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Leonardo e Meredite (Parte 16)

- O quê? - veio como uníssono
     - A minha irmã! Não a Chiara. Mas sim uma nobre sem coroa. Nicolina... Somente uma flor dos montes. Era uma camponesa, meiga, única. Que nunca veio a esta vila. Ela me aconselhava e deixou esse mundo, e eu, desesperado, tenho corrido por reinos, procurando uma voz na qual eu a veja refletida. A encontrando em todas e em nenhuma, ao mesmo tempo. Entretanto, hoje, perto de Meredite, descobri que o vácuo que eu combatia não existe. Cada pedaço de silêncio que tenho em meu peito é uma semente que minha irmã já conhecia em mim. Promessas que não devo tentar ignorar e que, aos poucos, irão germinar em prosperidade para meu povo.
     Leonardo não conseguiu conter sua inquietude:
     - Perdoa-me por interromper, Alteza... Posso estar vivendo uma intrigante coincidência, mas, particularmente, desacredito dessa possibilidade. Conheci uma Nicolina, a muitos anos... De fato um ser diáfano habitando campos de trigo. Sua irmã?
     O príncipe estava emocionado com as estrelas que desabrochavam naquela noite:
     - Que estranha e preciosa porta de milagres você acabou de abrir? - perguntou olhando para a artesã.
     Voltando a encarar Leonardo o regente continuou:
     - Como todos sabem, recentemente, meu avô, o rei, faleceu... Durante sua existência, e, mesmo após sua despedida, nenhuma declaração íntima e familiar que fiz e farei durante essa reunião era assunto totalmente conhecido ou admitido, nem mesmo entre os membros da corte. Meu pai vivia preocupado com a segurança de nossos domínios, mas amava a todos nós, incluindo Nicolina... Tanto que sempre me levava juntamente com Chiara para brincar com ela em uma vila não muito distante dessa, um lugar famoso por suas uvas. Quando ele se foi, meu avô, que desejava que todos esquecessem Nicolina, pois a via como uma marca da infidelidade real, a transportou para outras terras. Só eu a reencontrei muito tempo depois. Ela aceitou minha amizade com todo coração. Mas pediu que eu entendesse o seu desejo de se manter afastada e até mesmo desconhecida pela corte. Eu a visitava periodicamente, porém, na última vez em que resolvi procurá-la, um dos seus amigos me comunicou que ela havia falecido. Não suportei ter conhecimento da perda sozinho, procurei meu avô e contei tudo, desde minha interação com Nicolina até aquele desfecho.
     Solicitando uma taça de água, o príncipe aproveitou para circular pela sala e abrir mais algumas janelas, de forma que o ar noturno trouxesse mais disposição para o ambiente. Depois de apreciar a bebida ele se pôs a desabafar:
     - Para meu desencanto ele me confessou que a um tempo a havia encontrado, não só pessoalmente, como descobriu retratos seus efetuados por um artista que havia se recusado a eternizar Chiara em pintura. Contou-me que os expôs ao público... O que, conhecendo o temperamento dela, posso afirmar que deve ter fragilizado as fibras do seu coração. Não consigo perdoá-lo por isso. Essa é a razão pela qual ainda não aceitei a coroa e o título de rei, embora saiba que não poderei adiar mais essa iniciativa. Até hoje conservo aquele retrato dela, o que ele me ofertou... A obra que ele trouxe para o castelo como uma medalha.
     Todos olhavam para o príncipe, fascinados. Chegaram ali querendo se curvar diante de um trono, mas estavam diante de um herói que enaltecia suas auras. Leonardo murmurou:
     - Eu poderia ver esse retrato?
     O soberano assentiu, e, entregando uma chave a um de seus camareiros, solicitou que este buscasse a obra em seus aposentos. O homem retornou trazendo a peça e a entregou ao príncipe, que, por sua vez, a colocou nas mãos de Leonardo. O pintor ficou analisando por uns instantes o envelope que guardava a pintura, até que, suspirando se investiu de coragem e retirou uma delicada folha de seu interior. Ficou a admirá-la até que lágrimas começaram a desbravar seu rosto. Ele então implorou em silêncio pelo consentimento do príncipe, que, entendeu a mensagem e acatou. Leonardo entregou o desenho para Meredite, que o contemplou e o passou para Tamara que repetiu o gesto de sua amiga. Dessa maneira, a folha, pacificamente começou sua linda jornada para além de todos os espíritos presentes naquele castelo e ao seu redor.
     Um aldeão refletiu em voz alta:
     - Não está assinada...
     O príncipe confirmou:
     - A minha irmã nunca me disse o nome do artista que era seu melhor amigo... Mas ela me ensinou como eu poderia identificá-lo. Ele tinha uma superstição... Você pode adivinhar qual era, Leonardo?
     O artista falou:
     - Só colocar seu nome em uma obra que já tivesse um novo destino conhecido, um guardião, uma galeria...
     Leonardo se encaminhou para uma das janelas abertas e ficou observando o horizonte. O soberano se aproximou dele e tocou em seu ombro, passando a falar enquanto sua alma também navegava naquela maré de estrelas:
     - Acredito que a partir de agora posso te considerar mais do que um Mestre de artes... Posso te chamar de amigo. Tenho motivos intensos para agir assim. O principal deles você talvez não tenha consciência quanto à proporção... Ela foi sua musa... E, em todas as vezes que ela se referia a seu pintor misterioso, fazia com uma felicidade tão gloriosa... Ela vibrava por saber que era querida por você. Dizia sempre que você colocara sobre os ombros dela um manto de rainha. Então, jamais se arrependa de tê-la retratado.
     Em seguida, Eduardo e Leonardo trocaram um aperto de mão e o pintor revelou:
     - Assuma com o espírito tranquilo seu lugar de rei... Tenho uma razão que é suficiente para acreditar que seu avô, embora um pouco tarde demais, foi tocado por Nicolina. E, da maneira que ele era capaz, demonstrou seu apreço por ela e gratidão por vê-la imortalizada. Ele assumiu diante de você a tolice que ele cometera por capricho. Tenha certeza de que muitos trabalhadores como a sua irmã tiveram suas vidas melhoradas graças aos rubis que ele me enviou como pagamento pelos desenhos e prejuízos.
     - Você entregou os rubis a vendedores de trigo? Fico com a sensação de que meu avô sabia que era exatamente isso que você ia fazer! Ele devia estar querendo ajudar os cultivadores, mas era orgulhoso demais para ir pessoalmente. Realizou algo bom através de você!
     Os dois seguiram para a escadaria do trono e pararam ao lado da cadeira onde Meredite estava naquele momento.
     Um dos conselheiros se pronunciou:
     - Alteza... Ela está perdoada?
     O príncipe, que havia reencontrado sua harmonia, disse:
     - Não existe perdão, porque não existe culpa. Eu preciso agradecê-la!
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Atualizado em: Qui 21 Jan 2021

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