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Não foi questão de tempo

O tema hoje são as marcas, ou como prefiro destacar, minhas cicatrizes. Esse assunto me surgiu em meio ao vácuo de meus pensamentos e a inquietação de meus sentimentos por uma situação que atualmente eu vivencio. Enquanto caminho, entre passos pesados e tão sem rumo minha mente trás a tona momentos, lembranças e sensações já sentidas e relembra-me todas elas. Ali subindo o alto daquela rua tão bem conhecida por mim, percebo novas cicatrizes e pequenas marcas bem recentes, todas contendo a imagem de alguém. É quando percebo a intensidade de minhas lembranças e comparo cada uma delas. Rostos, vozes, toques e sensações tão distintas entre si, mas distribuídas em minhas memória e em meu lado mais emocional. Percebo uma incrível ironia entre o que mantenho em minhas memórias e em meu interior. Uma certa pessoa, pouco tempo atrás possuiu grande relevância em minha vida, marcou-me com seus toques e carícias que pela primeira vez eu sentia vindas de outra pessoa. Essas memórias guardam conversas que tivemos, beijos, toques, a perda de fôlego e apesar de tudo estar relacionado aos desejos e prazeres carnais, tudo fora sentido por meu lado racional, sabendo esse equilibrar emoções e saudades, que não sinto desses momentos, pois uma só vez bastou. E isso me é tamanha confusão, pois o que deveria estar guardado em minha alma como algo único, precioso e íntimo, mantenho suprimido em meus pensamentos mais irrelevantes e sem graça, pois esses momentos tampouco me fazem falta ou fizeram-me sentir emoções dignas de mantê-las para sempre.
Por outro lado aquilo que mantenho em meu lado mais emocional possível, parecem lembranças de um conto de fadas lido. Guardo a sensação daquele toque tão singelo e inocente, quase que por acaso. Guardo a sensação de meu estômago embrulhado pelo abraço rápido que nós demos timidamente, temendo invadir o espaço um do outro. Guardo e lembro-me nitidamente do cheiro do perfume já envolvido e dissolvido junto ao aroma natural de seu corpo, misturado ao suor. Aquele cheiro que me remete a imagem de um cômodo, ou quem sabe um móvel que nunca fora movido de seu local, e fora transmitido de geração a geração; um perfume nostálgico, contagiante e atraente que me leva pra junto de si e eu poderia e queria me embriagar em seu cheiro. O olhar fixo, aquele olhar como poderia descrever o olhar que ao mesmo tempo que me constrange me fazendo olhar para outro lado, me faz querer ficar ali para sempre. Seus olhos tão escuros e fixos, fitando-me de maneira tão sensual e descontraída, que nunca sei o que fazer durante esses rápidos segundos de observação. São nossas risadas tímidas durante nossas caminhadas que se tornaram rotina, que guardo em minha memória mais profunda, aquelas que não meu consciente recordam, mas sim minha alma. Por qual motivo os toques que senti arderem em minha pele, não se comparam aqueles que gelidamente e de maneira singela tocaram-me sem ardência nenhuma é que me fizeram arder?
A simplicidade é a raiz e origem daquilo que é precioso. Tudo por mais simples que seja, em algum momento qualquer de nossas vidas não conseguimos mais classificá-lo ou identificá-lo com aquela simplicidade, pois é naquele instante que sua grandiosidade vem a tona e nos faz enxergar o quão relevante aquilo tornou-se para nós, e isso é enlouquecedor. Ainda sem entender, deduzo que aquilo que por si só já é ardente, intencional e já preenchido não possui mérito, dignidade ou relevância, e o motivo está relacionado a sua falta de simplicidade, pois ali não teria como haver o natural, tampouco o simples.
É ali naquela conversa tímida, onde não se sabe nada sobre o outro o sobre o que sentir pelo outro que os sentimentos reais são criados, e as memórias preferidas da alma ganham vida para que um dia possam preenchê-la de emoção, mesmo após anos. É no não saber sobre o que se passa, ou que se espera onde tudo que merece ser relembrado pela alma ganha forma, ganha cor, ganha vida e nos é dada a honra de vivenciá-la sem saber que futuramente esta se tornará a lembrança mais linda e preciosa que guardará consigo, e que até hoje poetas e romancistas tentam descrever em seus versos, mas que no fundo sabem que para realmente sentir tal nostalgia, é necessário ter vivido aquela memória.
E ali perplexa, com passos mais curtos e lentos, ali naquela agora descida, percebi que tempo nenhum determina relevância de algo. Quase um ano passara-se enquanto eu vivenciava a paixão ardente de um amor tangível, e que hoje guardo em minhas memórias, sem saudades. E apenas de meros dois encontros formais na semana, tenho milhões de lembranças e sensações que relembro-me já com saudade, com temor pela sua já determinada e futura partida; lembranças essas que minha alma para sempre recordará. Portanto, que ironia a pequena marca que ele deixara em mim em um espaço tão grande e vivido de tempo, em comparação a imensa marca e cultivo que aquele deixara em mim em questão de segundos já contados.
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Atualizado em: Sex 10 Jun 2022

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