person_outline



search

Morte

Após diversas tentativas de acertar seu adversário com golpes de todas as suas espadas, de nada adiantou. Seus membros estavam estafados. Sua respiração, pesada. O calor da batalha, o sangue fervente. Estava feliz. Afinal, nada lhe trazia mais felicidade do que lutar contra alguém difícil de vencer. Mas agora parecia que o desfecho seria diferente. Nenhuma tentativa logrou êxito, nenhum aço encontrou carne, e agora o tinha perdido de vista. Certamente seu irmão estava às suas costas, pronto a lhe desferir o ultimo golpe. O herói estava pronto para isso. 
O herói abre suas mãos. Suas espadas caem ao chão com um tênue som de aço encontrando o solo. Sentiu uma pancada no meio das costas e viu a ponta de uma espada escarlate saltar por seu peito. Então o paladino sussurra em seu ouvido aquelas ultimas palavras. "Tem que ser você a descer. Tem que ser eu a subir." 
Não doía. O sangue quente ainda pulsava por suas têmporas, o suor emanava sob forma de vapor em todo o torso e braços. A unica coisa que sentia era liberdade. Sentia um líquido quente e grosso descer por seu abdome, que certamente era seu sangue. Seus dedos começaram a formigar. Um forte odor de ferro subia por suas narinas. Não tinha mais volta. 
Olhou para frente, logo abaixo, onde estavam seus companheiros, completamente aterrorizados com o que estava acontecendo. Avistou sua pequena aprendiz, que chorava incrédula e soluçava, e sorriu para ela. Nunca havia lhe demonstrado afeição. Era injusto. No fim do fim, apenas se sentia obrigado a isso: confortá-la. 
Dizem que sua vida toda passa diante de seus olhos quando está morrendo. Isso não era verdade. O que se passava em sua mente eram apenas perguntas que se fazia sobre seus deveres. Havia cumprido tudo o que deveria? Ao mesmo tempo, não importava mais. O que foi feito já foi. O que não foi feito já passou da hora. Após ter matado tantos inimigos, percebeu que não haviam inocentes entre eles e que, por incrível que pareça, se preocupava muito mais com os vivos que certamente viriam a morrer com sua falta. 
Agora seus membros estavam dormentes. O herói já estava de joelhos, prestes a cair de peito no chão. Seus amigos vinham a seu encontro correndo. Não avistava mais o paladino, que provavelmente já se evadiu dalí. Sua vista estava se embassando. Caiu pesadamente no chão, mas sua cabeça foi amortecida. Era o colo de Maria, que o virou para cima. Ela chorava muito, uma cena de fazer dó. Os demais passaram disparados, provavelmente buscando perseguir seu irmão. Seu corpo começou a se esfriar, e nesse momento uma dor forte e cada vez mais aguda percorria seu tórax. O gosto de sangue na boca era o ultimo sinal. Era o fim.
Deixava para trás sua sucessora. Maria não estava preparada, haja visto o descontrole que demonstrava naquele momento. Mas isso acabaria lhe servindo como parte da preparação. Até mesmo nisso ele já havia pensado. Seus pensamentos começavam a se embaralhar. Logo faria a passagem, mas ainda tentava se lembrar de uma ultima coisa que precisava dizer a ela. Ela ajudou, fazendo a pergunta certa.
- O senhor tinha me dito que o sacrifício era o sentido, mas disse pra eu nunca sacrificar minha própria vida. Por que se sacrificou?
Estava feliz com a pergunta. Essa lição quase passou batido pelos anos de treinamento e ensinamentos. Em seu ultimo suspiro, juntou forças para dizer suas ultimas palavras.
- Um homem deve cumprir o seu dever. Um homem deve se sacrificar. 
Uma bela garota aos prantos, olhos com íris vermelhas e um céu azul sem nuvens. 
Pin It
Atualizado em: Qua 8 Abr 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222