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Cigana

Eu cheguei e a primeira a me receber foi a terra, o chão silente me convidando para descalça perceber a fluidez da matéria, o riso fino do grão daquela que me guiou até aqui, esse momento. 
Eu caminhei, senti os ares preencherem meus pulmões com uma luz torrencial cheirando a flor, era um perfume tão antigo e conhecido de lenha ardendo, águas seguindo e da memória que veio a mim.. se revelou.
Eu vi dourado, como fogo que transcende a chama e reluz em sol pelos olhos da cigana.. E eram vermelhos os lábios que cantarolavam num rodopiar de rio, refazendo o tinto que brota da boca de uma memória rouca, que aos poucos volto a ouvir. Então senti as gotas de um orvalho encantado em saliva, cantarolando umas rimas por ela, a cigana.
Sim, foi iniciada a dança. 
Rosa vermelha e um amor tão bem amado, o fim de um ciclo e o prelúdio de um novo amor enluarado, elemento terra norteando a gira da vida, o encanto da rima, o delicado gesto da cigana que, eu confesso, ainda brinda em minha retina.
Já nem me lembro qual canção foi a seguinte, talvez a dança com o xale e o brinde ao fogo transformador.
Eu senti... Eu senti distâncias, revi lembranças, mergulhei em profundidades indizíveis... Contemplei amplidões e fui então arrebatada numa gira estelar que ainda vibra nos três reinos de minha natureza, entre acordes e palavras que, em esperança, encheu meu peito de um tempo ido, um tempo este, e todo aquele que virá... Percebi, com isso, a simplicidade do improviso, a verdade que eclode em semente viva do elemento amor que flue em veias, que alimentam o meu coração. 
O que eu mais lembro é o gosto da canção que me tomou os ouvidos, os olhos, a boca.. é, eu lembro dos movimentos... aqueles mesmos em reflexo, no varal do céu, refaz entre os instantes as paisagens do mundo... Houve sol no chão, estrelas em terra, cometas e planetas em sinergia plena de um carrossel infindo... Era a fogueira a arder em brasa, eram os balanços das saias e o trovar de mãos que transbordavam o que batia ritmado no coração do mundo que povoa todo ser vivo.  
Eu bem lembro e, de olhos abertos, eu renovo aquele balanço que só tua saia, cigana, entorna em meu peito, me encanta.
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Atualizado em: Dom 22 Mar 2020

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