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Leonardo e Meredite (Parte 2)

     As estradas ainda um tanto quanto primitivas do reino ofereciam passagem e embevecidos suspiros para os pés e imaginação de Meredite. Eram dias nos quais reinava o Sol e o chão se mantinha firme, poeirento, o que naquelas circunstâncias ela entendia como algo bom. Em sua caminhada atual ela já vira muitas auroras e ocasos, por vezes, quando se cansava, buscava um abrigo seguro dentro dos bosques que margeavam alguns trechos da estreita via que percorria. Ali, em meio ao verde, se dormia um pouco, quando contava com a sorte se deliciava com alguma fruta silvestre (Ela aprendera desde cedo o que as matas permitem ou não), encontrava algum poço público ou fonte e matava sua sede, além de reabastecer seu cantil para os momentos mais áridos do percurso. Agradecia principalmente quando em uma dessas aventuras na floresta presenciava o canto de uma cachoeira cristalina na qual podia se banhar. Tudo isso a motivava, a fazia perceber que fizera a escolha certa, vitória acrescida pelo contentamento de não precisar procurar uma estalagem para se recompor. Sem dúvida, Meredite estava feliz. Lembrava perfeitamente que, ao se despedir de sua choupana, pegara tudo que julgava necessário para uma boa jornada de ida e volta... Algum alimento, roupas e muito material para construção de suas peças místicas. Nos últimos dias de sua jornada, porém, as nuvens resolveram se manifestar e liberar água em abundância. E com seus pretendidos a abrigo bastante reduzidos, já que a estrada passara a ser margeada prioritariamente por pequenas fazendas ou grandes propriedades com pouca ou nenhuma reserva de mata alta e conservada, já que se destinavam à cultura da uva, por duas vezes ela precisou se hospedar e seus passos se tornaram mais lentos por causa da dificuldade apresentada na superação da lama que exercia um efeito de cola nas solas de suas pequenas botas. Mesmo com esse contratempo final ela chegou ao destino, agora só faltava encontrar um pouso apropriado para se higienizar adequadamente e fazer sua esperada última troca de roupa. Sim, ela possuía alguma maquiagem (Um potinho de carmim que ela reservava para situações singulares. Aplicava-o discretamente nos lábios e maçãs do rosto) e deixara sua melhor vestimenta para o momento de estar diante das obras.
     Percebeu, fascinada, porém com uma gota de angústia, que aquilo era muito maior do que uma simples vila. Era um reino de galerias, vendas, tablados, casarios, carruagens e ambulantes. Seria complicado perambular por ali, ela pensou. Mas era preciso, não iria desistir agora que estava tão perto, tão junto... Do quê? De quem? Que não pedissem para ela explicar. Era algo dela. Que nem ela compreendia. Então, ela recomeçou a caminhar, seguiu por ruas, vielas, fez curvas, subiu e desceu escadas e... Se perdeu... Então parou, se desesperou, mas, em seguida, sorriu... Aquilo tudo era um caos... Porém era muito mais, era poético. Tentando, no entanto manter seu lado prático afinado tanto quanto suas emoções, observou o entorno e percebeu que bastante perto de onde ela estava, uma tenda que vendia roupas parecia estar esperando por uma visita. Ela se aproximou já se preparando para a má impressão que seu visual causaria na jovem comerciante que terminava de repôr mais algumas mercadorias.
     - Bom dia! - falou.
     - Oi! Bom dia! Como vai? Você não é daqui, né?! Seja bem-vinda à vila e ao festival! - a moça falava rapidamente e parecia realmente empolgada com o evento e com a oportunidade de demonstrar isso à forasteira.
     Meredite respondeu deixando evidente seu contentamento com a nobre recepção e ainda mais pelo fato da interlocutora parecer não ter sido afetada pela sua aparência:
     - Estou bem! Tem razão, acabo de chegar! Muito obrigada pela gentileza... Estou emocionada com toda essa energia que já está emanando para o festival! E a vila é maravilhosa, pelo que já pude perceber... E confesso que a achei maior do que tinha em mente!
     - Ah... Muita gente comenta isso. Mas continue deixando que o encantamento fale mais alto do que a primeira impressão... Sei que pode ser meio intimidadora mesmo, porém veja como realmente somos, todos nós, você também... Celebrantes da cultura! - respondeu ao mesmo tempo em que pegava uma nova pilha de vestimentas.
     - Claro! Concordo com sua observação! Não quero abusar da sua simpatia... Mas... Poderia me indicar algum albergue onde eu poderia descansar da viagem e me arrumar adequadamente para acompanhar os eventos? - Meredite falou isso enquanto apontava suavemente para suas vestes encardidas e cabelos levemente embaraçados.
     - Não está cometendo abuso algum... Mas sinto informar que a maioria das pousadas nesse momento deve estar superlotada. Sabe como é... Tanta gente, tantos artistas, sacolas, rolos, envelopes, gritaria e... Não se surpreenda... Brigas... Por qualquer motivo... Desde discordâncias sobre o valor das diárias, até uma atriz acreditar que a camareira flertou com um de seus pretendentes. E sempre aos berros. Dedos em riste, mãos como espanadores, faces coradas em excesso, terminando em bebedeiras e palavras de ainda mais baixo calão.
     Fez uma pausa para suspirar profunda e dramaticamente e continuou:
     - Às vezes concordo com os nobres... Sobre as mulheres e menores deles serem aconselhados a não frequentar esses ambientes muito livres e criativos, mas aí, paro para refletir e vejo como tudo se torna uma espécie de aprendizado. Nós, aqui, do dia a dia é que dominamos as artes e inspirações.
     Parou uma segunda vez, foi até o balcão, pegou um copo com água, sorveu o líquido e continuou:
     - Olhe, desculpe meu desabafo! Vou fazer uma lista para você... Vou citar apenas os locais mais familiares. Espere só um momento.
     Meredite assentiu e viu a vendedora retornar ao balcão, pegar um lápis e um pedaço de papel e começar a escrever. Essa tarefa levou minutos que pareciam horas. Com tudo feito ela caminhou até a forasteira com um largo sorriso e balançando o papel em uma das mãos. Disse:
     - Pronto! Mas não garanto que encontrará vaga. Perdoe-me por não conseguir te ajudar mais.
     A recém-chegada sorriu em agradecimento, pegou e leu o papel, reparando em silêncio que a lista contava com mais de trinta indicações detalhada e apertadamente escritas. Se sentiu radiante. Em algum daqueles endereços haveria de ter um espaço para ela. Sem conseguir conter sua euforia de esperança, sem enviar prévios sinais, se aproximou daquela que ela já considerava uma amiga e a abraçou ternamente enquanto dizia:
     - Muito obrigada! Você não tem a mínima ideia do quanto está me ajudando! Mas, antes que eu me esqueça de perguntar... Qual é o seu nome? O meu é Meredite!
     A vendedora tinha sido verdadeiramente influenciada por aquele gesto impetuoso de gentileza. Respondeu:
     - E eu sou Tamara!
     As duas interromperam gradativamente o abraço e Tamara continuou:
     - Saiba que você tem oficialmente, a partir de agora, Meredite, a forasteira, uma nova e fiel amiga! Se precisar de algo, me procure...
     Ao que a artesã respondeu:
     - O sentimento é totalmente recíproco, Tamara. E te antecipo uma coisa. Antes de me despedir dessa vila, te trarei um presente. Só me esclareça uma coisa: Você gosta mais do dia ou da noite?
     Tamara, curiosa e fascinada, respondeu:
     - Do dia!
     - Está certo então! Nos vemos em breve, amiga! Até!
     - Até!
     E assim, Meredite se encaminhou para o primeiro local indicado. Bem no instante em que o relógio das águas, o orgulho daquela vila, indicava uma hora da tarde. A artista só encontrou descanso ao visitar o vigésimo terceiro endereço. Estava exausta. Sua procura tinha se transformado de passeio em corrida a partir do décimo primeiro "Desculpe, não temos vaga" que ela escutou. Ao ser beneficiada com um "Sim" acolhedor, enquanto esperava seu dormitório ficar pronto, perdeu o senso de etiqueta, tirou seu calçado e se sentou em um canto afastado da pequena recepção.
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Atualizado em: Qua 6 Jan 2021

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