deu a ordem, meu tio foi repicando o berrante, o Zico tocou a carroça adiante, já que a madrinha castanha foi pegando lado na estrada, e lá do alto da carroça, o recém resgatado da morte certa Miguelito, ia dando aqueles gritos, que os que ouviram, nunca se esqueceram:
-Yuuuááá...Yiiipi...Yiiipi...Ai Ai Ai Ai Ai…
Índio Miguelito, "un buen amigo" como ele mesmo diria. Nasci e cresci e fui salvo muitas vezes pelo misterioso Miguelito! 
Um homem bom, Índio Guarany, peão boiadeiro, laçador e domador, curandeiro e um comedor de rapaduras e cocadas cremosas, que igual ele nunca teve! Acho que nem nos estrangeiros.
Mais duas semanas de viagem, e chegaram em terras de Campo Grande. O índio Miguelito ia feliz, contou que não tinha família nem paradeiro, e seguiria com eles para onde fossem. Era como uma folha ou tal. Onde o vento soprava, lá ia o índio Miguelito, de peito aberto, sem medo de nada, ou quase nada!
E assim foi mostrando seus talentos com os animais, bom laçador, e muito simpático. 
O defeito do índio, era o despreparo em assuntos de rabos de saia. 
Meu avô pousou a boiada em uma das muitas chácaras que haviam no trecho que trazia boiadas à Campo Grande, e liberou a peonada para uma fornicação em cama de moças. 
Pagou todos, e deu um extra pro índio se divertir. Era merecido. Bom peão, alegre, responsável e muito esforçado. E havia escapado das garras da morte por pouco.
Meu heróis carregaram o índio que os havia cativado. Meu pai e tio, faltaram se mijar de tanto rir, lembrando da cara dele, quando entraram em uma das muitas zonas que existiam naquelas épocas esquecidas do velho Mato Grosso.
Meu pai se enrabichou com uma morena, meu tio com uma paraguaia, o Miguelito ficou só olhando sem graça, mas por insistência dos dois, pegou uma gordinha. O índio gostava de mulher mais carnuda! 
Ele ria e dizia, que de magra, bastavam suas canelas e costelas. E olha que o bicho comia igual uma lima nova! 
Depois de uma hora de saliência, meu pai e tio estavam bebendo uma cerveja, enquanto esperavam o Zico e o Miguelito.
Já que o bugre apareceu todo amolecido pela gineteada com a moça cheia de curvas volumosas. 
O Miguel não era de beber, e só aceitou um meio copo de cerveja, e quando ia pedir um pouco de bebida falava mostrando com os dedos magros:
-Só um gulinhu..um tiquito anssim óh!
E enquanto fumavam e aguardavam despreocupados, logo a coisa virou piada e risos dentro da casa de safadezas.
A jovem quenguinha que foi aliviar as tensões do velho Zico Marreta, chegou apressada no salão, segurava e comprimia o abdômen com as mãos, com a cara aflita, e foi se queixar com a cafetina, que bebia e fumava bem ao lado de onde estava meu pai, tio e Miguelito:
-Nunca mais...nêgo féla da puta…quase me mata...aquilo não é um pinto, é um toco preto queimado…aquilo é um JUMEEEENTO!!!
E ficou a lamentar-se pelas estocadas violentas que o velho e bem dotado Zico Preto lhe infringiu.
Meu tio muito gaiato, antes de cair na gargalhada, cutucou o Miguelito e disse com a maior cara de rapariga:
-O Miguelito, vai de novo na carroça do Zico...vai besta… Ele tá cevando ocê na rapadura, igual galinha no milho… vai sentado do lado dele…vai denovo!
Nisso aparece o Zicão preto atrás do Miguelito, que sem saber que falavam dele, colocou a mão de maneira inocente e amistosa no ombro do índio. 
Esse quando sentiu aquela mão pesada sobre seu ombro magricela, olhou e se deparou com os 1:85 do velho Zico, arregalou os olhos puxados,  soltou um grito e arrancou do lugar, colando sua bundinha magrela no balcão do bar:
-no no no mi amigo…
Riram de quase rolar no chão! 
Apelaram por muitos dias com o Miguelito, e sempre que paravam para almoçar ou jantar, o Zico batia no banco da carroça e falava:
-Senta aqui com o Zico Preto,índio Miguelito...nois é amigo ô nun é, uai?!
E todos riam demais de tudo aquilo, até o próprio Miguelito. 
E cresci ouvindo essas e tantas outras histórias dos meus velhos e amados entes queridos.
Relatando esse causo, sem as habituais safadezas, confesso a vocês que ri e chorei. Mais chorei do que ri!
Esses eram meus amados familiares, meus amigos. Todos queridos, muito amados, que carrego no coração.
Assim era aquele Brasil, quando o Mato Grosso era um só, o Goiás alcançava as divisas do Pará e do Maranhão, as onças rosnavam assustando os boiadeiros, lobisomens existiam e assombravam viajantes nas sextas-feiras de lua clara, as muitas cobras se misturavam as folhas pelos chãos das matas altas de um verdume absurdo de tão lindas.
E vindos lá de longe, os sons dos polacos em pescoços cansados das madrinheiras, e um habilidoso ponteiro de comitiva, fazia o som do seu berrante manhoso encantar a tudo e todos naqueles sertões. 
Bicho e gente!
                                   🐂     🐎
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Atualizado em: Seg 12 Abr 2021

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