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Análise do Conto “Antes do baile verde “, de Lygia Fagundes Telles

INTRODUÇÃO
Analisar é o principal método para se compreender um assunto, essa importância se constitui um saber de grande relevância na interpretação. Através desse recurso é possível caminhar a um grau de conhecimento mais elevado. Sendo assim, nosso objetivo é encaminhar o leitor a esse alvo. Neste trabalho encontra-se o desígnio de meditar sobre o conto “Antes do baile verde”, decompondo-o em pequenas partes, partindo do seu processo de construção e destacando os cinco principais elementos que o compõe, sendo eles: o enredo, as personagens, o tempo, o espaço e o tipo de narrador, finalizando com a opinião crítica.
Os elementos mencionados, receberão destaques quanto suas localizações e características, com objetivo de contribuir a um saber literário. O propósito é alcançar e abranger um nível mais profundo de compreensão através do exercício de examinar o texto. Espera-se que após o término destas páginas o ensaio aqui proposto possa ter sua finalidade alcançada.
ELEMENTOS DA NARRATIVA
Enredo – O Conto “Antes do baile verde “, trata de uma preparação para um imperdível baile. Tatisa, a dona da casa, e sua empregada Lu conversam e se preparam para brincar o carnaval. Porém, no quarto ao lado, o pai de Tatisa sofre isolado a ânsia da morte. Estes dois fatos, a expectativa da festa e a expectativa da morte, produzem grande tensão. À medida em que a tensão aumenta, revela o drama em que o cômico se mistura com trágico percebidos nos índices metafóricos na fala de Tatisa “(...) meu sangue está fervendo!” (p.76). Percebe-se uma plurissignificação pois, sede e calor aqui estão fortemente relacionados com a opressão gerada pelos dois fatos: a festa e a morte. Lu sem entender completamente a situação da colega questiona-a “(...) mas você está quase nua!” (p.75).  Sem saber que o problema da amiga era mais psicológico do que físico. A concentração se passa principalmente no quarto, local onde praticamente toda trama é desenvolvida.
PERSONAGENS
Personagens principais – Tatisa, a dona da casa, personagem de característica plana que luta com um dos maiores gigantes, que é consigo mesma procurando fugir da realidade. Em torno dela, o narrador focaliza toda trama, ela é a personagem protagonista. Sabe-se também que era fumante por uma destas afirmações da personagem” Você pegou meu cigarro?” (p.78). Lu, personagem plana, é quem presencia todo o drama vivido por sua patroa. Procura adiantar o máximo que pode na confecção da fantasia de Tatisa com quem dialoga.
Socialmente pode-se dizer que Lu possuía poucas posses em relação à Tatisa pois, sua função de empregada a classifica com menos poder aquisitivo. O vício de fumar era comum a ambas, percebe-se no diálogo entre elas” Você pegou meu cigarro? Tenho minha marca, não preciso dos seus (p.78). E também deficiente visual “Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos” (p.74).
O pai de Tatisa, que estava enfermo, seu nome não é mencionado no conto e é o responsável (indiretamente) por grande parte da tensão de sua filha. Pela descrição que pelo narrador fornece é que sua tensão não deveria ser inferior à da filha porém, antagonicamente. O texto diz que ele estava no quarto ao lado e ao ouvir toda a murmuração da filha dizendo que ele poderia morrer outro dia, mas não no dia do baile! Acrescido a isso, a tentativa de conseguir outra pessoa para ficar com ele, é bem agonizante presenciar isto de um filho. 
Outras Personagens – aparecem no texto mas, não possuem nenhuma relevância. Raimundo, o namorado de Lu - os meninos que cantavam e gritavam - o médico - um bando de meninos que brincavam na calçada e um homem - que passou vestido de mulher.
O TEMPO
Embora não esteja marcado diretamente por horas e outros subsídios dessa natureza é possível afirmar que o conto “Antes do baile verde“, apresenta uma ordem cronológica pelos acontecimentos sucessivos e o desfeche da história. A duração está subentendido que foram algumas horas de um mesmo dia. Alguns índices são percebidos na fala de Lu “(...) Não posso perder o desfile Tatisa! (...) ás dez em ponto ele vem buscar!” (p.71-72), entre essas e outras expressões como: (fica hoje!), (esta noite), (se atrasar, ainda hoje apanho!) (p. 78-80), mostra-nos que a diegese se compreende em um mesmo dia. Temos neste conto “Antes do baile verde” uma Isocronia, pois a fábula acompanha o mesmo tempo da narração.
ORDEM
“(...) você já se enganou uma vez, lembra?” (p. 75). Nessa fala de Tatisa temos uma acronia. “(...) No outro carnaval entrei num bloco sujo e me divertia grande” (p. 76). Sabe-se que foi em um carnaval, porém não é possível delimitar quando portanto, podemos afirmar que houve uma analepse externa acrônica. “(...) No ano passado ele ficou de porre os três dias, fui sozinha ao desfile” (p. 77).
Analepse externa encontramos nessa citação na fala de Lu pois, ela retoma um acontecimento do ano passado que está registrado antes do início do conto (diegese). Características também do tempo psicológico. E, Tatisa interrompe metaforicamente “(...) e eu na cama podre de gripe!” (p. 76).
Está presente no conto “Antes do baile verde” num tempo histórico social, o carnaval. Conhecida como uma das maiores festas comemorada pela sociedade. As características carnavalescas juntamente com os preparativos para um baile em que as fantasias deveriam ser verdes e Tatisa estava tão caracterizada que até seu biquini era verde.
AMBIENTE - a preocupação com a festa deixou o ambiente descuidado pois, o quarto estava como que um ladrão tivesse o saqueado e, em nenhum momento é mencionado à preocupação em arrumá-lo “O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas” (p. 72).
RELIGIÃO – diretamente, o conto não menciona mas, em uma das falas de Lu                 (a empregada) percebe-se o emprego do espaço utópico. A crença em um ser Divino capaz de fazer milagre, “(...) - Que é que posso fazer? Não sou Deus, sou?” (p. 76). Em contrapartida, Tatisa vive o drama do espaço atópico, o contraste entre a ansiedade e a realidade lhe proporciona situações maléficas.” O que está me endoidando é este calor, não agüento mais, tenho a imprensão de que estou derretendo, você não sente?” (p. 74).
Na fala de Tatisa, “(...) Vamos rápido, não pare, dessa forma irei me atrasar” (p. 74). Constata-se a tensão e o desejo que a ornamentação estivesse pronta para o baile. Expressões iguais e semelhantes a esta estão constantemente presente no conto dando-lhe essa característica.
NARRADOR - O conto é narrado em terceira pessoa e o narrador é ausente absoluto dos fatos, não possui nenhum envolvimento na condição de personagem, apenas narra suas percepções e são características do narrador heterodiegético.
OPINIÃO CRÍTICA
O carnaval é uma festa dos sentidos. Pessoas dedicam o ano inteiro para se desbaldarem em apenas alguns dias. Essa comemoração é tão importante para Tatisa a ponto de a emoção tomar conta da razão. Nem mesmo a grande possibilidade de seu pai vir a óbito a sensibiliza para mudar de idéia. Ao contrário disto, procura a todo instante achar em si mesma, respostas que a exima da culpa em deixar seu pai só. Sendo assim, distribui culpas a diversas personagens.
Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta! (...) ele viveu sessenta e seis anos. Não podia viver mais um dia? (p.78-79).
E por fim decide ir ao baile independente de conseqüências que poderia sofrer, em seguida, age friamente abandonando o pai solitário! “(...) Rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção, como se quisessem alcançá-las” (p. 82). As lantejoulas se assemelham com a personagem Tatisa que busca razões para se autojustificar, porém em vão.
Edgar Allan Poe na sua obra Poemas e Ensaios, expõe sua arquitetura e forma, que o levou a selecionar cada partícula que haveria culminar em um dos mais belos poemas já apresentados, “O corvo “. Um de seus elementos selecionados foi a morte e explica o porquê desta escolha
Então, jamais perdendo de vista o objetivo – o superlativo ou a perfeição em todos os pontos -, perguntei-me: “De todos os temas melancólicos, qual, segundo a compreensão universal da humanidade, é o mais melancólico?” A Morte – foi a resposta evidente. “E quando”, insisti, “esse mais melancólico dos temas se torna o mais poético?” (POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios.Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. São Paulo: Globo, 1993. 3. ed. Revista p.16). 
A autora do conto “Antes do Baile Verde” Lygia Fagundes Telles, expressa essa marca encontrada em POE, usando também este tema melancólico, a morte. Em vários contos de sua autoria o assunto morte possui grande significação com expressão textual exemplo: em “A caçada“ o homem passa de caçador a caçado e morre com a seta disparada pelo caçador; em “As cerejas” a notícia da morte do menino Marcelo é recebido pela madrinha que friamente não se importa; em “Venha ver o pôr-do-sol” o clima funesto (o cemitério) seguido da prevista morte de Raquel presa na catatumba; e em “Antes do baile verde” a  agonizante tensão e expectativa da morte do pai de Tatisa. Esse tema lutuoso dá uma concatenação importantíssima encaminhando o leitor na ficção que, em muitas vezes, ocorre a verossimilhança.
Referências Bibliográficas
APOSTILA, Teoria da Literatura I, turma XVII - Unir – campus de Vilhena –RO, 2009.
GANCHO. Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática ,2006.
MASSAUD, MOISÉS. A criação literária – Prosa. São Paulo: Cultrix, 1988.
PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. São Paulo: Ática, 1999.
SANT’ANNA, Afonso Romano de. Paródia, Paráfrase & Cia. São Paulo: Ática, 2004. 
TELLES, Lygia Fagundes. Venha ver o pôr-do-sol e outros contos. Ática: 2008. (Coleção Boa Prosa)
                                         
           
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Atualizado em: Qui 4 Jun 2020

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