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Shaman King e os lugares de memória

Ao reassistir o anime Shaman King, dirigido por Seiji Mizushima, me trouxe uma importante reflexão sobre a memória. Inspirado no mangá de mesmo nome, de autoria de Hiroyuki Takei, sempre achei a obra fascinante, e também subestimada pelos fãs de cultura pop japonesa em geral. Embora com diferenças entre os quadrinhos e sua adaptação animada, a magia e profundidade não se perderam.
A obra se passa na década de 1990, e é protagonizado pelo xamã japonês Yoh Asakurah, herdeiro de uma tradição família xamânica. Ele se envolve no torneio Shaman King, o que poderá lhe conceder o direito de realizar o seu maior sonho: viver de boa! No entanto, minha análise sobre os “lugares de memória” levou em conta o anime do Estúdio Xebec, aquele com 64 episódios de 2001-2002.
No Ep. 38 – Cinco grandes chefs, os cinco protagonistas Yoh Asakurah, Ryu da Espada de Madeira, Horo Horo, Len Tao e Chocolove McDonell encontram a mansão onde vive a médium Lee Lee La La, uma nativa americana, oriundas dos seminoas. Aqueles que desejam seguir a pista do local onde será realizado o grande torneio, a Tribo Patch, deve passar por um doloroso rito: reviver as memórias da dor do passado.
Lee Lee La La é a guardiã de cinco espíritos seminoas que morreram na edição anterior do torneio, e de maneira humilhante pelas mãos de Hao, o grande antagonista da franquia. O fato traumático ficou conhecido como a “Tragédia dos Seminoas”. Eles tinham um grande potencial de ganhar o torneio, e tinham uma visão otimista da relação entre humanos e xamãs, ao contrário do intolerante Hao.
Como Hao não conseguiu angariar os seminoas como aliados, e temendo ter seus planos de criar um mundo xamânico frustrado, assassinou Ian, Nitzva, Jophia, Dreisa e Chelga. No mangá, Chelga não existe, e Lee Lee La La era uma integrante do grupo, e também única a se salvar. Ela se tornou uma “guardiã da memória”, mas com função diferente do convencional, e sua mansão se transformou num “lugar de memória”.
O conceito cunhado pelo historiador francês Pierre Nora nasceu de uma preocupação sobre a institucionalização da memória (NORA, 1993). A memória é difere da História, essa realizada através de um método científico, a memorização tem elementos psicológicos e socioculturais, “A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado.” (ibid., 1993, p. 9).
Os “lugares de memória” podem ter variadas funções, mas, em todos, há à preservação de um evento que não pode ser silenciado. O lugar de memória também pode ser interpretado como “[…] um ponto de condensação, de sentido material, simbólico e funcional.” (MENESES, 1992, p. 20-21). É nesses poucos espaços que, oprimidos como os seminoas garantem uma contribuição a experiência global da humanidade.
No entanto, os “lugares de memória” não são neutros, tem uma finalidade, um direcionamento, ou melhor, sofrem uma gestão memorial. A criação de um “lugar de memória” é um ato político. A memória naturaliza os eventos, define os papéis dos sujeitos históricos, serve também para criar laços de identidade social. Na mansão de Lee Lee La La, os espíritos dos seminoas tem a função de um repositório da memória social.
A “Tragédia dos Seminoas” é dolorosa, mas viva e manifesta no rito de rememoração no presente. Quando os cinco protagonistas incorporam as almas, eles revivem as dores físicas, psicológicas e morais do quinteto seminoa. É a memória dolorosa, ou melhor, a memória da dor do passado que deixou cicatrizes na história local.
Existe três leituras possíveis dessa experiência: a primeira, a de Lee Lee La La, como guardiã da memória e gestora memorial, ela preserva a experiência com intuito pedagógico e até alarmista. O seu objetivo é evitar que a futura geração cometa os mesmos erros da anterior — a “Tragédia dos Seminoas” —, é o abandono do sonho utópico, desistência do futuro, aceitação do luto e acomodação.
Para os espíritos dos cinco seminoas, as suas memórias têm outro intuito didático: ela serve para orientar a nova geração a dar continuidade ao projeto utópico interrompido pela violência e intolerância. A memória da dor do passado estimula a chama de um sonho de igualdade e respeito se mantenham vivos.
Para o quinteto de protagonistas, a memória da dor do passado inspira uma transformação radical, daquelas que mudam toda a estrutura do mundo. Orienta e norteia possibilidades de construção de uma nova sociedade, um novo futuro. Se não for o mesmo sonho dos seminoas de eras atrás, se mantêm os seus elementos de base: a igualdade e a tolerância.
No fim do episódio, a dor antes sofrida se torna catarse. Os espíritos se redimiram. Os protagonistas fortalecem os seus laços e rumam com objetivos mais bem definidos que antes. E Lee Lee La La? Ela compreendeu que a memória da dor do passado é mais do que um acúmulo de ódio e frustrações, pode servir também para construir um futuro, pois, é no passado que se encontra a experiência concreta para moldá-lo no presente.
Referências
MENESES, Ulpiano T. Bezerra. A História, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das ciências sociais. Rev. Inst. Est. Bras., São Paulo, n. 34, p. 9–24, 1992.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Proj. História, São Paulo, n. 10, p. 7–28, 1993.
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Atualizado em: Qua 20 Abr 2022

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