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Em nome do pai

- Ê vício maldito, hein?! – Diz um segurança a uma garota de programa que está na porta de um bordel segurando um cigarro enquanto atira fumaça para o alto depois de uma tragada.
Seu nome é Francine, 21 anos, cabelos compridos e loiros, corpo magro e seios pequenos. Faz a vida para sustentar a dela, uma maldita vida de puta. Francine olha pra trás e responde:
- Essa é a única coisa boa que a vida de puta da pra gente, o prazer de fumar um cigarro depois de uma boa trepada.
O segurança ri quando ouve a resposta de Francine.
- E sem nenhum chato pra te azucrinar, não é mesmo?
- Como não tenho? E você, seu chato?!
Os dois caem na gargalhada. Mas a alegria dura pouco. Frequentadores de uma igreja vizinha passam e olham para Francine, vestida apenas com um short curto preto e um sutiã vermelho de renda cobrindo os seios. Uma mulher vestida com saia azul marinho e camisa abotoada até o pescoço dispara:
- Pervertida, pecadora, merece ir para o inferno!
Francine enfurecida não deixa por menos.
- Vá a merda sua crente filha da puta!
Enfurecida a mulher para, vira de costas e mostrando a bíblia fala:
- Eu vou fazer de tudo pra tirar esse antro de perdição daqui. Não é certo um... um....
- Puteiro? É isso que a senhora tá querendo dizer? – Completa Francine.
A mulher decide ir embora, Francine termina o cigarro, joga a bituca no chão e atravessa a avenida. Chegando ao ponto de ônibus ela tira o celular do bolso e começa a digitar. Distraída não percebe a aproximação de um rapaz montado em uma bicicleta e continua digitando, quando de repente o telefone é tirado de suas mãos.
- Filho da puta!                   
Seu coração dispara por causa do susto. Trabalhava por aquelas bandas há anos. Por tantas vezes presenciou gente sendo roubada, apanhando, mas nunca pensou que um dia poderia ser a vez dela, mas a hora dela havia chegado.
E não demorou muito para os curiosos aparecerem, principalmente pessoas da igreja vizinha do bordel onde Francine trabalhava.
- Tudo bem com você, moça? – Perguntou um homem, todo vestido num terno azul marinho.
Francine, sentada em um banco levantou a cabeça um pouco, viu o rosto do homem de relance.
- Tô sim, obrigada.
O homem estendeu a mão para ela, mas Francine não o cumprimentou, pois viu que ele segurava uma bíblia em sua mão direita.
- Há, me desculpe. Meu nome é Ezequias Custódio.
Para não parecer chata Francine apertou a mão de Custódio, um pouco sem graça.
- Há, meu nome é Francine. – Disse ela.
Conversaram por alguns minutos até o ônibus de Custódio chegar e ele ir embora. Francine ficou pensando o porquê de aquele homem ter tradado ela tão bem. No dia seguinte dentro de seu quarto no bordel, ela ajeitava as coisas. Calcinhas estavam espalhadas pelo chão, sutiãs jaziam pendurados na cabeceira da cama e preservativos usados esparramados pelo chão, uma verdadeira usina de sujeira dentro do local de trabalho de Francine.
2
Custódio vestia sua farda de policial. Na cintura um cinto prendia o coldre onde ele guardava um revólver, tinha também as algemas, um cassetete e um frasco pequeno contendo spray de pimenta, essas eram suas armas no combate contra o crime. Saia de casa todos os dias bem cedo e junto de outro parceiro de farda fazia rondas por um bairro pobre da cidade. À noite, logo após o termino do expediente trocava a roupa de policial pelo terno e gravata, e substituía as armas por uma bíblia com capa de couro.
O culto era sempre cheio. Homens, mulheres e crianças, todos de pé e de braços erguidos para o céu gritavam glórias e aleluias a cada frase gritada a plenos pulmões por um pastor que andava de um lado para o outro do púlpito, a camisa social ensopada de suor; e quando tudo acabava, as pessoas pouco se importavam com a camisa empapada e o abraçavam e como retribuição ele as abençoava, dizendo “deus vai te dar a vitória, é só você crer”.
E Custódio gostava da bondade do pastor, do seu jeito com as crianças e isso o fez lembrar a esposa, falecida há pouco menos de três meses.
- Tudo bem, Custódio? – O pastor tocou em seu ombro, em seguida os dois trocaram um afetuoso aperto de mãos.
- Culto abençoado pastor Cláudio. – Falou Custódio.
- Verdade.
E ficaram os dois em pé conversando, eis que dona Matilde surge.
- Oi pastor, posso falar com o senhor?
Cláudio pede licença e olha para Matilde que não está com a cara muito boa. Custódio sai da igreja.
- Oi irmã, o que deseja? – O tom de voz de Cláudio era um balsamo.
Exaltada, Matilde começou a falar:
- Eu exijo que o senhor expulse esses pecadores aqui do lado.
Ele arregalou os olhos:
- Como assim expulsar? Não entendo?
- Ora, não seja tão ingênuo. Não passam de pecadores pervertidos, eles desonram o nome do senhor Jesus.
O pastor segura uma das mãos de Matilde.
- Matilde, eu também não concordo com as práticas dessa gente, mas quem sou eu pra julga-los.
- Não seja tão...
- Tão o que?
- Deixa pra lá, eu mesmo darei um jeito de tirar esse bordel daí.
Quando chegou a casa, Custódio tomou um banho, vestiu seu pijama e foi se deitar. Deitado na cama virou para o lado viu metade da cama vazia, era ali que sua finada esposa dormia.
3
Já era madrugada quando Francine entrou no quarto com seu último cliente daquela noite. Tratava-se de um homem gordo, vestido com calça jeans e camisa xadrez, seus cabelos penteados para trás tinham um aspecto sujo, além do cheiro forte que deixou Francine nauseada. Ela odiava aquilo, mas não havia alternativa. Lentamente foi tirando a roupa. O homem deitado na cama foi arrancando os sapatos e as meias e atirando para o lado, em pouco menos de dois minutos ele estava nu, a barriga escondendo o órgão genital flácido. Mesmo contrariada ela montou em cima daquele homem e ao se aproximar dele não foi capaz de suportar o cheiro que ele exalava, era de cerveja barata, a porcaria da cerveja servida como cortesia aos homens que frequentavam o bordel.
Nem pensou duas vezes e de lá saiu, andou nua pelo corredor onde ficavam os quartos. Desanimada encostou-se à parede e foi deixando o corpo cair; sentada chorou com as mãos escondendo o rosto. O homem ainda com o genital flácido saiu segurando as roupas debaixo do braço; irritado, passou na frente de Francine jogando uma nota de cem na cara dela.
- Toma aqui sua vagabunda. – Já com as calças vestidas ele desceu as escadas, e soltando uma variedade imensa de palavrões foi embora.
Não demorou muito para Quitéria, a dona do bordel, surgir e ir tirar satisfação com Francine.
- Que porra aconteceu? – Quitéria era uma mulher linda apesar da idade avançada, tinha os cabelos loiros e bem compridos, as pontas eram enroladas. Seu rosto era arredondado e com traços bem definidos.
Francine respirou fundo, e ao mesmo tempo em que tentava se acalmar ela buscava explicações.
- Eu não aguentei o cheiro dele, me desculpa.
Quitéria colocou as mãos na cintura e caiu na gargalhada.
- Vá se fuder Francine. Não querer dar pra um cliente por causa do cheiro dele é o cúmulo. Agora some da minha frente, acabou por hoje, amanhã bem cedo à gente conversa melhor, preciso recepcionar os outros clientes.
Francine nada falou e saiu andando.
4
No dia seguinte quando o sol entrava pela fresta da janela, Francine despertou; de banho tomado e, trajada com uma calça e uma camiseta, desceu as escadas em direção à cozinha. Quitéria e as outras meninas estavam em volta de uma mesa, todas sentadas, a dona do bordel no centro. Na mesa pães, bolo, xícaras fumegantes cheias de café e um pote de manteiga aberto com uma faca sem ponta apoiada nele.
- Bom dia. – Disse Francine, no entanto, ninguém respondeu. Era como se ela fosse uma estranha ali dentro. Francine olhou ao redor e percebeu olhares acusadores para com ela, por isso resolveu sair dali.
Na rua, carros e gente passando de um lado para o outro; no alto um céu azul e o sol brilhando com força. Foi à praça para distrair a cabeça e pensar na vida. Sentou em um banco e acendeu um cigarro, deu uma baforada e com o cigarro entre os dedos relaxou. Por algumas horas não teria preocupações, não precisaria dar satisfações para ninguém, e isso deixava ela aliviada. Odiava trabalhar naquele bordel, mas não tinha alternativa, era ali que ela tinha uma cama para dormir e um prato de comida. Por tantas vezes arrumou suas coisas com a certeza de ir embora de lá, mas desistiu ao perceber que sem experiência não conseguiria trabalho e por consequência viveria nas ruas, igual àquelas pessoas que perambulavam pela praça onde ela ficava por horas para tentar se distrair de sua vida tão cruel.
Cigarro findado, jogado no chão. Levantou-se e saiu andando. Atravessou a rua e voltou ao bordel, ao entrar deu de cara com Quitéria, essa sentada em uma cadeira.
- Onde a senhorita estava?
- Na praça, por quê?
- Por nada. É porque a senhorita tem deveres para com esta casa.
- Peço desculpas.
-Ok, pode ir.
Depois disso o restante do dia transcorreu normalmente. Quando a lua empurrava o sol para o seu lugar de descanso, as meninas, incluindo Francine, se arrumavam para mais uma noite. Francine, sentada em frente ao grande espelho de seu quarto, penteava os cabelos, passava pó no rosto, em seguida cobriu os lábios com batom vermelho bem forte. Depois de maquiada faltava apenas se vestir. Do guarda-roupa ela tirou um short minúsculo, uma mini blusa com rendinhas em volta do pescoço e completou tudo com um salto alto.
Ao descer para o salão principal chamou a atenção de todos, Francine estava deslumbrante, nem de longe parecia à moça frágil que recusou um cliente por causa do cheiro dele. Quitéria a viu e foi em sua direção.
- Você está muito linda Francine!
A moça sorriu agradecida. Em seguida foi para o bar e ali ficou olhando os homens e sendo admirada por eles; e não demorou muito para um deles se aproximar, pegar na mão dela e os dois subirem para o quarto. Enquanto subia as escadas de braços dados com o homem um sorriso radiante iluminava seu rosto.
5
Entre glórias e aleluias, em meio a uma igreja completamente tomada, o pastor Cláudio gritava a plenos pulmões para uma multidão ensandecida. Homens, mulheres e crianças; todas com as suas melhores roupas, mas com seus rostos de fisionomia humilde, cada um em busca da salvação divina.
Cláudio era um sujeito simples. Em suas horas vagas trabalhava com representante comercial. À noite pegava seu carro e partia rumo ao bairro da Lapa, na zona oeste da cidade de São Paulo, lá, ele pregava todos os seus conhecimentos a respeito da palavra de Deus. No início poucas pessoas se espremiam em um espaço pequeno, com o tempo o número de frequentadores foi aumentando; tudo isso fez Cláudio buscar por um local maior. Foi aí que ele mudou de endereço, a Rua Scipião foi à escolhida e um salão enorme foi alugado. A reforma foi bancada graças às doações dos fiéis, no entanto uma coisa o incomodava. Ter um bordel bem ao lado não era nada bom, daria má impressão, principalmente quando as moças que lá trabalhavam saiam para a rua exibindo suas vergonhas em trajes minúsculos e provocantes. Confusões eram sempre comuns. Principalmente envolvendo dona Matilde, uma senhora que não gostava muito de falar de sua vida particular para os outros, e isso causava muita curiosidade dentre os demais seguidores do pastor Cláudio.
Para resolver o problema o jeito seria ir até o bordel e conversar com a dona, mas a coragem sempre andou distante. Cláudio se recusava, e também proibia qualquer fiel de ir até lá. Confusões envolvendo fieis e frequentadores do bordel eram recorrentes. Por incontáveis oportunidades a polícia precisou intervir para que nada de mais sério acontecesse.
6
Mais um dia e lá está Francine, de cigarro enfiado entre os dedos e o pensamento há 300 km de distância. Pobre dela. Foi expulsa de casa pelo pai, logo após a morte da mãe. A coitada morreu de desgosto depois de ver a filha menor de idade deitada com um homem mais velho. E não era qualquer pessoa, se tratava do prefeito da cidade onde viviam. Para abafar a situação, e ao mesmo tempo não ficar mal falado, o pai resolveu botar a filha para fora de casa, só com a roupa do corpo, sem dinheiro e sem sorte.
E Francine pousou em terras paulistanas; magra de doer os ossos e com o rosto maltratado, nem parecia ser a menina cheia de sonhos, de 16 anos, que havia feito a maior besteira de sua vida, deitar-se com um homem mais velho. Mas ela não teve culpa, e quem iria acreditar nela? Para todos, ela não passava de uma vagabunda mentirosa. Apesar de tudo, Francine alimentava dentro de si um sonho, o de reencontrar o pai e ter o perdão dele, mas ela achava isso impossível.
Terminou o cigarro, e acendeu mais um logo em seguida. A noite anterior tinha sido excelente, oito homens haviam ido se deitar com ela, um recorde para uma menina tão tímida igual ela. Era grata a Quitéria por tudo. Numa noite qualquer, um frio danado e uma garoa fina; deitada na entrada de uma loja de roupas dormia profundamente; não percebeu os passos que se aproximavam dela, e acordou assustada quando sentiu a mão de alguém tocando em seu ombro, era Quitéria. De cabelo loiro e sobrancelha fina, calça jeans colado no corpo e a boca se movimentando num ritmo frenético, ela mascava chiclete.
Francine não entendeu nada. Principalmente quando a mulher sentou-se ao seu lado e lhe ofertou um cigarro, ela que nunca tinha botado nada ilícito nos lábios teve sua primeira vez e depois daquela noite nunca mais largou.
Foi convidada a morar no bordel. Teria cama limpa, roupas cheirosas, comida e banho e uns trocados, mas em troca teria de se deitar com os homens que frequentavam o lugar. De pronto recusou e saiu andando, arrastando um cobertor velho. Quitéria sabia no fundo do coração que aquela menina de cabelos loiros e lisos e rosto angelical não resistiria a maldade das ruas por muito tempo e mais cedo ou mais tarde procuraria por ela.
E não deu outra. Quase um mês depois, magra e com os olhos afundados num principio de caveira, Francine apareceu; batendo em sua porta e pedindo por comida. Dentro do bordel, Francine comeu euforicamente o arroz com feijão que estavam em seu prato; depois lambeu o prato passando a língua pelas beiradas. Ao ver isso uma das meninas comentou:
- Se faz isso com um prato, imagina com uma... – E não completou, pois foi interrompida por outra.
- Deixa a menina em paz.
Com 16 de idade ela não poderia se prostituir. Claro que isso sempre acontecia. Meninas menores de idade, tantas mais novas que Francine, que povoavam as ruas do centro da cidade em troca de dinheiro por minutos contados de sexo sem proteção. A solução encontrada por Quitéria foi colocar a menina em outros afazeres. Era obrigação de Francine, lavar, passar e servir as moças; comia o que sobrava e quando não restava nada, vivia com água e um pedaço de pão duro, mas não ligava, apesar da humilhação.
Quando alcançou a maioridade se deitou com o primeiro cliente. Depois de terminar e ver o homem fechar a porta, sentou na cama e cobrindo o corpo com o lençol sujo, chorou feito uma criança.
7
Mais uma ronda finalizada. Custódio correria para casa e trocaria seu uniforme cinza de policial pelo paletó e gravata; substituiria o revólver, o cassetete e as algemas pela bíblia. Como de costume, antes de sair olhou mais uma vez para a cama, o lado vazio onde a mulher dormia; o remorso invadindo e remoendo tudo por dentro. Lá fora mais aliviado, Custódio caminhava apressado pela calçada, seu destino seria a igreja. Ao chegar lá, buscou seu lugar de sempre, na terceira fileira, a quinta cadeira da direita para a esquerda, e ali se sentou. Pegou a bíblia apoiada no colo e abriu em uma página qualquer, leu um salmo e sentiu-se mais calmo, aliviado, pois sabia que Deus estava com ele.
Na hora da entrada do pastor a igreja ficou em êxtase, todos de pé aplaudiam seu grande líder. Subindo ao púlpito, de microfone na mão direita ele saudou seus fieis.
- Boa noite irmãos! Uma salva de palmas para o senhor Jesus!
E todos aplaudiram. Uma avalanche de glórias e aleluias pôde ser sentido, mais entusiasmo por parte dos crentes. Após o fim do culto, Custódio, como sempre fez, foi falar com Cláudio. Contou do seu dia de trabalho nas ruas, dos meninos usando drogas e das meninas ainda sem peitos que riam feito loucas com uma garrafa de vinho nas mãos.
- Elas parecem perdidas, Pastor. É como se aquilo, aquele líquido fizesse delas...
- Não é errado beber, sabia disso? Mas no caso delas, pelo que me descreve, são menores de idade, e isso é crime. Como policial era seu dever impedir isso.
- Mas eu, mas eu...
Cláudio botou as mãos sobre os ombros de Custódio e o olhou bem nos olhos.
- Não precisa dizer, eu sei. Você já me contou a sua história. Da morte da sua esposa e do seu problema com a bebida.
Em meio às lágrimas Custódio tentou falar:
- Eu sinto muito, muito mesmo.
Então os dois se abraçaram. Tudo ficou mais calmo.
- Vá para casa, descanse. Amanhã vai ser outro dia.
E lá foi Ezequias Custódio, policial, viúvo e sem filhos. Teria uma menina se não fosse o acidente. A esposa estava gravida de meses, mas o destino infelizmente não permitiu.
8
Custódio e Francine eram tão parecidos, porém, tão diferentes um do outro, isso em diversos aspectos. Ela, uma garota de programa, expulsa de casa pelo pai; ele, policial militar e viúvo. A igreja que ele frequentava é vizinha do bordel onde Francine, em seu quarto, atendia aos homens da cidade. Deus traz paz para Custódio, enquanto o bordel parece ser a porta de entrada do inferno para Francine.
Cruzaram-se uma única vez, após ela ter o celular roubado. Ele, como policial, ofereceu ajuda, ela negou. Dias e noites se passaram e eles não se viram mais, no entanto isso estava muito próximo de acabar.
À tarde caia para a entrada da noite. Francine emburrada andava pela praça de cigarro entre os dedos, enquanto Custódio andava por ali também, mas com a bíblia na mão, dois mundos opostos. Um minuto de distração de ambos, um esbarrão. Os dois ajoelhados no chão de folhas da praça, olhares trocados, de repente uma surpresa.
- Eu te conheço? – Perguntou Custódio, pegando a bíblia e sacudindo-a para limpar a poeira.
Francine se lembrou dele na hora, mas segurou a resposta.
- Acho que sim, só não sei da onde?!
Custódio abriu um sorriso amarelo.
- Você é a moça que teve o celular roubado no ponto de ônibus na semana passada.
- Há é mesmo.
- Tá fazendo o que por essas bandas? – Perguntou Custódio.
Ela ia dizer que trabalhava no bordel, mas quando viu o livro sagrado nas mãos dele, pensou e ao olhar para a farmácia logo ao fundo respondeu.
- Eu trabalho naquela farmácia ali. – Disse ela apontando para frente da loja.
Ele olhou de relance. Mas seus olhos estavam fixos em Francine.
- Quer tomar alguma coisa?
Ela pensou por um momento, mas recusou.
- Hoje eu não posso, marquei com uma amiga e estou esperando por ela. – Mentiu. O cara simpático iria odiar se ela dissesse a verdade.
Ele sorriu, sem graça.
- Tudo bem, não tem importância. Eu vou indo, tenho culto hoje, lá naquela igreja ali. – Disse Custódio mostrando a igreja.
Francine olhou para a fachada da igreja quase as gargalhadas. A fachada era feia e sem graça, um letreiro velho e torto, com luzes que mal ficavam acesas. Já a entrada do bordel era um convite ao pecado; luzes coloridas e um vermelho gritante, além das moças que ficavam do lado de fora chamando os homens que por ali passavam. Francine saia raras vezes para a rua durante o serviço. Na maioria do tempo ficava dentro do salão, e também no quarto de paredes de pelúcia. Era ali o seu refúgio, um quarto simples e aconchegante, onde os homens a possuíam e na maioria das vezes ela possuía aqueles homens.
9
Os meses foram passando e os encontros entre Francine e Custódio tornaram-se cada vez mais comuns. Não, eles não combinavam tão pouco marcavam horário. Acontece que existia uma espécie de conexão entre ambos, um fio condutor que uniam eles num elo que só algo ruim pudesse desatar.
Francine estava sentada num dos bancos da praça, era temporada de festa junina e bandeirinhas coloridas estavam penduradas; o cheiro de pipoca podia ser sentido do outro lado da rua e crianças acompanhadas de seus pais corriam desembestadas atrás sabe se lá o que. Custódio chegou como sempre, vestindo um terno, de gravata presa ao pescoço e com a bíblia de capa e folhas surradas, um sinal de que era muito bem usada. Quando avistou Francine ele acenou discretamente. Ela devolveu o aceno de forma tímida, seu rosto corou instantaneamente. Nem parecia a moça que cavalgava sobre os homens que frequentavam o bordel, a impressão naquela hora era de ser uma menina quase que virgem, de atitudes puras, e isso para ela estava de bom tamanho, não queria passar apuros perto daquele homem.
A aproximação foi retraída. Ele e ela se olharam, se estudaram e resolveram trocar um abraço sem muita pretensão. Custódio sentiu os seios delas tocando seu corpo, ela sentiu o membro de Custódio se elevar numa breve excitação. Francine teve vontade de rir, mas se conteve; jamais poderia imaginar que um crente ficasse de pau duro, ainda mais um com cara de coitado.
- Tudo bem com você? – A voz de Custódio saiu tremida. Parecia constrangido.
- Eu vou bem e o senhor? – Disse ela.
O silêncio e um sorriso foram sua resposta.
- Foi boa a igreja ontem? – Ela questionou.
Custódio botou as mãos nos bolsos da calça e olhou triunfante para a fachada de igreja.
- Foi uma benção. Há, você tem um tempinho?
- Pra que? – Ela quis saber.
- Tomar um suco, um refrigerante, sei lá. Eu não bebo e...
Ela sorriu.
- Tá legal, eu vou com você, mas precisa ser rápido.
E lá foram os dois. Francine entrelaçou seu braço no dele e sentiu ele se arrepiar por inteiro. No bar sentaram em uma mesa e fizeram o pedido a um a garçom com cara de mal humorado. Ela bebia um suco, ele dava goles numa lata de refrigerante de embalagem verde enquanto conversavam.
Custódio contou de sua vida, da vida de policial e da vida de viúvo. Do acidente que matara a esposa e do vazio que sentia toda vez que ia se deitar e percebia que o lado direito da cama estava desocupado. Por outro lado, Francine omitiu parte de sua história. Contou da mãe que morreu e do pai que a expulsou de casa, porém, não deu mais detalhes, e tão somente não contou sobre o bordel, continuou com a história da farmácia. Também mentiu dizendo que morava num minúsculo apartamento no centro da cidade e que dividia as despesas com uma amiga. Ele acreditou.
Ao terminarem as bebidas ambos se levantaram. Ele foi até o caixa e pagou a conta, pegou dois doces, um ele deu para ela, o outro ele enfiou no bolso esquerdo da calça. Quando mordeu o doce, Francine indagou:
- Ué, não vai comer o seu?
- Sim, mas só depois do culto, aliás, quer ir comigo?
Francine pensou por um instante. Ela gostaria de pelo menos conhecer, mas justamente naquele dia não seria um bom momento. O bordel estaria cheio e ela precisava se apressar, se arrumar, ficar pronta para a noite.
10
Francine se espreguiçou e esfregou os olhos com as costas das mãos logo após acordar. A noite anterior tinha sido fantástica, muitos homens, mas um, que não esteve em sua cama, não saia de sua cabeça, seu nome era Custódio. Um policial viúvo, evangélico, um ser humano educado, humilde e bastante tímido. Bem diferente de todos aqueles homens que iam ao bordel exigir sexo forçado sem um pingo de amor para com ela.
Tomou o café da manhã sozinha, a mão no queixo sustentando a cabeça; na pia uma pilha de louças a serem lavadas, claro que seria tarefa dela, pois tinha sido a última a acordar. Vestindo um roupão roxo e sem maquiagem surge Quitéria, a dona do bordel.
- Tá com a cabeça nas nuvens Francine? – Pergunta a cafetina.
Francine olha de canto de olho e responde:
- Não senhora, só ‘tava’ pensando.
- Em algum homem? – Insiste Quitéria.
- Não senhora.
- Tem certeza? – O tom da voz da cafetina era mais forte.
- Absoluta.
Feito um bicho acuado, Francine recua e abaixa a cabeça. Como uma cobra perto de dar o bote em sua presa, Quitéria ataca.
- Não minta pra mim! – Grita Quitéria. – Ao perceber que poderia estar sendo observada por alguma das outras meninas ela abaixa a voz. – Escuta aqui. Eu vi a senhorita de conversa com um homem ontem à tarde. – Disse ela aos sussurros, enquanto segurava os cabelos de Francine.
O homem era Custódio, frequentador da igreja vizinha ao bordel. E Francine sentia, para a infelicidade dela, estar apaixonada por aquele sujeito. Vida desgraçada de puta! Não se pode apaixonar tão pouco sentir o coração bater mais forte por alguém, que surge alguma coisa para destruir tão nobre sentimento. E a culpa disso tudo era dela e não somente dela; tinha o pai, maldito, filho da puta. Que meteu a filha, coitada, para fora de casa, que a fez sem alternativa ir para um bordel imundo. Sua vontade, apesar dos pesares era rever o pai, ter seu perdão e isso valeria como um alento em sua vida tão sofrida.
Mas quem poderia ajudá-la? A polícia? Nem a pau! Não entraria em uma delegacia nem fudendo. Seria tratada feito um animal quando dissesse sua profissão, garota de programa, ou puta, para a grande e esmagadora maioria. A solução seria contar a verdade para Custódio, no entanto, como ele reagiria? Ouviu os insultos de Quitéria, engoliu tudo a seco, levantou, pegou a xícara que usou para beber café, colocou dentro da pia e se retirou.
11
Custódio saiu da igreja tarde da noite, o paletó aberto e a gravata afrouxada, aparentava cansaço. Ficou na igreja ajudando Cláudio e outros homens na manutenção do salão. A pintura descascada e a iluminação precária e um vazamento incomodava a todos os frequentadores. Dona Matilde era a que mais se queixava. Reclamava da cor desbotada das paredes, das goteiras que caiam sobre os fieis e da incapacidade dos homens em buscar melhorias para a igreja.
Cláudio estava sem paciência com ela. A mulher que em nada ajudava e só criticava, atrapalhava os planos de expansão da igreja. O grande sonho do pastor era prosperar. Fazer a sua humilde comunidade crescer e render frutos, mas para isso precisaria do apoio de todos. Matilde surgiu pela primeira vez na igreja numa tarde ensolarada de domingo. Vestia saias até os joelhos e uma camisa de botão fechada até o pescoço, uma sombrinha de estampa vermelha, a mesma cor das paredes do bordel, protegia aquela mulher, de cabelos desbotados, do sol.
Nessa tarde a igreja estava tomada de gente, a grande maioria de pé. Matilde entrou fazendo pose, de peito estufado, um ar de arrogância, uma petulância assustadora. Todos se voltaram para ela, nem as palavras acalentadoras do pastor Cláudio eram suficientes. Matilde fechou a sombrinha, guardou-a em uma bolsa e pediu para que uma moça sentada em uma cadeira se retirasse, pois uma dama igual a ela não poderia ficar ali em pé, seus calcanhares doeriam, e a moça de cara fechada obedeceu àquela ordem um tanto contrariada.
E lá ficou Matilde, em silêncio e sentada, assistindo ao culto; vendo com seus olhos acusadores o vai e vem histérico do pastor. Quando o culto chegou ao fim, Matilde encaminhou-se em direção ao pastor.
- Posso te dar um abraço? - Ela pediu.
De sorriso nos lábios, Cláudio respondeu:
- Mas é claro, mas qual é seu nome?
- Meu nome é Matilde. – Ela respondeu enquanto abraçava Cláudio.
O perfume forte deixou Cláudio zonzo.
- É um enorme prazer receber a senhora na nossa humilde igreja. – Disse ele.
Matilde olhou tudo com cara de nojo, mas ficou quieta. Não queria parecer antipática no meio daquela gente. O tempo foi passando e ela acabou tornando-se uma pessoa influente dentro da igreja. Era a responsável pela organização de campanhas, festas para arrecadação de fundos, dentre demais atividades. . Quando ela se botava a frente de algo, nem mesmo o pastor Cláudio poderia intervir.
A vida de dona Matilde era um verdadeiro mistério. Alguns diziam se tratar de uma mulher rica, outros diziam que a mulher era uma maluca que aterrissou por aquelas bandas para nunca mais sair. Na verdade nem uma coisa nem outra. Matilde, por muitos anos trabalhou no bordel vizinho da igreja fazendo programa, mas quem poderia suspeitar?
12
A delegacia de polícia parecia ser um lugar assustador. Dois policiais fardados e de braços cruzados na altura do peito estavam na entrada do distrito. Na parte interna um policial conversava com um casal, a mulher visivelmente desesperada tentava argumentar, mas o guarda se esquivava.
Francine entrou na delegacia. Vestia uma calça justa que marcava seu corpo e tinha os cabelos amarrados com um rabo de cavalo, todos notaram de pronto sua presença. Ela dirigiu-se até uma mesinha, nela estava sentado um homem que quando a viu arregalou os olhos.
- Moço eu preciso de uma informação. – Disse Francine timidamente.
Os olhos do policial se voltaram primeiramente para os seios dela.
- Você pode fazer o boletim de ocorrência pela internet. – Disse o policial.
Francine começou a ficar nervosa.
- Não moço, eu não vim aqui pra fazer nada disso. Só tô aqui porque eu quero encontrar meu pai.
Era visível o desinteresse do policial pelo assunto.
- Há é? Ele sumiu quando?
- Acho que há cinco ou seis anos. – Disse ela.
O policial saiu detrás da mesinha deu a volta por trás de Francine e apontou os olhos para as nádegas da garota.
- Peraí! Só agora que a senhora vem comunicar um desaparecimento?
As mãos de Francine tremiam. Como ela contaria para aquele homem fardado que tinha sido expulsa de casa pelo pai, logo após ter sido pega na cama com o prefeito da cidade onde morava? Sem saber o que fazer e com lágrimas querendo brotar um choro amargo ela correu. O guarda nada fez além de ajeitar o pênis na calça e dizer para o colega do lado.
- Se ela me chupasse eu a ajudava a achar o papaizinho dela. – Falou enquanto ria.
Francine correu em meio aos carros, quase foi atropelada, ouviu gracejos e xingamentos; sentou na beira da calçada e chorou igual a uma criança. O rosto borrado, a maquiagem escorrida nos olhos, o cabelo solto e desgrenhado numa vida desgraçada. Levantou e saiu andando, os passos sem destino, a vida sem propósito, a morte parecia ser a única solução.
Na ponta da plataforma da estação de trem ela ficou, parecia hipnotizada. Quando a composição chegou foi levada por uma multidão de animais humanos, mas conseguiu se desvencilhar. Plataforma vazia, mais um trem surgindo, passo a passo foi se aproximando da beirada, o vento do vagão que se aproximava balançou seus cabelos, finalmente Francine encontraria a paz.
A cabeça doeu com a pancada na parede. Alguém a empurrou e a livrou do livramento, Francine estava viva e em choque. Urubus curiosos, armados de celulares piscavam seus flashes acusadores para os olhos da menina, que indefesa recuava e se encolhia feito um animal assustado.
13
Meses se passaram e finalmente a igreja teve sua reforma concluída. Graças à colaboração de seus frequentadores, com dinheiro e mão de obra, a igreja do pastor Cláudio foi enfim reinaugurada. A pintura era nova, do lado de fora um azul bem clarinho, na parte interna, paredes brancas com detalhes bem bonitos, desenhos de Jesus Cristo espalhados pelas paredes mostravam passagens importantes da bíblia; as cadeiras de plástico tinham sido substituídas por cadeiras confortáveis de estofado azul escuro. O púlpito era maior e mais espaçoso, Cláudio poderia se movimentar bastante; até o sistema de som que vivia falhando foi consertado, tudo estava maravilhoso.
Emocionado, Cláudio agradeceu a todos. De pé encostado num canto Custódio aplaudia. Matilde sentada bem na frente observava cada movimento com bastante atenção. Cada fiel demonstrava uma reação, muitos choravam, tantos sorriam, e no fim de tudo, todos mostravam o quanto Deus pode ser maravilhoso na vida da gente.
- Agradeço primeiramente ao nosso senhor Jesus Cristo. – Disse Cláudio ao iniciar seu discurso de agradecimento. – Agradeço a cada um de vocês. – Cláudio apontava para os seus seguidores enquanto falava. – Por terem dado um pouquinho da contribuição de vocês, seja com dinheiro ou com trabalho. Se não fosse pelo esforço de cada um, tenho certeza de que esse dia nunca teria chegado. Olha que belo trabalho nós fizemos nessa igreja. – O tom de voz de Cláudio aumentava cada vez mais, até diminuir num sussurro de gratidão. – Obrigado Jesus, nós te louvamos.
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Matilde deixou a igreja antes do restante das pessoas. Do lado de fora ajeitou a alça da bolsa no ombro direito, ergueu o corpo roliço e passou a andar. Poucos passos depois e ela para na frente do bordel. Cospe no chão e passa a sola do sapato de salto alto para disfarçar, porém, não dá tempo. Quitéria estava ali, na porta de seu estabelecimento, de braços cruzados olhando o movimento da rua, dos carros que passavam de um lado para o outro, da fumaça dos ônibus e do barulho ensurdecedor das crianças que brincavam na praça sob os olhares atentos de pais, mães e avós.
Matilde baixou a cabeça e buscou esconder o rosto quando percebeu de quem se tratava. Quitéria ergueu o pescoço e puxou na memória quem era aquela mulher. Na hora veio à lembrança de uma mulher de corpo bonito, seios grandes e rosto milimetricamente desenhado, seu nome era Matilde, a mulher que ela tinha conhecido dentro daquele bordel. Matilde era uma das moças mais requisitadas, chegando a atender a três clientes de uma só vez; era insaciável sexualmente.
Matilde. Cinquenta e três anos de idade, metade da vida foi puta, metade da vida de puta foi uma verdadeira filha da puta.
- Quanto tempo Matilde, lembra-se de mim? – Perguntou Quitéria.
Matilde olhou para os lados, sua cabeça mexia de um lado para o outro, parecia perdida, na realidade, ela estava mais do que perdida. Toda a farsa apresentada dentro da igreja estava indo aos poucos por água abaixo. Ela não respondeu, sustentou o silêncio, segurou a vergonha, e suportou a urina que ameaçava descer pelas pernas.
- Porra Matilde, sua filha da puta! Você some, não dá mais as caras. O que aconteceu contigo?
- Eu, eu não conheço você criatura do demônio. – A voz de Matilde era um fio de quase nada, ela não saia. Ela não sentia medo, só não queria ter seu passado revelado para o resto dos irmãos da igreja.
Homens e mulheres, todos bem vestidos foram se aproximando; eles comentavam sobre a reforma da igreja. Matilde tentou em vão se esconder, mas já era tarde. Seus irmãos a olharam, incrédulos com a cena que ali se desenhava. Quitéria apenas sorria timidamente tentando controlar o riso.
- Como não conhece Matilde. Tu trabalhaste nesse bordel há muitos anos. O povo aqui precisa saber o quanto você era requisitada.
A multidão se fez em volta cercando Quitéria e Matilde.
- Você é uma louca! Você está falando o nome do senhor Jesus em vão e isso é pecado. - Diz Matilde.
Quitéria se enfurece:
- Eu não mencionei o nome de deus, sua louca! – Vociferou Quitéria.
Finalmente o barraco estava armado. De um lado do ringue, representando a impureza estava Quitéria, do outro, Matilde, a representante da moral e dos bons costumes; a pessoa que desejava fechar as portas do bordel.
- Eu vou mandar derrubar essa espelunca! – Falou Matilde, apontando para a entrada do bordel.
Quitéria riu alto.
- Não vai não, Matilde. Você pode ter engordado, ficado com a pele enrugada, deixado de se maquiar igual a uma puta, mas você tem o cheiro desse lugar.
- Não diga blasfêmias sua pecadora. – Rebateu Matilde.
Custódio e Cláudio assistiam incrédulos. Dentro do bordel as meninas ouviam a discussão. Trancada em seu quarto, Francine observava tudo pela fresta da janela. Como ela poderia imaginar, que a senhora encrenqueira, que adorava uma confusão, xingar as meninas, era na verdade uma ex garota de programa.
A confusão foi se estendendo. Insultos eram atirados. O furdunço só teve fim quando o Pastor Cláudio interveio.
- Parem! – Disse ele calmamente.
Quitéria recuou, entretanto, Matilde avançou acertando um tapa do lado direito do rosto de Quitéria que nada fez, apenas botou a mão no rosto vermelho. Os dedos de Matilde ficaram marcados na face da dona do bordel. A dona do bordel, nada fez, ficou quieta, pois imaginava quais seriam as intenções daquela mulher. Conhecia seu instinto vingativo, seu caráter duvidoso e o quanto ela seria capaz para destruir o seu negócio. Sim, o bordel era o sustento dela, mas não só dela; lá moravam muitas meninas, a maioria expulsa de casa pelas famílias e encontradas nas ruas. Era naquele lugar de paredes de cores berrantes, de quartos simples, porém, aconchegantes que elas dormiam e trabalhavam.
- Eu vou acabar com você! – Gritou Matilde. Aqueles que a conheciam se assustaram com o seu comportamento.
Cláudio se aproximou dela e a pegou levemente pelo braço.
- Venha comigo Dona Matilde, por favor. – Exigiu Cláudio.
A multidão foi se dispersando. Quitéria voltou para o bordel, o coração pulando no peito e lágrimas escorrendo em seu rosto, a raiva era enorme. Cláudio e Matilde caminhavam em direção à igreja. Lá dentro os dois teriam uma conversa esclarecedora.
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- Por que fez aquilo Matilde? – Questionou Cláudio, em pé, enquanto Matilde sentada bebia um copo d’água, sua respiração era agitada.
- Eu só reclamei daquele lugar, nada mais.
- Como nada mais? Eu presenciei grande parte da discussão sua com aquela mulher.
- Ela é uma pecadora e pecadores merecem ir para o inferno! – Matilde estava tensa, seu olhar demonstrava isso.
- Não diga uma coisa dessas. E me responda uma coisa. Como ela te conhece?
Dizer ou não a verdade, era isso que estava deixando Matilde insegura. Entrou na igreja para se livrar de seu passado tenebroso, para aparar as arestas que a vida havia lhe deixado. Deus seria a chave para a sua salvação, no entanto, ela teria que omitir sua vida de outrora.
- Eu só estou aqui porque fiz muita coisa errada na minha vida passada.
Cláudio nada disse, apenas olhava nos olhos de Matilde.
- Eu trabalhei por muitos anos nesse bordel, muito antes daquela mulher assumir o lugar. Pra ser sincera, nós duas éramos as mais requisitadas pelos homens, todos eles queriam ir para o quarto com a gente.
- Você trabalhava como garota de programa nesse bordel, é isso? – A voz de Cláudio era calma.
Matilde abaixou a cabeça por um momento, levantou em seguida. A vontade de chorar era imensa, mas ela prometeu a si mesma que não derramaria nenhuma lágrima por causa de seus erros.
- E por que você quer destruir esse lugar, me diz? – Perguntou Cláudio.
- Eu ia ser a dona dessa espelunca.
- Por que não foi?
- Fiz besteira.
- Pode me dizer de que tipo?
- Não vem ao caso.
- Como não? Se quiser tanto o perdão de Jesus, você precisa abrir o seu coração e admitir seus erros.
- Jesus Cristo não perdoaria uma ex puta.
- Como não?! E Maria Madalena? Não se recorda da história?
Matilde sorriu timidamente.
- Claro que eu me lembro, mas casos são casos.
Cláudio segurou as mãos de Matilde e atentamente ouviu o relato daquela mulher. Ela que se portava como uma pessoa dura, sem sentimentos e de coração de gelo, se tornou alguém completamente diferente.
- É algo muito grave. Você deve se arrepender muito desse seu ato?!
- Há momentos em que eu me arrependo sim, mas não em outros eu não me importo.
- Você mexeu com a vida de pessoas, Matilde.
A senhora olhou para Cláudio como se suplicasse por algo.
- Então deus não vai me perdoar?
- Sim, ele vai te perdoar, porém, o perdão principal vem de dentro da gente. Diga-me uma coisa. Você se perdoaria por esse erro?
A voz de Matilde ficou embargada. Parecia que algo ruim estava prestes a sufoca-la.
- O que eu fiz foi repugnante.
- Sim, foi asqueroso ao extremo, mas já foi. Se permita perdoar, se permita aceitar seu erro e permita-se ser uma pessoa diferente.
- Mas e esse bordel?
- Esqueça esse lugar. Deixa essas mulheres viverem a vida delas.
- Tudo bem. Agora vamos indo, já está tarde. – Disse Matilde levantando e buscando lá no fundo da alma um breve traço de um sorriso.
16
Mais um dia que se inicia e Francine desperta. Parece ter pressa. Sai da cama e veste-se da melhor maneira possível, a impressão é de que vai se encontrar com alguém especial. Na porta do bordel ela observa o movimento da rua, espera o farol fechar para em seguida atravessar. Fica zanzando pela praça, dessa vez sem cigarros. De propósito ela os esqueceu na cabeceira da cama, queria pelo menos por aquele dia sentir-se limpa. Nada do cheiro maldito de nicotina em suas roupas, muito menos as manchas amareladas nas pontas dos dedos. Sua intenção era tornar-se uma pessoa melhor.
Sentou em um banco da praça e ficou admirando as crianças que balançavam para cima e para baixo. A lembrança do pai veio à tona como um furação que chega e destrói tudo. De vestido rendando, Francine sorria. Seu pai a empurrava no balanço, os cabelos loiros iam contra o vento. Ela tinha só sete anos de idade, era feliz, vivia em uma família harmoniosa, mas a vida fez o favor de acabar com tudo. Maldita vida.
Levantou do banco, meteu as mãos nos bolsos do casaco e andou. Uma paisagem de portas de botecos, igrejas e puteiros, somado aos sons dos carros, e caminhões que por ali passavam. O cheiro de esgoto, da comida dos restaurantes de esquina, essa era o retrato feio e cruel do buraco onde ela havia se metido, distante, mas muito afastado de onde ela viera.
Entrou numa sorveteria e um minuto depois saiu de lá com uma casquinha, creme e flocos eram seus sabores favoritos. Como foram bons seus tempos de criança. Da mãe que tudo lhe dava, do pai amoroso e das brincadeiras de infância.
Enquanto caminhava pela calçada, uma viatura da polícia passava vagarosamente, Custódio estava ao volante. Os dois se cruzaram, entretanto, não se notaram. Francine estava mesmo decidida a mudar o rumo de sua história. Ele esperaria a primeira oportunidade e revelaria toda a verdade, cruel e triste de sua vida.
17
Quitéria aparentava irritação, andava pelo bordel para lá e para cá, parecia perdida. Ouviu alguém bater palmas e chamar do lado de fora, lá da rua; estranhou na mesma hora, pois não era o dia de medirem a luz ou a água. Prendeu os cabelos no alto da cabeça, ajeitou a saia e foi em direção à porta. Sempre foi costume de ela olhar pelo olho mágico, mas nesse dia ela não fez. Uma por uma foi destravando as trancas, abrindo as fechaduras e botando os cadeados de lado. A porta foi abrindo aos poucos, a claridade do dia ofuscou a vista já cansada. Do lado de fora em pé de sorriso encabulado no rosto estava Cláudio, o pastor da igreja vizinha do bordel.
- Bom dia senhora! – Disse ele timidamente.
Só podia ser um sonho. Não podia ser possível, o dono da igreja frente a frente com Quitéria, a dona do bordel.
- Bom dia! – Quitéria respondeu. – O que o traz aqui? – Questionou a cafetina.
- Bem, só vim aqui lhe pedir desculpas pelo ocorrido, a Matilde...
- A Matilde quer acabar com o bordel, eu sei, não precisa vir me dizer.
Quitéria foi entrando. Enquanto começava a puxar a porta para ser novamente trancada um impulso surgiu de não se sabe onde e Cláudio segurou as mãos dela.
- Não é nada disso. Ela me contou o porquê da briga de vocês e que se arrepende muito.
- Pastor, o senhor acredita nessa mulher? Eu não sei quanto tempo ela frequenta a sua igreja, mas eu a conheço faz mais de trinta anos. Eu sei muito bem do que ela é capaz.
- Eu entendo, mas as pessoas podem mudar, ou a senhora não acredita nisso?
- Acredito e muito, mas existem casos e casos. O da Matilde, por exemplo, é um caso perdido.
- A senhora sabe que o poder da oração pode libertar as pessoas de erros do passado?
- Sim, eu vivo rezando. Não é porque eu seja uma cafetina, uma puta de profissão, que eu não acredite em deus, pelo contrário, rezo todas as manhãs e a noite após concluir o serviço. Peço proteção a mim e as minhas meninas e oriento que elas façam o mesmo, mas a Matilde, não dá. Desculpe-me.
A resposta de Quitéria foi arrebatadora. Cláudio se calou e ficou parado na frente dela. A cafetina só observava o jeito do pastor e também não falou nenhuma palavra, aquilo que precisava ser dito já estava de bom tamanho.
- Mais uma vez eu lhe peço desculpas. Prometo que nunca mais a Matilde, e nem ninguém da minha comunidade irá importunar o seu...
- Bordel. – Completou Quitéria.
- Exato, o seu bordel. Tenha um bom dia, passar bem. – Disse o pastor acenando com a cabeça e se retirando logo em seguida.
Quitéria parou por um instante na cozinha. Algumas meninas limpavam o recinto, uma lavava a louça, uma varria o chão, e duas conversavam.
- As duas aí. – Disse ela apontando para as duas moças de cabelo preto. – Vão se mexer ajudar no serviço, ou vão continuar de fofoquinha? – Bradou a proprietária do bordel.
As moças pararam na hora e saíram. Cada uma foi para um canto.
- Eu não quero ouvir futrica aqui dentro, deu pra entender?
Quitéria começou a subir as escadas que levavam até os quartos.
- E a Francine? Alguém a viu?
Uma das moças, a que varria o chão respondeu.
- Dona Quitéria, eu a vi saindo hoje cedo, só não sei pra onde ela foi.
Quitéria ficou em silêncio, subiu mais alguns degraus, parou, apoiou uma das mãos no corrimão, virou-se lentamente e olhando pra menina disse:
- Quando ela chegar faça o favor de manda-la para os meus aposentos. Entendeu?
-Entendi sim senhora. – Respondeu a moça.
Quitéria abriu a porta do quarto, era enorme e bastante confortável. A cama era de casal enfeitado com lençóis de seda e diversos travesseiros faziam parte da decoração. Deixou o corpo cair e relaxou fechou os olhos e em poucos segundos estava dormindo.
18
Meses se passaram. No bordel o movimento de sempre. Lá dentro homens bebendo, dançando e se divertindo, meninas seminuas fazendo a alegria dos rapazes. Na igreja, pessoas em pé, tantas ajoelhadas, muitas pediam, outras agradeciam. Pastor Cláudio de microfone na mão gritava ensandecido. Braços levantados, olhos fechados, expressões de fé rabiscadas em rostos humildes.
No dia seguinte, Francine e Custódio se encontram mais uma vez. Ela decidida a pedir ajuda, ele, a convida-la para ir junto dele a igreja. Foram no mesmo bar do primeiro encontro. Sentaram quase que na mesma mesa e beberam o suco e o guaraná de lata verde. Sorriram um para o outro, dessa vez menos encabulados, o clima parecia ser melhor naquela noite.
- Me surpreendi com o teu convite Francine. – Falou Custódio mostrando realmente estar surpreso com a situação.
- De eu ter te convidado para bebermos alguma coisa?
- É.
Ela sorri levemente.
- Mas isso não tem nada de mais, não é mesmo?
Custódio leva à lata de refrigerante a boca e da um pequeno gole.
- Não, nem um pouco. Mas me diga, por que estamos aqui? – Quis ele saber.
Daí deu um nó na garganta. Uma vontade desgraçada de falar, de confessar os erros, mas como? Falar para um cara que ela estava completamente apaixonada por ele, que ela era uma puta? Nem morta! Isso iria estragar tudo.
- Eu preciso te contar uma coisa. – Ela disse. – Sua voz era fraca, por isso Custódio não conseguiu compreender; o barulho da rua atrapalhava bastante.
- Pode repetir?
- Eu preciso te contar uma coisa! – Repetiu Francine, elevando a voz, mas principalmente seu espírito.
Pegaram um na mão do outro. Uniram-se num só laço.
- Me diz o que você precisa?!
Então ela contou toda a verdade, a realidade dela. Da expulsão de casa, do flagrante com o prefeito, da vida nas ruas e do recolhimento por parte de Quitéria e do emprego como prostituta no bordel. No rosto de Custódio nada além de indignação, ele fora enganado. Traído por uma puta pecadora. Uma mulher que vende seu corpo, algo sagrado, para o divertimento de homens mais pecadores ainda.
Afastou sua mão da mão dela como se afastasse de um inseto repugnante.
- Afaste-se de mim! – Custódio se levantou. Francine ficou parada, o rosto sem nenhuma reação. No bar todos olhavam para os dois, muitos gargalhavam. A maioria dos homens ali dentro era de frequentadores do bordel, muitos haviam se deitado com Francine.
Custódio se sentiu humilhado. Nem mesmo a dor da morte da esposa fora capaz de superar tamanha vergonha.
- Me perdoa Custódio! – A voz dela era carregada de dor e sofrimento.
Custódio saiu do bar abalado pelas mentiras, atormentado pelas risadas e confuso pela vida que estava levando, sim, ele era um maldito pecador. Vagou pelas ruas sem destino, sentia no fundo d’ alma todos debochar dele. Que burro ele foi; de acreditar na inocência, na pureza de uma moça que de pura nada tinha. Sentou na beirada de uma calçada, olhou para cima e no relógio de rua mostrava que estava atrasado para mais um culto, não iria, estava sem vontade e morto por dentro.
19
No dia seguinte com o coração cheio de ódio Custódio foi se consultar com o pastor Cláudio. O pastor notou no semblante do amigo que algo de muito grave havia acontecido.
- Vamos, me diga o que te aflige meu irmão.
Por onde começar? Contar que conheceu Francine após sair de um culto, depois de ela ter sido assaltada? Falar das mentiras dela, do trabalho na farmácia, dos convites recusados de ir com ele a igreja? Da vida dela de prostituta? Ou da sujeira que ele sentia dentro dele?
- Eu tô confuso, Cláudio. Eu acho que pequei.
- Pecou? O que fez. Diga-me?!
Ajeitou a manga da camisa, olhou de relance para o teto, retomou o olhar para Cláudio com um nó na garganta.
- Eu me apaixonei por uma garota de programa. – Disparou Custódio.
- Você não está frequentando este...
Antes que Cláudio pudesse completar, Custódio o interrompeu.
- Bordel? Não, pastor. Eu nunca entrei nesse lugar. Nem nos meus tempos de bebedeira. Nunca tive coragem, não sei explicar.
Cláudio parecia atordoado, por isso resolveu sentar.
- Como você conheceu uma prostituta se nunca entrou lá? – Disse o pastor apontado para o lado da parede que correspondia ao bordel. – Poderia me explicar.
Custódio também sentou. Ele e Cláudio ficaram frente a frente. Ele buscando as palavras certas, Cláudio parado apenas observava interessado.
- Uma noite, logo após o final de mais um culto eu estava indo embora quando vi essa moça gritando. Na verdade ela falava palavras que não posso dizer aqui. Ela havia acabado de ser assaltada, e....
Cláudio completou:
- E como você é um policial, sentiu-se no dever de ajudar, é isso?
- Exatamente. Aproximei-me dela ofereci ajuda, no entanto, ela recusou.
- Só não entendo como pode ter se apaixonado por essa moça. O nome dela, qual é?
Custódio prendia as lágrimas dentro dos olhos, não queria chorar na frente do amigo.
- Ela se chama Francine, pastor. – Respondeu ele com a voz trêmula. – Eu a encontrei algumas vezes ali na praça. E tentei ser gentil. Eu também a convidei para sair.
- Vocês saíram juntos?
- Fomos apenas até a lanchonete central e lá tomamos apenas uma bebida.
- Espero que nada alcoólico. – Falou Cláudio.
- Não senhor. O que eu faço? Diz-me?
- Bem. O que eu vou dizer pode parecer um absurdo. Mas vamos lá. Perdoe essa moça, a...
- Francine.
- Sim, perdoe a Francine. Seu coração está cheio de ódio, e o nosso senhor, não gosta desse tipo de sentimento. E tem mais. Seus olhos brilham cada vez que você pronuncia o nome dessa mulher.
Custódio estava embasbacado com as palavras do pastor.
- Mas ela é uma prostituta...
- Sim, ela pecou e peca cada vez que se deita com um homem. Mas deve ter um motivo. Você conhece a história dessa moça?
Custódio não pode segurar a emoção.
- Ela me disse que saiu de casa. Foi expulsa pelo pai.
- Sabe o motivo?
- Ela disse que se deitou com o prefeito da cidade e...
- Realmente essa moça está cheia de pecados, mas todos nós merecemos uma segunda oportunidade. Se essa moça quer mesmo se libertar desse passado e dessa vida, ela precisa aceitar a Jesus Cristo.
Os dois ficaram de pé.
- Ajude essa moça. Vá com jeito. Ouça o que ela tem a dizer. Coloque na balança e pese as consequências.
- Obrigado Cláudio. Não sei como lhe agradecer.
- Não precisa. Vá e procure essa moça.
20
- Tá chorando porque Francine? – Perguntou uma das moças que moravam no bordel junto com ela.
Francine não respondeu, subiu correndo as escadas que levavam em direção ao quarto de Quitéria que dormia. Quitéria tomou um susto quando ouviu as pancadas na porta.
- Eu já falei que não era para me incomodar. – Gritou Quitéria ainda deitada em sua cama.
Mas as batidas na porta não paravam. Então ela se levantou, vestiu o roupão roxo que estava pendurado num mancebo. Ao abrir a porta se deparou com Francine; os olhos de um sombrio medonho.
- Mas o que foi que aconte....
Não deu tempo de ela terminar. Francine entrou com tudo no quarto de Quitéria. Lá dentro a cama desarrumada, lençóis jogados de um lado da cama, travesseiros espalhados pelo chão.
- A gente precisa conversar. - O tom da voz de Francine era carregado, dando a impressão de que uma tonelada estava em seu peito.
Quitéria com cara de poucos amigos bateu a porta com força, o barulho foi tão forte que as meninas que estavam na parte de baixo do bordel se assustaram.
- Ultimamente você só tem me dado problemas mocinha.
Francine anda dentro do quarto para lá e para cá, as mãos se movimentando loucamente.
- O homem, aquele que você me viu junto com ele. – Francine iniciou seu relato. Era possível notar em seu tom de voz um coração carregado de amargura.
- O que tem o homem de terno?
- Eu me apaixonei por ele e...
Quitéria cruzou os braços, a cara dela não era nada boa.
- Não vai me dizer que você engravidou desse cara?
- Não, nem rolou nada. Ele é muito tímido. Vive falando da esposa falecida.
Quitéria sentou na beirada da cama e chamou Francine para fazer o mesmo.
- Senta aqui, deixa eu te contar uma história. – Falou a cafetina.
Então Francine sentou, ao sentar pode sentir a maciez do colchão, o perfume forte de Quitéria e percebeu como eram bonitos os moveis do quarto. A penteadeira com detalhes pintados em branco, o enorme espelho na horizontal. Prestou atenção a cada palavra, ficou surpresa algumas vezes, se emocionou em diversas oportunidades e pode constatar que a sua história de vida e de sua patroa eram bastante semelhantes.
- Eu nunca imaginei que a senhora tivesse sido expulsa de casa assim como eu fui. – Disse Francine.
Quitéria sorriu.
- Não somente eu. Converse com as meninas, muitas foram colocadas para fora de suas casas. Você foi expulsa, pois foi imprudente, eu também fui. Agora eu tô aqui, nesse lugar. Não faço mais programa, mas o quarto em que você leva os homens, no passado, era eu quem usava.
As duas se levantaram e se abraçaram.
- Eu não sabia que a senhora... – A voz de Francine era carregada de emoção e não por menos, Quitéria também derramou suas lágrimas.
- Olha aqui pra mim, mocinha. Você gosta mesmo desse crente aí?
- Eu acho que sim. – Disse Francine, um sorriso contornava seu rosto.
- Então não perca tempo, vá atrás desse homem.
Francine deu um beijo na bochecha de Quitéria e saiu correndo pelas escadas. Ao chegar à parte de baixo do bordel um corredor formado pelas outras meninas a aplaudia, Francine estava indo em busca de seu grande amor.
21
Quando Francine saiu do bordel o sol já estava se pondo. Aos poucos alguns comércios iam fechando, pessoas iam para o ponto de ônibus aguardar a condução e a praça começava a ser habitada por moradores de rua e casais apaixonados. Calmamente caminhou até a praça. Chegando lá se encostou a uma árvore, tirou o maço de cigarros de dentro da blusa, tirou um, acendeu e jogou fumaça para o alto. Fumou um cigarro inteiro, quando foi pegar mais um, sentiu a mão de alguém tocar de leve seu ombro.
Ela sabia de quem se tratava, mas não teve coragem de se virar para olhar. O coração disparado parecia querer sair pela boca.
- Francine, nós precisamos conversar. – Disse Custódio, num tom de voz bastante grave.
Ela aos poucos foi virando o corpo, relaxando e acalmando o coração.
- Eu sei. – Ela disse.
Os dois em pé. Ele de terno, ela de vestido, ambos numa tensão assustadora.
- Vamos sentar. – Sugeriu Custódio.
Francine foi à frente, Custódio foi logo em seguida, sentaram quase que ao mesmo tempo. A principio não se olharam, e também não se falaram, mas alguém tinha o dever de quebrar essa barreira.
- Por que mentiu pra mim? – Indagou Custódio.
- Vergonha. – Respondeu ela. – Quando te vi com esse livro na mão, logo pensei que seria rejeitada se dissesse a verdade.
- Eu não a rejeitaria.
- Como não?! – Quando te falei da minha vida você simplesmente pediu que eu me afastasse e eu não posso me afastar de você, Custódio.
- Eu também não posso me afastar de você, Francine. Eu te amo!
Os olhares de Custódio e Francine se encheram de um brilho forte e bonito, suas faces coraram, os dois riam.
- Eu também amo você. – Disse ela.
Então os dois se abraçaram. Sentados em um dos bancos da praça conversaram e se acertaram. Francine continuaria no bordel, porém, não se deitaria mais com outros homens, já Custodio:
- Eu vou procurar e encontrar o seu pai, pode acreditar em mim. – Prometeu o policial.
Quando a lua finalmente surgiu, eles se beijaram. Depois de muitos anos de beijos sem paixão, de sentimentos não compartilhados, finalmente Francine sentia-se verdadeiramente amada, e isso para ela era mais do que suficiente.
22
A única informação que Custódio possuía era um nome. Nada de foto, tão pouco endereço. Francine não se lembrava do nome da rua onde viveu até os dezesseis anos, antes de ter sido metida para fora de casa pelo pai. Dentro da delegacia, o policial Custódio começou a investigar, o nome, José, era muito comum; quantos ‘Josés’ existiriam no Brasil, inúmeros, mas um José da Silva, nem se fala, eram muitos.
Vestido a paisana pegou o carro, um emprestado de um amigo da polícia. Contou toda a história ao colega de farda e esse se dispôs a ajudar, a ajuda veio através do empréstimo do veículo.
De sinto de segurança colocado ligou o carro, pisou no acelerador e sentiu o ronco forte do motor novo em folha. O veículo era simples, mas seria o ideal para tão nobre missão. Saiu da delegacia em direção à terra natal de Francine, lá procuraria por José da Silva, o pai da moça.
Chegando a cidade estranhou a calmaria. Na rua poucas pessoas, carros também, só alguns, a maioria bem velhos. A calçada era habitada por cadeiras de vime onde senhoras sentavam em rodas, fofocando e fazendo tricô. A cidade tinha uma praça onde homens de cabelos de cor de algodão jogavam dominó e cartas. Quando Custódio surgiu na cidade com o carro, de óculos escuros e observando tudo, todos voltaram suas atenções ao forasteiro.
As crianças pararam de jogar bola, as bonecas das meninas foram deixadas de lado e até as senhoras jogaram suas linhas e agulhas no chão para ver quem era o intruso.
- Esse povo é muito esquisito. Parece até que ninguém entra nessa cidade, parecem isolados do mundo. –Pensou ele.
Foi devagar com o carro, olhando para os lados, prestando atenção em tudo. Não notou nada de diferente, nenhum rosto ali se parecia com o de Francine, claro, a moça não falou com quem se parecia, por isso a tarefa parecia ser mais complicada ainda.
Parou o carro na frente de uma casa de portão de madeira, o portão não tinha pintura. Desceu do carro. Dentro da casa havia uma senhora, aparentava ter mais de oitenta anos de idade, estava sentada numa cadeira de balanço. Quando Custódio caminhou na direção do portão de pronto a mulher se levantou. Era uma senhora de estatura baixa, magricela, e com poucos fios de cabelo em sua cabeça. Seus olhos eram de um azul forte, escuro, impactantes. Apoiada em uma bengala desceu os três degraus de escada que tinha na frente da casa, encostou-se no portão, deu uma ultima olhada em Custódio e disse:
- E você meu rapaz. Quem é você? – Questionou ela, de olhar desconfiado.
Encabulado Custódio sorriu antes de dar sua resposta.
- Oi, meu nome é Ezequias Custódio, pode me chamar de Custódio, se quiser. Eu estou aqui à procura de uma pessoa, José da Silva, a senhora o conhece?
Por milésimos de segundos o ar faltou, o mundo girou, e senhorinha não foi ao chão graças às mãos espertas de Custódio que a seguraram.
- A senhora o conhece? – Ele quis saber.
Com bastante dificuldade e as mãos trêmulas a mulher abriu o portão. Com o auxílio de Custódio subiu as escadas. Já dentro da casa Custódio sentou em um sofá de dois lugares, enquanto a mulher se acomodou em uma cadeira. A casa simples tinha cortinas nas janelas, vasos de plantas espalhados pela casa, um tapete amarelado no chão e as paredes tinham a pintura descascada, mas dava para se notar um resquício de tinta verde claro.
- A senhora conhece José da Silva? – Perguntou Custódio. Ele não queria demonstrar empolgação, mas seu coração pulava no peito.
A mulher ficou em silêncio por um bom tempo. Ela não ia falar, era perda de tempo. Custódio já se preparava para ir embora quando finalmente a velha abriu o bico.
- Espere meu jovem. Não vá. – Ela disse.
- Desculpe, mas eu pensei que não diria nada e eu não posso perder meu tempo.
- Sei disso. Antes de qualquer coisa eu gostaria de saber como está a minha neta.
Custódio tomou um susto quando ouviu a palavra neta. Como poderia imaginar encontrar a avó de Francine.
- Ela está bem. – Ele respondeu.
- Meu nome é Mercedes, sou a mãe da Adelina, a mãe da Francine.
Custódio sorriu.
- Eu tô conhecendo a avó da Francine, não posso acreditar. – Disse ele.
Com bastante dificuldade a senhora se levantou, apoiada nos móveis foi em direção a um cômodo escuro, minutos depois retornou. Debaixo do braço trazia um caderno grosso, na verdade era um velho álbum de fotografias.
- Tome, aqui tem várias fotos da minha neta.
Custódio pegou o álbum e posicionou no colo. A cada página virada uma surpresa. Viu muitas fotos da pequena Francine, de cabelos loiros e sardas salpicadas nas bochechas. Francine sempre sorria nas fotos. Em uma delas, ela sorria nos ombros de um homem, ao lado desse homem havia uma mulher.
- Esses aqui devem ser os pais da Francine. – Falou Custódio, apontando o dedo para a foto.
Mercedes forçou a vista cansada para ver melhor aquele retrato.
- Sim, o José, minha filha e a minha neta.
Dava pra notar no semblante cansado da senhora toda frustração por uma vida.
- Perdi minha filha. Morreu de desgosto, coitada.
- A senhora poderia me contar o que aconteceu? – A cara de Custódio era de apreensão.
Mercedes se levantou mais uma vez. Ela deu alguns passos e parou diante de um retrato pendurado na parede, na foto havia uma mulher com uma criança pequena no colo. A mulher tinha os cabelos presos, enquanto a criança de cabelos soltos exibia orgulhosa um sorriso banguela de janelas para o mundo, a criança era Francine.
- A Francine sempre foi à alegria da casa. Minha filha teve uma gestação complicada, por pouco não perdeu a menina. Minha neta nasceu prematura de quase sete meses e por um tempo lutou pela vida. Eu não me esqueço do dia que ela finalmente saiu do hospital. Minha filha com ela nos braços, meu genro ao lado dela todo sorridente, mas não um sorriso de felicidade, mas um como sinal de alívio.
Custódio apenas prestava atenção na história. Mercedes continuou.
- Francine cresceu forte, sem sequelas e rodeada de amor. Era tratada como princesa, porém quando cresceu as más companhias...
Mercedes puxou uma cadeira e sentou. Era perceptível o cansaço dela.
- Ela tornou-se uma menina desobediente, malcriada e respondona. Sei que são coisas da idade. Todos nós passamos por essa fase da vida. Corpo mudando, hormônios aflorando, corações batendo mais forte, o amor...o maldito amor. A pior decepção da minha filha foi ter visto a Francine na cama com o prefeito. Ok, o cara era um verdadeiro filho da puta, mas minha neta não era inocente e se deixou levar pela lábia daquele homem.
- Eu não entendo porque ela foi expulsa. – Falou Custódio.
Mercedes sorriu irônica.
- Minha filha saiu de lá desesperada. Correndo sem rumo, gritando feito uma louca pela rua. O resultado disso foi a minha filha se jogar na frente de um carro e tirar a própria vida, coitada. – Lágrimas escorriam nas faces rugosas de Mercedes. – Que desgosto, meu deus, que desgosto.
Cada palavra saída da boca de Dona Mercedes parecia com uma faca atingindo o coração. Dor insuportável, dor imperdoável, sofrimento que não cabe no peito de tão ruim. Francine errou, sim, bastante, mas merecia uma segunda chance. E era isso o que Custódio gostaria de dizer.
- Dona Mercedes. Eu entendo a dor da senhora. Eu sei como é. Perdi minha esposa há pouco tempo, por minha culpa; mas graças ao amor de Cristo eu encontrei um novo caminho, e...
A velha teve vontade de rir, mas conteve-se.
- Amor de Cristo. Se esse tal de Jesus amasse a todos realmente, ele não teria levado minha filha de mim.
Na parede da casa outro retrato. Francine e o pai, sentados lado a lado.
- Ele foi crucificado para nos salvar. Você não crê nisso?
Mercedes parecia fraca, os braços enrugados e os olhos forçando a visão para enxergar mais longe.
- Está me querendo ensinar a bíblia meu jovem?
- Não senhora. Dias atrás meu pastor falou em perdão. Eu acho que você deveria perdoar sua neta.
Mercedes foi se sentar, Custódio a acompanhou.
- Se a ver, diga que eu a perdoo. E diga também, que essa velha está morrendo de saudade dela. E antes que eu me esqueça. – Mercedes tirou de dentro do sutiã uma medalhinha. – Está vendo isso, rapaz? – Diz balançando uma correntinha com um pingente em forma de cavalo.
Custódio mexe a cabeça dizendo sim.
- Era da minha filha. Desde o dia da partida dela eu carrego isso comigo. E tenho convicção de que isso deva ser entregue a minha neta. Você pode fazer isso?
Mão de veias saltadas, pele amassada pelo tempo, olhos que enxergam com dificuldade. O pingente era passado das mãos de Mercedes para as mãos de Custódio.
- Posso dar um abraço na senhora? – Ele pede.
Mercedes abre os braços.
- Pode.
E se abraçaram. Custódio sentiu os lábios de a mulher encostar-se a seu rosto, num beijo molhado e frio, mas cheio de amor.
- Agora vá conversar com o pai dela. Ela mora daqui a três quadras no número vinte e seis.
23
Duas noites mal dormidas. Noites em que Francine passou em claro. Noites em que Francine tinha outras funções dentro do bordel, duas noites de preocupação. Custódio estava longe. E a saudade aumentava cada vez mais. Além da saudade a angústia, o desespero. Ansiedade por saber se o amado tinha encontrado seu pai.
Desceu as escadas que davam para o salão. Música alta, gente rindo. Enquanto descia, outras meninas subiam, elas acompanhadas, Francine sozinha. Quitéria se aproximou de Francine e perguntou:
- Como está indo? – Ela queria saber do movimento, se os quartos estavam ocupados.
- Todos os quartos estão cheios. – Respondeu Francine.
As duas foram para um canto reservado no bordel.
- Tá gostando da nova função?
- Estou. Nunca pensei que fosse fazer isso por mim. – Agradeceu Francine.
Quitéria segurou nas mãos de Francine.
- Tenho você e as outras meninas como minhas filhas. Jamais vou deixar vocês desamparadas. Se não tem como satisfazer os homens, eu mudo de função. Eu mesma não entrei aqui sendo a dona.
Um filme. Momentos bons e ruins. Das lágrimas escorrendo no rosto. Do sorriso de Custódio. A cara da mãe ao flagra-la com o prefeito. Da vergonha. Da morte da mãe e da expulsão de casa. Da vida no bordel e os vários homens com quem se deitou. Nenhum deles ela amou tão pouco desejou. E quando conheceu Custódio, mesmo com todas as barreiras, sentiu o coração bater de um jeito diferente pela primeira vez na vida, Francine estava apaixonada.
- Nem sei como agradecer, Quitéria. Todos esses anos debaixo do seu teto.
As duas se abraçaram e retornaram as suas atividades, Francine gerenciando as meninas, controlando o fluxo dos clientes que subiam para os quartos.
24
Francine desceu correndo as escadas quando ouviu o ensurdecedor barulho da buzina do carro que Custódio pegara emprestado de um amigo. Abriu a porta com rapidez, saiu na rua antes mesmo que o amado tivesse saído do carro. O rosto dele aparentava cansaço e a sensação de dever cumprido.
- Oi amor! Tudo bem? – Dava pra notar a ansiedade e apreensão nos olhos de Francine.
Os dois trocaram um abraço e um beijo.
- Estou bem. Cansado demais. Sua cidade é muito longe menina, meu deus!
- Encontrou meu pai? – Perguntou Francine.
Silêncio. Custódio respira fundo. Parece ter uma tonelada de coisas para ser descarregada.
- Precisamos ter uma conversa em particular. Não sugiro a igreja, pois você não entra lá...
- Eu não sugiro o bordel, porque você também não entra aqui. Então vamos para onde?
Custódio foi até o carro e abriu a porta do veículo.
- Entre. Vamos para a minha casa.
Francine entrou, fechou a porta do seu lado. Minutos depois já estavam no apartamento de Custódio. Lá ela sentiu uma coisa estranha. A decoração era simplista, um jogo de sofá rasgado, uma estante com uma televisão velha, cortinas sujas penduradas no teto e um tapete.
- Nossa! Aqui tá precisando de uma faxina. – Comentou Francine.
Custódio fechou a porta, andou até a cozinha, de lá tirou duas cadeiras e as colocou em um canto da casa.
- Pronto. Sente-se aqui. – Disse ele mostrando a cadeira.
Francine obedeceu.
- Achou meu pai?
- Achei.
- Como ele está?
- Bem. Com os cabelos mudando de cor e barba por fazer. Parece triste, aliás, ele é um homem amargurado.
Francine abaixou a cabeça e num sussurro sofrível falou:
- Isso tudo é minha culpa.
- Concordo. Ouvi histórias e você, Francine, errou muito.
Custódio se levantou, saiu de cena por alguns minutos e retornou. Tinha algo em uma das mãos, mas que Francine não conseguiu perceber o que era. Ao se aproximar dela, abriu a mão e fez surgir uma correntinha com um pingente em formato de um cavalo. Quando viu aquilo os olhos de Francine se encheram de um brilho nunca visto antes até mesmo por Custódio.
- Sabe o que é isso?
Francine tomou a correntinha nas mãos, acariciou o pingente e derramou uma lágrima.
- Era da minha mãe! Essa correntinha pertencia a ela! Mamãe nunca tirava isso do pescoço.
- Quem me deu isso foi a sua avó, Dona Mercedes. Você lembra-se dela?
Antes de responder, Francine colocou a correntinha que pertencia a sua mãe em seu pescoço.
- Claro que lembro! Os melhores momentos da minha infância eu passei na casa dela. Correndo no quintal, comendo os doces que ela mesma preparava, sorrindo e sendo feliz. E olha o que eu fiz da minha vida, Custódio. – Dava para notar a tortura na voz dela, o sentimento de culpa, de alguém que cometeu um erro quase que imperdoável.
- Você gostaria de ver o seu pai?
Com as costas das mãos Francine enxugava as lágrimas que escorriam em seu rosto.
- Muito. Mas eu tenho medo de ele me rejeitar e...
- Se você não ir, não vai ter como saber. Eu conversei por algumas horas com ele. Tive a oportunidade de conhecê-lo e saber a versão dele da história. Ouvi também a sua vó. Ela me contou da morte de sua mãe, mostrou fotos sua ainda criança ao lado dos seus pais. – Custódio segurou nas mãos da amada. – Se não fosse por suas atitudes, talvez você ainda estivesse ao lado deles.
- Sim, mas o destino não permitiu isso. – Concluiu Francine.
Os dois se levantaram. Francine ainda abalada com tudo, tentando por os sentimentos no lugar.
- Quer ver o seu pai? Ou vai ficar naquele bordel remoendo as coisas?
- Sim. Eu quero. – Ela respondeu.
- Iremos à próxima semana. – Disse ele. – Se abraçaram e se beijaram, riram e foram para o elevador.
25
É noite. Francine está em seu quarto no bordel arrumando as malas. Custódio por sua vez está na igreja em meio a um culto, sentado na primeira fila, ao lado dele está Matilde com um ar sério.
Enquanto Francine separa as roupas, Custódio dá glória a deus. Dali a poucos dias a vida deles seria transformada. Claro que seria um processo longo e demorado, principalmente para Francine, habituada a vida de pecado. Custódio tinha fé, e cria que ela em breve se tornaria também, assim como ele, uma serva do senhor.
De mala posta sobre a cama, ela foi ajeitando cada peça com carinho. Botou calças, camisetas, meias e lingeries. As roupas minúsculas que usava nas noites do bordel seriam dadas de presente para as outras meninas, para ela só restariam às lembranças boas, e as noites de divertimento e principalmente a tristeza por ter feito o que nunca quis fazer.
- Se quiserem se libertar, devem aceitar o senhor Jesus como o seu único salvador. – As palavras do Pastor Cláudio ecoavam pela igreja. Seria capaz, alguém, que vivia no pecado da carne, ser verdadeiramente libertada no amor de Cristo? Essas incertezas martelavam a cabeça de Custódio, que de olhos fechados suplicava por Francine.
As malas já estavam fechadas, a cama já estava arrumada. Olhou para o guarda-roupa de portas de vidro pela última vez, passou os dedos pela pelúcia macia que revestia as paredes do quarto. A cama, coberta com um lençol vermelho, lotada de travesseiros foi cenário de noites loucas, noites intermináveis, noites em que rejeitou homens, que pertenceu a eles e em que foi a dona deles. Mas isso estava perto de um final feliz.
O culto terminou com todos se abraçando e desejando a paz. Pastor Cláudio foi à direção onde estavam sentados lado a lado, Matilde e Custódio.
- Obrigado pela presença de vocês. – Diz Cláudio para Custódio e Matilde.
- Foi lindo, pastor. – Falou Matilde.
- Concordo com a irmã Matilde. – Concluiu Custódio.
Francine sentou em frente à penteadeira, o vidro enorme na horizontal e a imagem dela refletida. Tinha agora vinte e sete anos, completou anos a poucos dias, e estava feliz como há muito tempo não sentia.
26
O dia raiou e Quitéria acordou com o barulho de batidas na porta do bordel. Com certeza era Custódio vindo buscar Francine para leva-la embora. Levantou e vestiu o roupão de cor roxa. Desceu as escadas vagarosamente apoiando a mão esquerda no corrimão de madeira.
Foi abrindo todas as trancas, parecia satisfeita. No momento que a porta foi aberta algo surpreendente deixou a dona do bordel sem reação; na sua frente estava Matilde, de saia até os joelhos e com uma camisa abotoada até o pescoço.
- Se você veio aqui pra tentar me prejudicar, saiba que eu...
Matilde tentava olhar para dentro do estabelecimento.
- Vivi muita coisa aí. – Disse Matilde.
Quitéria virou o rosto para trás.
- Pois é, vivemos.
As duas ficaram ali sem falar nada, só pensando. Recordando os momentos dentro daquele lugar, das brigas, dos puxões de cabelo e do reencontro das duas após muitos anos de distanciamento. Nunca foram amigas, elas se odiavam, no entanto, um dia, um acerto tinha de ser feito entre elas.
- Posso entrar? – Pediu Matilde.
- Eu não posso crer que você queira entrar aqui depois de todos esses anos. – Era visível a surpresa de Quitéria com o pedido de Matilde.
- Pois creia Quitéria. Hoje eu enxergo esse lugar como um antro de pecado e perdição, mas eu vim daí. Fui puta. Levava vários homens de uma só vez para o meu quarto, mas me arrependi. Errei ao condenar você e as meninas.
A escuridão do local ofuscou um pouco a visão de Matilde acostumada com o sol do paraíso, estranhou a penumbra assustadora do universo pecaminoso da prostituição.
- O bar, o lustre, as mesinhas. Tudo continua igual. Só mudaram algumas coisas. – Disse Matilde.
- Verdade. – Falou Quitéria.
De repente as meninas começaram a surgir. Algumas com cara de sono, outras assustadas com a surpreendente visita.
- Oi meninas?! – Disse Matilde ao avistar as garotas.
Elas nada responderam, pareciam hipnotizadas.
- Vamos. Digam pelo menos um bom dia. – Ordenou Quitéria.
Ninguém obedeceu. Quitéria insistiu.
- Estou mandando. – O tom de voz era mais alto.
- Não precisa. – Falou Matilde. – Insultei muito a cada uma delas. Elas não precisam ser educadas comigo, pois eu fui muito mal educada com todas elas.
As duas subiram até os quartos. Quitéria colocou a mão em uma das portas, essa pintada de vermelho.
- Lembra-se desse quarto, Matilde? – Questionou Quitéria.
- Mas é claro. Aí dentro tem muita história. – Respondeu Matilde visivelmente emocionada.
Caminharam pelo corredor acarpetado. As paredes eram brancas, recentemente pintadas.
- Este aqui é o meu quarto. Gostaria de conhecer? – A cafetina parou em frente a uma porta de cor roxa.
- Sim. – Disse Matilde.
Quando a porta foi aberta Matilde ficou admirada com a decoração. Uma cama enorme de casal, almofadas, um guarda-roupa grandioso. Dentro do móvel, várias roupas, sapatos, sandálias. Tudo muito bem arrumado e organizado.
- Aqui é onde eu descanso para aguentar as noites.
- Quarto bonito.
- Se você não tivesse feito aquilo, provavelmente ele seria seu.
- Concordo contigo. Mas eu nunca levei jeito pra tomar conta de mim, imagina só comandar todas aquelas meninas. Aguentar crises de tpm, brigas entre elas, administrar o bar, a música, e eventualmente expulsar sujeitos sem noção.
As duas pararam por um instante. Depois sentaram na beirada da cama e ficaram ali por horas jogando conversa fora; lágrimas e risos, finalmente a paz estava selada.
Na parte de baixo do bordel as meninas conversavam, mas interromperam os bochichos quando no alto da escada surgiu Quitéria e Matilde. Desceram as escadas, Matilde do lado direito e Quitéria do lado esquerda, Matilde de cabelos negros e curtos, Quitéria de cabelos loiros e compridos. Quando chegaram à parte de baixo do salão foram recebidas pelas meninas ainda com olhares duvidosos.
- Eu posso te pedir um abraço? – Disse Matilde humildemente. Nem de longe parecia aquela mulher de ar arrogante de tempos atrás.
Quitéria abriu os braços. Matilde foi lentamente se aproximando, o rosto coberto de lágrimas, um sorriso sendo rabiscado em seu rosto. Braços enlaçados, corpos unidos; finalmente Matilde e Quitéria faziam as pazes.
27
Passava das quatro da tarde quando Francine desceu correndo as escadas do bordel pela última vez em sua vida. Em seus pés apenas uma mala, presente de Quitéria. Em seu peito todo o orgulho pelo aprendizado de anos vividos naquele lugar. Espalhadas pelo bordel estavam às outras meninas. Francine abraçou cada uma delas, desejou sorte e muito amor.
Do lado de fora, vestindo um terno cinza claro e encostado no carro estava Custódio; os pés batendo freneticamente no chão de cimento, a ansiedade atacando com força, estava nervoso.
- Obrigado por tudo dona Quitéria. Nem tenho palavras pra agradecer tudo o que a senhora fez por mim. Obrigado por me acolher, me ensinar, me alertar dos perigos do mundo... – Dava para ver nos olhos de Francine o quanto ela estava triste por aquela despedida.
Quitéria também emocionada abraçou Francine e lhe deu um beijo no rosto.
- Ô meu amor, não chore. Sempre que quiser poderá vir nos visitar. As portas desse humilde bordel vão estar sempre abertas pra te receber, meu anjo.
Impaciente Custódio foi até a porta do bordel.
- Vamos Francine! – Ele gritou. – Daqui a pouco escurece e...
Francine, Quitéria e as meninas aparecem na porta.
- Calma rapaz! – Disse Quitéria.
Francine e Custódio ficaram lado a lado, de braços dados. Pastor Cláudio, Matilde e mais alguns fiéis saíram da igreja. Parecia impossível, mas pela primeira vez o bordel de Quitéria e a igreja do pastor Cláudio estavam unidos pelo mesmo propósito, o amor e felicidade de seus filhos; Custódio, um policial militar, viúvo e hoje temente a deus, e Francine uma garota do interior, expulsa de casa pelo pai; que se prostituiu para sobreviver e que conheceu o verdadeiro amor onde menos imaginava.
Francine e Custódio já estavam dentro do carro, às mãos dele firmes no volante, ela terminando de botar o cinto de segurança.
- Está pronta pra rever o seu pai, meu amor? – Perguntou Custódio olhando para a sua amada.
Francine respirou fundo ao mesmo tempo em que Custódio girava a chave e ligava o motor do carro.
- Estou sim, meu amor. Podemos ir.
Dentro do carro, Francine passou um dos braços por Custódio, num abraço leve, depois encostou a cabeça de leve em seu ombro. No horizonte a sol estava se pondo, Francine finalmente voltaria para casa, em nome do pai.
FIM.
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Atualizado em: Seg 4 Nov 2019

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