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Noir

As luzes não são mais filamentos de tungstênio incandescente ou ampolas fantasmagóricas acesas. As telas voltam ao seu estado enegrecido e opaco. Os fios são apenas pedaços alegóricos de cobre vestidos de tubos de borracha. Sombras se unem às luzes da lua enquanto dançam pela parede.

 

O rosto não tem mais formas. O escuro da silhueta desaparece em pequenos pontos onde a luz se faz presente. Ainda assim não há rostos, torsos e corpos. Apenas uma simbiose de claros e escuros que o espelho não deixa a mente definir. Um flash. E o que era corpo se desvela para a mente, assim que o último ronco do trovão traga todo o negrume de volta.

 

As portas são só retângulos desenhados em carvão e luz no chão. Madeira e ausência do claro importam mais que estar aberta ou fechada. Janelas são apenas outro paradoxo entre o mundo escuro da casa sem luz e o céu noturno cheio de um clarão invisível pela poluição luminosa de outros dias.

 

Claro e escuro. Vida e morte da vida. Interruptores ligados, mas enfraquecidos pela falta da energia que os aviva com um clique. Camas tomam espaço dos espaços onde se anda. Se as pás que movem navios parassem, imóveis seriam como as que não mais refrescam a pele.

 

Tudo é silêncio, pois som não mais há. Tudo é escuro, pois a luz já se foi. Seria noite se ainda assim fosse dia. E as sombras dançam enquanto os corpos vagam tristes. Calam-se a vida, as caixas de som, as telas e as lâmpadas. Cala-se o desejo de permanecer acordado, paradoxalmente atiçando a vontade pelo outro escuro: o das pálpebras que fecham e precedem o sonho.

 

A vida se mede em volts, watts e joules. A noite se enxerga em pupilas abertas, céus amarronzados, ainda que límpidos, e luzes parcas do flash, do LED ou da lua. O palco da vida é a cama, esperando que ela respire de novo nos abajures.

 

E ela respira. As sombras se escondem em tons ainda mais claros de cinza. O rosto apenas se decora de espaços sem luz, ganhando mais que formas, seus traços. A vida sai das camas para o chão, os pés tomam das costas os rumos do fim da noite. O céu volta ao confortável tom negro, com lágrimas que brilham sua luz quase eterna.

 

Tudo enquanto os fios de cobre aquecem suas roupas de borracha e os filamentos de tungstênio voltam a queimar como o sol ou as ampolas florescem fluorescentes o seu azul fantasma. A vida segue no idioma dos interruptores, bastando que a energia ressoe em um simples clique.

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Atualizado em: Qui 29 Mar 2012

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