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Sentido

- Escute, menina. A vida tem um sentido. Os maiores sábios do mundo sempre procuraram saber qual é, mas para eles o sentido jamais será mostrado. Ou melhor, quando lhes é mostrado, eles o descartam. Não acreditam que o sentido seja este, e logo o lançam fora como quem descarta uma bobagem qualquer. Acham que é desprezível, sequer se colocam a pensar sobre o assunto. O sentido da vida humana é claro como um dia sem nuvens. Acredite você na criação de Deus ou na evolução dos animais até o homem, o sentido continua sendo o mesmo. Seja você uma pessoa que quer o bem de seus parentes ou o bem da humanidade, o sentido continua sendo o mesmo. Seja você racional ou irracional, há apenas um sentido. Você certamente já sabe qual é, e ficará decepcionada em saber o quão simples é.
Maria continuava ouvindo, cada vez mais ansiosa pela conclusão. Havia feito uma pergunta despretensiosa, que não esperava que aquele homem pudesse responder. Mas, para sua surpresa, lá estava ele, com suas palavras bonitas e ares de nobreza, respondendo. O olhar dele a ela, paternal e sereno, lhe trazia uma sensação boa. Talvez por não ter conhecido seu pai. Talvez pelo marido de sua mãe nunca ter lhe dado um pingo de atenção, exceto para brigar com ela. Talvez por aquele homem ser o homem mais educado e atencioso que ela já tinha visto. Só sabia que ele era alguém importante. Um desconhecido, convalescente, recém salvo por ela e sua mãe na porta de casa, mas certamente alguém importante na vida dela a partir daquele dia. Sempre sonhou em conhecer seu pai. Seu pai era um nobre, dissera sua mãe. E, por incrível que pareça, aquele homem se parecia muito com a imagem que Maria tinha de seu falecido pai. Ele continuava.
- Não vou lhe dar a resposta de mão beijada. Ela é tão simples que você a esqueceria ainda hoje. Farei com que a desenvolva. Para começar, você me perguntou se sou nobre. Ora, isso nada tem a ver com algo que importe. Neste país, como em tantos outros, um fidalgo pode vir a se tornar um escravo, se a lei assim determinar. Um escravo também pode ascender a nobreza, em determinadas condições e com muito esforço. Mas, ambos continuam sendo homens. Um duque ou o próprio imperador, assim como os dois anteriores, são homens. Você irá se deparar com dezenas de homens em sua vida. Talvez mais do que dezenas. E irá notar que todos eles são homens, assim como todas as mulheres são mulheres. Essas pessoas podem ganhar ou adquirir qualquer coisa na vida. Podem sofrer ou sorrir, podem escolher o caminho do bem ou do mal, mas sua essência jamais mudará. Um homem sempre será um homem. E ambos são criaturas humanas. Toda a diferença que há entre um rei e um escravo é uma gota d'água em comparação ao ribeiro de diferenças entre um homem e uma mulher. Mas a diferença entre os dois não é nada comparada ao oceano de diferenças que existem entre o ser humano e qualquer animal que ande sobre a terra, nade sob a água ou voe pelos céus. Mas o sentido... ouso dizer que mesmo os animais o tem. Eles o seguem, sem questionamentos, e o tomam como óbvio. Enquanto isso, nossos eruditos, os iluminados sábios, estão cegos, a tatear no escuro. Mal sabem que o dia está claro, e basta que abram os olhos para que vejam. Quando alguém ameaça a tua vida, ou a de sua mãe, qual o teu impulso? 
- Quando ameaçam a mim, eu fujo. Ou me defendo, se conseguir, ou se não puder fugir. Se ameaçam a minha mãe, eu me coloco na frente, quero proteger ela. 
- Muito bem. Já sabe o que ela faria caso a situação fosse inversa, não é? Sabe que ela a defenderia com sua vida. 
- Sim, é claro. Mas, isso é o sentido? 
- Não, pequena, isso é apenas o primeiro sinal. Você não se pergunta como eu sei disso? Como eu já sabia suas respostas, e assim lhe fiz perguntas retóricas?
- Mas é óbvio. Todo mundo tem medo de morrer ou de perder quem ama. 
- Sim. Contudo, o medo, por si, não é uma causa. Ele tem um motivo para existir, e este é o sentido. Afinal de contas, uma parte da sua resposta é baseada não no medo, mas na coragem. Colocar-se na frente de um agressor para defender um ente querido não é medo. É coragem. Coragem que sobrepuja o medo. Não o nega, mas o supera. Afinal, a coragem não existe sem medo. O medo não é uma virtude. Não posso dizer, porém, que seja uma falha. Ele é necessário para a coragem. Essa sim, é uma virtude. Sabe o que é uma virtude? 
- Er... hum... uma qualidade?
- A beleza é uma qualidade. Força física, inteligência, destreza... são qualidades, não virtudes. Uma virtude é mais do que uma qualidade. As virtudes nos aproximam de Deus, pelo simples fato de elas advirem d'Ele. Virtudes são qualidades da alma. E não importa quantas qualidades um homem possa ter, se ele não tem ou busca ter virtudes, ele é apenas um animal. E mesmo entre os animais, ele é o mais baixo, pois mesmo eles demonstram algum traço de virtude quando confrontados pelo mal. 
Ela pensou nisso por alguns instantes. Como seria possível diferenciar uma virtude de uma qualidade, sendo que ambas parecem ser características boas? Deus. Seria essa a resposta? Não... Deus é belo, forte, poderoso e habilidoso com toda certeza. Ele tem todas as características boas. Então seríam as características exclusivas de Deus? Também não, já que pessoas também podem ter. O sorriso de canto de boca estampado em seu sábio convidado demonstrava que ele estava se divertindo com isso. Enfim Maria perguntou.
- O que diferencia uma virtude de uma qualidade? 
- Uma qualiade nega um defeito. Quanto mais forte você for, menos fraca será. Quanto mais bela, menos feia. Uma virtude pode te fazer suprimir seu oposto, independentemente da intensidade desse. Você pode odiar alguém e mesmo assim ainda amá-lo a ponto de se sacrificar. O mesmo vale para a coragem, que existe independente do tamanho do medo. 
Pensou por mais alguns instantes.
- O sentido da vida é a busca pelas virtudes? 
- Está mais próxima da resposta. Mas não. As virtudes são provas do sentido, não o próprio. Ao mesmo tempo, são ferramentas. Para atingir o sentido você precisa delas. Precisa fomentá-las em seu coração e em sua mente até que não se lembre mais de como era antes disso. Não há um limite para virtude alguma. E todas elas levam seu portador para o mesmo resultado em caso de confrontação. Virtudes como a justiça, a misericórdia, o amor, a sabedoria, a coragem, a honestidade... caso você tenha em si todas essas virtudes tendendo ao infinito, em caso de confronto, como procederia? 
- Lutaria. Eu acho...
- Está indo bem. Certamente lutaria. Não há outra opção. Lutar pelo que é justo, por quem não consegue, por quem se ama, por uma certeza, apesar do medo e pelo que é certo. Agora pense mais um pouco. A luta nem sempre é ganha. Você pode ser obrigada a confrontar uma força maior que a sua. Pode ter que dar de si mais do que possa lhe ser devolvido. Pode ter que perder algo, ou mesmo a si. Daria sua vida por essas virtudes? Daria sua vida pelo certo ou por quem ama?
- Eu com certeza daria. Entendi. É o sacrifício. 
Ele não falou mais nada. Um sorriso de satisfação percorreu seu rosto e ele respirou profundamente, como se tivesse finalmente relaxado. Nesse momento, Maria soube que havia encontrado o sentido da vida. O sacrifício. Realmente, não tinha como ser mais óbvio. 
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Atualizado em: Seg 6 Abr 2020

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