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HARRY POTTER E O “CALE-SE” DOS HIPÓCRITAS!

Memórias de um leitor do século XX
*Por Antônio F. Bispo
   Esta semana, no dia 26 de Junho de 2023 completará 26 anos que a primeira edição em livro de Harry Potter fora lançada.
  Era o ano de 1997 e na ocasião eu tinha apenas 15 anos de idade.
  As escolas de datilografia estavam em declínio e eu estava à fazer meu primeiro curso de informática que duraria quase 2 anos. O local do meu aprendizado ficava em outra cidade à cerca de 30km de onde eu morava.  
   Bem próximo do local ficava uma suntuosa BANCA DE REVISTAS.
   Numa esquina movimentada, embaixo de uma árvore quase centenária, na praça principal da cidade de Estância-SE ficava um dos motivos de minha “perdição” quando adolescente e ainda muito depois quando adulto.
   “Perdia” ali toda Quarta-Feira os 20 minutos de intervalo do curso, folheando revistas, contemplado livros, apreciando grandes autores e desejando possuir (ainda que remotamente) os best sellers ou lançamentos do momento.
    O livro de J. K. Rowling era a bola da vez.
   A história do menino bruxo de apenas 11 anos e sua trupe que enfrentavam a fúria “daquele que não podia ser nomeado”, fazia um sucesso estrondoso na maior parte do globo.
   Eu desejava aquele objeto assim como tantos outros livros ali expostos. Gostava principalmente das publicações sobre astronomia, arqueologia, antropologia e ciências sociais.
   Como diziam nossos “superiores da fé”, ali estava era um produto amaldiçoado, inspirado pelo próprio demônio e portanto devíamos manter distância de publicações com aquelas.
   Como penitencia, recitar inúmeras vezes o Salmos 119:37 era o mínimo que poderíamos fazer em situações como aquela, para que a glória ou o Espírito de Deus não se esvaísse de nós, mediante nossa “má conduta”.
   Com a idade de 13 anos eu já tinha um emprego fixo e aos 14 tinha de carteira assinada. Algo comum àqueles dias à menores de 18 anos.
   Parte do meu salário era gasto com investimentos pessoais a exemplos de cursos presenciais ou treinamentos à distância usando fita cassete, VHS, apostilhas, etc.
   Eu também era assinante da revista superinteressante e de alguns periódicos regionais.
   Na ocasião era evangélico e o acesso ao mundo exterior fora dos círculos religiosos era praticamente proibido caso você fosse uma pessoa comum, vivendo em uma cidade com menos de 20 mil habitantes.
   Sob tais circunstancias, informa-se por conta própria fora das bolhas políticas ou religiosas era um ato claro de anarquia. Era preciso agir de modo silencioso e em certos casos fingir demência para não despertar a fúria e a sandice dos “abilolados de Cristo”.
   Eu era uma anarquista na visão de alguns.
   Aos membros de uma igreja tudo era restrito ou precisava ser indicado ou aprovado por aqueles que ser diziam ser nossos guias espirituais.
   Em todas igrejas havia caluniadores, delatores, inquisidores e voyeurs voluntários, que em troca de cargos na congregação, acusavam falsamente de crime até a própria mãe se necessário fosse.
   Aparelhos de TVs, além de serem extremamente caros, tê-los em casa era um sinal evidente de possessão demoníaca.
   Além disso, tal posse delatava um certo símbolo de poder, de pertencer a um certo nicho social mais elevado e muitos queriam correr o risco, apesar da pecha e da repressão.
    Se o possuidor fosse um dizimista fiel, esse “pecado” era ocultado ou visto sob outra perspectiva. Caso contrário, este seria alvo de duras críticas, perseguições e comparações absurdas, vindas inclusive até da “ralé santa”, que por inveja ou falta de condição de ter o mesmo produto, sentiam-se felizes atacando quem as tinham.
    Os crentes comuns, nem em filas de bancos ou de consultórios médicos deveriam fitar seus olhos naquele “instrumento do diabo”. Caso o fizessem, seriam literalmente torturados numa ocasião oportuna.
    Geralmente os Cultos de Sexta-Feira, os chamados “Cultos de Doutrina”, eram as ocasiões em que os lixamentos morais ocorriam de forma livre nas igrejas pentecostais com o apoio de todos os hipócritas ou submissos às lideranças. O que ocorria na casa ou no trabalho dos crentes, “Deus revelava” ao seu ungido para que este por sua vez “educasse os crentes nos caminhos santos”.
   “Era o dia em que o mais covarde entre todos os homens do planeta exercia a sua autoridade espiritual para denegrir, humilhar, perseguir ou extorquir publicamente suas vítimas com o apoio do próprio Deus”.
    Um descalabro!
    Boa parte destes (os pastores) por sua vez, na maioria dos casos possuíam até 3 televisores escondidos em diferentes partes de suas residências, confidenciados (ou comungados) apenas aos mais chegados ou igualmente cumplices de sua hipocrisia.
    Ler, ler e ler outra vez...não havia nada mais libertador e ousado que isso naqueles dias de trevas. Ler silenciosa e secretamente fazia com que você sobrevivesse longe dos holofotes dos malditos inquisidores.
  Internet, smartphones ou outros aparelhos tecnológicos só eram vistos em filmes de ficção científicas. Alguns desses objetos que julgávamos ser reais ou funcionais só foram possíveis  mais de uma década depois.
   Além de libertador, o hábito da leitura fazia parecer que uma ameaça velada, uma guerra fria e silenciosa estava sendo declarada aos nossos superiores. Salvos os nossos professores do ensino secular, estes outros (que se diziam mestres) eram sempre ligados à política ou religião, mesmo quando empresários independentes. O possuidor sempre queria dominar o intelecto do ser “possuído” para fins pessoais. O amor era capaz de blindar o mais simples entre os serviçais à ponto deste reescrever sua própria história.
   Em certos locais de culto, até quem tinha o hábito frequente de ler a bíblia era condenado.
   Seus algozes não eram os não crentes, antes sim, eram pelos seus próprios compatriotas de fé que os maiores e mais covardes insultos eram proferidos.
   Diziam estes: “a letra mata”; “você vai se tornar um desviado”; “o diabo vai se apossar do seu corpo e de sua mente por tais ações”! Era um tormento...
   Eram tantos os rótulos que punham em quem gostava de ler, que o medo da exposição ao ridículo fazia muitos desistirem sumariamente.
   “Retardado”, “Gay”, “Virjão”, “Boioa”, “Metido”, “Louco”, etc,.
    Estes eram apenas algumas das tantas pechas que punham aos que se aventuravam por esse caminho, no intuito de humilhá-los ou desencorajá-los de tais empreitadas.
    Os Entorpecentes ainda era assunto raro nos pequenos municípios brasileiros nessa época.  O álcool (cachaça pura) e jogos de azares eram as drogas mais perigosas que alguém podia ter contato nesse ínterim, motivo pelo qual muitas famílias tinham sua ruina decretada.
    Um leitor assíduo, em alguns casos poderia ser visto como hoje é visto um drogado nos dias atuais, principalmente se não estivesse de posse de um “livro de Deus”.
    Livro de Deus era a própria bíblia ou tudo aquilo que fosse escrito, produzido ou comercializado por uma figura religiosa importante e imposta às ovelhas de goela abaixo como se fosse um néctar dos céus.
    Quase ninguém lia o que comprava desses figurantes (salafrários?), porém possuir tal aquisição dava um certo ar de intimidade ao possuidor, além de criar uma certa áurea mística em torno de ambos.
    Era como se o comprador tivesse adquirido um amuleto da sorte ao comprar um troço qualquer, ofertado por esses vendilhões de bugigangas ungidas.
   Certos conteúdos nem para lixo serviria, mesmo assim, a posse era necessária ou quase que obrigatória se o membro da igreja quisesse ter um pouco de “paz e sucesso” na vida.
   Recusá-los também era um sinal evidente de rebeldia.
  Até nos dias de hoje, a bíblia (na versão protestante) continua sendo o livro mais vendido e menos lido por aqueles que as compram.
  Para muitos crédulos, este livro não passa de um mero enfeite de cabeceira, de estante ou de algum outro recinto qualquer.
    Apesar de tantos recursos audiovisuais que atualmente dispomos, pouca coisa mudou quanto a isso e as pessoas que tem se dedicado aos estudos aprofundados desse objeto mistificado, tem se libertado dos dogmas religiosos e tem procurado um caminho oposto ao da religiosidade.
      Naqueles dias (final de 1997) o livro de HARRY PORTER era a bola da vez no quesito de LIVROS AMALDIÇOADOS.
    Assim como todo adolescente (de fora), era comum que desejássemos aquilo que parecia ser muito consumido entre nossa faixa etária.
    Queríamos muito posses como aquela, mas nem em sonhos poderíamos admitir tais intenções.
     Fazíamos então o que todo crente reprimido faz ou é ensinado a fazer: dizíamos palavras de ordem do tipo “tá amarrado em nome de Jesus”, ou então lançávamos maldições sobre quem o havia escrito, quem os vendiam ou quem os possuíam.
    Era só inveja mesmo. Disfarçada de santidade, claro.
    Na teoria, todo crente é “liberto, lavado e remido pelo sangue de Jesus”.
    Na prática, todos eles chegam a ser gente invejosa ou reprimida, que não podendo ter ou desfrutar de algo, condenam quem os tem para depois de algum tempo ser, ter ou fazer tudo aquilo que anteriormente condenavam nos outros.
    Há centenas de milhares de exemplos cotidianos que podem ser conferidos à todo instante.
    A própria “aquisição legal” em nossos desse mesmo livro, filme ou produtos relacionados ao tema é um bom exemplo.  
    Comumente o “povo santo”, que outrora condenava tais obras, hoje lotam cinemas e outros locais para apreciá-las. Aquilo que outrora era pecado, hoje faz parte da rotina de um fiel.
   Não é por questões de amadurecimento ou entendimento das supostas leis divinas. É apenas oportunismo
    Se conseguem lucrar com a obra ou imagem de alguém, isto será tido como algo santo ou normalmente aceito. Senão, condená-lo-á até o dia em que se possa tirar tal proveito.
   O mesmo vale para tantas outras coisas, inclusive a internet e as redes sociais.
   Tal inovação antes vistas pelos “santos e ungidos de Deus”, como algo diabólico e predatório, hoje tem se tornado a principal fonte de renda destes, além da facilitação em controlar e monitorar os membros por meio de bolhas próprias e quando estes furam tal cercadinho, os inquisidores modernos estarão lá para delatá-los.
  O próximo passo será em relação às Inteligências Artificiais.
   Assim que descobrirem como se apossar e lucrar com essa nossa ferramenta, logo essa “ameaça do capeta”, se tornará um “braço armado do Senhor dos Exércitos para a instauração do seu reino vindouro”.
    Com os mercenários da fé o mundo funciona assim: rotular, denegrir, condenar...para depois se apossar e ressignificar. Tolo é quem toma partido nessas maluquices ficando do lado daqueles que a todo tempo “Deus revela” seus mistérios.
    Quase três décadas se passaram desde o lançamento da obra supra citada e algo muito triste temos de constatar: é que nos últimos meses parte de um grupo que antes era oprimido por lideranças religiosas ou parte hipócrita da sociedade, hoje tenta cancelar qualquer autor ou obra em que não se vejam retratados ou representados.
   Como se um artista (autor, escritor, cineasta, roteirista, pintor, etc,.) tivesse uma bola de cristal para prever com exatidão as tendências do futuro, tendo que incluir entre os personagens, parte daquilo que um certo nicho tenta destacar como mais importante que que a própria obra em si.
    Fazer tal exigência é como elevar um escritor, um ser mortal e finito à categoria de Deus.
    Vale ressaltar que os seres que mais fizeram besteiras ao longo da história foram justamente os seres que moravam no panteão. Por omissão ou decisão, todos eles superam aquilo que de pior há entre o pior dentre os seres humanos.
     Um artista esculpe, escreve, revela ou deixa transparecer parte si próprio quando trabalha. Parte de sua época, local e cultura também serão representadas em tais obras. Não dá pra esperar mais que isso.
     Atacar e condenar aquilo que não se compreende é bem mais fácil que estudar a si mesmo ou cultura em que estamos inseridos ou como ela afeta ou reflete em todos nós.
     Se por um lado os “puritanos de Cristo” abandonaram certas tendências e hoje tentam lucrar com aquilo que antes rejeitavam, por outro, gente antes oprimida por inquisidores, hoje desejam holofotes para si e tentam no oportunismo denegrir certas obras do passado ou do presente como forma de autopromoção.
     Uma lástima!
     Um artista jamais estará livre da mediocridade e leviandade de muitos, seja de sua época ou de outras.
     Se o sonho de todo oprimido (não liberto) é se tornar um opressor, que tenhamos cuidado ao retirar nossas próprias algemas para não fazer destas o cabrestão que conduzirá os outros pelo resto da vida ao nosso bel prazer!
     Um salve a Srta. Rowling por sua magnifica trilogia e às portas que foram abertas à tantos outros segmentos que surgiram depois disto (próximo texto falarei sobre esse tema).
     Lutar contra os ignorantes é tão grave quanto lutar contra a própria ignorância. A segunda se combate com esforços, dedicação e incentivo à cultura. Já o primeiro, nem sempre!
     Saúde e Sanidade à Todos!
     Revejam Seus Conceitos!
....
Texto escrito em 24/6/23
*Antônio F. Bispo é graduando em jornalismo, Bacharel em Teologia, estudante de religiões e filosofia.
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Atualizado em: Seg 26 Jun 2023

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