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Leonardo e Meredite (Parte 15)

Ele se sentou em uma das cadeiras que haviam sido abandonadas e fez um sinal para que Meredite se sentasse na que se encontrava também vaga, próxima à sua. Ele recomeçou a conversa:
     - Diga tudo o que for de seu arbítrio mas devo avisá-la que ênfase mal direcionada se torna imprudência, que está passível de reprimenda.
     - Eu agradeço pelo alerta, príncipe. Falarei com meu coração e aceitarei as consequências.
     - É confortante ver que você entende a situação e que demonstra compromisso com boas maneiras. Vê? Essas pessoas estão observando você, forasteira.
     - Desculpe, Alteza, mas devo discordar... Elas estão aqui por você! Vieram te ver. Quantas vezes essa sala foi igualmente tão disputada? Cada uma dessas almas presentes está ansiosa para formar sua própria opinião sobre alguém que só dez por cento da população já viu caminhando pelas ruas da vila.
     Conversas paralelas em voz baixa começaram, mas logo foram suspensas, substituídas por entreolhares e sinais de concordância entre um aldeão e outro. O príncipe se moveu lentamente em sua cadeira, olhou para o povo e fixando o olhar em um homem que aparentava ser um padeiro, perguntou:
     - Isso é verdade?
     O homem sacudiu avidamente a cabeça:
     - É sim, Alteza! Fiz questão de encerrar o atendimento da minha barraca mais cedo para conseguir um lugar bem próximo ao trono!
     Quando o regente voltou a fitá-la, a artesã falou:
     - Eu também, não me obstinei a vir aqui para desfrutar da condição de entrevistada... Estou no palácio para entender o homem que me abordou em uma rua, o mesmo que eu, em segredo, observei indo além da área movimentada da vila.
     Meredite considerou mais sensato não mencionar diante de todos que ele estava falando consigo mesmo, mas pôde perceber através do olhar que ele lhe lançara, a surpresa e o reconhecimento de que ela havia testemunhado um momento muito particular de seus hábitos... Seu monólogo diante de um ambiente vasto, rústico. Ela recomeçou:
     - Um castelo pode ser poderoso, mas não fala por si só. Uma fortaleza precisa de coragem para sobreviver e um soberano é exemplo quando tem espírito. Seja alguém que, nas vitórias desperte admiração, e, nas derrotas, amor. Que seu peito ostente muitas medalhas, mas que a maior delas seja o seu coração. Siga os chamados e nunca tema o silêncio, porque, antes e depois de todas as suas horas decisivas, ele vai reinar... Aceite, esteja pronto para ele, o tão verdadeiro e inevitável guardião de mistérios.
     A jovem parou de falar e viu que o príncipe estava com uma expressão suave e mantinha os olhos fechados absorvendo as palavras, e, mesmo após o término do breve discurso que lhe foi destinado, ele permaneceu nessa atitude. Seguia nesse estado enquanto a artesã o observava. Um dos conselheiros pareceu ver algum ridículo naquela situação e fez menção de interromper a meditação do soberano... Porém, ela percebeu seu movimento e gesticulou solicitando que ele não fizesse tal coisa. O homem, mesmo contrariado, obedeceu. Mais um tempo passou até que o príncipe voltasse a abrir seus olhos, devagar. Como resposta, recebeu da parte de sua convidada um sutil sorriso que deixava transparecer uma indecifrável carga de satisfação. Ele resolveu se manifestar:
     - É apenas isso que você tem a expressar? Não vai acrescentar algum apelo voltado às questões mais diretas apontadas pelo conselheiro?
     - Alteza, sua reação, mais do que esses seus dizeres prova que você ouviu e entendeu não apenas as linhas e entrelinhas dos meus verbos. Você aprendeu a amar, receber e ser silêncio. De tal maneira que compreendo que se respostas formais são exigidas, Vossa Alteza solicita que eu as conceda mais à História e a todos que estão aqui presentes. E assim o farei.
     O outro conselheiro se mostrou mais exaltado:
     - Fale de forma decente! Você não faz outra coisa além de usar esses termos macios e tentar subornar a alma do público. Parece até que enfeitiçou o príncipe!
     - A princípio me julgam arrogante, e, em seguida, doce demais. Certo, posso dizer que fui propositalmente as duas coisas... Primeiro, por estar desconfiada, quis acessar os reais valores de sua autoridade. Literalmente observar-lhe a aura, conduta e paciência. Depois, eu comecei a conversar com alguém que conquistara meu respeito. Sobre práticas ocultas e malignas... Sabe... Quando alguém tem poderes extraordinários não precisa de um objeto para exercer a influência de sua magia, pode fazer isso através de palavras...
     E a artesã, olhando para o soberano que começava a se mostrar embaraçado, continuou:
     - Se eu fosse maga e o príncipe tivesse passado todo esse tempo esperando por uma contribuição benéfica de minha parte levando em consideração o que acabo de explicar a vocês, eu não necessariamente teria que oferecer um amuleto. Eu poderia vir e lhe dedicar boas energias, transmiti-las de forma incondicional. Então, eu não teria traído o príncipe.
     O conselheiro comentou:
     - Você está revelando saber muito sobre bruxaria e parece ter feito exatamente tudo que está dizendo! Todos viram o príncipe em transe! Você pode ter lançado o mal nele!
     - Eu só propago o Bem! E eu não sou bruxa, nem maga... E mesmo que fosse, e fosse uma feiticeira cruel... Eu jamais mentiria, fingindo fazer uma bondade. Ainda mais em um ambiente no qual ainda existe a força de uma...
     Ela recuou. Pela primeira vez ela parecia estar cansada daquela entrevista. Will interrompeu o conselheiro antes que ele jogasse mais fogo em Meredite:
     - Deixem ela em paz!
     Um tumulto ameaçava se espalhar, porém o príncipe gritou:
     - Uma fada!
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Atualizado em: Ter 19 Jan 2021

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