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Leonardo e Meredite (Parte 6)

Quando faltavam dois dias para o fim do festival, todos começaram a já sentir saudade uns dos outros. Impressionava a forma como mesmo em meio aos afazeres e distrações proporcionadas por aquele período, eles conseguiram se conhecer tanto.
     Meredite e Leonardo se aproximavam cada vez mais. Se tornavam primordialmente amigos. Seus corações aparentemente não desejavam outra coisa do que um espírito que os compreendesse. Conversavam sobre tudo e ela adorava contemplar a alegria cristalina que parecia dançar em suaves ondas nos olhos de Leonardo enquanto ele revelava detalhes de sua vida e esperanças. Aquelas águas só se tornavam um tanto turvas em duas ocasiões: Quando tentavam convencê-lo a pintar faces ou quando queriam que ele frequentasse castelos.
     Meredite via a forma como ele reagia e por isso mesmo evitava ser ela a tentar acessar tal universo.
     Após as últimas apresentações do derradeiro dia do festival, Meredite que já havia preparado seus pertences para retornar à sua casa, se despediu da proprietária do teto que a abrigara e se encaminhou para o ponto de encontro que havia combinado com seus amigos. Chegando lá, se reuniu com os quatro artistas, além de Tamara e seus irmãos. Abraçou todos. Depois de algumas horas de conversação, Tamara avisou que precisava retornar ao centro da vila, sua tenda não podia ficar mais um dia inteiro sem atender naquela semana.
     Todos lamentaram ela precisar ser a primeira a se retirar, queriam que ela estivesse ali acenando à partida deles, porque teriam uma visão de que aquele "Tchau" muito em breve se converteria em nova saudação de boas-vindas.
     Ela então, com os olhos marejados, retrucou:
     - Também estou chateada por precisar deixá-los a sós nesse momento, amigos. Mas prestem atenção... Eu ordeno solenemente que vocês jamais esqueçam desse lugar, de mim, de nós! E que façam o impossível para estar dentro de minha casa antes que eu mesma seja capaz de abrir a porta e colocar os meus pés nela!
     Aconteceu então um abraço coletivo, eram como uma irmandade.
     Logo depois ela e seus irmãos seguiram o rumo da vendinha, enquanto os amigos os acompanhavam com o olhar, sentindo a dor de cada metro que a distância conquistava, chegando o momento em que lamentavelmente os cinco ficaram ali naquela porta de entrada e saída da cidade, diante de uma estrada repleta de curvas e bifurcações. Estava quase na hora da carruagem que transportaria os quatro homens ao seu próximo destino chegar. Conhecendo isso, Leonardo e Meredite caminharam um pouco, de mãos dadas até um grupo de árvores que estava próximo de onde se encontravam.
     Leonardo então comentou:
     - Cada um de nós sabe onde encontrar o outro, mas, talvez, a gente nunca mais se veja. Então, preciso te revelar algo agora... Você foi a primeira pessoa que me aplaudiu, na vida. E eu tenho uma pergunta: Por que você nunca me pediu para te retratar? Você é uma das únicas que não me solicitaram isso!
     Meredite então pegou na valise que trazia consigo, a pulseira que havia criado para Leonardo. Era totalmente neutra, discreta, linha e pedra da mesma cor, terrosas. A pedra era a mais rústica possível. Ela estendeu o braço esperando que ele imitasse o gesto para que ela pudesse colocar a jóia nele. Ele o fez, e, enquanto ela ajustava a criação ao pulso do artista, ela falou:
     - Porque você tem uma musa.
     Ele demorou a aceitar que aquelas palavras deixaram ele totalmente exposto, mas por fim, retrucou:
     - Eu tinha.
     Meredite ficou satisfeita com a aparência que o amuleto adquirira no braço dele e insistiu:
     - Você tem.
     Ele ia reclamar da teimosia dela, mas ela foi mais rápida ao declarar:
     - E ela é tão forte que não te deixa se inspirar em nenhuma outra. E eu sei que se trata de uma dama muito especial. Alguém com quem eu não quero nem posso duelar. Não sei nada sobre isso. Mas sua história com essa jovem tem algo de dramático que foi novamente despertado em você por causa daquele rubi que um certo nobre te ofereceu em uma taverna.
     - Você sabe sobre meus atos naquela taverna? Me envergonho do que fiz naquele dia... Não de ter recusado o trabalho tão veementemente, mas de ter chamado atenção para minha conduta.
     - Seus amigos me contaram sobre o caso desse rubi. E ao ver sua alma eu percebo o quanto esse vermelho te irrita. Você não precisa me contar tudo. Eu sei o suficiente. E é por isso que a pulseira que fiz para você talvez vá te ajudar quando eu já não puder. Ela te fará parar de perder sangue, sangue de sonho. A pedra que existe nela é bruta, porém generosa e potente.
     Leonardo, vendo a agitação de seus amigos, entendeu que seu transporte se aproximava. Tocou a pedra que havia na pulseira, em seguida olhou para Meredite, demorada e detalhadamente... Primeiro pareceu gravar todo seu corpo e depois registrou no espírito toda sua harmoniosa constituição.
     Depois a beijou suavemente nos lábios e declarou:
     - Você é um sonho. E sonhos podem levar séculos para se tornar realidade. Ou talvez tudo isso já seja eternidade. Que divindade poderia nos oferecer tal resposta?
     A carruagem já vinha esperando-o por muitos minutos, seus amigos, ansiosos por partir, o apressavam. Ele a fitava ainda refletindo se devia ir ou não. No fim das contas, foi ela que quebrou o silêncio:
     - Vá... O seu destino precisa de você!
     Andaram juntos em direção à carruagem, ele embarcou, e, quando esta começou a se movimentar, ele e seus amigos acenaram para Meredite, que soprou um humilde beijo na direção do pintor, que fez um gesto como que pegando o sentimento no ar.
     A carruagem logo foi engolida pela estrada. E, muito depois que toda poeira daqueles caminhos voltaram a baixar, Meredite também começou sua jornada. Voltaria para sua choupana do jeito que partira, sentindo a operação de todos os elementos da Terra sobre o seu corpo e aura.
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Atualizado em: Seg 11 Jan 2021

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