person_outline



search

Ansiolítico

Capítulo 1- Crop Circles
Mila Cox escrevia as letras do projeto musical Crop Circles resumindo os monólogos de seu melhor amigo Zimi. A banda era composta apenas por eles. Ela no baixo, vocais e efeitos e ele na bateria. Era consenso entre eles que deveriam ter como principais referências os Kinks, o X-Ray Spex e o Husker Dü.
Bastava que ela levantasse alguma questão relativa à injustiça social ou sobre qualquer bizarrice governamental e deixasse que ele falasse até que fosse suficiente.
Estavam em quarentena no rancho sem nome, propriedade localizada no Vale do Ribeira, em meio à Mata Atlântica, que sua tia Lola Cox passou para o nome de Mila porque sabia que assim o local permaneceria bem cuidado enquanto ela vivia sua vida urbana e a sobrinha poderia manter ali com Zimi o isolamento social e fazer música.
Quando da compra do imóvel, o acesso a ele era muito difícil. Tornou-se mais fácil a custa de desmatamento com a chegada de novos moradores na região. O valor pago pela propriedade na época da compra não pagava o valor do condomínio do prédio em que Lola vivia em São Paulo.
Quando Mila e Zimi se mudaram definitivamente para lá, o valor do rancho havia multiplicado. Era área de preservação ambiental, mas sem que houvesse qualquer fiscalização por parte das autoridades.
Mila tinha dezenove anos e Zimi tinha quarenta e sete. Conheceram-se através de Lola, companheira de Zimi em bebedeiras homéricas desde muito antes do nascimento de Mila, que cresceu em meio às conversas dos dois, e ainda criança se mantinha controlada com música, discos de vinil, livros e passeios no Ibirapuera.
Mila completou o ensino médio e passou o ano seguinte, 2019, se dedicando à música e recrutou Zimi para seu projeto musical, pois apesar de não ser um baterista exuberante, tocava o suficiente para a empreitada e tinha um gosto musical irrepreensível. Era um tempo em que ela também estava decidindo o que faria no ensino superior.
Juntos eram criadores prolíficos e tinham um modesto estúdio caseiro que depois foi levado para o rancho. Fizeram oitenta e quatro shows gratuitos em bares e coretos de praça em cidades pequenas do interior nos estados do sul e sudeste, Havia planos para ir mais longe dentro do país, interrompidos pela pandemia.
A partir de então, apesar dos planos adiados, tinham a desculpa perfeita para viverem longe do sistema. O sítio tinha um pomar cuja produção era mais que suficiente para que se alimentassem. Mila era vegana e Zimi, por força das circunstâncias, estava em vias de se tornar também. No começo ele conseguia carne de frango em troca de abacates com o sitiante vizinho.Tinham dois cães viralatas, que eram chamados Um e Dois. Tinham internet por satélite.
Tinham três EP’s gravados em 2019 e um Split com a banda Main Drags e estavam preparando mais um disco.
Zimi sempre acordava antes porque gostava de ver a satisfação de Cox em se levantar com o cheiro do café.
Numa dessas manhãs, Zimi lembrou do tempo em que pensou estar no fundo do poço. Não conseguiu um emprego de telemarketing porque tem o ouvido esquerdo comprometido, assim como Pete Townsend e Brian Wilson.
Isso aconteceu num tempo em que a maioria das pessoas parecia estar de acordo com o fato de o mundo estar nas mãos de poucos abutres que controlam a vida de milhões de escravos que agradeciam pela oportunidade que lhes foi concedida enquanto ele ansiava poder viver alheio a regras que iam contra seus princípios.
Agora tinha o que parecia ter uma certa emancipação individual, com quase cinquenta anos de idade.
Havia acabado de receber por e-mail o conteúdo do livro que seu contemporâneo Max havia escrito. Não via o amigo fazia tempo e encaminhou o e-mail para que Cox lesse o livro enquanto tomava o café.
Ela vestia uma camiseta do Pet Sounds, álbum que ela revisitava regularmente em busca de inspiração para soluções melódicas para misturar com a distorção do som de seu baixo. Zimi sugeriu que durante a leitura ouvisse Holland, que para ele era o melhor disco dos Beach Boys.
Em questão de minutos após o início da leitura, ela perguntou quem era o sujeito.
Zimi começou a contar o que se lembrava, ressaltando que o conheceu num mundo que não existe mais, permeado de paradigmas que naquele momento não faziam mais sentido e que soa muito mais surreal do que os desejos mais utópicos que agora pudessem ter em relação ao futuro.
Capítulo 2- Ele não e nem os outros
São Paulo, Maio de 2012.
Max havia cumprido sua meta de trabalho para aquele dia, e saiu para comprar cigarros. Fazia calor e ele prolongou seu passeio, subindo a ladeira de acesso da Avenida Nove de Julho para a Avenida Paulista. Não havia nenhuma mesa vaga no bar da esquina da Paulista com a rua Casa Branca, então ele comprou seus cigarros e uma Budweiser e sentou-se na mureta do canteiro que ficava na parte externa do bar.
Era um sábado de sol e não fazia tanto calor. Não tinha dívidas nem maiores ambições, portanto, não havia pressa. Achou que seria uma boa idéia ficar ali um pouco simplesmente para ver o movimento do bar, repleto de uma juventude eufórica. Eles eram uma triste e eficaz resposta aos questionamentos pessoais de Max sobre suas escolhas ao longo de seus quarenta e dois anos de vida. A parte triste dessa resposta era referente aos desdobramentos alcançados pela ‘evolução’ humana nos últimos trinta anos, se aquela mesma esquina fosse vista antes e depois. A parte eficaz consistia no fato de que após alguns minutos ali, Max voltava renovado para casa, quase sem nenhuma dúvida de que fez o melhor que pôde até então. Ter vivido até então à sua própria maneira era um saldo positivo.
A vida ‘real’ da maioria dos jovens do século vinte e um parecia (e de fato era) vazia, superficial e rasa o bastante para que Max, quarenta e dois anos, tivesse qualquer motivação para divagar sobre o futuro da humanidade, e até para o seu próprio futuro. Ele já estava no segundo tempo da vida, enquanto aqueles jovens nasceram atrelados e entretidos aos seus dispositivos móveis, documentando sua imbecilidade e suas ridículas vaidades ao invés de tentar viverem o momento presente, que se já não era tão empolgante para ser vivido, menos ainda o era para ser compartilhado e documentado em redes sociais.
Finalmente haviam se tornado todos iguais. Tornou-se corriqueiro, por exemplo, as pessoas não mais assistirem a um show, só para que fosse possível filmá-lo num celular, com péssima qualidade de imagem e som, para nunca serem assistidos novamente. Um dia a qualidade dessas gravações haveriam de atingir boa qualidade, mas a completa falta de sentido em não prestar atenção no show permaneceria. Era um ponto sem retorno. E a mentalidade da grande massa jovem que continuava dominando a pirâmide etária brasileira dificilmente mudaria a partir dali, a menos que fosse para pior.
A interação entre esses jovens nos bares e festas, que de qualquer forma já não primaria pela devida articulação de palavras, era frequentemente substituída pelo silêncio, mesmo diante de uma mesa cheia de copos e garrafas de cerveja. Agora todos eram jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas a serviço do nada. Nunca se tirou tantas fotos, e nunca as fotografias valeram tão pouco.
Milhares de fotos publicadas diariamente, de jovens gaiatos, anônimos e sorridentes, consumindo, vivendo como pedaços de madeira sendo levados por um rio. As melhores fotos eram aquelas que registravam um grupo de jovens, em torno da mesma mesa, cada um internado em sua própria bolha, enviando mensagens até mesmo para aqueles que estavam ao seu lado. Alguns anos antes, isso seria chamado de alienação, e provavelmente não teria uma aceitação tão ‘compreensiva’ por parte dos pais. Este último aspecto é ambíguo no que diz respeito a conclusões sobre a positividade ou negatividade desses dois momentos historicamente próximos.
Certamente a confusão entre informação e propaganda contribuiria para esse debate. Essa mesma confusão fatalmente desencadeava uma outra, entre qualidade de vida e consumismo desenfreado. Quando as conversas permeadas por falas mal elaboradas desses jovens (uma verdadeira sucessão de vulgaridades) cessavam, eram substituídas por lapsos momentâneos de hipnose gerada por seus celulares, que teoricamente registrariam aqueles momentos pouco glamorosos, encaminhando-os a quem não estava lá, e que certamente não se interessaria por aquilo. Eram momentos perdidos, ao invés de realmente compartilhados.
Momentos perdidos tanto em sua essência quanto em seus registros inúteis. Em pleno auge da tecnologia a serviço da comunicação, o que se vê é essência do que deveria ser chamado de comunicação ser deixada de lado. O espelho da ‘evolução’ humana: a cada passo dado à frente no campo da tecnologia, a humanidade dá dois passos para trás no que diz respeito à qualidade da espécie, fazendo com que os valores novamente sejam invertidos, com o homem cada vez mais servindo à tecnologia, ao invés do contrário. Isso não é nada novo nem surpreendente. Incrível mesmo é a determinação obsessiva com que a juventude se presta a isso. Curvando-se facilmente a padrões e normas estúpidos, sem ensaiar qualquer questionamento.
Talvez a tecnologia respondesse às suas fraquezas dando a ilusão de companhia sem que houvesse simultaneamente as exigências excessivas de relações que envolvessem intimidade. Os que nasceram em meio a esse contexto pressionam os pais para que os mantenham atualizados em relação aos amigos no que diz respeito a consumo desenfreado e inútil. Alguns desses pais eram amigos de infância de Max, que tardiamente começava a sentir que suas antigas convicções e escolhas de vida começavam a dar algum resultado, pelo menos no que dizia respeito a não ter em casa um filho jovem o pressionando para que o mantivesse atualizado tecnologicamente em relação aos colegas.
A paternidade nunca foi um sonho para Max, e nem ao menos um remoto desejo na época em que era mais jovem. Com o passar do tempo essa convicção firmou-se, ao contrário das previsões de seus parentes mais velhos. Teria sido assim mesmo que as questões financeiras não fossem um empecilho monumental. Quando criança e adolescente, Max via as outras crianças e adolescentes e não gostava nem um pouco. Também não gostava dos adultos, mas ainda não tinha se tornado um, para vêlos sob outra perspectiva. Então tornou-se um a passou a desprezá-los mais do que tudo.
Com a chegada de sua vida adulta, as fotos de sua infância, que registravam muito da ridicularidade brasileira dos anos setenta e oitenta passaram a não ser tão constrangedoras para os outros adultos de sua geração. Pessoas de sua idade não tinham mais vergonha das fotos com cabelos e roupas ridículos dos anos oitenta, porque resgataram, de uma certa forma, o apreço pela falta de instantanealidade de um passado não muito distante, ao mesmo tempo em que podiam afirmar que ainda estavam vivos e adaptados aos novos tempos.
A geração que os sucedia vivia de maneira instantânea. Muita coisa passou a ficar obsoleta de um dia para o outro. As edições impressas dos jornais que o digam, mas nesse caso trata-se de um fator positivo, em meio a tantos fatores negativos. A culpa por esse tipo de fenômeno novamente é do homem (o mau usuário dos novos recursos) e não da tecnologia. O potencial das fantásticas ferramentas criadas com o intuito de favorecer as comunicações estava sendo usado em sua maior parte para fazer circular material burro e estéril. Essas ferramentas obedecem a seus donos, e da maioria deles não se poderia esperar nada melhor do que essa realidade precária.
Essas ferramentas eram usadas em função de sua novidade como recurso, ao invés de serem usadas pela sua finalidade verdadeira, que seria a transmissão de conteúdos úteis. A instantanealidade disponibilizada por esses recursos são encaradas pela maior parte das pessoas como uma obrigação para que fiquem a todo momento manifestando qualquer trocidade que estiver disponível no momento, por mais que os pensamentos ou situações compartilhadas nesses momentos sejam estúpidas, e quase sempre o são.
O resultado é trágico: a quase impossibilidade de se encontrar algo interessante nas redes sociais vindo de pessoas comuns, aquelas que trabalham para consumir, e que exploram desmedidamente os recursos oferecidos pelo rendimento de suas rotinas de trabalho. Essa maneira bisonha de consumismo e ações impensadas nivelaram toda a massa, fazendo emergir dela só o que há de pior. Vale repetir: culpa das pessoas e não da tecnologia.
Provavelmente é na Pré-História que encontramos uma melhor compreensão da nossa natureza. Afinal, primitiva, a humanidade nunca deixou de ser. E na Pré-História, a maior integração do homem com a natureza o faz mais facilmente classificável como espécie. E pensar que àquela altura, aos quarenta e dois anos, Max se sentia quase culpado por sentir falta de conexão para internet doméstica nas horas vagas, quando esta o faltava por algum motivo. Fazia-lhe falta porque gostava de ouvir música sem ter que se levantar para trocar um disco ou vira-lo a cada vinte minutos. Era um complemento e não uma substituição. Seu passado analógico não muito distante era precioso, mas não tão sagrado assim.
Por isso Max acabava perdoando-se por essas coisas, porque apesar de ter fetiche por discos de vinil, o modo de se ouvir música tinha mudado, ainda que para ele essa mudança tenha sido apenas parcial (ele ainda amava discos de vinil) e no caso do uso da internet por razões alheias à música, ele queria distração para matar horas vazias, já que não tinha mais motivação para se entreter com as pessoas e manter uma vida social de maneiras mais convencionais. Passou anos tentando se integrar a algum grupo social em que pudesse expor e desenvolver suas convicções, para que assim conhecesse melhor a si mesmo e aprendesse com as pessoas, mesmo que nesse processo entendesse que algumas dessas suas convicções eram equivocadas. Estava subestimando a si mesmo, ainda que tivesse consciência de que era um cara mediano em muitos aspectos e com faculdades mentais apenas razoáveis.
A consciência de sua condição de pessoa intelectualmente mediana já o colocava acima de muita gente cheia de si, especialmente as pessoas com as quais pensava que deveria interagir, a quem superestimava. Finalmente cansou-se disso ao constatar que sua interação a esses grupos era dificultada pelo fato de que a maioria das pessoas a quem recorria não era composta de bons ouvintes, e que ao contrário dele, gostavam de falar muito. Passou a identificar-se com personagens solitários em conflito com o sistema e com seus demônios particulares.
Não fazia diferença se fossem andarilhos errantes que dormiam sob as marquises de seu bairro ou personagens clássicos dos livros que gostava. Sem que precisasse a todo momento expor suas idéias antes de repensá-las e maturá-las para não fazer o mesmo papel ridículo que os usuários de redes sociais continuam fazendo até hoje, e provavelmente ainda farão por muito tempo, não apenas expondo idéias e pensamentos idiotas, mas muitas vezes o fazendo com erros de grafia. Então essa desistência se tornou uma tentativa permanente de usar essas boas e novas ferramentas tecnológicas (às quais sempre demorava a aderir, quando de fato aderia a elas) de maneira que ele próprio julgasse adequada. Sem que elas o fizessem deixar de lado a vida offline, por exemplo. Sem que abrisse mão de se tornar inacessível quando fosse conveniente. A vida social limitada ele já tinha, muito antes de morar sozinho, e agora tentaria tirar proveito de suas vantagens.
Max tinha que tentar, e o fez com a tranqüilidade de saber que caso falhasse naquele momento, teria falhado sozinho, tendo feito as coisas a seu modo. E ele não falhou, mas a primeira parcela do preço pago por isso foi a constatação imediata de que deveria ter começado antes. Quando muito jovem, por causa de uma mais que completa ingenuidade, Max superestimava a inteligência das pessoas ao seu redor, na mesma proporção em que essas pessoas pareciam subestimar a sua. Havia então um longo caminho para que esse atraso fosse rompido. No que dizia respeito à sua relação com a música, a falta de praticidade das vitrolas não era levada em conta quando ele tinha vinte anos de idade. Talvez por que essa falta de praticidade não existisse. Foi inventada pelo homem ao substituir os antigos aparelhos de som por acessórios que permitiam mobilidade.
Era algo normal em sua juventude, quando estava ouvindo música, levantar-se para virar o disco, e naqueles tempos era quase impensável, pelo menos para ele, conceber solução mais prática, eficiente e agradável. Havia também o fator estético de se ter uma boa coleção de discos em casa. Pouco importava se não sobrasse dinheiro para comprar um tênis novo para substituir aquele velho par, que de tão gastos e despedaçados faziam com que sentisse o calor ou a umidade do chão a cada vez que ia à rua, e deixavam sua mãe enfurecida e envergonhada ao mesmo tempo. Mais tarde, com o advento da internet, Max parou de comprar discos regularmente, restringindo os gastos com fetiches vinílicos apenas aos artistas obscuros e bizarros, de preferência independentes, que gravaram por conta própria e que despontaram para a mais completa obscuridade.
Já estava acostumado às dificuldades de acesso à cultura musical no Brasil, então para ele a internet funcionava bem nesse sentido. Milhares de álbuns que jamais seriam lançados aqui agora estavam disponíveis. Se a sensação de ter esses álbuns em mãos era um diferencial, pelo menos agora tínhamos o que havia de música nele. Afinal, antes de alguém se apaixonar por discos, a paixão é pela música. É claro que isso culminou com a derrocada da indústria da música, mas esta era milionária quando ele era um garoto que não conseguia comprar os discos que queria, então aquilo definitivamente não era problema dele.
Ele já tinha problemas de sobra e queria que as gravadoras se fodessem mesmo. Max não costumava ter um celular porque detestava telefones fixos ou móveis desde que freqüentava a escola primária (naquele tempo, evidentemente, existiam apenas os fixos) . Chegou a ter telefone celular em duas ocasiões, cedidos por uma ex-namorada e por um amigo, quando esses trocaram seus aparelhos. O desapego pela telefonia móvel era tamanho que o primeiro celular foi perdido no metrô e o segundo caiu na privada, sem que isso lhe causasse qualquer crise de humor. Até porque seus estados de humor não precisavam disso para serem abalados com certa freqüência.
A vida cotidiana já lhe proporcionava uma série de outras chateações. De qualquer maneira não poderia reclamar por não ter documentado via celular os bons momentos que tivera outrora, antes do surgimento desse recurso. Gostava de ir a shows pelo que assistiria ali, sem recorrer a qualquer artifício tecnológico de registro, inúteis diante da razão pela qual se vai a um show. Para isso já existiam discos, dvd’s e outros tipos de mídia. Se já tivesse acesso a um celular com filmadora anos antes, não o teria usado de qualquer forma. Era como se um vago fiapo da ancestralidade humana soprasse através dele. Intrigava-o não perceber esse tipo de manifestação na maioria das pessoas ao seu redor. Agora Max apenas olhava uma parte dos jovens poluindo a web. A outra parte estava morta nas drogas. Ele não sabia ao certo se o mundo era melhor ou pior vinte anos antes.
Quando realmente pensava nisso, sempre concluía que para ele próprio, era pior antes. Procurava se afastar de suposições nostálgicas glorificando um passado sem glória. Mas isso tem a ver com o fato de Max ter melhorado como humano na vida adulta, por mais contraditória que seja essa idéia, que na verdade significa apenas que o que ele tinha de bom quando criança (e devidamente reprimido) foi preservado na vida adulta. Apenas o modo de lidar com os outros adultos mudou com o tempo. Às vezes lhe ocorria a idéia de que caso pudesse ver a si mesmo naquela forma adulta no tempo em que era criança, teria uma infância melhor, porque estaria satisfeito com essa visão.
Essa satisfação seria elevada à bilionésima potência se pudesse ainda fazer com que as crianças com quem convivia também pudessem ver-se no futuro, principalmente os que se tornaram completos idiotas. Olhando em retrospecto, Max via prosperidade ao longo do seu caminho. Não o tipo de prosperidade que seus pais tinham por conceito e que esperavam dele, mas uma trajetória digna, de acordo com seus próprios pontos de vista. Quando criança, Max, ao contrário das outras crianças que conhecia, não tinha qualquer perspectiva quanto ao que faria profissionalmente quando se tornasse adulto, porque tinha medo de viver a mesma vida opaca que os adultos com quem tinha contato levavam. Jamais ambicionou cargos de chefia, por exemplo, porque isso demandaria um envolvimento muito forte com a corporação que lhe desse o emprego.
Entretanto, lhe apavorava a hipótese de viver condenado a papéis subalternos. Era preciso ter alguma autonomia, e ele trabalharia apenas por imposição da necessidade de sobrevivência. A obscuridade de seu destino o inquietava. Ao se tornar adulto, não teve nenhum sonho do passado cuja concepção original tivesse se perdido. Os limites e constrangimentos de sua infância, que como tantas outras são ditadas pelo seu contexto, não lhe permitiam traçar planos concretos para o futuro. Até mesmo definir suas pretensões era um exercício difícil. Apenas sonhar era possível, mas Max preferia não alimentar ilusões. Talvez por isso não houvesse decepção consigo mesmo com a chegada da vida adulta. Pelo menos nenhuma grande decepção que o deixasse realmente amargurado consigo mesmo. As amarguras eram causadas principalmente pelo comportamento infame de algumas outras pessoas que ainda podiam interferir em sua vida.
Os jovens já eram muito estúpidos em sua infância e adolescência. As circunstâncias de cada época determinavam o grau de estupidez de sua juventude. Por isso o tipo de estupidez do jovem do século vinte e um não pesava tão negativamente na comparação entre os tipos de estupidez dos diferentes períodos de sua vida. Trata-se de um fenômeno atemporal. Quando pensava nisso, invariavelmente concluía que um intervalo de vinte anos é tão irrisório para a mudança do comportamento humano, que ambas as épocas eram ruins na mesma proporção. Talvez as mudanças no comportamento humano tenham sido irrisórias ao longo de toda a trajetória da espécie, guardadas as mudanças ‘evolutivas’ dessa trajetória.
Com o tempo apenas surgiram boas ferramentas que muitas vezes eram mal usadas, o que é um ponto negativo para a juventude do século vinte e um, que como seres humanos, nunca dispuseram de tantas facilidades que muitas vezes tornam esses jovens indolentes. A geração de Max não nasceu com esse tipo de recurso, mas pôde tirar melhor proveito deles, por ter uma bagagem anterior. São pessoas que viveram um período em que telefones fixos eram um patrimônio valioso. De qualquer forma, para ele que foi uma criança totalmente desesperançada de qualquer possibilidade de futuro, a transição para a vida adulta se deu de forma quase surpreendentemente positiva, muito mais por ter se tornado alguém diferente de seus pais do que pela conquista de qualquer bem.
Não era livre de verdade, mas já estava um pouco mais próximo disso. E continuava sem expectativas fantasiosas para o futuro, até porque Max nem sabia se ainda teria algum futuro, tanto como indivíduo, como parte de uma espécie que desde o começo lhe parecia muito desgovernada. Max lembrava que quando tinha sete anos de idade suas professoras de trinta anos pareciam senhoras de meia idade, se comparadas às mulheres da segunda década do século vinte e um. Ele próprio, agora que tinha mais de quarenta anos, pareceria um jovem adulto se tivesse essa idade trinta anos antes. E então ficava pensando no destino infeliz daquelas professoras primárias.
Estariam mortas ou teriam aderido vulgarmente às novas tecnologias de comunicação por meio de seus netos, fotografando-os, e fotografando a si mesmas diante do espelho do banheiro de um shopping center. Esse tipo de gente passou décadas se impondo como referência e como modelo para a juventude. Independente disso, não restava qualquer dúvida que o tempo havia feito alguma justiça, fazendo com que essas pessoas chegassem ao fim da vida sentindo saudade do período menos saudoso da vida de Max. Havia uma professora em particular, Regina Maura, de Matemática, que arruinou a família e a infância de Max. Sua família não era nada relaxada no que dizia respeito a notas escolares, e com Regina Maura e pendurando ano após ano nas recuperações de verão, seus pais viam suas férias arruinadas e o risco iminente de ver o filho reprovado. Isso sim teria causado escândalo. A cada final de ano e a cada recuperação de verão com Regina Maura,
Max vivia a tensão familiar massacrando seu emocional. Seus pais cegamente acreditavam que havia algum tipo de seriedade no que dizia respeito a trajetória escolar de uma pessoa matriculada numa escola pública brasileira, e repetiam incessantemente que por seu desempenho escolar sofrível, suficiente apenas para passar de ano com recuperação em pelo menos duas matérias, levando seus pais ao desespero. Max desde os sete anos tinha contato com repetentes que tinham até quatro anos a mais de idade que ele. Não havia gastos com a educação de Max, que por compreender que a renda de sua família era limitada em comparação à vizinhança mais imediata do bairro do Paraíso, adotou um modo de vida mais rústico do que seus pais gostariam, mas seria chamado de almofadinha por muitas pessoas no mundo.
Para sua mãe, ele era apenas um cachaceiro vagabundo esperando por algum tipo de milagre que o tornasse apto a viver no mundo do jeito que ele era. De uma certa forma ela tinha razão. Em seu imaginário, Max pensava que um dia algum grande homem haveria de conseguir elaborar um tipo de seguro social que de alguma forma fosse efetivo para todas as pessoas. Dentro dessa complexa equação, o conceito de trabalho continuaria muito vivo, mas sem que pessoas criativas tivessem empregos estúpidos, e sem que as pessoas sem imaginação tivessem que passar fome. Puxava esse tipo de pensamento à sua cabeça para que tivesse por alguns minutos um certo alívio psicológico, e de uma certa forma sentia raiva de si mesmo por conta desse ou de qualquer outro pensamento que considerasse utópico. Seu pai gostava de fazer prognósticos a respeito de seu futuro profissional. Max se tornaria um entregador de pizzas, um faxineiro, ou ainda um homeless.
Seu pai era advogado. Max repudiava a possibilidade de também se tornar um. Chegava a preferir as opções que o velho citava em seus prognósticos. Para Max os advogados eram profissionais encarregados de remediar situações caóticas, e que independente de sua área de atuação, tinham por trás de cada uma dessas situações uma disputa por dinheiro. Já que prevenir era melhor que remediar, poderia haver algum profissional que prevenisse essas situações. Ou que o bom senso individual e coletivo fizessem isso por conta própria, antes de atritos nas ruas, nas casas ou nas cortes. E essa última era a parte mais utópica desse tipo de pensamento. E por tudo isso Max evitava fazer planos para o futuro.
Os produtos de suas reflexões jamais poderiam ser aplicados à realidade. Quando em 1987 ele finalmente terminou o ensino médio, na época chamado de colegial, já tinha material para escrever um livro sobre todo o terror, a tristeza e a inutilidade de todos aqueles anos de sofrimento na escola. Período ideologicamente miserável, de dicotomias burras.
Max e as crianças que ele conhecia cresciam em meio às tendências sisudas de direita de seus pais e as da esquerda sem pé nem cabeça defendida pelos professores desesperados, de barba antes que fosse moda, e famintos.
Em parte esse sofrimento se estendia também à vida familiar, pois as opiniões expressadas por seus pais sobre ele sempre pareceram bastante sinceras. Impunham-lhe um futuro pré-decidido, uma cartilha rígida no que dizia respeito a certas escolhas que para Max deveriam ser individuais, mas que para seus pais eram condições estáticas e normativas, como futuro profissional, estilo de vida e todo o resto. Em casa, bastava que seu pai mencionasse a palavra ‘emprego’ para que Max começasse a imaginar o quão sórdidas deveriam ser as entrevistas de emprego, para qualquer que fosse a empresa ou a função. Uma de suas maiores alegrias e talvez a maior realização de sua vida adulta foi o fato de nunca ter realmente descoberto o que se passava nessas entrevistas. Era confortante para Max não precisar dizer a seu pai que ele preferiria entregar pizzas e viver numa pensão no centro da cidade do que ser gerente de banco e morar na Vila Madalena, embora isso fosse verdade.
Conceitos como conforto e sucesso eram tão divergentes entre ele e seus pais, que Max lamentava o fato de não ter começado antes a não alimentar discussões relativas a esses temas. Até porque esse tipo de conversa era algo que o desgastava na mesma proporção que empolgava seu pai, que precisava desesperadamente justificar suas escolhas, que àquela altura eram definitivas.
O sofrimento escolar ficou momentaneamente para trás, mas apesar do alívio de terminar o ensino médio, ficou a sensação de tempo perdido. Podia ter se dedicado à música, o que naturalmente é uma das razões pelas quais uma criança deveria estar numa escola. Mas Max não sabia nem o que era uma nota musical, embora tivesse, dentro da realidade brasileira em toda a década de noventa (até porque em 1980, Max tinha dez anos de idade), uma boa cultura musical. As dificuldades para se ter acesso a informações sobre artistas estrangeiros, e mesmo nacionais, eram olímpicas.
Os lançamentos de discos de artistas estrangeiros eram limitadíssimos, e em muitos dos casos, equivocados. Max, aos dez anos de idade faria a escolha de lançamentos internacionais melhor do que os engravatados infelizes que estavam lá e preseparam. As revistas de música tratavam mais de quem pegava quem ali no meio. As rádios também eram sofríveis, de um modo geral. Portanto, o fenômeno mundial da profunda mediocridade do mainstream era bastante agravado no Brasil.
Quando a internet se popularizou e se tornou mais acessível, o vácuo cultural do período anterior veio à tona. Não havia qualquer embasamento cultural a ser compartilhado, porque a geração anterior não tinha informação, e a que veio depois tinha preguiça de pesquisar. Frequentar uma biblioteca era algo que parecia jurássico para aqueles jovens, que ingenuamente confiavam excessivamente em seu próprio repertório, geralmente constituído por banalidades televisivas, e fizeram e ainda fazem do conteúdo das redes sociais o oceano de merda que conhecemos.
Suas cabeças tem função meramente ornamental em seus corpos. Eles conseguiram fazer com que todo um contexto se tornasse chato, pois a pequena ala dos mais conscientes, esclarecidos e mordazes críticos da burrice geral se desesperasse tão facilmente com a situação, que esta, ao expor diariamente suas opiniões oponentes à burrice da massa, também se tornava chata por tentar remediar uma situação irremediável. Isso fazia com que Max àquela simplesmente não se importasse com o rumo das coisas. Voltemos um pouco no tempo.
Max completou dezoito anos no dia dezenove de fevereiro de 1988. Trabalhou no Banco Real ao longo daquele ano como office boy, (sem que necessariamente tivesse que passar por uma entrevista de emprego, pois o trabalho foi oferecido por um vizinho, amigo de seu pai, que era gerente do banco), onde conheceu bancários fãs de Simple Minds e Toto. Eles se esforçavam por um plano de carreira. Era o período em que Max mais odiava o período da manhã. Era um crime viver as manhãs daquela forma, mas ali ele permaneceu até janeiro de 1989, quando ingressou no curso de Letras da Usp. A escolha pelo curso de Letras também gerou críticas de seus pais, que alegavam não haver ‘futuro’ para quem tentasse essa área.
Max era o mais jovem de três irmãos, que relativamente jovens saíram da casa dos pais. Os irmãos de Max haviam sido bons alunos. Um se tornou gerente de banco e o outro, advogado. Seus pais o comparavam aos seus irmãos, dizendo que eles haviam conseguido um lugar ao sol e que Max estava fadado ao fracasso. Faziam de tudo para que ele mesmo duvidasse da sua viabilidade como pessoa. Consideravam-no uma anomalia. Depois de atingida a maioridade passou a não expor mais as suas idéias a seus pais. Era algo inútil e só causava atritos.
Nessa época começou a tramar um caminho alternativo para aquele lhe foi traçado. Até então, sua auto-estima vivia abalada pelo fato de seus pais o subestimarem tanto, mas pouco a pouco conseguiu focar com mais clareza em planos que lhe permitissem a subsistência sem que tivesse uma vida engessada como a de sua família. A partir daí, os efeitos do criticismo sob o qual era visto por seus pais foram desaparecendo na mesma proporção em que a vitalidade deles sucumbia aos anos de um esforço ao mesmo tempo ingênuo e corrupto, em nome de um estilo de vida consagrado como equivocado, o senso comum. Seus pais já podiam sentir que nunca seriam recompensados pelos ideais que viveram e pregaram ao longo da vida. Um ideário assimilado principalmente da grande imprensa brasileira, constituída de aparelhos ideológicos que facilmente faziam com que as massas assimilassem verdades de classe como verdades coletivas. Naquele momento, olhando para trás,
Max via que sua infância e adolescência não tinham sido exatamente felizes, mas foi cheia de episódios que o marcaram e que o tornaram quem ele era até então. Apesar do caminho tortuoso, Max cresceu como opositor aos valores que eram tão caros aos seus pais. Ele ainda tinha o vigor da juventude, que agora podia ser direcionado de uma maneira um pouco mais livre. Ainda tinha tempo de cometer pequenos erros, consertá-los e aprender algo com isso. Ao ingressar no curso de Letras, Max não planejava se tornar professor, apenas pensava que o diploma universitário poderia servir para alguma coisa no futuro, seja lá o que fosse. Era como se tivesse uma dívida social a ser paga. Era melhor fazer isso o quanto antes, não deixar nada inacabado naquela fase da vida, para que nunca precisasse olhar para trás. Na faculdade, alguma coisa favorável a ele seria conquistada, ainda que fossem apenas conhecer personagens para seu futuro romance.
Na Usp Max conheceu jovens caricatos, mas alguns deles serviam como personagens. Passou os quatro anos da faculdade fumando maconha e convivendo com hippies de chinelo e barba, que se diziam politicamente voltados à esquerda. A maioria era composta por jovens de classe média alta. Havia vários ‘poetas’ ali. Era inacreditável que aqueles sujeitos tivessem conseguido passar no vestibular, tamanha era a ruindade do material que escreviam. Nunca sequer encontrou qualquer um deles depois da graduação. O diploma lhe dava uma certa ‘çredibilidade’, algo que considerou importante quando se tornou revisor de textos (ofício provisório que se tornou ocupação duradoura), embora o diploma por si só não tenha feito dele um cara mais culto ou realmente preparado para a função.
Aprendeu com Hemingway e Philip Roth, sobre os quais pouco ou nada se falava na faculdade, onde apesar de ter contato com a obra de muitos autores, podia seguramente considerar alguns deles superestimados. Outros certamente tiveram uma vida mais interessante do que a obra, o que evidentemente também é um mérito. A fase que o país atravessava era desesperadora. E aqui não estamos falando apenas política e economicamente, mas das conseqüências práticas na sociedade dos mais de vinte anos de ditadura e do também tenebroso período que a sucedeu.
Para Max, a completa falta de perspectivas causada por sua incapacidade de se adaptar ao mundo como este lhe era apresentado por seus pais, professores e pela mídia, fazia com que ele alternasse momentos de desespero enquanto a maioria das pessoas ao seu redor parecia tranqüila, e momentos de tranqüilidade quando todos pareciam desesperados. Desse buraco negro o país e o mundo nunca mais saíram. Em muitos aspectos as coisas pioraram. O ser humano tem conseguido se tornar cada vez mais inviável como espécie, ano após ano. O pesadelo pior ainda virá sob a forma de grandes corporações, muito piores do que as que conhecemos hoje.
A condição de escravos certamente nós já temos e a vivemos, alimentando-a como fantoches, retardados teleguiados, mas isso vem sendo aperfeiçoado desde sempre pelos verdadeiros comandantes desse planeta infeliz. Os políticos também são fantoches, ainda que hierarquicamente privilegiados em relação às massas. Muito acima deles estão aqueles poucos, que de tão poderosos, não precisam aparecer, e cuja existência não é do conhecimento da massa. Sob essas condições, as pessoas já nascem disfuncionais e completamente alheias à necessidade de boicotar as imposições a que são submetidas, só porque seus pais também eram e continuaram assim a vida toda. O fato de tudo ter dado errado pouco importa para essas pessoas.
Sentem-se ameaçadas pelo desconhecido. E sendo a felicidade humana algo desconhecido, recusam-se a tentar alcançá-la. É como se a burrice já estivesse impregnada no DNA humano. É como se o fato de já nascerem desgraçadas, ao invés de servir de motivação para que façam de suas vidas um instrumento de transformação, fizesse delas um veículo para que o medo do novo e até certo ponto desconhecido chegasse ainda maior à geração seguinte.
Se há algum consolo para essa série de desgraças, é que quando tudo estiver realmente fodido e a natureza se rebelar definitivamente, esses comandantes estarão aqui também, sem ter para onde correr, e será mais desesperador assistir ao fim da humanidade de onde eles estiverem, pois finalmente estarão nivelados aos desvalidos, sendo que esses últimos sempre tiveram motivos de sobra para festejar o fim desse pesadelo.
Essa decomposição social crônica só chegará ao fim com a extinção da espécie humana. Não houve um dia na vida de Max em que ele não estivesse esperando por isso. Gostaria de durar até que esse momento chegasse. Sonhava também com intervenções alienígenas, que um dia acontecerão, e a Nasa sabe disso. E apesar de toda a aparente preocupação de seus pais com sua vida escolar, Max fora matriculado num colégio estadual, o Rodrigues Alves, onde se formavam quadrilhas, consumia-se drogas e se tinha contato com todo tipo de banditismo. E por falar em drogas, as campanhas contra elas apenas estimulavam os jovens a consumi-las, com medo de se tornarem iguais às pessoas que se diziam contra elas. Isso se tornou uma constante.
As campanhas anti-drogas continuaram cada vez mais patéticas. Havia alunos cujos pais tinham certo poder aquisitivo, mas por causa de reprovações em colégios particulares, transferiam os filhos para o Rodrigues Alves, como punição. O termo bullying ainda não existia, mas sua prática sim, e com muito mais intensidade. Entre os garotos, a necessidade de auto-afirmação buscada através atos ‘viris’ fazia com que todos estivessem envolvidos, fosse como autores de tais atos ou como vítimas. Muitas vezes, poder ir embora para casa ao final da aula sem ter sido jurado de tomar porrada de alunos bem mais velhos já era motivo de alegria. Tudo sob o mais completo descaso de professores, diretoria e funcionários.
O colégio fica na Avenida Paulista e pelo menos a fachada hoje em dia é mais bem cuidada. Foi toda pintada. Hoje a escola e a avenida como um todo são mais bem policiadas, pelo menos no que diz respeito ao número de policiais militares. Mas era uma área perigosa para adolescentes dos anos oitenta, pois na época os fuscas da polícia passavam com pouca freqüência por ali.
Max sonhava em um dia empurrar uma Regina Maura já debilitada, numa cadeira de rodas ladeira abaixo, na contramão de uma avenida movimentada. Perguntava-se se Regina Maura àquela altura tinha idéia de como destroçou a adolescência de Max A ironia disso tudo fica por conta do fato de sua péssima relação familiar ter aberto seus olhos e criando nele uma repulsa visceral às famílias de classe média, afastando-o assim de qualquer possibilidade de se tornar alguém remotamente parecido com seus pais, que ao longo da vida valorizavam exageradamente os valores medrosos, preguiçosos, conformistas e corruptos da classe média. E por contraditório que pudesse parecer,
Max se sentia prazerosamente tão desvinculado da geração anterior à sua, composta por seus pais, professores e expresos políticos (que posteriormente tomaram o poder e se tornaram comandantes piores que seus antecessores), como da posterior, composta por jovens adultos que poderiam ser seus filhos, e que são reféns de seus celulares idiotas. Não ter tido esses filhos era o que de melhor ele poderia ter feito consigo mesmo, e essa convicção ele carregava desde a infância, quando já sabia que nem mesmo ele próprio o agradaria como filho. Aparentemente contraditório também era o fato de que sozinho poderia ter alguma chance de criar para si um vago viés antiautoritário.
Não precisava tentar formatar a mente de uma criança, impondo-se como modelo de conduta, lutando contra tudo o que a criança absorveria cegamente através da mídia. Também não seria comparado com os pais de outras crianças, especialmente aqueles que satisfazem os desejos de consumo mais estéreis dos filhos. Nunca teria que levar uma criança ao Mc Donald’s para que ela parasse de chorar. De uma certa forma, via a si mesmo como o exemplo definitivo sobre o porque não ele deveria ter filhos. Muito mais por ter se rebelado contra esse modelo de família e essa idéia de continuidade do que por ter sido um filho ruim. Max foi um filho correto, apenas. Vivia e agia dentro de suas possibilidades.
Entendeu desde cedo que as limitações de seus pais iam muito além do aspecto financeiro. Não deviam nem ao menos ter casado. E no entanto o fizeram e tiveram três filhos. Max era o terceiro e o então presidente da república era Médici. O que poderia justificar um casal que já tinha dois filhos fazer um terceiro justo na gestão Médici? Para Max era uma questão moral não dar continuidade à espécie. E já que nunca houve meios de convencer qualquer outra pessoa disso, fazer sua parte seria o suficiente. Fazer a sua parte, á sua maneira, em tudo. Mal conseguia se imaginar como pai, em qualquer que fosse o aspecto abordado sobre o assunto. Tinha um profundo repúdio pela simples idéia de reprodução humana.
Pode parecer mais obvio e ordinário apontar o fator financeiro antes dos outros. O preço das fraldas, por exemplo, o deixava chocado. Geralmente um pacote custava mais do que uma garrafa de Domecq, um grande pedaço de queijo e um maço de cigarros. Os outros gastos com uma criança certamente eram mais assombrosos.
E após passar alguns minutos numa fila de supermercado rodeado de mães tentando controlar suas crianças, que expostas a todo tipo de publicidade o tempo inteiro, querem comprar tudo o que vêem na frente, Max procurava esquecer todo o resto sobre o assunto e pensar apenas que se um dia terminasse na sarjeta, ainda assim não teria comprometido negativamente a vida de outra pessoa, e acima de tudo, não teria dado continuidade a tudo o que o fazia sofrer. Para Max isso era estimulante e encorajador.
De qualquer maneira já não havia espaço físico para mais humanos, e já haviam muitas crianças no mundo. Seus primos, primas, amigos e conhecidos tinham filhos. Era fácil para ele compreender o quanto era inapto para a condição de pai, embora também não visse essa aptidão em muitos pais e mães que conhecia. Em seu pequeno apartamento de setenta metros quadrados, Max usava apenas um prato, um garfo, uma faca e um copo, que se fossem largados sobre a pia sem serem lavados depois, ele mesmo o faria antes da próxima refeição, sem que fosse julgado por isso. Havia alguns outros pratos, talheres e copos no armário da cozinha, usados com a mesma freqüência morna com que recebia visitas.
A poeira sobre os discos e livros o fazia espirrar, mas passava anos sem se resfriar. O repúdio moral à idéia de contratar uma diarista só não era maior do que a impossibilidade financeira de fazê-lo. Max bebia, e àquela altura bebia pra valer, especialmente quando chegava a noite. Havia deixado o uísque porque estava caro demais, substituindo-o por Domecq, e quando chegou ao ponto em que era preciso um litro por dia, começou a pensar que estava com problemas. Ser levado por amigos a exposições ou ao cinema era algo que lhe dava uma tremedeira descontrolada. Só os destilados e os cigarros o acalmavam. Estava desenvolvendo uma esofagite dolorosa. A dor surgia quando ele não estava bebendo, atingindo o ápice na virada do primeiro copo e sumindo por completo a partir do segundo.
Imaginava-se fotografando a quantidade absurda de garrafas que acumulava em casa por ter vergonha de dispensá-las todas de uma só vez na escada do prédio. Seus vizinhos ficariam alarmados. Max não dava festas em casa. Os vizinhos saberiam se ele as fizesse. As garrafas eram esvaziadas apenas por ele, que as dispensava pouco a pouco. Max não era visto cambaleando pelas redondezas porque agüentava o tranco e também porque preferia beber em casa, por economia e privacidade. Trabalhava como revisor de textos e fazia monografias e trabalhos de conclusão de cursos universitários para jovens que com o tempo passou a conhecer na região onde morava, na Avenida Nove de Julho, na calçada oposta à Fundação Getúlio Vargas.
Era proprietário do apartamento em que vivia, e seus gastos se reduziam ao condomínio, ä luz, ä modesta dieta alimentar a que se submetia e a muita bebida e cigarros. Além do litro de destilados diário, lutava para não ultrapassar os dois maços de Derby por dia, média que já considerava preocupante, não só pelos gastos que impunha, mas pela compulsividade com que fumava.
De vez em quando apelava para os cigarros paraguaios, para diminuir os gastos. Sempre tinha a impressão que a ladeira que enfrentava toda vez que precisava chegar à Avenida Paulista o fazia se livrar do álcool consumido na noite anterior. Trabalhava em casa, o que era ótimo, e só avistava a juventude entretida com seus celulares quando achava boa idéia sair de casa por alguns instantes, tomar algumas cervejas, para logo depois ficar com o saco cheio do que via e voltar para casa novamente.
Fora isso, naquele período só saia para ir ao mercado e ao banco. Max era consumidor ocasional de cocaína também, mas a ausência dessa substância não o tirava do sério como a ausência da bebida e do tabaco. E provavelmente, algum dia, tivesse que aprender a ficar sem bebida e tabaco também. Geralmente o pó era trazido a ele por amigos que eventualmente o visitavam. E sempre comentavam que ele precisava de sociabilidade e movimento. Max rebatia essas observações alegando que sua vida não era mais deprimente do que a das pessoas ao seu redor, ainda que do ponto de vista burguês ela fosse errática e decadente.
Tinha um gosto musical irrepreensível e isso alimentava sua alma, mesmo que seu corpo cedo ou tarde sucumbisse a problemas causados pela bebida e pelo fumo. Até então nada havia acontecido de errado, e afinal de contas, um dia todos sucumbiriam à doença e à morte. Ele fazia uso de paliativos para amenizar as chateações cotidianas. Os outros também o faziam, cada um a seu modo e de acordo com suas circunstâncias. O torpor alcoólico, os discos de Leonard Cohen e a solidão honesta de seu apartamento esfumaçado e empoeirado quase o faziam atingir o nirvana em alguns momentos. A cereja do bolo era não estar dentro dos ônibus lotados que via diariamente de sua janela indo e vindo nos dois sentidos da Nove de Julho. A cidade é dura e impiedosa, mas grande parte daquelas pessoas que a moviam também eram corrompidas ao seu modo, e de uma maneira nada sutil.
A mediocridade de suas ambições era oriunda de seus medos e sua cegueira. Labutavam em escritórios, lojas, nas ruas, e sobreviviam de medidas paliativas para sanar temporariamente a falta de felicidade e de razões para viver. Vidas pautadas por rotinas de trabalho, consumo e impostos punitivos. Eram digeridas vivas, e para agravar esse contexto caótico, não coexistiam pacificamente. O mais curioso sobre os medos dessas pessoas era o fato de que suas vidas tinham permanentemente em seus enredos muitos fatos e situações que habitavam a maioria dos medos de Max. Muitas dessas vidas eram verdadeiros circos de horrores e essas pessoas pareciam temer coisas que nunca se tornariam realidade.
Ao mesmo tempo não tinham medo de suas realidades, da aridez de seus cotidianos, que para Max eram assustadores. Viviam numa corrida desesperada, mas no piloto automático. Espiritualidade zero. Essas pessoas tinham empregos, com os quais sentiam uma falsa segurança, em parte porque não tinham nem ao menos tempo para pensar em sua real situação. A outra parte estava impregnada de um conformismo crônico que estagnava suas vidas. Eram oprimidos e ao mesmo tempo cúmplices dos opressores.
Enquanto isso, o que Max tinha era um trabalho. Não era dos mais gloriosos e gratificantes, mas de tanto ler e fazer correções em trabalhos de jovens universitários que não sabiam nem ao menos escrever, ia aumentando seu domínio sobre a língua portuguesa, e pensava em um dia escrever um bom romance. Estava alforriado de empregos tristes e mecânicos. Além do mais, era suficientemente remunerado para o tipo de vida a que se propunha a viver. Também ficava interado do grau de burrice da juventude, que chegava ao final de um curso universitário escrevendo frases com erros de concordância.
Enfim, era um trabalho para o qual estava capacitado, e do qual tirava sua sobrevivência, sem que tivesse grandes ambições de ‘prosperidade’, pelo menos não no mesmo sentido que a maioria das pessoas que conhecia encaravam o termo. Max considerava que trabalhar pelo sentido burguês da palavra ‘prosperidade’ seria tão vulgar quanto trabalhar apenas pelo consumo inútil de produtos e serviços dos quais não precisava.
As histórias para serem entrelaçadas no romance já estavam prontas, pois diariamente as pessoas ao seu redor as davam a ele. Quando essas pessoas descobrissem que Max havia escrito um livro do qual faziam parte, seria sinal de que estava sendo muito lido. Já que do bom senso não se pode esperar grandes novidades, ele escreveria sobre a gentalha que o cercava.
Toda a paspalhotice que via diariamente seria a força motriz do livro. Havia também o fato de Max ter conseguido começar a trabalhar em casa, sem patrão, e sem ter que enfrentar trânsito e o transporte urbano precário. Ele podia ver o povo sendo judiado todos os dias, e sempre obrigado a agradecer a seus patrões pela oportunidade de trabalho que lhes era concedida diante de níveis alarmantes de desemprego. Pelo menos de alguns sofrimentos citadinos Max estava livre. No fim das contas, Max sabia que ele e todos os outros eram escravos anônimos e descartáveis. Nasciam para terem sugadas até as suas últimas células de tutano, pagarem impostos punitivos e não terem tempo nem ao menos para pensar no que estavam fazendo ali antes de morrerem.
Era impossível para Max imaginar-se num modo de vida semelhante ao da maioria de seus velhos amigos. Sua relutância em constituir uma família não vinha apenas de sua experiência familiar traumática, mas também dos posteriores exemplos deixados por seus amigos de infância, que além de escravos de seus patrões, eram reféns de suas esposas e filhos. Não tinham saída, pois se procurassem diversão fora de casa, estariam sendo imorais diante daquilo que se propuseram a fazer com suas vidas, e se não procurassem essa diversão, enlouqueciam rapidamente. A verdade é que havia amigos mais jovens, que o admiravam por sua inteligência e generosidade, mas boa parte deles se enquadrava naquela turma de jovens que abandonam conversas e até seus copos de cerveja para ficarem conectados ás redes sociais.
Quando isso acontecia, Max, ao invés de se irritar e propagar qualquer tipo de doutrina ou sermão, simplesmente voltava para sua casa renovado das ruas, porque havia visto exatamente o que elas tinham para lhe oferecer. E o que geralmente via na rua não chegava nem ao menos a ser algo que pudesse considerar triste, pois ao voltar para casa entendia mais uma vez que sua própria vida ali dentro não era tão vazia A sociedade é e sempre foi fraudulenta, e evitar a própria contaminação nesse meio promíscuo requer um raro tipo de heroísmo. Alguns de seus velhos amigos pagavam pensões alimentícias, enquanto Max tinha uma vida minimalista, alimentando-se de maneira quase vegetariana, não por algum tipo de convicção moral, mas por economia imposta pelas suas microcifras mensais.
A base de sua alimentação era composta por frutas, e para acompanhar suas bebedeiras comprava biscoitos de polvilho e os amendoins mais baratos do mercado. A falta de excessos alimentares talvez fosse a razão de não apresentar problemas de saúde, apesar dos excessos no álcool.
Capítulo 3- Mask of Smile
Dos velhos amigos de infância de Max, o mais assíduo presencialmente em sua casa era Plínio, que conhecia desde os sete anos de idade, quando na primeira série foram colegas no Colégio Estadual Rodrigues Alves, localizado na Avenida Paulista. Tanto Max como Plínio haviam nascido no ano de 1970, conhecendo-se em 1977. Não havia uma só ocasião em que se encontrassem na vida adulta sem que lembrassem aquele triste período que durou do final da década de setenta até o final da década seguinte, quando a chegada da maioridade amenizou um pouco suas angústias de jovens brasileiros num período em que o país estava inacreditavelmente afogado numa crise política, econômica, e cultural de tal porte que os faziam viver na inércia e sem qualquer perspectiva minimamente animadora.
Buscariam empregos e teriam um destino tão desolador quanto os de seus pais, a quem haviam passado a vida criticando, tanto do ponto de vista mais pessoal como também do estilo de vida de um modo geral. Plínio naquela época era ainda mais crítico em relação à hipocrisia dos pais em geral do que Max, mas com o passar dos anos aderiu passivamente aos mesmos valores retrógrados que tanto criticava.
O mais curioso é que apesar disso, continuou criticando tais valores século vinte e um adentro, ainda que vivesse de acordo com eles, colocando-se como vítima das circunstâncias. Foi naquela época, no começo da vida adulta, que Plínio conheceu sua primeira e única namorada, Tânia, com quem se casaria em 1999 e com quem teria um casal de filhos na década seguinte. A amizade entre os dois percorreu as décadas seguintes ao período em que se conheceram, mas Max nunca viria a conhecer Tânia pessoalmente.
Max nunca fez questão de conhecê-la e raramente pensava no assunto, mas quando Plínio aparecia em seu apartamento para visitá-lo, pensava que o amigo via algum tipo de incompatibilidade entre sua vida familiar e a amizade com Max. O uso da maconha era veementemente reprovado por Tânia, e Plínio fumava escondido, fora de casa. Plínio não só mencionava a garota a cada conversa, por qualquer que fosse a razão, como também tinha que partir apressado quando no meio de um drink ou de um baseado, Tânia o intimasse pelo celular a voltar para casa. Max nunca soube ao certo se Tânia sabia de sua existência, ou se ao menos tivesse ouvido falar dele através de Plínio, já que quando este atendia aos telefonemas da mulher, sempre dizia que ao invés de estar na casa do amigo, ou acompanhado dele em algum outro lugar, dizia estar na rua, a caminho de casa.
Um tipo de submissão tão absurdo para Max, que quando presenciada por ele, mais uma vez o fazia pensar que sua vida tinha sentido. Max chegava a achar a situação engraçada, exceto quando acontecia logo depois de ser interrompido em seu trabalho, sem que tivesse mandado o amigo embora para continuar trabalhando. Nessas horas Max voltava a trabalhar em suas revisões de texto tentando recuperar o ritmo quebrado com a chegada do amigo, vendo claramente que Plínio jamais fez ou faria o mesmo por ele. O advento da tecnologia avançada citado no capítulo anterior volta à tona agora, com o homem às vezes sendo vítima de sua criação tecnológica, já que Tânia sempre se certificava que o celular de Plínio estivesse carregado quando este saía de casa, para que ele não tivesse chance de não ser encontrado quando ela o ligasse, e nem pudesse usar a desculpa de ter a bateria do celular descarregada enquanto estivesse fora.
Mas é claro que a ‘culpa’ nesse caso era de Plínio, muito embora não existissem celulares quando ele conheceu Tânia, e talvez por isso sua vida fosse mais livre em alguns aspectos, naquele tempo. Pelo menos não era tão adestrado. Os telefonemas de Tânia quase sempre surgiam enquanto Plínio estava pregando a Max suas doutrinas sobre liberdade individual e hipocrisia humana, dando um caráter patético à situação. Como uma cena pretensamente cômica de um filme ruim. De qualquer maneira, e sem que tivesse para si uma explicação mais lógica para isso, Max pensava que o fato de serem pessoas com condutas e muitos pensamentos antagônicos é que os tornou amigos.
A parte mais chata era mesmo voltar ao trabalho com o ritmo quebrado pela chegada de um amigo antigo, um dos poucos que sobraram de uma época remota e nada saudosa, quase sempre sem aviso prévio, para em seguida vê-lo partir, obediente ao arbítrio obsessivo e implacável de sua mulher. Era muito claro que ao se casarem, Tânia esperava que Plínio jamais saísse de casa sem ela, a menos que fosse para trabalhar, e ainda assim sob seu controle permanente.
A chegada dos filhos potencializou essa obsessão. Certa vez, num feriado prolongado, Plínio surgiu no apartamento de Max anunciando que estava ‘livre’, pois Tânia havia viajado com os filhos, enquanto ele ficaria em São Paulo a trabalho. Tânia ligava em intervalos de no máximo trinta minutos, e a cada ligação, Plínio passava a ela um relatório mentiroso sobre suas atividades e sua localização no momento. Ao final de uma dessas ligações de Tânia, Plínio ligou para um amigo a quem queria apresentar a Max.
O sujeito, que já o conhecia há muito tempo, disse que naquela noite estaria ocupado, pois sairia com uma garota. Inacreditavelmente (e Max nunca soube se naquele momento Plínio falava sério ou brincava) tentou convencê-lo a deixar de lado o encontro com a garota para que fosse encontrá-los. Não obteve sucesso na investida, logicamente, mas deixou claro ao amigo que era uma rara oportunidade de vê-lo livre num feriado.
Numa outra ocasião em que de fato a bateria de seu celular tinha acabado quando começava a escurecer, Plínio foi ao apartamento de Max para fumarem um baseado e tomarem cerveja. Ele havia levado um pacote com doze latas, porque sabia que não haveria cerveja lá, pois Max considerava a cerveja um desperdício de dinheiro. Então colocaram a cerveja para gelar, fumaram um baseado, escolheram um disco para ouvir e só então Plínio se lembrou de colocar seu celular para ser carregado. Minutos depois, quando finalmente o aparelho tinha condições de receber uma ligação, ele tocou. Plínio atendeu e sua filha de quatro anos chorava do outro lado da linha e perguntava se o pai voltaria para casa, pois Tânia havia dito a ela que seu pai simplesmente não estava atendendo mais o telefone e que estava desaparecido. Não eram nem sete horas da noite.
Então se levantou do colchão, aparentemente confuso, foi até a janela enquanto tentava acalmar a menina ao telefone, e então pediu que ela chamasse a mãe. Nesse meio tempo foi ao banheiro e fechou a porta. Aos berros, explicou a Tânia que estava recarregando o celular na empresa para a qual estava prestando serviços de iluminação para ‘eventos’ e que tinha tido um dia difícil no trabalho. Indignou-se por ela ter envolvido a filha num assunto tão banal, enchendo a criança de pânico e contaminando-a de histeria gratuita. Max nunca havia presenciado uma conversa entre eles que não terminasse com Plínio parando o que estivesse fazendo e indo para casa imediatamente.
Naquele momento, no entanto, a impressão de Max foi que, para Plínio, não adiantaria partir imediatamente, pois ao chegar em casa seria massacrado de qualquer forma. Quando a ligação deu-se por encerrada, Plínio saiu calmamente do banheiro, arrumando a calça numa aparente tentativa de fazer Max supor que ele havia mijado e não somente brigado com a mulher, e então disse sorrindo que a cerveja provavelmente já estava gelada. Dando dois passos chegou à porta do frigobar, de onde tirou duas latas de cerveja, entregando uma a Max. Plínio não consumia destilados, apenas cerveja.
Como Max tomou todas as cervejas restantes em questão de minutos, antes mesmo que Plínio terminasse a sua primeira lata, e agora tinha apenas Domecq em sua casa, e já estava começando a ficar realmente embriagado, pois naquele dia havia começado a beber logo pela manhã, concordou em descer à rua e atravessar a Nove de Julho para tomar umas cervejas e comer algo no bar dos estudantes da Fundação Getúlio Vargas. Ali permaneceram por mais de duas horas, com Plínio involuntariamente dando a entender que como já havia avisado a filha que estava vivo e voltaria para casa, o horário da volta pouco importaria naquela noite. Seria até melhor que a filha já estivesse dormindo quando ele chegasse. Max nunca soube nada sobre o nível de tensão familiar a que Plínio foi submetido ao voltar para casa naquela noite, mas imaginava que tivesse sido igual ao de todas as outras vezes em que sua carta de alforria estivesse vencida.
E quando tudo parecia muito chato em seu ambiente familiar, Plínio procurava pelos amigos. Era inadmissível para qualquer um de seus amigos tentar algum contato em qualquer outro momento, pois ele não estaria ‘livre’. Sua mulher não o soltava da coleira sem que ele tivesse que trabalhar fora de casa. E ele apenas tentava estender esses períodos o quanto pudesse. Era uma maneira estranha de se revelar como alguém que pensa com sinceridade ser o centro do universo, porque em seus discursos aos amigos ele pregava o contrário.
Havia, é verdade, a possibilidade de Plínio ser apenas um escravo de suas circunstâncias, e por isso não viver seus discursos. Mas as circunstâncias de sua vida foram escolhidas por ele mesmo, e quando Max o recebia, mesmo quando estava sendo interrompido em meio a algum trabalho, encarava a situação como se estivesse atendendo ao pedido de uma criança que clamava por companhia na hora do recreio, ainda que soubesse que se tratava de um adulto hipócrita fugindo momentaneamente de uma realidade opressora que ele próprio apoiava. Um hipócrita que criticava a hipocrisia dos outros, culpando-a por obrigá-lo a ser hipócrita, e lamentando o fato de a hipocrisia ser quase inerente ao ser humano.
Plínio era um exemplo prático e próximo que ilustrava as razões pelas quais Max havia desenvolvido uma aversão aos relacionamentos interpessoais corriqueiros e aos ideais confusos e estéreis, superficiais como espuma, que orientam a maioria das pessoas na sociedade. Seus períodos de ausência, em que se dedicava à família, fazia com que não houvesse desgaste na antiga amizade.
Do ponto de vista de Plínio, Max era um fragmento de um grupo desconjuntado dessa mesma sociedade, o que lhe causava ao mesmo tempo admiração e aversão. Pelo que Max podia constatar, Plínio, desde que se casou, sempre tentava fazer o possível para que ele imaginasse que a escolha de constituir uma família fazia de Plínio um cara feliz, e que esse também era um dos caminhos viáveis. Era quase como se estivesse dando uma satisfação à Max, uma vez que, desde que conheceram, o amigo já seguia uma trajetória oposta e deixava isso claro nas conversas que tinham quando ainda não se conheciam direito.
Por algum tempo, em algumas situações específicas, Plínio conseguia parcialmente fazer com que Max o compreendesse e até mesmo acreditasse naquilo. Essas situações específicas resumiam-se basicamente aos domingos em que Max estava sozinho, de ressaca e com o estômago em chamas, sem a garota jovem e meiga que conhecera na noite anterior por intermédio de amigos, já que havia passado a ela um número de telefone inventado na hora de se despedirem. E ela não poderia estar ali para lhe fazer chá e escolher um filme para passarem a tarde de domingo como tantas outras pessoas o fazem. Nessas horas, Plínio tinha “o apoio da família”. Havia também o outro lado da moeda.
Tão certo quanto a ressaca dominical de Max solteiro, quando pensava num hipotético casamento, certa seria também a obsessão de sua hipotética esposa com seus mais que hipotéticos filhos, o pressionando para que saíssem no domingo, para ‘aproveitarem o dia’. Max não iria querer sair. Max sabia que não queria constituir família. As garotas legais que poderia conhecer não iriam querer constituir família também. São poucas, e é isso o que as faz especiais. A maioria delas se convence e são convencidas por outras pessoas desde muito cedo que caso não se tornem mães um dia, e de preferência o quanto antes, sua condição de mulher não se torna completa. Ele escolhera outro caminho, e havia um preço a ser pago, como para tudo na vida.
Mas para Max esse não era um preço alto. Ele apenas surgia como uma condição momentânea e minimamente adversa. A adversidade nesse caso era o fato dele ser uma nulidade para a vida prática convencional. Muitas pessoas o são, e talvez por isso escolham a constituição de uma família. Para ele quem pagava um preço bem mais alto era Plínio e outras pessoas adeptas de um estilo de vida calcado no senso comum. A diferença é que Plínio carregava o agravante de não viver de acordo com o que dizia pensar, por mais que quando fosse conveniente, defendesse o estilo de vida familiar tradicional.
A verdade de um homem está no que ele faz em nome do que diz. Plínio adotava uma retórica radical quando falava a alguém que já estava convencido sobre o que pregava, fazendo chover no molhado, quando esse discurso cheio de convicção teórica deveria ser direcionado à sua família, que protagonizaria um escândalo se encontrasse a ponta de um baseado no meio de seus objetos pessoais.
Para seus familiares, Plínio adotava o discurso moderado e politicamente frouxo. Fazer discursos favoráveis à maconha quando a audiência é Max com um baseado na boca, era muito fácil. Sua hipocrisia estava principalmente no fato de pensar como uma seletíssima minoria e agir como a absoluta maioria. A maioria burra, pelo menos age com convicção dentro de sua burrice, e tem um refúgio em sua ignorância. Já Plínio se apresentava como o herói teórico das causas coletivas, mas era adestrado pela mulher.
Max não perdia a paciência com o amigo porque não o via com tanta freqüência, e levava em conta a condição de Plínio e pensava se ele teria escolhido uma vida diferente se pudesse voltar no tempo.
Naquelas horas vazias de domingo, Max via de sua janela a desolação da Nove de Julho, sobre a qual casais jovens e saudáveis voltavam para casa com sacolas do mercado. Jovens esposas de short e chinelos, com seus maridos usando bonés e óculos espelhados. Em quaisquer outros momentos, no entanto, Max gostava de estar onde estivesse, por conta própria. Sem que fosse controlado, e sem que houvesse alguém para culpar caso acontecesse algo desagradável com ele. Assim não haveria razão para lamúrias, e ele focaria sua energia naquilo que estabelecesse como prioridade. Não havia razão também para sentir-se só, pois nascemos, vivemos e morremos sozinhos. O que o amor e as amizades podem fazer por nós é emprestar momentaneamente a ilusão de que não atravessamos sozinhos nossa existência mundana. A partir da noite em que Plínio se desentendeu ao telefone com Tânia, os melancólicos sentimentos dominicais sumiram da vida de Max.
De qualquer modo, era impossível sentir solidão naquele lugar. Fora do apartamento sempre havia alguém por perto. Capítulo 3- No more heroes São Paulo, Maio de 2004. A principal desvantagem de viver num prédio e numa região muito populosa é a exposição a qual é inevitável se submeter. A privacidade a qual Max tanto prezava só existia quando ele estava dentro de seu apartamento. O prédio de Max tinha dezoito andares, com dez apartamentos de um quarto em cada um deles. Nesses cento e oitenta apartamentos, Max estimava que vivessem pelo menos quinhentas pessoas. Quinhentos voyeurs auditivos. Era o Edifício Jardim Trianon, no número 2040 da Avenida Nove de Julho, próximo ao túnel que passa debaixo da Avenida Paulista. Ali havia desde estudantes que viviam sozinhos até famílias inteiras com cinco ou mais pessoas dividindo os setenta metros quadrados.
Ali sem dúvida havia uma grande diversidade humana e social, com percentual significativo de pessoas sombrias. Na época em que Max procurava por um apartamento pequeno e na região central da cidade, inúmeras tabuletas anunciavam apartamentos para venda e aluguel naquele prédio. No entanto, com o passar dos anos a oferta diminuiu, e os preços dos imóveis da região aumentaram significativamente. Financeiramente, foi um bom negócio para Max. Em 2004, depois de anos acumulando suas parcas economias, as quais foram acrescentadas o dinheiro do rateio familiar da venda de um terreno que seu pai possuía em Vinhedo, Max comprou ä vista um apartamento no oitavo andar, de frente para a Avenida Nove de Julho. Tinha ouvido de seu pai uma série de conselhos sobre como investir aquele dinheiro, mas ele sabia que tinha mesmo que comprar um imóvel.
Os poucos bens que possuía na época em que vivia com os pais no bairro do Paraíso, num apartamento de três quartos, foram mais que suficientes para preencher o espaço disponível na nova morada. Na verdade ficou apenas com o colchão, o aparelho de som, o computador, seus discos e livros. Comprou apenas um fogareiro de duas bocas e um frigobar de segunda mão para complementar a mobília definitiva da nova casa. Os poucos pratos, talheres e copos também foram trazidos da casa dos pais. Tinha trinta e quatro anos quando finalmente pôde morar sozinho, no ano de 2004. Mudou-se em meio a um misto de euforia e descrédito próprio, pois sabia que se algo desse errado, seria seu fim.
Naquela idade seria ridículo sair de casa para voltar em seguida, principalmente porque nem ao menos comunicou seus pais sobre a mudança. Na verdade, isso serviria como um atenuante para o caso hipotético de Max presepar em sua tentativa de morar sozinho. Então, saiu de casa como se fosse passar um fim de semana no litoral. Naquele período, Max alternava alegria e entusiasmo com a sensação de que as compensações negativas pudessem ser caras demais. Nos momento de euforia, pensava que mesmo que se tornasse milionário algum dia, por qualquer que fosse a razão, não deixaria para trás a vida simples e minimalista que começaria a empreender a partir de então. Nessa hipotética condição de riqueza financeira talvez resolvesse abandonar a cidade para viver num rancho afastado.
Talvez a definição que mais se aproximasse daquilo que Max buscava fosse uma vida sem desperdícios. Max demorou tanto tempo para sair da casa dos pais por uma combinação de fatores, alguns sobre os quais ele tinha domínio, e outros não. Depois que seus dois irmãos mais velhos saíram de casa para que seguissem suas próprias vidas, eles nunca mais deram notícias. Os pais de Max sabiam superficialmente do paradeiro de ambos através de outros parentes que investigavam o que os dois faziam de suas vidas. Havia o fato de o apartamento que antes era habitado por cinco pessoas, passar a ter apenas três, e à medida que o espaço aumentou, os atritos familiares diminuíram.
Nesse meio tempo Max se formou em Letras e passou a ganhar seu dinheiro sozinho. Nessa fase, ele pensava que seu quarto e seu banheiro teriam o espaço correspondente a um apartamento pequeno, mas sem que ele tivesse os gastos complementares que o apartamento demandaria. Por último, a sensação de abandono por parte de seus irmãos mais velhos, que seus pais sentiam e não disfarçavam fazia com que as pressões dele sobre Max se abrandassem, apesar dele continuar sendo considerado um estorvo ali. E então o dinheiro do rateio da venda do terreno da família possibilitou que Max finalmente pudesse de fato deixar a casa dos pais. Para o bem ou para o mal, pouco antes disso havia rompido um relacionamento com uma namorada de longa data. As outras poucas pessoas com quem tinha mais proximidade atribuíam a esse fato o crescente consumo de álcool de Max, o que ele negava veementemente.
Ele próprio atribuía tal conduta ao fato de finalmente ter sua própria casa e ter deixado de ser vigiado pelos pais e outros parentes, conquistando sua tão sonhada privacidade. Como já havia vivido em prédios antes, sabia que essa privacidade se restringiria ao interior de seu apartamento. Isso o deixava nervoso, e muitas vezes pegava-se tentando entender o porque do nervosismo freqüente, e justamente nessas ocasiões, algo chato acontecia, como se para lembrá-lo das razões que tinha para o seu modo de ser. Mas nas primeiras semanas no novo prédio, ainda desconhecido dos vizinhos e dos porteiros, não se importava tanto com as pessoas que encontrava ao entrar e sair.
Planejava ser um morador discreto e anti-social. Em prédios populosos algumas pessoas pareciam conseguir se manter imunes às patrulhas que investigavam a vida dos vizinhos. Era o que Max precisava conseguir também. Evidentemente os rostos de alguns vizinhos não demoraram a se tornar familiares a ele, assim como as conversas puxadas por eles no elevador, para quebrar o silêncio, e talvez para investigar o novo vizinho. Max, como de costume, respondia a todos gentilmente, mas falando somente o indispensável. Antes que decorassem seu nome, chamavam-no de ‘o roqueiro do oitavo andar’, por causa de seus cabelos compridos e suas roupas esfarrapadas.
Numa manhã de domingo, quando ainda bebia um pouco menos e tinha condições financeiras de tomar uísque com mais assiduidade (o uísque que sempre foi e sempre será não só sua bebida preferida, mas quase um produto que para Max extrapola a categoria de simples bebida alcoólica), bem antes deste ser substituído quase definitivamente pelo litro diário de Domecq, Max quis andar pelo bairro. Antes de sair, encheu de água suas formas de gelo, e enquanto esperava que elas congelassem, foi comer pastéis na feira dominical do Bixiga. Quando voltou, quase meio dia, chegou ao hall do prédio, onde pegaria o elevador. Um rapaz que aparentemente tinha idade aproximada da sua já estava lá esperando o elevador.
Max já tinha o visto antes, conversando com os porteiros e com alguns vizinhos. Era muito magro e pálido, tinha a expressão e o aspecto físico de um craqueiro, mas naquela ocasião e nas anteriores em que o havia visto, quando entrava ou saía do prédio, ele usava roupas novas e limpas. Em termos de semelhança física com Emílio, a primeira figura que veio à mente de Max, foi a de Peter Murphy. Um Peter Murphy cansado e debilitado. Max havia comprado dois maços de cigarro, para que não precisasse sair novamente naquele dia, e vestia uma velha camiseta cinza do T-Rex, com um furo de dois centímetros de diâmetro quase na altura do ombro, e só conseguia pensar em entrar logo em casa e ir direto para o uísque. Antes que o elevador chegasse ao térreo, Max já sabia que aquele sujeito puxaria conversa com ele. Dito e feito; entraram no elevador e o sujeito logo comentou que também era fã de T-Rex e se apresentou.
_Que legal a sua camiseta! Eu também adoro T-Rex! Já vi você no prédio algumas vezes... Mora aqui? – perguntou o rapaz, apertando o botão do décimo segundo andar.
_ Moro aqui há três semanas apenas... – respondeu Max. _ Meu nome é Emílio, já moro aqui há 11 anos.
_ Meu nome é Maximiliano, mas até meus pais me chamam apenas de Max. Então o elevador chegou ao oitavo andar e Max desceu, despedindo-se do vizinho.
Max não chegou a pensar muito no assunto, mas chegou a imaginar, baseado em suas impressões iniciais, que ter aquele sujeito como vizinho (especialmente se Max permitisse que se desenvolvesse algum tipo de camaradagem entre eles), era algo potencialmente favorável ao cultivo de problemas. Mas logo ele estava sentado em sua cadeira giratória, descalço, trajando apenas bermuda, fumando seus cigarros e tomando uísque, enquanto toda a vizinhança era deixada de lado, em seu subconsciente. Emílio foi o primeiro vizinho a abordar Max para uma breve conversa, mas não o primeiro a de fato conhecê-lo. As camisetas de bandas de rock eram um chamariz para que outras pessoas que gostassem do gênero musical se aproximassem, pelo menos naquele prédio.
No mesmo andar de Max, o oitavo, havia um antigo morador, não muito mais velho que ele, que numa manhã saiu de seu apartamento enquanto Max, que na ocasião usava uma velha camiseta dos Smiths, esperava pelo elevador. O vizinho se aproximou e como de praxe disse um ‘bom dia’ e logo em seguida declarou ser fã de Morrissey e dos Smiths. Apresentou-se como Edinho e até que chegassem ao portão que dava acesso à rua, teve tempo de apresentar a Max um resumo de sua vida. Tinha quarenta e um anos na época, e era casado desde os vinte e oito com uma mulher vinte e dois anos mais velha que ele.
Edinho era bem articulado. Expressava-se muito melhor do que a maioria das pessoas que Max conhecia, e talvez essa tenha sido uma das razões pela qual acabaram se tornando próximos. Tinha cerca de um metro e oitenta de altura, cabelos grisalhos, especialmente nas laterais da cabeça, e estava bem acima do peso. Tinha uma expressão triste, o que mais tarde, Max soube que era uma constante, apesar de os dentes levemente separados lhe darem um aspecto bonachão. Quando Edinho falou sobre sua mulher, Max já sabia de quem se tratava, pois já havia subido pelo elevador junto dela, além de vê-la sozinha tomando cerveja no bar dos estudantes da Fundação Getúlio Vargas. Seu nome era Cecília, uma mulher cuja aparência entregava os excessos cometidos ao longo da vida.
Gorda, inchada, com uma tremedeira indisfarçável nas mãos, dentes faltando na boca. Uma voz rouca, seca e que parecia sair de sua boca de maneira dolorosa, como se tivesse feito gargarejo com pedaços de vidro. Os cabelos longos tingidos de preto realçavam suas feições castigadas. Não era apreciada pelo marido, e Edinho contava como estava cansado da relação, não por conta da diferença de idade, mas porque sua mulher estava abusando de álcool e cocaína. Fazia dívidas de droga na região, e Edinho as pagava. Era a deixa para que ele cheirasse e bebesse todas junto da mulher. Max já tinha ouvido brigas entre eles de seu apartamento, mas não sabia exatamente de qual apartamento vinham os gritos, até porque muita gente brigava naquele prédio, e havia crianças brincando nos corredores e escadas e cachorros latindo, sem contar o barulho que vinha da rua. Não era um lugar silencioso, mas isso não incomodava a Max.
Edinho também era usuário de cocaína e bebia muito, tendo deixado claro em conversas posteriores que quando conheceu sua esposa, tinham uma relação calcada na porralouquice. Disse que no começo era muito divertido, mas que com o tempo as coisas ficaram difíceis, por causa dos gastos excessivos com bebida e droga e por causa das brigas que aconteciam quando Edinho se recusava a comprar vodca e cocaína, alegando que ela precisava se controlar por causa da idade, alegação essa que por si só já seria suficiente para causar uma crise.
Max simpatizava com Edinho, e podia perceber com clareza que de fato aquele era um sujeito sofredor. Entendia que a única razão para que ele desabafasse com tanta entrega e desespero a um novo vizinho que mal conhecia fosse um sofrimento verdadeiro e diário. A cada vez que se encontravam, Edinho parecia mais e mais abatido, sempre se queixando do comportamento da esposa, dizendo que queria abandonar os vícios, mas que cada vez que a mulher chegava em casa com pó e bebida, ele consumia junto, tanto por sucumbir à tentação de vê-la mergulhar de cabeça na loucura, como porque era ele quem pagava pelas compras.
Max não sabia, mas Edinho o via como uma figura oracular, alguém que tinha um tipo de sabedoria simples e eficiente para lidar com a vida, além de um nível de paciência fora do comum. Caso soubesse disso, Max certamente se sentiria superestimado, algo com o qual não estava acostumado. Edinho, a cada conversa que teve com Max a partir de então, revelava a ele uma nova informação, geralmente triste, sobre sua vida. Vivia de uma pensão que seu pai havia conseguido para ele, alegando que o filho era incapaz. Edinho era o mais novo de quatro irmãos, e em sua juventude sempre foi o mais porra louca de todos. Os problemas com as drogas foram parte do processo que levaram seu pai a tentar a aposentadoria do filho por invalidez.
Quando seu pai a conseguiu, também deu a ele o apartamento da Nove de Julho, que na época, meados dos anos oitenta, não atingia um preço elevado no mercado imobiliário. Houve uma valorização bastante grande nos anos seguintes. Com o dinheiro da pensão, Edinho resolveu levar Cecília para morar com ele. Em 2004, quando Max mudou-se para lá, Edinho já tinha seu apartamento ali havia dezoito anos. Nessa época Max já era amigo de Plínio havia muitos anos, e este, por sua vez, havia se casado com Tânia havia cinco anos. Ela estava na metade da primeira gravidez.
Por conta disso e também porque Max não avisou ao amigo sobre sua mudança de residência, eles pouco se encontraram ao longo daquele ano. Plínio soube meses depois, através da mãe de Max, num dia em que o procurou porque estava ‘livre’. As estatísticas relativas ao casamento sempre foram aterrorizantes para Max, que vivia se questionando sobre os contratos de casamento, mas principalmente sobre o porquê as pessoas continuavam se casando em pleno século vinte e um.
Seus pensamentos sobre o assunto quase sempre eram baseados no princípio de que quando alguém se hospeda num hotel, assina um termo, e quando vai embora não leva metade do hotel consigo. O iminente risco de um divórcio apontado pelas estatísticas gerais, a pensão a ser paga pelo ex-marido, os traumas causados pelo tempo perdido, pelas brigas constantes e pela decepção da falência de um sonho cuja morte já estava anunciada por exemplos anteriores, que eram perfeitos para não serem seguidos. Havia tudo isso, e ainda assim, geração após geração, as pessoas continuavam se casando e se reproduzindo. O sonho começava no motel, se transformava em pesadelo doméstico e terminava na pensão.
Numa tarde de sábado, Max foi colocar o lixo para fora. A lixeira ficava próxima ao elevador, e antes que a fechasse e se virasse para voltar para dentro do apartamento, Edinho abriu sua porta, viu Max, andou até ele, parando diante do apartamento que Max deixou aberto, e ali o esperou, olhando para dentro com curiosidade e interesse. Então se cumprimentaram. Edinho parecia tenso. Gotas de suor brotavam em sua testa e escorriam pelo rosto que carregava uma expressão de amargura.
_ Ontem à noite briguei novamente com a Cecília e ela foi passar o fim de semana na casa da mãe, que está velhinha e doente, no bico do corvo. Você tem muitos discos em casa, né? Quer cheirar um pó e ouvir um som? – perguntou Edinho.
_ Entre aí, Edinho! – respondeu Max. Edinho parecia amargurado como sempre. Era triste para Max presenciar tanta dor concentrada num só homem.
A única cadeira que Max tinha no apartamento era uma de lata, dobrável, roubada de um bar próximo ao apartamento em que vivia com os pais antes de se mudar. Ofereceu-a para Edinho e se sentou no colchão. Edinho tirou sua carteira do bolso, colocou-a no colo e esticou sobre ela duas carreiras bastante generosas.
Perguntou a Max se ele tinha algo que pudesse servir de canudo e este arrancou a folha de um caderno, rasgou um pedaço e deu o resto para Edinho, e ambos fizeram seus canudos. Edinho mandou sua carreira e entregou carteira com a outra para Max, que ao mandar a sua, levantou-se num salto e anunciou que tinha uma garrafa de White Horse ainda fechada. Edinho também já estava de pé olhando para a prateleira de discos de Max, que pediu a ele que escolhesse um para ouvirem. Max pegou dois copos de requeijão e deu um a Edinho, que já havia separado o Hot Rats, de Frank Zappa. Serviram-se de uísque sem gelo, em doses fartas. Max colocou o disco para tocar e então foram até a janela beber e fumar.
_ Você tem sorte de morar num apartamento de frente pra rua. Aqui tem uma vista interessante. Meu apartamento é virado pros fundos e a única coisa que consigo ver é a janela de um vizinho do outro prédio. Eu não tenho nem computador pra ocupar meu tempo. Não sei nem ligar um deles. – disse Edinho.
_ Era o apartamento que estava disponível quando eu estava procurando por um. Talvez tenha sido sorte. O computador eu uso praticamente apenas pra trabalhar. De vez em quando pra ouvir música. – disse Max.
_ Ontem a Cecília chegou com esse pó em casa e eu tomei dela, fui ao banheiro e fingi que tinha jogado na privada. Coloquei no bolso e dei a descarga. Ela entrou em parafuso. Ela está tomando muita tarja preta e misturando com bebida e cocaína. Quem vende pra ela é o Lilico, o porteiro da noite. A cocaína vendida nos pontos de droga aqui em volta é muito ruim, então descobrimos que na quebrada do Lilico o pó é bom. Só que a partir de então ela perdeu completamente o controle, e sou eu quem pago pela droga. Ontem, quando eu finalmente consegui controlar a situação, a convenci momentaneamente de que ela precisa de ajuda médica e espiritual. E hoje cedo ela foi para a casa da mãe. Eu não estaria cheirando hoje se não fosse por ela. Eu havia deixado de comprar cocaína e bebida, quando fosse só pra mim. Se eu vivesse sozinho estaria muito melhor. Quando eu era jovem, era porra louca mesmo, mas nunca glamourizei o uso de drogas. Era só pela diversão e pelo prazer físico mesmo, e a Cecília já era dependente química quando eu a conheci. A gente queria desfrutar dos prazeres mais voluptuosos pra celebrar a vida, mas ela não conhecia limites. Eu não sou hipócrita ao falar desse assunto. Estou falando como forma de desabafo, e sei que deveria me sentir constrangido por expor dramas pessoais tão dolorosos, mas os meus valores pessoais se apagaram com o tempo, por causa do sofrimento contínuo. Mesmo se eu ficasse uma semana aqui falando sem parar, não conseguiria contar suficientemente sobre todo o meu sofrimento. Tornei-me uma pessoa triste e sem perspectivas, e quando olho pra trás vejo que não sou mau. Desde que passei a morar com ela, minha vida tem sido uma espécie de odisséia sacra. Por muito menos, qualquer cara a teria colocado na rua. Eu não jogaria cocaína ou vodka na privada, mas eu sei que se vivesse sozinho conseguiria diminuir muito o consumo e partir pra hábitos mais saudáveis, e estaria em melhor forma física, sem dúvida. O fato dela ser mais velha me deslumbrou quando eu era jovem, e ela era bonita antes de se tornar esse canhão que é hoje. Ela está velha e estragada, mas continua perua, e quando sai, chama mais a atenção do que jegue de cigano. E todo mundo aqui sabe que ela é bêbada e drogada, e ela não está nem aí. Pela lógica era ela quem deveria me impor limites, por ser mais velha. Então, quando comecei a tentar impor esses limites a ela, falhei miseravelmente. Minha derrocada pessoal começou quando resolvi morar com ela. Ela é muito alcoólatra, e quando bebe quer cheirar, e ela sempre bebe. Compra fiado no bar aí da frente e deixa na minha conta, depois sai bêbada atrás de cocaína. E depois bebe mais e depois cheira mais. E depois bebe mais novamente, e fica fora de controle. Eu não sei como ela não está fumando pedra. A epidemia do crack não a pegou, talvez por ela se achar velha demais pra isso. A menos que esteja fumando na rua, quando eu não estou vendo. O que eu vou fazer se eu chegar em casa e a encontrar morta? Vou bater na sua porta pra pedir pra você me ajudar a carregar o corpo? E o que eu vou dizer pras pessoas? Que eu não sabia dos problemas que ela tinha? _ Olha, Edinho, eu não sei bem o que dizer, e provavelmente eu não sou a pessoa certa pra tratar desse assunto, e qualquer coisa que eu diga soará como o mais batido dos clichês. Mas eu acho que os vícios são conseqüências de problemas anteriores a eles. Eu mesmo sou um cara que bebe mais do que a maioria das pessoas, bebo mais do que é socialmente aceitável, e essa é uma das razões pelas quais o casamento é inviável pra mim. Das duas uma: ou eu estaria casado com uma bêbada pior que eu, o que indubitavelmente seria um grande problema, ou com uma mulher que repudiasse meus hábitos. E eu não sei se isso seria bom ou se criaria atritos. Num apartamento pequeno como esse eu apostaria nos atritos. Pessoalmente, sou contra o casamento como instituição. De qualquer forma, não tenho nada a ver com a escolha das outras pessoas. Até porque a escolha que as outras pessoas fazem para suas vidas influenciam as minhas próprias escolhas, principalmente quando é pra seguir o caminho contrário ao delas.. _ A Cecília tem duas filhas, quase nunca as vê, e quando eu a conheci ela já morava aqui. Tinha se separado e perdeu a guarda das meninas porque era muito louca. O meu apartamento era alugado e eu tinha uma grana de herança, então comprei o apartamento pra ficar com ela e sair da casa dos meus pais, que nem sabiam da existência dela. Hoje sofro até pra pagar as contas, porque o dinheiro vai todo em drogas. Minha situação é difícil porque não há mais qualquer tipo de relacionamento entre a gente, a não ser o fato de morarmos no mesmo apartamento, por razões que só faziam sentido no passado, e por mais que eu pense todos os dias em me separar de uma vez, não encontro uma saída que não venha a gerar atritos. Se eu vender o apartamento, ela vai morar na rua, e se eu for embora e deixar o apartamento pra ela, não tenho pra onde ir. Se um de nós ficarmos sem casa, não conseguiremos nem um copo d’água da torneira nesses bares da região, porque ela fez com que perdessem o respeito por nós aqui na Bela Vista. E a cada dia que passa eu me desespero mais. É como se alguém acendesse um palito de fósforo e ficasse olhando ele queimar sem jogá-lo fora, mesmo sabendo que queimará os dedos. Eu pensei em suicídio milhares de vezes, mas não me mato porque a vida está me matando rapidamente. Ultimamente eu constatei que não sou suicida, senão já teria dado cabo de mim mesmo. Eu penso em me matar quando parece que minha vida não tem solução. Mas viver é tentar tornar possível o que é necessário. E é necessário que eu dê uma guinada definitiva. Minha motivação pra isso é pensar que se eu conseguir, o resto da minha vida valerá a pena. Aí vou querer recolhimento, e se possível, vadiagem saudável.
Cecília tinha comprado duzentos reais em cocaína, e Max e Edinho tinham acabado com a garrafa de uísque antes que a cocaína tivesse chegado na metade do bilú. Estavam muito loucos, mas não queriam continuar cheirando mais sem beber, então desceram pra comprar conhaque. Compraram um Domecq no mercado que ficava a cem metros do prédio e voltaram ao apartamento de Max, onde ficaram até anoitecer. Abriu-se um precedente perigoso para Max, que apesar da simpatia que nutria por Edinho, sempre lembrava que não havia planejado uma proximidade maior com os novos vizinhos. Edinho e Cecília eram moradores antigos e populares no prédio. Conheciam todos os moradores, da mesma forma que todos lá os conheciam.
Naturalmente era notório para todos os outros moradores que Edinho e Cecília viviam numa crise conjugal perpétua e que abusavam de álcool e drogas. Quando se mudou para seu novo apartamento, Max sentia uma alegria grande por ser desconhecido ali, ao contrário do prédio em que vivia antes com os pais, onde grande parte de sua vizinhança o conhecia. Essa sensação durou por três semanas, apenas. Sentia-se um ímã de malucos. Os malucos se aproximavam sem que ele precisasse fazer nada, nem dizer uma só palavra. Quando se despediram e Edinho foi para seu apartamento, Max sabia que teria uma noite nada agradável. Antes das nove horas deitou-se e demorou muito para conseguir dormir. Na manhã seguinte, sentia-se doente, azedo e deprimido.
Uma febre interna fervia seu sangue e fritava seus órgãos internos. O único pensamento positivo que lhe ocorreu foi sobre não ser viciado em cocaína, e apesar de gostar de cheirar, não sentia por ela a mesma obsessão que os muitos outros sentiam. Os dias seguintes ao consumo de cocaína eram terríveis. Havia também fatores como o preço alto e qualidade baixa da droga disponível, mas sempre havia quem comprasse. Talvez o maior agravante fosse o fato de o álcool e as drogas não o conduzirem de maneira nenhuma ao trabalho, além de deixá-lo excessivamente sentimental, mas não sentia culpa, pois para ele e para qualquer pessoa que fizesse uso dessas substâncias, aquilo era apenas uma maneira de consertar o modo como se sentiam com relação ao mundo.
Questionamentos sobre ‘certo’ e ‘errado’ não se aplicavam para justificar ou condenar essa prática. Muitas vezes um tiro de cocaína ou uma dose de uísque são suficientes para uma pessoa se tornar uma bomba e explodir sozinha em meio a dezenas de outras pessoas que usam de maneira recreativa, e leia-se aqui ‘maneira recreativa’ o uso para diversão, pouco importando a quantidade ingerida. É mais que notório o fato de que muitas vezes os problemas atribuídos às drogas e ao álcool são uma manifestação clara que a pessoa em questão é o problema. E muitas vezes essas pessoas manifestam isso sem fazer uso de qualquer substância. Notório também é o moralismo midiático em torno do tema. Apesar de tudo, Max sabia que seu negócio era mesmo bebida. Então dormiu novamente, acordou meio dia e meia, comeu um sanduíche de queijo e uma maçã, e em seguida tomou uma grande caneca de café forte e sem açúcar, como era de sua predileção. Estava decidido a não fazer daquele um dia totalmente perdido.
Leu alguns trechos de ‘Guerra e Paz’, respondeu a emails de estudantes que queriam saber sobre o andamento de seus trabalhos universitários e tomou várias outras canecas de café. À tarde Max pensou que deveria estar conhecendo universitários da região que estivessem interessados em seus serviços de estudante profissional, ao invés de interagir com vizinhos alucinados sem qualquer perspectiva de futuro. Sua sorte é que ainda tinha alguns trabalhos universitários para concluir e revisar, e também alguns cheques a serem depositados. Max fumava um cigarro na janela e viu um homeless saindo do túnel da Nove de Julho. O sujeito andava descalço e levava sobre as costas um grande saco de andarilho.
Parou diante de um amontoado de lixo, de onde tirou uma lata de coca-cola que constatou não estar vazia, e sem conferir a cor e o cheiro do líquido, virou seu conteúdo goela abaixo. Então soltou sua sacola, amassou a lata com as duas mãos, jogou a lata para dentro dela e seguiu até misturar-se com as outras pessoas que esperavam para atravessar a avenida. Por ali passavam centenas de homeless diariamente, perambulando a esmo. Havia um albergue próximo, mas era preciso que o sujeito não estivesse embriagado ou drogado para que pudesse pernoitar, tomar banho, fazer a barba e comer. Alguns dos que Max via diariamente freqüentavam o albergue, outros não.
Havia ainda aqueles que esperavam por uma situação que considerassem extrema, e então, depois de vários dias na rua, finalmente resolviam passar uma noite no albergue, recuperando-se um pouco dos danos e saindo dali limpos e alimentados, para novamente voltarem às ruas por mais alguns dias. Sempre foi difícil compreender porque essas pessoas permaneciam em São Paulo, quando poderiam desfrutar mais tranquilamente de sua liberdade num lugar mais limpo e tranqüilo. Mesmo antes da epidemia do crack tomar a cidade, os mendigos mantinham-se na cidade, muito mais marginalizados do que se estivessem colhendo bananas em alguma propriedade rural distante, com cachoeiras por perto.
Na semana seguinte, Max foi convidado para um almoço com um primo que anos antes havia se mudado para Portugal, e que naquele momento estaria no Brasil visitando amigos e parentes. Foram ao Sujinho, na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida Rio Branco. Comeram e beberam até o limite. Fazia tempo que Max não ia a um restaurante. Seu primo era do tipo que se vestia formalmente, em trajes sociais e tinha gel no cabelo, que era penteado para trás.
O sujeito havia engordado uma barbaridade desde a última vez que Max que Max tinha visto-o. Atribuiu o ganho de peso à paixão que tinha pela comida portuguesa. Então o primo de Max pagou a conta e despediram-se. Max estava perto de casa e voltaria a pé, e seu primo pegou um taxi e partiu. Logo que Max atravessou a Rio Branco e seguiu pela Ipiranga, foi abordado por ninguém menos que Emílio, seu vizinho do prédio, que se dizia fã de TRex.
Emílio estava imundo, descalço e com o corpo envolto num cobertor cheirando a urina. Apesar de se sentir pesado pelo excesso de comida e cerveja que consumiu com seu primo, Max acelerou o passo e se desvencilhou do sujeito, alegando que estava atrasado, sem que parasse para conversar com ele. Emílio era realmente um nóia, como sua aparência física já fazia Max supor na primeira vez que o viu, ainda que naquela ocasião ele estivesse sóbrio e com roupas limpas. Dois dias depois, quando Max saía para comprar cigarros, encontrou Edinho no corredor do oitavo andar, quando ambos esperavam pelo elevador. Max lembrou-se do episódio na Avenida Ipiranga e perguntou a Edinho sobre Emílio. Não contou a Edinho sobre tê-lo visto no centro dois dias antes, apenas mencionou a ocasião em que se conheceram no hall de entrada do prédio. Edinho contou que Emílio era um personagem folclórico na região, e que seus pais tiveram bastante dinheiro, e o perderam principalmente por causa dos problemas do filho com as drogas. Primeiro a cocaína e depois o crack.
Segundo Edinho, eles viviam numa boa casa no Morumbi e tiveram que mudar para o pequeno apartamento da Bela Vista. E ali, com a proximidade do centro da cidade, o vício de Emílio ficou fora de controle. Alternava períodos em casa, sóbrio, e outros períodos na rua fumando crack.
De acordo com Edinho, Emílio explorava garotas que conhecia através da internet, fazendo com que elas comprassem drogas para ele. Tinha preferência por garotas obesas e carentes de classe média. Nas recaídas, ele geralmente roubava objetos de casa ou do prédio e ia para a cracolândia, de onde só voltava quando sua mãe ou seu pai iam buscá-lo, imundo e enrolado num cobertor todo mijado e cagado. Enquanto não era encontrado, perambulava pelo centro, especialmente pelas redondezas da Estação da Luz.
Edinho encerrou dizendo que Emílio era “um vagabundo que merecia apanhar de cabo de vassoura todos os dias”. Max já estava convencido de que Emílio era um encosto em potencial, mas Edinho ainda lhe contou brevemente alguns outros pontos da história de Emílio, enquanto estavam descendo pelo elevador. Chegaram ao térreo, e Max atravessou a Nove de Julho em direção ao bar dos universitários enquanto Edinho, que ia ao mercado, seguiu pela mesma quadra. Despediram-se e imediatamente Max começou a pensar no quanto seria problemático criar qualquer tipo de vínculo com Emílio.
O fato dele ter reconhecido Max na rua era um problema. Agora ele pensava se não deveria ter parado naquele momento e conversado com o cara. Ele provavelmente apenas pediria dinheiro. Por outro lado, tê-lo visto ali naquelas condições o faria ficar prevenido. E mais uma vez lhe ocorreu o quanto pode ser arriscado ter filhos. Max não queria estar no lugar do pai de Emílio. Não queria estar no lugar de nenhum pai. Sua omissão naquele momento em que viu que Emílio havia se resignado a uma vida ordinária foi mais um reflexo de sua surpresa do que falta de vontade de ajudar. Embora soubesse que pouco ou nada poderia fazer para ajudar Emílio naquele momento.
Poderia ajudá-lo a comprar a próxima pedra, o que não seria nada gratificante. O melhor seria nunca mais encontrar aquele infeliz, fosse no prédio ou nas ruas do centro. Quando Max via um nóia na rua, ou grupos deles, lembrava de Emílio, ora com certa compaixão, ora com completa repulsa. Nas ocasiões em que lembrava dele com repulsa, pensava que nem mesmo a imagem de Emílio limpo e bem vestido era suficiente para melhorar sua triste aparência. Preferia evitar acompanhar a saga de um tipo repugnante como aquele.
Capítulo 4- In a glass
Havia uma garota no prédio, e já não era tão jovem, certamente com idade próxima dos trinta anos, mas que tinha um aspecto gracioso e juvenil. Era bonita o suficiente, e não extraordinariamente, mas isso agradava a Max, que gostava de garotas que fossem bonitas, mas comuns. Era magra, com cabelos castanhos claros e curtos, pele de pêssego, olhos muito azuis, óculos com armação vintage e uma franjinha. Tinha um aspecto muito nerd. Aos olhos de Max, ela parecia incrivelmente delicada e recatada. De um modo geral, era uma garota comum, mas charmosa.
Max sempre a via saindo para passear com seu cachorrinho pelos arredores. Tinha um pequeno vira-lata preto e bastante simpático. Ela morava com a mãe, e Max nunca havia a visto com nenhum homem, apenas sozinha ou acompanhada da mãe ou de seu cão. Max ainda não havia perguntado a Edinho sobre ela, mas o incomodava o fato de que a aproximação de alguém como ela era sempre mais burocrática do que a aproximação espontânea e quase automática de pessoas como Emílio e Edinho. Aquela garota aparentemente não era incomodada por ninguém.
Tê-la tão perto e tão longe ao mesmo tempo era algo como não conseguir abrir um pistache. Transmitia a Max um estado de paz que para ele parecia inatingível, embora almejasse esse estado mais do que qualquer outra coisa. Ela tinha um aspecto europeu e até certo ponto glacial, que se contrapunha à intensa brasilidade do bairro. Vê-la entrando e saindo daquele prédio era enxergar a oposição entre dois mundos que não se complementavam. Parecia impermeável a qualquer tipo de influencia mundana da região em que vivia.
Eram vizinhos da sede da Vai-Vai, por exemplo, e também de dezenas de bares sórdidos, e a garota parecia conscientemente não absorver quase nada do estilo de vida e comportamental da região em que morava. O modo com que ela aparentemente vivia satisfeita e deixava de se envolver com a vizinhança, seus vícios e suas fofocas, fazia com que Max imaginasse que caso ele próprio tentasse uma aproximação, estaria maculando a pureza de uma criatura encantadora, que deveria servir de exemplo para as massas e ter a chance de continuar a ser assim para sempre.
Ali, Harriet era uma pessoa real, mas improvável. Em contrapartida, seu estilo parecia não se enquadrar nos padrões de preferência dos homens da vizinhança, que estava acostumado com o grande número de garotas sensuais e com pouca roupa que moravam ou passavam a todo momento pelas ruas da Bela Vista. Passaram-se meses até que finalmente e ao acaso, Max encontrasse a garota no elevador enquanto desciam para a rua. Seus horários simplesmente não coincidiram até então. Antes disso teve o grande desprazer de encontrar Emílio no prédio, novamente limpo e com roupas novas, apesar do aspecto de junkie cansado. Emílio, na primeira ocasião em que se encontraram no prédio, pediu desculpas a Max por tê-lo abordado no centro da cidade. Disse que entendia a razão pela qual Max foi embora sem olhar para trás. Encontraram-se rapidamente mais algumas vezes, até que Emílio sumiu novamente. Numa manhã em que saiu para comprar cigarros, Max pegou o elevador vazio, e ele parou no quinto andar, de onde surgiu a garota.
Até então Max não sabia nem mesmo o andar em que ela morava. Max vestia uma camiseta velha do Prefab Sprout e a menina comentou timidamente que gostava da banda e não conhecia mais ninguém que também gostasse.
_ Qual é seu nome? Eu sempre a vejo passeando com seu cachorro. – disse Max.
_ Meu nome é Harriet. Meu cachorro se chama Lafaiete. E o seu nome? – perguntou a garota. _ Meu nome é Maximiliano. Pode me chamar de Max... Você é brasileira? Não tem sotaque de gringa, mas parece européia e se chama Harriet...
_ Sou brasileira, mas minha mãe é inglesa. Meu pai é brasileiro e quando a engravidou, fugiu de volta para o Brasil. Minha mãe veio atrás dele e não o encontrou. Só o conheci quando tinha quinze anos, quando ele nos procurou. Estava agonizando em estado terminal de câncer. Foi a única vez que eu o vi com vida, todo entubado na cama do hospital. Ele era um filho da puta.
Max quase não acreditou que aquela garota falou um palavrão, principalmente por tê-lo dito referindo-se ao pai, que pelo jeito era mesmo um filho da puta. Foi surpreendente para ele que aquela menina com pele de pêssego tivesse problemas daquele tipo. Max pensava que o tipo de problema que ela enfrentava era de vez em quando pisar de meia no chão molhado do banheiro. Depois de alguns segundos de silêncio, quando já estavam no portão do prédio que dá acesso à rua, Max perguntou: _ Você tem namorado? _ Não, eu acho que os caras me acham feia e esquisita. _ Eu não acho...
Harriet sorriu timidamente, e antes de se despedirem, ao ser perguntada sobre o que fazia, disse que era publicitária e que trabalhava no Itaim. Eram quase oito e meia da manhã, e Max supôs que no dia seguinte Harriet sairia de casa no mesmo horário para trabalhar. Programou-se então para que na manhã seguinte tentasse encontrá-la novamente, como que sem querer. Às oito e dez, ouviu gritos vindos do apartamento de Edinho e Cecília, seguidos do barulho da porta batendo.
Constatou que quem saiu foi Edinho, e então apressou-se e o alcançou, antes que ele pegasse o elevador. Ocorreu a Max que caso ele ficasse alguns minutos conversando com Edinho no térreo, encontraria Harriet saindo, e então, se conseguisse vencer sua timidez e a aparente intransponibilidade daquela garota, e se por alguma razão obscura as circunstâncias do encontro fossem favoráveis, poderiam naquela segunda conversa realmente se conhecer melhor. Max então saiu para o corredor e Edinho estava esperando pelo elevador. Edinho o cumprimentou e em seguida começou a se lamentar, como de praxe. Disse que estava saindo apenas para espairecer por causa de mais uma briga com a mulher.
Pararam por alguns minutos na frente do prédio para conversarem, sem que saíssem para a rua. Minutos depois Harriet saiu do hall de entrada e ao passar por eles, os cumprimentou timidamente. Naquele momento, Max pensou que seria mais proveitoso continuar conversando com Edinho, para perguntar-lhe sobre Harriet.
Certamente Edinho passaria a ele um relatório completo, com tudo com tudo que soubesse. Seria melhor do que ir atrás da garota e conversar com ela apenas por poucos minutos, provavelmente de maneira infrutífera. Preferiu colher algumas informações para talvez na manhã seguinte tentar encontrá-la premeditadamente, como havia feito naquele dia. Bastou que ela pisasse na calçada, fechasse o portão do prédio e já não pudesse mais ouvi-los, para que Max perguntasse a Edinho sobre ela.
O interesse de Max por ela parece ter surpreendido Edinho, que arregalou os olhos e disse: _ Essa garota é esquisita. É bem pouco sociável. Acho que você está perguntando sobre ela porque descobriu que ela tem o gosto musical parecido com o seu. Ela tem um certo charme mesmo, mas é como se fosse um bombom de chocolate suíço por fora e ácido sulfúrico por dentro. Vou contar apenas umas poucas histórias sobre ela. Primeiro, o pai a abandonou antes que ela nascesse, e eu não sei até que ponto isso a afetou. Mas ela mora aqui desde criança e quando era adolescente, namorava um cara aqui do prédio, Douglas, que era muito cafajeste. Ela engravidou e antes que ele se recusasse a assumir a paternidade, se é que faria isso, ela abortou, tocou a campainha do apartamento dele e disse: ‘Olha aqui o seu filho! Você deveria ser capado antes que pudesse se reproduzir’, entregando a ele um vidro de maionese com um feto dentro, embebido em formol. Isso rolou há uns oito anos. O Douglas se mudou pouco tempo depois, e nunca mais soube nada a respeito dele. A mãe dessa menina é gringa e professora de inglês. Elas já viajaram muito para a Europa. Elas não tem muita grana mas já viajaram bastante. Tem gente aqui no prédio as consideram arrogantes. Isso eu não sei, apenas as cumprimento quando as vejo no prédio, sem engrenar qualquer diálogo. Eu sei que a menina e uns amigos ficavam na casa dela tomando ácido que ela trazia da Europa. Eu queria ter acesso a isso também, mas nunca tive proximidade com ela nem com a mãe. Você pode achar que eu e a Cecília somos completamente desajustados e loucos, mas aqui nesse prédio tem muita gente maluca. Tem muita gente que leva uma vida morta também. Gente obscura. Já conheci algumas pessoas aqui que eram capazes de tudo, e outras que não eram capazes de nada. Esse prédio é um antro de talaricagem também. O diabo desse mundo é que cada um tem as suas razões pra ser o que é e fazer o que faz. Se eu lembrasse de todas as histórias que eu soube desde que moro aqui, escreveria um livro do caralho. Eu não lembro de tudo, e apenas os moradores daqui o leriam, e talvez nem mesmo eles. Aqui o pessoal não lê livros, apenas assistem às novelas.
De fato aquele prédio a cada dia se revelava cada vez mais como algo próximo de um grande e heterogêneo mosaico que ilustrava as pequenezas da condição humana, suas relações cotidianas que muitas vezes, ao invés de serem direcionadas a favor do coletivo, eram calcadas em interesses pessoais. Ali, uma série de fatos sobre como as pessoas interagem entre si eram claramente reveladas, mais especificamente as pessoas da classe média paulistana. Max, que até aquele momento pensava que seria um problema ter Emílio como vizinho, e torcia para nunca mais encontrá-lo, ficou bastante surpreso com as revelações de Edinho sobre Harriet, mas ao assimilar um pouco melhor aquelas informações, surpreendeu a si mesmo por não ter perdido o interesse em conhecê-la melhor. A princípio pensou que pudesse ser apenas por mera curiosidade, já que Harriet definitivamente não era uma garota comum, independente disso ser bom ou ruim. Três dias depois, e novamente ao acaso, Max encontrou Harriet entrando no prédio, no fim da tarde, chegando do trabalho.
Ele havia passado o período desde a última vez em que a tinha visto pensando no quanto era conveniente não procurar por problemas para sua vida, especialmente problemas ligados a relações interpessoais, mesmo que às vezes admitisse a si mesmo que seu isolamento era quase obsessivo. Sentia, no entanto, um certo alívio por concluir que seria melhor deixar que o acaso os aproximasse, se fosse o caso, e nesse meio tempo pensar melhor essa aproximação seria conveniente. Afinal sua vida não era tão chata a ponto dele ter que procurar por aventuras que trariam riscos desnecessários.
Sempre foi melhor passar por momentos de tédio do que por pesadelos incessantes causados por relações humanas caóticas. A história do feto o intrigou e a excentricidade daquela garota por alguma razão o agradava, agora mais do que antes. A história dos ácidos era algo que definitivamente o atraía. Max adoraria tomar uns ácidos com Harriet. Pensou que poderia tentar insinuar algo a ela que os conduzisse a esse assunto, como vestir alguma camiseta com referências a LSD e esperá-la passar quando entrasse ou saísse do prédio, só para ver se assim ela tomaria alguma iniciativa, embora parecesse muito reservada para tal atitude.
Numa tarde daquela mesma semana, Plínio apareceu para visitar Max. Haviam fumado um baseado e tomavam cerveja quando Edinho saiu de seu apartamento e bateu a porta, seguindo para a porta do elevador, mas segundos depois, Cecília saiu atrás dele gritando: “Você não é um homem! Você tem um pipi em vez de ter um caralho!”.
Então ela voltou para o apartamento e bateu a porta novamente. Antes disso, Max e Plínio conversavam descontraidamente, e quando Cecília começou a gritar, Max olhou para Plínio, que com os olhos arregalados, apenas ouvia. Então Max foi até a porta, esperou por um instante, abriu a porta e olhou para fora. Edinho já tinha ido embora, então Max fechou a porta e voltou para sua cerveja, contando resumidamente para Plínio sobre Edinho e Cecília.
Então Plínio começou mais um de seus discursos gesticulosos: “Meu deus! Histórias assim a minha babá não contava! Por que as pessoas são assim? Por que o mundo é assim?”.
Antes que pudesse continuar, adivinhem, sua mulher Tânia estava ligando em seu celular. Plínio levantou-se, foi até a janela e disse que estava na rua, quase chegando em casa. Então, ao desligar o celular, despediu-se de Max e partiu.
Foi o suficiente para que Max, assim que ficou sozinho em casa, pensasse imediatamente em Harriet e em como seria sua vida se ele tivesse um relacionamento com aquela garota, principalmente sendo eles moradores do mesmo prédio. Seria bom desenvolver um tipo de relacionamento realmente moderno. Se existisse alguém no mundo que pudesse fazer isso, eram Max e Harriet.
Poderiam estar juntos e ao mesmo tempo manter seus valores individuais vivos. Max tentou fazer uma análise sucinta de como era sua vida naquele momento, do jeito que estava. A companhia momentânea de uma pessoa interessante podia realmente ser algo benéfico, mas Max gostava de ficar sozinho também. Inclusive, mesmo lembrando dela naquele momento, ele teria escolhido ficar sozinho naquela noite. Na medida do possível ele tinha o controle de sua vida. Não tinha de quem ou com quem reclamar quando as coisas não aconteciam do jeito que ele desejava.
Não havia tempo perdido com lamúrias. Suas ressacas e sua esofagite, por exemplo, eram conseqüências de suas bebedeiras, e ele lidava bem com isso. No dia seguinte, no meio da tarde, Edinho tocou a campainha de Max, que pediu para que ele entrasse. Antes de entrar, Edinho perguntou se Max tinha ouvido a briga dele com Cecília na noite anterior. Antes que Max respondesse, Edinho complementou a pergunta, afirmando que ao sair em direção ao elevador, pôde ver que Max estava em casa, por causa da luz que saía por baixo da porta. Max mentiu, dizendo que não havia ouvido nada.
Houve um breve silêncio e então Edinho entrou e disse a ele: “De qualquer maneira quero me desculpar, e deveria fazer isso com todos os vizinhos. A razão pela qual começamos a brigar ontem foi patética. Ela tinha saído à tarde, e eu saí em seguida e deixei a janela aberta. Até aquela hora não havia indícios de que choveria mais tarde, mas choveu, e a toalha da mesa da nossa sala molhou. Quando eu voltei pra casa, ela já estava lá, completamente descontrolada, dizendo que eu jamais poderia ter deixado a janela aberta e sair. Eu argumentei dizendo que a chuva é um fenômeno natural muito mais antigo e importante do que a humanidade, e que depois que nós morrêssemos, ela continuaria existindo. Disse ainda que nós tínhamos coisas muito mais sérias pra nos preocuparmos do que a toalha da mesa da sala. E então a coisa toda descambou pra baixaria. Eu estou cada vez mais esgotado da minha vida. Você não pode imaginar o que é, por exemplo, estar na rua, voltando pra sua casa, e ao invés de se sentir feliz com isso, sentir-se amargurado, esperando por mais uma briga ao invés de descansar. Faz dois meses que eu não dou um cutuco nela, então ela grila com qualquer coisa. Os motivos que ela cria pra brigar são quase sempre retroativos. Isso me faz pensar que apesar de eu estar afundado na depressão, o que me separa da felicidade é uma linha muito fina. Se eu vivesse sozinho seria feliz, principalmente em casa, que é o mais importante. À vezes, quando estou realmente no fundo do poço, tenho inveja do sossego que você parece ter na sua vida. Não se envolve em problemas que o exponham à vizinhança. Eu sempre tentei convencer a Cecília de que se ela fizesse dessa forma, metade dos nossos problemas não existiriam.”
A dor e o desespero daquele sujeito se manifestavam tão plena e sinceramente em seu olhar, que Max pôde acreditar que o inferno é possível. Então apenas respondeu a Edinho que para qualquer coisa que precisasse, podia contar com ele incondicionalmente. Se Max pudesse dizer que via algo de bonito em meio àquela situação eternamente de seu vizinho, que àquela altura já podia chamar de amigo, era o fato de que Edinho parecia confiar nele. E Max realmente queria fazê-lo se sentir muito melhor.
Edinho então continuou: “Aqui no prédio eu e a Cecília somos considerados clinicamente loucos, o que não deixa de ser verdade, mas lidar com o preconceito das pessoas com relação a isso é doloroso. Moro aqui há muito tempo, e as maluquices da minha mulher fizeram, dia após dia, com que todos perdessem o respeito por mim, se é que um dia o tiveram. Eu lhe perturbo com esses desabafos porque ninguém mais me ouve. Você é imparcial, até porque me conhece há pouco tempo e não me julga. Isso é legal.”
Logo Edinho apresentou a Max um saco de cocaína com uma quantidade similar à da vez anterior e sem que entrasse em detalhes sobre quem havia comprado a droga, despejou uma boa cota a mesa de lata da sala de Max e esticou quatro carreiras. Cada um mandou uma e Max tirou do armário uma garrafa de Domecq e dois copos. Edinho entretinha-se escolhendo os discos que iam ouvindo, um após o outro. Edinho sempre esticava quatro carreiras a cada vez enquanto enxugavam o conhaque. Max sabia do azedume do dia seguinte, mas agora já era tarde.
A cocaína ainda durou um bom tempo, muito mais que o Domecq, e num determinado momento trouxeram algumas latas de cerveja compradas no bar dos universitários para não ficarem cheirando sem ter o que beber. No dia seguinte Max tinha uma monografia de Direito Penal para concluir e revisar, e se pôs a trabalhar assim que acordou, tomando muita água e comendo apenas maçãs ao longo do dia. Tentou inutilmente evitar as canecas de café, mas ele sabia que no dia seguinte estaria melhor.
Max conseguiu adiantar razoavelmente seu trabalho naquele dia, considerando o prazo que tinha para entregá-lo. Fumou um baseado antes de tentar cochilar por alguns instantes, para então, talvez trabalhar um pouco mais naquela tarde. Antes que pensasse sobre o quanto sua vida naquele prédio estava mais agitada do que imagina ou gostaria antes de se mudar para lá, a campainha tocou.
Era Harriet com cara de choro.
_ Minha mãe morreu ontem... – ela disse, para em seguida começar a chorar novamente. Era dia vinte e oito de Novembro. Max pediu que ela entrasse e desculpou-se pela bagunça no apartamento, que tinha as paredes brancas descascadas e tão poucos objetos, que quase não havia bagunça realmente, porque seus discos estavam em ordem. Ele não havia pensado em tentar de alguma forma disfarçar o cheiro da maconha. Poderia ser algum ‘morador-patulha-antidrogas’. Quando se deu conta disso, ficou sem graça, mas como havia algo mais grave a ser tratado, perguntou a Harriet sobre o que havia acontecido com sua mãe. _ Ela tinha um aneurisma no cérebro, sabia que tinha que fazer uma cirurgia, mas ficava adiando porque tinha medo da operação, então ontem ela caiu enquanto tomava banho, e quando ouvi o barulho, tive que arrombar a porta, e quando entrei, ela estava caída, já morta. O velório já está rolando no Araçá. Eu tenho pouquíssimos amigos e parentes. Você pode ir comigo? E esse cheiro de maconha? Você ainda tem um baseado? – perguntou Harriet. _ Tenho sim. Vou confeccioná-lo, a gente fuma e então saímos para o velório. – disse Max, que enquanto bolava o baseado pensou nas lembranças que tinha da figura da mãe de Harriet, a quem viu poucas vezes, algumas delas acompanhada da filha. Nunca conversou com ela, mas era notório que ela tinha classe e um ar de dignidade que impunha respeito. _ Quantos anos ela tinha? – perguntou Max. _ Cinquenta e sete... – respondeu Harriet. _ Que pena. Era jovem... _ Sim, eu vivia dizendo a ela que se cuidasse. Ela dizia que algumas pessoas nasciam pra ser velhas. Ela queria ter tido uma vida longa. Dizia que não aproveitou a juventude como gostaria, porque vivia em Birmigham, e como ela não gostava de beber, e não gostava de futebol e não gostaria de trabalhar numa fábrica, nunca aproveitou a cidade. Além do fato de que lá só chove. Ela dizia que não se sentia atraente pros homens, então eu suponho que seja por isso que tenha sido tão facilmente enganada pelo filho da puta do meu pai. Desde que eu era criança, ela dizia que esperava pela aposentadoria, pra poder ficar em casa lendo, ouvindo música e tomando chá. Essa é mais uma das razões pelas quais eu gostaria que ela vivesse pelo menos por mais vinte anos. _ Eu nunca tinha pensado direito nisso, mas acho que isso é verdade. Tem gente que nasceu mesmo pra ser velho. E tem os que já nasceram velhos, como o Jerry Garcia.
Então fumaram o baseado e saíram. Percorreram a pé e em silêncio o árduo trecho de subida que dava acesso à Avenida Paulista, pegaram o metrô na estação Trianom-Masp e foram até a estação Clínicas, onde desceram na frente do cemitério do Araçá. Na sala do velório, ao lado do caixão, uma senhora que Max imaginou ser a avó de Harriet cochilava numa cadeira. A cena era tremendamente desoladora.
Ao entrarem, Harriet voltou a chorar baixo por alguns minutos e depois agradeceu a Max por tê-la acompanhado, abraçando-o por cerca de um minuto. Em seguida Harriet se aproximou do caixão, seguido por Max. Olharam para a mãe de Harriet, e segundos depois a velha senhora acordou, olhou para Harriet e em seguida para Max. Arqueando uma sombrancelha e com um forte sotaque inglês, perguntou a ele: ‘Você é o filho do Gary Brooker?’. Muitos amigos que Max fez nas lojas de discos de São Paulo já haviam comentado sobre sua semelhança com o vocalista do Procol Harum. Então, num misto de surpresa, curiosidade e até mesmo alegria, Max olhou para Harriet, que disse, agora quase sorrindo: ‘Minha mãe ouvia muito Procol Harum e rock progressivo de um modo geral, e minha avó, sabe-se lá como, assimilou algo daquilo. Ela está gagá há muito tempo, vive com uma tia minha. As duas vieram pro Brasil pouco depois de nós. Quando meu avô morreu, eu era criança, e foi quando ela começou a pirar. Ela se vestia de noiva e pedia que a gente tocasse “Whiter shale of pale”, porque ela se casaria com essa música de trilha.’
Silenciaram por alguns segundos, e então Harriet segurou Max pelo braço e o puxou em direção à porta, dizendo: ‘Vamos tomar uma cerveja. Se a minha mãe pudesse falar agora, sugeriria que nós fizéssemos isso.’ Foram em silêncio até uma padaria bem próxima ao cemitério e pegaram uma long neck de Heineken para cada um. Abriram suas cervejas, brindaram à mãe de Harriet e então finalmente voltaram a falar. _ Eu estou bem triste hoje. Mas ao mesmo tempo eu sinto que uma bolha à minha volta se rompeu. Eu tinha medo que minha mãe morresse, e nem esperava que fosse acontecer tão rápido, mas eu sei que ela não teve tempo de sofrer e agonizar. Ela tinha pavor da idéia de operar o cérebro, eu queria que ela fizesse a cirurgia para que as chances dela ficar conosco por mais tempo fossem maiores. E eu sei que sempre terei saudades dela, até que eu morra, mas a tristeza pela perda dela não vai ficar pra sempre. Vai passar, e eu terei outras. – disse Harriet. _ Quase tudo o que você me falou desde que a gente conversou pela primeira vez foi surpreendente. – falou Harriet. _ Se isso for verdade, acho que é porque você me superestima. Ou talvez me subestime, depende do ponto de vista. Eu não lembro de ter dito nada de extraordinário. _ Eu nunca a superestimei nem a subestimei. A questão é outra. Eu tenho em mente o que eu pensava de você antes da primeira vez em que conversamos, mas pra não ser mal interpretado, preciso formular direito o que eu tenho a dizer a respeito. _ Você me via no prédio e pensava que eu era uma nerd. Quem não me conhece tem essa impressão. _ Não é exatamente isso. Ou não é apenas isso. O modo como você parecia nerd não era nada desagradável. Você é cinéfila e gosta de rock alternativo. O termo nerd não seria pejorativo caso eu o atribuísse a você. Mas de qualquer forma eu não acho que você seja uma pessoa parecida com a maioria dos nossos vizinhos. _ No nosso prédio, as pessoas me acham louca. Eles me conhecem faz tempo e tem uma impressão diferente da sua. E eu gosto de acreditar que eles não me conhecem de verdade. Eu e minha mãe procurávamos não nos expor àquela vizinhança porque lá tem muita gentalha. _ Eu sei disso. Vocês atingiam o objetivo de não se exporem. Essa possibilidade é limitada, porque em qualquer prédio há gentalha, há fofoca e coisas do tipo. Mas dentro das possibilidades vocês obtinham sucesso nisso. Eu moro lá a pouco tempo, e me preocupo em perder o controle sobre essa necessidade de me manter alheio à maioria dos vizinhos. Lá tem gente que não consegue. Alguns querem, mas por alguns motivos não conseguem. Outros simplesmente estão cagando pra privacidade. _ Você é amigo do Edinho, né? Já vi vocês conversando muitas vezes, e vocês moram no mesmo andar... _ Sim, ele foi a primeira pessoa que eu conheci no prédio. Eu sei que você o citou pelo fato dele ser uma das pessoas que tenta manter a privacidade e não consegue. A mulher dele não deixa. _ Pois é. A mulher dele é muito louca, mas eu sei que eles pensam o mesmo de mim. _ Por quê? O que eles pensam de você? _ Não sei, mas se eles pensarem apenas que eu sou louca, sem saberem o porque, ou porque simplesmente ouviram alguém dizer isso, então é porque eu realmente mantenho minha privacidade na medida do possível. Eu quero que a maior parte da vizinhança se foda. Se eu tivesse o tempo livre que eles tem pra cuidar da vida dos outros, eu faria coisas legais. _ Eu não sei até quando vou conseguir manter minha privacidade ali. _ Vamos embora pra casa. O enterro é amanhã cedo, e minha tia deve chegar aqui daqui a pouco. Amanhã eu volto. Se você quiser, eu gostaria que viesse junto. _ Eu virei com você, sim.
Voltaram a pé até a Bela Vista. Andaram um tracho da Avenida Doutor Arnaldo, até chegarem à Avenida Paulista, por onde seguiram até o Masp, então desceram pela lateral do museu, até o acesso à Avenida Nove de Julho. Estavam em casa. Subiram primeiro ao apartamento de Max, para pegarem um baseado, e em seguida foram ao apartamento de Harriet.
Ali, os primeiros detalhes a que Max atentou eram os mais antagônicos da sala. Um grande pôster de Jay Reteard na parede à direita da porta de entrada, e à esquerda, uma grande cadeira com assento e encosto de veludo cor de vinho, com pés e braços dourados. Os braços terminavam com imponentes cabeças de leão. Harriet lhe disse que a cadeira era inglesa e havia pertencido a seu avô materno.
O cachorro de Harriet latia e pulava sobre ela e Max. Aquele apartamento certamente era pequeno demais para ele. Enquanto tentava acalmá-lo, Harriet comentou que os vizinhos reclamavam bastante dos latidos dele, especialmente à noite. Max foi até a janela. O apartamento era virado para os fundos, como o de Edinho, e agora ele entendia o porque este havia comentado sobre o quanto Max tinha sorte por morar num apartamento virado para a Nove de Julho. A vista para os fundos era limitada e triste. Via-se os apartamentos de fundo de outro prédio.
O apartamento de frente para o de Harriet estava com os vidros e cortinas fechadas. Em qualquer outra circunstância, Max teria beijado-a, mas julgou não ser apropriado tentar nada naquele momento em que Harriet não havia nem ao menos enterrado a mãe. Havia também o fato de Harriet ser sua vizinha, fato esse que também o faria pensar muito bem antes de tentar uma investida, já que fatalmente se encontrariam muitas outras vezes depois, o que seria constrangedor no caso de uma recusa por parte de Harriet.
No entanto, não pôde deixar de pensar que apesar do momento triste pelo qual a garota passava, ela agora vivia sozinha e apesar da tristeza que permaneceria por algum tempo, não estava desesperadamente desolada naquele momento. Max não sabia se isso era sinal de frieza excessiva, de alguém que encara a morte de quem quer que seja como se fosse apenas um caso técnico hospitalar, ou de serenidade e autocontrole diante de uma situação delicada e triste. Max apenas sabia que esperar que a garota se recuperasse faria com que ela tivesse uma impressão melhor dele.
Ele próprio também poderia ter uma leitura melhor de toda a situação para que adotasse a estratégia mais adequada. E agora eram mais próximos do que nunca. Acendeu o baseado, deu dois pegas e o passou a Harriet, enquanto tentava imaginar como seria o cotidiano a tendo como namorada. Era preciso deixá-la sossegada por algum tempo até que ela se adaptasse à nova realidade. Harriet pegou o baseado, foi à cozinha e trouxe duas heinekens, e deu uma para Max.
Ficaram ouvindo Mogway pelo computador de Harriet, e quando Max achou que era apropriado, anunciou que iria para sua casa, alegando que tinha que trabalhar um pouco. Pediu a ela que o avisasse quando estivesse saindo no dia seguinte, para irem juntos ao enterro. Harriet disse que o enterro seria à dez da manhã, e sugeriu que se encontrassem à nove no térreo, e assim ficou combinado. Despediram-se com um abraço afetuoso e sincero. Quando Max entrou em seu apartamento, pensou que era o momento de dar início a seu livro. A fórmula seria simples:
Tomaria como personagens as pessoas que conhecera nos últimos meses, apenas trocaria seus nomes, criaria personagens misturando características de duas ou mais dessas pessoas, inventaria algumas das situações e também criaria um novo cenário, apenas mudando o bairro onde se passava a trama. Faria esse trabalho com calma, alternando-o com suas monografias e revisões de texto. Tinha quase certeza de que quase ninguém leria esse texto, e tiraria vantagem disso explorando ao máximo fatos verídicos e autobiográficos. Se por acaso alguém próximo se identificasse com alguma das personagens e o questionasse, então ele saberia que seu livro foi lido, e apenas teria que desmentir o fato de que se baseou em pessoas reais e próximas a ele.
O maior fator motivacional para essa criação seria contar com a impopularidade e obscuridade do trabalho, e assim o realizaria apenas como um exercício prazeroso e criativo. Já tinha seiscentas palavras, quase exclusivamente sobre Edinho e Cecília, até então sem nem ao menos mudar seus nomes originais no texto. Já estava pensando em parar e continuar no dia seguinte, quando o interfone tocou e o porteiro anunciou a chegada de Plínio. Então Max se deu conta de que ali estava mais um rico personagem, com suas contradições entre o falar e o agir.
Uma grande vantagem de escrever escancaradamente sobre Plínio era que ele não gostava de literatura. Dizia que gostava de ler, mas Max sabia que ele nunca lia nada. Se o livro fosse realmente lançado e Plínio ficasse puto, ou pelo menos desconfiasse que servira como inspiração para a personagem, não seria problema, pois se até ele o lesse, então Max ficaria rico por ter escrito um best-seller. O mesmo valia para Edinho e Cecília.
Antes de desligar o computador, Max deixou um lembrete após a última palavra escrita até o momento, para que se lembrasse de começar o trabalho no dia seguinte com o personagem de Plínio. Então a campainha tocou, e assim que Max abriu a porta, Plínio disse que estava com vontade de fumar um baseado andando de carro, ao invés de ficar dentro do apartamento. Max calçou meia e tênis e então saíram.
Plínio tinha um Corsa azul. Atravessaram o túnel da Nove de Julho, andaram por ela em sua parte mais nobre, na região do Itaim, fizeram um longo trajeto de volta pela Vinte e três de Maio até o centro, passaram por um trecho da Avenida do Estado, e ao longo do caminho a maconha fazia com que Plínio abordasse e discorresse quase infantilmente sobre seus temas preferidos nas conversas com Max, aqueles que não eram aplicados em sua vida prática e cotidiana, como liberdade, amor entre as pessoas, respeito e compreensão mútuos entre cônjuges, até que a mulher ligou e exigiu sua presença em casa imediatamente. Então seu discurso cessou, como se o telefonema tivesse cortado a brisa do baseado.
Então voltou à Bela Vista, deixou Max em casa e partiu. No trajeto da calçada até a porta de seu apartamento, Max pensava no quanto era curioso o modo como Plínio parecia pensar que seu casamento e sua paternidade o colocavam num nível diferenciado na condição de adulto, caso sua situação fosse comparada à de Max, solteiro e sem filhos. Naquela noite, enquanto passeavam de carro, Plínio mencionou, entre os temas corriqueiros mencionados anteriormente, o fato de que gostaria de tirar sua filha da escola, para que tivesse um outro tipo de educação, não convencional.
Max, que nunca se aprofundava em questões relativas à família de Plínio, já que nem ao menos a conhecia, dessa vez o questionou sobre o porque dele não fazer isso, já que julgava correto. Plínio disse que seus sogros jamais permitiriam. Aquele sujeito havia casado e se reproduzido, e não tinha se libertado da sisudez e das amarras da geração anterior. Incorporou à sua família pessoas ainda mais obtusas que seus pais. Era de se supor que para terem idade suficiente para serem sogros de Plínio, essas pessoas eram ou estavam próximas de serem septuagenários.
Pelas muitas décadas de vida, teoricamente tiveram tempo de entender o quanto a educação formal no Brasil é patética, mas para eles era tarde demais para que se implantasse uma nova mentalidade, ainda que isso fosse para o bem de sua neta. Eles não queriam ‘arriscar’, e Plínio também não arriscaria, porque não queria entrar em atrito com seus sogros e porque tinha medo. Mais uma vez valeria o oficial e protocolar. E assim o jogo de empurra se perpetuava de geração para geração. O que Max faria em seu lugar? Ele não precisava responder isso. Ele não era pai, e gostava dessa condição.
Possivelmente ninguém mais ouvia os devaneios de Plínio, a não ser Max. Não havia diferenças geracionais entre Plínio e seus pais e sogros, uma vez que esses também tinham iPods. A mentalidade era a mesma, com a diferença de que seus pais e seus sogros tinham convicções que defendiam com veemência. Já Plínio, com a mesma desenvoltura com que elaborava planos que salvariam a humanidade, justificava a impossibilidade de torná-los práticos, colocando a culpa em terceiros. Sempre havia alguém para dar a última palavra. Os culhões usados por ele para engravidar sua mulher não serviam para nada além disso, nem mesmo para contrariar os sogros, algo que Max pensava que instintivamente Plínio deveria ter prazer em fazer.
Max não teria tempo nem imaginação suficiente para chegar até essas questões que não lhe diziam respeito, mas era sempre apresentado a elas. Isso servia para que ele gostasse mais de sua vida e valorizasse mais as suas escolhas. Ao entrar em casa, Max tomou uns goles de conhaque, comeu um sanduíche de queijo e pouco depois se deitou para que estivesse em boas condições de encontrar Harriet na manhã seguinte.
Acordou cedo para o encontro, às sete e meia, comeu duas maçãs, uma grande caneca de café e ficou fumando cigarros até às nove ele desceu para o térreo. Harriet ainda não estava lá, mas apareceu poucos minutos depois. Repetiram o trajeto do dia anterior até o cemitério, começando pela desoladora subida até a Paulista, e entraram no metrô. Além da avó de Harriet, apenas uma tia dela estava presente. Era uma senhora distinta, mas com um aspecto duro, formal e severo.
Max imaginou que um jazigo no cemitério do Araçá devia custar uma nota. Segundos depois desse pensamento se dissipar, Harriet comentou discretamente que tinha sorte pelo fato de sua tia estar arcando com as despesas e com a parte burocrática. Após o enterro, Harriet e Max acompanharam as duas senhoras até o ponto de taxi. Despediram-se e antes do carro disparar, a avó de Harriet, com a janela aberta, ainda teve tempo de perguntar novamente a Max se ele era filho do Gary Brooker.
Max e Harriet voltaram novamente a pé até a Bela Vista. Antes, passaram no mercado que havia na Rua da Consolação, pouco antes da Avenida Paulista, e compraram algumas cervejas. No enterro não havia nenhum morador do prédio, embora a síndica tivesse colocado um comunicado nos elevadores. Ao chegarem, foram direto ao apartamento de Harriet. Entraram e colocaram as cervejas na geladeira. Harriet se sentou na cadeira inglesa e Max acendeu um cigarro junto à janela.
_ Eu me sinto estranha com relação à morte da minha mãe. É claro que estou triste, mas esse mundo é tão tosco que provavelmente a libertação dela dessa porra toda é mais significativa do que a minha saudade. Todo dia alguém enchia o saco dela por causa dos latidos do Lafaiete. Quando não era isso, arrumavam outro motivo pra encher o saco. Principalmente a Dona Adélia. Sozinha eu saberei lidar com isso melhor. – disse Harriet. _ Quem é a Dona Adélia? É curioso, porque eu achei que vocês nunca eram incomodados pelos vizinhos. – disse Max. _ A Dona Adélia é a síndica. Ela é proprietária de cinco apartamentos aqui no prédio. Ela é inacreditavelmente autoritária e mercenária. Ela mora no 32 e aluga os outros. Vive de renda. É viúva e mora sozinha. Tem câncer na garganta, mas não se trata. Usa todo o tempo dela pra cuidar do dinheiro e da vida dos vizinhos. _ Ah, a síndica... O porteiro da tarde me apresentou a ela quando eu estava mudando. Naquele dia eu não tive nenhum tipo de impressão sobre ela. Nem positiva nem negativa, mas se ela implica com cães e é tão mercenária, não deve ser uma boa pessoa. Ainda bem que eu não tive mais contato. Como eu sou proprietário e não tenho cachorro em casa, espero que nunca haja motivo pra uma aproximação. Eu sei que é possível que ela arrume um motivo, à minha revelia, pra azedar comigo, mas vou procurar me manter afastado. _ Vai ser bom pra você. Eu estava fazendo umas contas e constatei que conseguirei me virar pra pagar as contas sozinha. Fora o aluguel e o condomínio, eu não tenho muitas despesas. E vou poder arrumar esse apartamento do jeito que eu quero. Tenho que fazer a correria do inventário da minha mãe, é capaz que haja uma grana pra eu receber. A gente tinha uma faxineira que vinha uma vez por semana, mas me enchia o saco mais do que ajudava. Era boazinha, mas o que ela fazia eu posso fazer, e gosto de privacidade. Além do mais ela contava umas histórias horríveis sobre passar noites em claro em hospitais públicos pra acompanhar o marido, ou filhos, ou netos... Não sei como algumas pessoas agüentam tanto sofrimento. ...
Harriet, vegetariana, ficou com fome e disse que ia à cozinha fazer algo para que comessem. A iniciativa veio bem a calhar, já que Max também estava com fome, mas quase não tinha se dado conta disso, pois milhares de pensamentos aleatórios passavam por sua cabeça naquele momento. O mais nítido e persistente deles era relativo ao fato de que nunca antes sua vida social fora tão intensa, pelo menos quando levava em conta o fato de que não mais fazia qualquer esforço para que tivesse o que se pode chamar de vida social. Nos primeiros e ingênuos anos de sua vida ele acreditava que cultivar sociabilidade era quase uma obrigação, e mais do que isso, era algo que o faria mais importante, tanto para ele próprio como para os outros. A desistência desse cultivo foi o meio pelo qual conseguiu tardiamente aquilo que buscava anteriormente e que agora tentava até certo ponto evitar, em função da falta de uma base comum para discussões ou debates com a maioria das pessoas que conhecia. Evidentemente a ‘vida social’ citada no parágrafo anterior se resumia a momentos de sociabilidade restrita às mesmas poucas pessoas, mas elas estavam conseguindo ocupar seu tempo. Nunca teve o que pode se chamar de vida familiar, pelo menos de uma maneira feliz e tranquila, como podia presenciar em outros lares, onde seus amigos de infância e adolescência viviam com os pais de uma maneira aparentemente leve e simples.
Max podia perceber claramente que a excelência da vida em família só podia se concretizar se essa derivasse essencialmente da simplicidade. Isso ele nunca havia tido até a vida adulta. De qualquer forma, sentia que sua experiência de uma vida familiar vazia acabou por lhe fazer bem quando conseguiu certa autonomia. Pôde então sentir o quão precioso é acertar e errar por conta própria. Quando saiu definitivamente de casa, deixou a família para trás.
Não havia um só parente que conhecesse seu novo endereço. Não tinha contato com tios, tias, primos e primas, desde a adolescência, pois seus pais eram tão obtusos que não conseguiram manter qualquer relação com os parentes próximos, e ele próprio também não se empenhava nisso. Max havia sido o último a deixá-los para trás, extraordinariamente tarde para os padrões burgueses, e acima de tudo se levasse em conta o quanto a influência de seus pais havia sido ruim para ele até os dezoito anos.
Quando ele saiu, tinha trinta e quatro, mas havia passado os últimos anos sem que seus pais o perturbassem. Era como se Max fosse um hóspede num pensionato. Já não falava com os pais sobre suas atividades para que não fosse questionado ou criticado, não ocupava tanto espaço no apartamento e não dava despesas. Ao acordar de seus devaneios,
Max ofereceu-se para ajudar Harriet na cozinha, mas ela disse que não havia necessidade. Enquanto Max tomava as cervejas que ainda restavam, Harriet, com uma notável rapidez e habilidade, mas também com um comovente esmero, preparou várias empanadas e poucos minutos depois que as colocou no forno pré-aquecido, o cheiro delicioso se espalhou pelo pequeno apartamento.
Quando as empanadas ficaram prontas, Harriet disse que sua mãe gostava muito daquelas empanadas. Eram realmente sensacionais, e ela comeu apenas uma, esclarecendo a Max que nunca passava dessa cota. Haviam outras sete, e Max comeu todas, elogiando-as com a máxima sinceridade, o que agradou a Harriet.
Naquele momento, ouviram a presença de uma mulher com um casal de crianças que riam alto e corriam pelo corredor, enquanto esperavam pelo elevador. Então Max lembrou-se da história do aborto e do feto no vidro de maionese, que Edinho havia contado a ele. Então tentou fazer com que ela expressasse sua opinião sobre filhos, aproveitando a situação para abordar o tema.
_ A síndica deve reclamar do barulho dessas crianças, né? A mãe delas deve ouvir um monte... – disse Max. _ Sim, mas essa mulher que está no corredor não é inquilina da Dona Adélia. Há uma inquilina dela que tem filhos e ouve uma série de reclamações diariamente. – disse Harriet. _ Eu jamais reclamaria disso, mas esses apartamentos pequenos não são apropriados pra criar crianças. É normal que elas fiquem fora de controle. Eu sei que isso é uma questão pessoal, mas eu não gostaria de ter filhos mesmo se morasse numa casa grande. _ Eu também não. Não teria saco pra cuidar de crianças. Também não teria tempo, e provavelmente não teria dinheiro. Ainda não fiz coisas na minha vida que eu sonho em fazer, e com uma ou mais crianças, eu sei que não faria nunca. Seria injusto comigo e com as crianças. _ É legal que você tenha sua própria opinião sobre isso. Muitas mulheres pensam que a própria condição de mulher fica comprometida caso não tenham filhos até um certo ponto da vida, o que eu pessoalmente acho ridículo, mas é a imposição do senso comum, e especialmente nesse caso, a mulherada abraça essa idéia sem questionar. _ O que abala a condição de mulher é justamente a submissão ao senso comum, que é machista e reacionário. _ Concordo totalmente.
Harriet havia conduzido a conversa de uma maneira que agradou a Max. Esse tipo de mentalidade era tão coerente que qualquer excentricidade para expressá-lo de modo concreto é facilmente perdoada. Ela não queria a criança que abortou, e como o pai da criança provavelmente também não a queria, ela encerrou o assunto de maneira quase artística, chocando-o.
Aquela garota era tão meiga e doce. Fazia ótimas empanadas e assim como Max odiava Milton Nascimento e Elis Regina. Parecia emocionalmente independente e sem carências típicas de garotas de classe média. Era entendida de assuntos místicos e parecia colocá-los na prática em sua vida cotidiana. Era pragmática e racional, e ao mesmo tempo era misteriosa. Às vezes seus olhos azuis pareciam querer exprimir algo para o qual a nossa língua não tinha palavras.
O mais surpreendente, no entanto, era o fato dela não passar horas interagindo com um telefone celular. Era como se ela tivesse matado uma premissa. Assim como Max, ela resolvia em minutos sua necessidade diária de uso da internet. Max tentava imaginar sob quais circunstâncias ela manifestaria a suposta loucura a qual Edinho havia se referido anteriormente. Era necessário deixar o caso do aborto à parte.
Para Max aquilo estava devidamente explicado, ainda que nas entrelinhas. Aquele ato revelava o quanto a existência da maioria das outras pessoas e seus modos eram irrelevantes para ela. Para Max parecia que num só ato, ela conseguira livrar-se pelo menos parcialmente da proximidade inconveniente dos vizinhos. Max buscava a mesma coisa, com menos sucesso. Ainda sobre o feto, Max via até mesmo humor por parte dela ao entregar o vidro ao pai da criança. Um tipo de humor não convencional.
Harriet provavelmente não sabia que Edinho havia contado a Max sobre o feto no vidro de maionese. E para Max, esse episódio específico apenas confirmava o que ela agora havia dito sobre não querer ter filhos. Max pensava que seria muito mais chato e desgastante para os envolvidos se ela tivesse levado a gravidez adiante e pressionasse o sujeito para que assumisse responsabilidades, ainda que essas fossem apenas financeiras. O ato de Harriet fora consumado de maneira completamente diferente à do senso comum, e portanto julgado pela vizinhança sob critérios morais compatíveis a esse mesmo senso comum. Por isso, baseado em seus próprios princípios morais, Max tinha a obrigação de apoiá-la caso isso lhe fosse solicitado.
O que passou a intrigar Max a partir daquele momento foi apenas o fato dele não saber mais sobre ela. Ele adoraria saber se havia alguma coisa sobre ela que o chocasse. Achava que seria pouco provável. Seria bom se descobrisse através dela própria, o que provavelmente aconteceria aos poucos. Já havia chegado o tempo em que as pessoas no prédio eram totalmente monitoradas, com câmeras nos elevadores e em outras áreas comuns do edifício, e os porteiros eram catalisadores de informações sobre os horários em que cada morador entrava e saia.
Sabiam com quem eles entravam e saiam, e em que estado de sobriedade ou embriaguez. Para quem prezava pela privacidade e repudiava fofocas, casos de Max e Harriet, toda a discrição possível era insuficiente. Provavelmente naquele momento, Edinho, por exemplo, já soubesse que Max e Harriet haviam se tornado amigos. Edinho tinha muita proximidade com todos os porteiros que viam os dois entrando e saindo juntos, e seguramente, especulações não faltariam.
Max gostava dele, mas mesmo assim sabia que Edinho estava longe de viver alheio às informações sobre os vizinhos, algo do qual ele provavelmente era a maior vítima entre todos os moradores do prédio. Há também de se levar em conta que aquilo que Max soube sobre Harriet através de Edinho, ele mesmo perguntou, sem que Edinho tomasse a iniciativa de falar sobre uma terceira pessoa apenas por fofoca. Em nenhum momento, aliás, Edinho falou a Max sobre quem quer que fosse em tom de fofoca, e sem que fosse perguntado a respeito.
Capítulo 5- Christmas Sessions
São Paulo, Dezembro de 2004.
Já haviam colocado lâmpadas coloridas sobre os arbustos na entrada do prédio. No hall, um pequeno pinheiro enfeitado. As portas dos apartamentos também ostentavam referências natalinas. Max, em sua infância nada saudosa gostava do fim do ano. Até a quarta série, ele tinha férias de verão. Da quinta série em diante, a professora Regina Maura entrou em cena e os finais de ano se converteram em pesadelos trevosos. Olhando por esse lado, até que ela prestou um serviço, ainda que involuntariamente. Com a chegada da vida adulta, Max se tornou indiferente ao período de festas.
Na noite do dia dezenove de dezembro, Edinho tocou a campainha de Max, que atendeu e o viu com suas vestimentas habituais. Camiseta com a gola repuxada, bermuda e chinelo. As primeiras palavras que Edinho disse foram: “O Papai Noel chegou com antecedência”. Então tirou do bolso da camisa um papelote de cocaína que parecia ter pelo menos quinze gramas de conteúdo. Max apenas gesticulou com a cabeça para que ele entrasse e em seguida fechou a porta.
_ Tenho medo que a Cecília morra de um ataque cardíaco fulminante. Ela é velha demais pra ficar cheirando pó desse jeito, bebendo que nem louca e tomando tarja preta. O Lilico veio hoje me cobrar seiscentos reais de dívidas de cocaína que eu nem sabia que tinha. Os últimos duzentos reais dessa dívida eram desse bilú que a gente vai cheirar hoje. A Cecília mentiu pra ele, dizendo que eu sabia e que era eu quem havia pedido pra ele, e que eu pagaria hoje. Ele foi até o meu apartamento cobrar e me entregar isso. Tive que fazer um cheque. Agora não sei se terei dinheiro pra pagar o condomínio. Mas eu avisei a ele que ela pediu sem me avisar, e ia cheirar sozinha. Esse é um bilú de duzentos reais. Os outros dois eu não vi, acho que ela cheirou fora de casa. Paguei, mas disse a ele que não era mais pra trazer nada pra ela. Ela vai ficar numa nóia terrível quando souber. Mas nós estamos quase vendendo o almoço pra comprar a janta. Estamos próximos dos miseráveis de Victor Hugo. Estamos na rota da desgraça. – disse Edinho, profundamente amargurado, como sempre.
Max não falou por alguns instantes. Apenas foi ao armário da cozinha e pegou a garrafa de Domecq e dois copos. Pensou que Edinho no fundo gostava daquela situação, talvez porque assim pudesse fugir da culpa e justificar-se pelo vício desenfreado. Seus queixumes vinham sempre no plural. A forma com que Edinho via seu entorno desmoronar sem fazer nada o impressionava. Mas Edinho talvez estivesse esgotado de sua existência.
_ Que bom que você tem um Domecq! Meu irmão mais velho sempre disse que a verdadeira civilização começou realmente com a primeira destilaria! – disse Edinho.
Por alguns segundos, Max traçou mentalmente um paralelo entre as vidas de Edinho e Plínio, que por mais diferentes que fossem de um modo geral, convergiam quando se tratava da forma como suas mulheres o tratavam, e mais ainda pela forma passiva com que as obedeciam. Por um lado, Edinho sempre acusava sua mulher pelas suas desgraças pessoais, enquanto Plínio sempre assumia uma expressão servil ao atender os telefonemas de sua mulher, quando essa exige sua presença imediata em casa.
Aquela noite foi agradável no que diz respeito à diversão mundana da droga e da bebida, das músicas legais e dos lamentos de Edinho, que sob efeito de cocaína e conhaque dava a seu sofrimento contornos épicos. Então ele finalmente foi embora e Max tinha pela frente uma noite a ser mal dormida novamente.
Quando Max ficava sozinho em casa e se lembrava de Edinho ou Plínio, pelas razões erradas ele achava engraçado que esses caras fossem tão dominados por suas esposas. Ambos falavam com exuberante determinação sobre como o mundo poderia ser melhor, mas não tinham controle sobre suas vidas. Max gostava de ouvi-los, porque apesar de serem pessoas aparentemente banais, revelavam com o tempo grandes abismos de singularidade e sofrimento.
Viviam em pandemônios particulares que chegavam a fazer com que Max, em seu relativo sossego, vivesse num mundo surreal. Max há muito tempo já não tinha propostas para um mundo melhor, nem tampouco respostas para o mundo do jeito que era. Havia deixado de lado pensamentos existenciais para se concentrar no seu projeto mambembe de vida. Era um solitário, sem dúvida.
O lado triste desse fato desintegrou-se com o tempo. Dentro de suas limitações e possibilidades, fazia o que podia para não entrar em parafuso em função do que acontecia do lado de fora de seu apartamento, cheio de atritos causados por gente amarga que um dia teve medo de ser só. Agora essas pessoas perderam a autonomia para viverem suas próprias vidas, porque no passado prometeram algo a outras pessoas e agora são reféns das conseqüências de suas escolhas.
Agora havia Harriet por perto, que lhe inspirava um interesse cauteloso. Inspirava-lhe curiosidade também, pela sua excentricidade e pela aparente segurança que demonstrava por ser ela mesma e lidar com naturalidade com sua realidade. Com a morte da mãe ela também se tornara uma pessoa só, e parecia conseguir manter sua vida sob controle.
A peculiaridade do sentimento de Max por Harriet residia no fato dele ainda não ter realmente se preocupado com o que ela pensava dele. Isso acontecia porque ele pensava que cedo ou tarde ela manifestaria suas opiniões sobre ele, com boas chances de serem favoráveis. Por parte de Max não havia exatamente o que se convencionava chamar de paixão. Era um sentimento mais sóbrio e menos inquietante. Era uma fantasia, que permaneceria intacta caso ele não a vivesse. Max sabia que seria bastante decepcionante envolver-se com aquela garota se logo sentisse vontade de voltar para o que sua vida era antes.
Ele tinha subsídios suficientes para imaginar o que seria perder o pouco que tinha de liberdade. Também os tinha para querer evitar magoar uma pessoa, seja ela quem fosse. Investir sem cuidado naquela relação poderia ser como andar sobre um terreno movediço. Ao acordar no dia seguinte à visita de Edinho, Max tomou de uma só vez quase um litro d’água e foi à janela fumar um cigarro. Eram nove e vinte da manhã. Havia um grande tumulto na frente do prédio que congestionava brutalmente a Nove de Julho, principalmente no sentido centro-bairro.
Envolvia um ônibus, e havia três viaturas da Polícia Militar e dois carros da C.E. T. ali, além de muitos populares curiosos. No sentido contrário da avenida, motoristas curiosos reduziam a velocidade para ver o acidente. A coisa estava feia, mas foi impossível identificar do oitavo andar o que tinha acontecido exatamente. Pelas proporções do alvoroço causado, ele logo saberia pelo primeiro vizinho que encontrasse quando saísse de casa para comprar cigarros. O apartamento era pequeno demais para que Max não fosse repetidas vezes à janela, pela curiosidade em relação ao acidente e também porque o calor era excessivo naquela manhã. Até que num determinado momento em que o ônibus já não estava mais lá, apenas uma das viaturas e um dos carros da C.E.T. .
Naquele momento o tráfego já fluía normalmente. Quando Max já tinha quase esquecido do acidente em frente ao prédio, Harriet tocou sua campainha. Foi quase uma surpresa, e foi agradável. Ela entrou e sem rodeios disse que Cecília havia morrido atropelada por um ônibus na frente do prédio. Max ficou em choque, então Harriet disse que Cecília estava bêbada e que segundo testemunhas o motorista do ônibus não pôde evitar o acidente. “Eu estava voltando da padaria quando o ônibus estava lá, os carros da polícia... O corpo dela estava coberto. Ainda bem, senão eu iria desmaiar.” – disse Harriet. _ E o Edinho? – perguntou Max, chamando-a para a janela. _ Quando eu cheguei, ele estava falando com um policial. – disse Harriet olhando curiosa através da janela. _ Como ele estava? _ Com a cara de sempre. Ele sofre de depressão, está sempre com cara de sofrimento... Harriet foi até a estante de discos.
Max ouvia um disco de Peter e Gordon, e Harriet pegou a capa com curiosidade. _ Nessa época o Paul McCarney pegava a irmã de um deles, mas eu não lembro se era a irmã do Peter ou do Gordon. – disse Max. _ Minha mãe gostava de Peter e Gordon. – disse Harriet. _ Pois é, eles são muito ingleses. Você é filha de inglesa e também parece ser inglesa. Harriet mexeu em alguns discos e fazia cara de surpresa quando se deparava com alguns deles. _ Quando eu te vi pela primeira vez eu achava que você gostasse só de rock progressivo, e metal, e hard rock e Frank Zappa. Não sabia que você gostava de rock alternativo. – disse Harriet enquanto olhava um Lp do Guided By Voices. _ Quando eu te vi pela primeira vez eu sabia que você gostava só de rock alternativo. – disse Max. _ Eu não gosto SÓ de rock alternativo. _ Você é indie. _ Você também é indie. Você gosta de Guided by Voices e Buffalo Tom! _ Mas você tem visual indie! _ Sua amiga acabou de morrer atropelada por um ônibus e você fica me dizendo que eu sou indie? _ Eu não a conhecia direito. Eu sou amigo do Edinho e estou preocupado com ele. Eu estou chocado com a forma que essa mulher morreu. Sei que ela não primava pela virtude, mas nunca me fez mal. Pela manhã eu vi pela janela o caos armado na frente do prédio e não sabia do que se tratava. _ Você tem um baseado? _ Sim, vou preparar um pra você. _ Você comeu algo hoje? _ Não, mas eu deveria. Ontem à noite eu bebi com o Edinho. Ele estava com problemas com a Cecília. O que rolou hoje era uma tragédia anunciada há muito tempo. Apenas foi mais brutal do que eu imaginava. _ Faça esse baseado e vamos pra minha casa. Eu duvido que você tenha comida aqui. - Você é muito mais magra que eu! Outro dia fez aquelas empanadas incríveis e comeu uma só, enquanto eu comi meia dúzia! _ Vamos até minha casa que eu farei outras.
Max e Harriet passaram a tarde toda conversando e ouvindo música. Quando anoiteceu, foram ao mercado comprar cerveja e quando voltaram foram para o apartamento de Max. Por volta das oito da noite Edinho tocou a campainha. Trazia uma garrafa de Domecq e um pacote de papel cheio de salgados. A gordura nas paredes do pacote dava uma forte impressão de que ele se romperia rapidamente.
_ Trouxe algo pra gente comer, porque eu vou tentar não cheirar mais. Você soube da morte da Cecília? – perguntou Edinho, menos abatido do que de costume. _ Soube, meu caro. Eu estou chocado pelo fato em si e pela forma como aconteceu, e não sei o que dizer. – disse Max, enquanto Edinho entrava e timidamente cumprimentava Harriet, que retribuiu o cumprimento com a mesma economia.
_ Nós sabíamos que logo alguma coisa aconteceria com ela. Eu achava que ela morreria de overdose, mas foi ainda pior. – disse Edinho, enquanto Max foi à cozinha e voltou com uma travessa de inox para acomodar os salgados trazidos por Edinho. _ Ela vai ser cremada amanhã no crematório da Vila Alpina, às quatro da tarde, e eu gostaria que vocês fossem. O velório está rolando, eu estava lá, então uns parentes dela chegaram e eu vim embora pra descansar. – disse Edinho. _ Eu estarei lá com certeza. Me avise quando estiver saindo, e eu vou junto. – disse Max.
Era a primeira vez em que Max conversava com Edinho e Harriet ao mesmo tempo. Na verdade, Max nunca havia estado com um dos dois na presença de uma terceira pessoa. Foi fácil constatar que Edinho e Harriet coexistiam no mesmo prédio sem que houvesse qualquer tipo de proximidade. Quando Edinho chegou, foi como se uma barreira de gelo tivesse se erguido entre ele e Harriet.
Por um momento, ocorreu a Max o quanto era estranho ser o catalisador dessa reunião tão pouco provável. Impensável até, antes que ele fosse morar lá. Ele pensava sobre os mistérios quase insondáveis que faziam com que uma pessoa com poucas ou quase nenhuma pretensão de sociabilidade e morando a tão pouco tempo naquele lugar tivesse podido começar a transitar entre esses microcosmos tão distintos entre si até levá-los à mesma sala. Edinho levou também um grande baseado, que foi compartilhado pelos três.
Em seguida, Max e Edinho abriram a garrafa de conhaque e à medida que a enxugavam, iam devorando os salgados. Harriet tomava uma cerveja e vez ou outra olhava com certa surpresa para o conteúdo rapidamente decrescente da garrafa de Domecq, quanto tomava uma cerveja, a única que tomou naquela tarde. Pouco se falou entre os três, e havia um clima de calmaria sombria. Max era o epicentro das vagas conversações. Harriet comia poucos salgados, talvez para não fazer desfeita, certificando-se antes de que não havia carne no recheio. Embora não houvesse qualquer intimidade entre ela e Edinho, também não havia hostilidade. Timidamente eles trocavam algumas idéias sobre a vida cotidiana e sobre outros vizinhos aos quais Max não conseguia identificar pelos nomes.
Acabaram com o conhaque e Edinho anunciou que iria para seu apartamento, alegando que o dia seguinte seria longo para ele. E havia uma tranqüilidade em sua voz ao dizer que ia para seu apartamento como Max nunca antes vira. Edinho estava livre de Cecília. Diante das circunstâncias da morte da mulher, há de se pensar que se aquela relação fosse feliz e saudável, aquele sujeito estaria em estado de choque e permaneceria traumatizado até o fim da vida. No entanto, fazia muito tempo que Edinho não se sentia tão leve ao voltar para casa. Levantou-se, se despediu e partiu.
Nos minutos que sucederam a saída de Edinho, Max e Harriet não falaram uma palavra. Max andou pelo apartamento, levou os copos vazios para a pia da cozinha e a garrafa para perto da lixeira. Até que Harriet quebrou o silêncio: _ Nem parece que vocês beberam uma garrafa de conhaque! Vocês são muito alcoólatras! Se eu tivesse tomado dois copos disso estaria inválida! _ O que é uma garrafa de conhaque num dia como esse? Nossa vizinha morreu atropelada por um ônibus na frente do nosso prédio e o marido dela estava aqui em casa conosco! – disse Max. _ O que uma coisa tem a ver com a outra? Eu duvido que você e o Edinho não bebam direto, e muito mais que isso! _ Quando ele trazia um saco de cocaína era pior. Vamos ver se agora ele realmente para com isso. _ Vou pra minha casa dormir. Você vai mesmo à cremação da Cecília? _ Vou sim. Embora o Edinho pareça estar aliviado com a morte dela, o episódio foi brutal. Amanhã provavelmente ele vai querer ter alguém com quem conversar, e não me custa acompanhá-lo. Vai dar tempo de dormir bastante antes disso. _ Certo. Estou indo, então. Boa noite! _ Tchau, boa noite!
Max acordou por volta das dez da manhã do dia seguinte, e até que Edinho tocasse sua campainha para que fossem ao crematório, à uma e meia da tarde, conseguiu concluir sua meta de trabalho para aquele dia. Fumaram um baseado no apartamento de Max, que a pedido de Edinho selecionou alguns cd`s para ouvirem no caminho, e então saíram. Edinho tinha um Pálio azul que provavelmente não era lavado há meses. Dentro dele, uma sacolinha de lixo atrelada à alavanca do câmbio quase transbordava de bitucas de cigarros e papéis amassados.
Garoava e o trânsito ficou lento quando chegaram à Avenida Salim Farah Maluf, que demoraram cinqüenta minutos para percorrer. Era dia vinte e um de Dezembro, uma terça-feira. Muita gente já tinha deixado a cidade, de férias, mas em alguns pontos da cidade o trânsito continuava caótico. Ainda que o Natal em si não significasse nada para Max ou para Edinho, a euforia do povo, combinada com os anúncios natalinos por toda parte faziam daquela tarde chuvosa um momento estranhamente melancólico.
Não havia propriamente um clima ruim. Edinho não carregava aquele desespero a que Max estava acostumado ao vê-lo. Pelo contrário. Parecia mais leve, descontraído e aliviado. Em última instância, sua mulher morreu antes que ambos se destruíssem mutuamente. Sua casa não era mais uma trincheira. Quanto a Max, não havia muito mais o que fazer naquele dia, além de sentir que devia ao amigo sua presença naquele momento.
Fumou-se muita maconha e muitos cigarros naquele trajeto, enquanto ouviam uma coletânea dupla de Hank Willians. Quando chegaram ao crematório, Max acompanhou Edinho até sua roda de parentes e lá o deixou, indo em seguida andar pelo local, que era grande, bonito e cheio de árvores. Várias famílias ocupavam o salão esperando a vez para a cerimônia de cremação de seus parentes mortos.
Max foi para a área externa e parou debaixo de uma árvore, sob a qual a garoa não chegava, e ali fumou um cigarro, imaginando que quando morresse deveria ser cremado e não enterrado. Voltou para dentro do salão, onde avistou Edinho conversando com uma velha senhora, e saiu do outro lado, novamente para a área externa, onde debaixo de outra árvore fumou a ponta de um baseado. Depois de alguns minutos achou conveniente procurar novamente por Edinho, e quando o encontrou foi avisado que faltava pouco para a vez de Cecília. Foi ao banheiro e depois achou melhor não sair de novo até que tudo estivesse terminado. Eram quatro e vinte da tarde. Às quatro e trinta e cindo a família de Cecília foi chamada.
A música escolhida para a cerimônia foi uma triste versão instrumental de Asa Branca. Foi só ali dentro daquela sala que Max pôde constatar que Edinho não era próximo aos parentes de Cecília. Max tinha sido o último a entrar e sentou-se no último dos bancos que circundavam o foco para o qual o caixão descia para virar cinzas. Edinho levantou-se de um outro banco no qual se encontrava razoavelmente isolado e foi se sentar perto de Max.
_ Por que diabos de razão escolheram Asa Branca para a cerimônia? – perguntou Edinho. Então o caixão desceu, e quando a música terminou, e todos começaram a se levantar, Edinho gesticulou para Max para que saíssem rápido da sala. Quando já estavam no corredor, Edinho disse: _ Agora isso finalmente terminou, cara! É a apenas a segunda vez em que eu posso dizer sossegado que estou voltando pra casa! Eu estou livre!
Foram para o carro, e entre os cd`s que Max havia levado, Edinho escolheu ‘Free At Last’, do Free. O nome da banda e do disco vinham bem a calhar, mas não haviam sido escolhidos premeditadamente por Max. Então voltaram para a Bela Vista fumando seus baseados e seus cigarros. No caminho de volta Edinho parecia se esforçar para não dizer novamente o quanto estava se sentindo livre. Ele chegou a sorrir sozinho algumas vezes. Max não se lembrava de uma única ocasião em que tenha visto Edinho sequer esboçar um sorriso.
Chegaram ao prédio, guardaram o carro, subiram sem falar uma só palavra no elevador, e quando chegaram ao oitavo andar, Edinho disse que tinha que separar roupas e objetos de Cecília para a doação, então despediram-se e cada um foi para o seu apartamento. Voltaram a se encontrar na noite do dia 24, quando Edinho tocou a campainha de Max, carregado de comida que havia trazido da casa de sua mãe.
Naquele dia, Max tinha comido um sanduíche de queijo e uma maçã. Estava faminto e melancólico por causa do cheiro de comida natalina da vizinhança, que ao longo do dia invadiu seu apartamento. Edinho já tinha jantado, então cada um bebeu uma garrafa de vinho levadas por ele, que logo após saiu, dizendo que precisava dormir. Havia comida de sobra para aquela noite e para o dia seguinte.
Encontraram-se novamente no dia 26, quando Edinho anunciou que no dia seguinte iria para Caraguatatuba para passar a virada do ano. Na tarde do dia 31, Max desceu até o quinto andar para procurar Harriet, a quem não via desde o dia da morte de Cecília. Depois de tocar insistentemente a campainha, uma vizinha que saiu do elevador disse a ele que Harriet tinha se mudado dois dias antes para Newcastle, na Inglaterra. Ela não havia dito nada a Max, mas naquele prédio havia bons informantes.
Capítulo 6- Like teen esfíncter
De volta a Maio de 2012. Max já tinha tomado mais duas budweisers e fumado alguns cigarros, e o bar da Paulista com a Rua Casa Branca estava mais cheio. Na parte externa, onde ele estava sentado na mureta do canteiro da Paulista, muitos jovens esperavam que alguma mesa fosse desocupada. Juntavam-se a eles outros jovens que iam à parte externa para fumarem. Max já estava farto daquilo. Ele não estava esperando para conseguir uma mesa. Beberia em casa, e era hora de voltar. Levantou-se e se certificou que suas chaves estavam no bolso. Então lhe ocorreu que depois de anos, ele não havia sequer começado a escrever seu livro. Ainda não seria naquele dia.
Capítulo 7- Um escritor de merda
Algumas passagens do livro de Max coincidiam com o que foi contado por Zimi, mas ficou a impressão de que ele tinha mais a oferecer levando em conta o que viu e viveu.
No entanto, o desejo de Max em repelir agressões injustas se perdia em meio a reflexões abstratas sobre como escapar do senso comum.
Serviu para despertar em Zimi o desejo de também escrever um livro, sob a ótica de um mundo completamente diferente que surgia de uma desgraça global e que tanto ele como Cox procuravam retratar nas músicas novas músicas que estavam preparando.
Mila Cox então sugeriu que esse livro fosse escrito com temas libertários para integrar o encarte do próximo disco.
Pin It
Atualizado em: Ter 7 Jul 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222