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Pecado Moreno

CARLOS chegou em sua  casa e sentou-se no sofá da sala, desanimado. Odiava ter que dar aquela noticia, mas estava demitido. Sua demissão pegou todos da família de surpresa. Que surpresa desagradável! Era o único que sustentava toda a casa. 

Carlos se apavorava só de lembrar o que vivera da ultima vez em que esteve desempregado. Ele gastou todo o acerto em bebidas. E passava noites e mais noites em boates, fazendo sexo sem compromisso com garotas que ele jamais vira na vida e não sabia nem o nome. Jurou a si mesmo nunca mais voltar a repetir o erro. Esperava cumprir, pois magoara muito as pessoas que o amavam. Para completar a sua maré de azar, a sua casa foi assaltada e todos dentro foram feito reféns. Os assaltantes amarraram sua avó e seu avô com uma corda de nilon. Já ele foi obrigado a levar os bandidos nos cômodos da casa que tinham objetos de mais valor. Com uma arma apontada na nuca ele presenciou os meliantes  se apoderarem de relógios, celulares, TV, dvd e algumas notas que “seu Albério” o avô, guardava debaixo dos colchões. O pobre velhinho foi parar no hospital.
Enquanto isso, em um lugar não muito longe dali, o chefe caminhou a passos largos e firmes até o palco e tirou MEL de lá pelos cabelos. A morena começou a chorar e gritar muito ao ser esbofeteada, mas achou melhor se calar. Tinha medo do chefe. Todos tinham. A casa de shows, agora vazia, fedia a bebida e cigarro. Aquilo a enojava, apesar de adorar a atmosfera erótica do local. Amava a noite , tinha que admitir, Mas o salário que ganhava como babá, não dava para ela pagar o tratamento médico da mãe. Era só por isso que estava ali.
- Você arruinou a noite  menina. Conseguiu esvaziar a casa. Satisfeita?
Ao perceber com que violência segurava o braço feminino, o chefe resolveu soltar. Aquele era o corpo mais desejado entre todas as meninas que trabalhavam ali e não era bom que aparecesse com hematomas.
- Me desculpe ter causado prejuízo senhor, mas eu disse que hoje não me sentia bem para me apresentar. Problemas pessoais.
- Aqui não existem problemas pessoais. Dentro do meu estabelecimento você tem que esquecer o seu nome, quem é, onde mora, não interessa. Põe isso na sua cabeça.
- Por favor, eu já pedi desculpas!
- Desculpas não bastam.
Humilhada, horas depois ela se encontrava jogada na cama  do chefe , Presa em seu quarto. O homem usou seu corpo como quis, sem que Mel pudesse proferir qualquer protesto. Então , quando se entediou, acendeu seu cigarro e jogando as roupas da dançarina sobre seu corpo nu, pediu que ela se vestisse e fosse embora.
Mel era uma obsessão para Raul. Dono da casa de shows Caliente Corpus Bar.
Foi debaixo de chuva e com muito frio que 03:30 da manhã, ela bateu na porta da casa de sua sogra. Passados alguns minutos, a cunhada abriu as cortinas e olhou pela janela. Ao ver quem era fez o possível para demorar a abrir a porta. Naquela casa, todos a odiavam. Ela Correu para a varanda, podendo assim, ouvir passos de chinelos pela casa. Molhada da cabeça aos pés, tremendo e tendo o corpo tomado por terríveis arrepios, Mel começou a espirrar. A chuva aumentava a sua intensidade e relâmpagos cortavam o céu. Dois minutos se passaram até que a porta foi aberta. Mel foi recepcionada com um olhar de crítica e desconfiança.
- Isso são horas?
a cunhada questionou. Em seguida soltou a fumaça do seu cigarro na cara da recém chegada, que tossiu.
- Tive um contratempo.
- Eu já estava dormindo. Dá próxima vez vai passar a noite todinha na rua, entendeu? Para ver se pára de atormentar.
- Não terá a próxima vez.
- Assim espero. Entra.
- Obrigada, com licença.
Mas antes que ela desse outro passo, a coroa a impediu colocando o pé na frente.
- Eu ainda te pego, ouviu?
- Não entendi.
- Entendeu sim porque é cobra criada. Você mente. Está escondendo alguma coisa de nós.
- Não sei por que acha isso.
- E deve ser um amante. Eu vou descobrir. Vou desvendar todos os seus mistérios e jogar podre por podre no ventilador. Aí eu quero ver se vai continuar com essa moral com o meu irmão. Quero ver.
- Me deixa em paz.
- Com todo o prazer.
Na manhã seguinte, preocupada, ela arrumava a mesa para tomar café com o marido. Ele percebeu que MEL estava estranha.
- Você está me abandonando nega.
- Me desculpe meu amor! Sabe que a minha mãe não está nada bem. Nos últimos meses ela vem necessitando de toda a atenção que eu possa dar! Juro que vou arrumar um tempinho para a gente namorar.
- Me desculpe MEL! Não gosto que fique assim tão longe. Tente me entender! Você me alucina de ciúmes. Quando sai e demora a voltar, fico logo imaginando que...
- O quê?
- MELISSA, escuta. Eu te amo, mas sabe que se você me trair, eu te mato. Não sabe?
- Pelo amor de DEUS! Não fala isso nem de brincadeira. Eu jamais iria para a cama com outro homem! Sou só sua! Acredita em mim.
- Esquece essas bobagens! Não deveria ter falado nada disso.
Mel não gostara nada da conversa que tivera com o marido. Se não soubesse esconder suas emoções, colocaria tudo a perder. Não podia perder o emprego no CCB. Se o marido descobrisse que tipo de profissão ela exercia para pagar o tratamento da mãe, com certeza, pelo que acabara de ouvir, não ficaria nem mais um dia viva. Tremeu de medo. Dona Vera sofria de uma doença rara e degenerativa que a colocara na cadeira de rodas. Os medicamentos custavam uma verdadeira fortuna e Se não descobrisse o CCB, ela não poderia arcar com tudo. Seu salário de babá não permitia que ela comprasse uma caixa de remédios. Foi aí que tomou a decisão. Precisava de outro emprego. Olhar crianças, levar ao playground, dar banho, trocar fralda e colocar para dormir, não estava lhe valendo. O marido passara a se queixar constantemente que passava muitas horas sem sua companhia, mas MEL não se deixou abater. Viraria a cidade do avesso atrás de um oficio que rendesse mais do que 400 reais mensais. Não estava fácil, acordava cedo sem ao menos tomar café e cortava todo o centro. Lá eles não ofereciam nada. As butiques já estavam com todo o seu pessoal contratado. Lanchonetes e restaurantes também não estavam contratando cozinheiras e nem quem cuidasse da limpeza. Por onde quer que MEL entrasse , diziam que não estavam precisando. Estava prestes a desistir e continuar com seu reles empreguinho de babá até que uma placa lhe chamou a atenção. Sem hesitar ela entrou, foi se informar sobre o que se tratava sem saber que  sua vida sofreria uma mudança surpreendente.
Quando Mel caminhou para dentro do prédio, não imaginou qual era o tipo de ambiente que encontraria. O que viu a deixou de queixo caído. Foi recepcionada, mal tendo tempo de se recuperar da surpresa.
- Oi, você veio pela vaga?
- Sim, mas eu não consegui ler que tipo de profissional estão procurando.
-  Com certeza  a chuva apagou, precisamos trocar. Bem, mas é que perdemos uma menina e precisamos pôr outra no lugar com extrema urgência. É que ela ficou grávida, teve que sair. Estamos contratando uma dançarina nova.
- Dançarina?
- Que seja bonita, tenha desenvoltura, seja muito sexy e que acima de tudo esteja disposta a enlouquecer os homens.
Corada, Mel balançou a cabeça negativamente.
- Eu não sei dançar.
- Para ser striper não é exigida experiência. Eu e as meninas te ensinamos tudo.
- Enlouquecer os homens... Acho que não vim ao lugar certo...
- Imagina! Claro que veio. Você é perfeita para a vaga.
- Está falando sério?
- Como não? Pode dar uma voltinha?
Mel, constrangida obedeceu.
- Mesmo assim, eu agradeço a atenção.
Ela começou a se afastar.
- Escuta, onde pensa que vai?
- Vou embora!
- Nem pensar! Vamos agora à sala do chefe, quero te apresentar a ele.
- Não, mas eu não...
- Sem mais nem meio mais! Fica e não vai se arrepender. Você vai ser um sucesso!
- O que te faz ter tanta certeza?
- Eu tenho certeza.
- E quanto á segurança?
- Do ponto de vista físico, é seguro.
- Mesmo?
- Quando termina o show, o chefe contrata táxis para nos levar para a casa.
- O chefe?
- Sim.
Então Mel foi colocada na frente do chefe. O homem era gordo, alto, moreno, cabelos relativamente grisalhos e na altura dos ombros. A orelha era adornada com um brinco de diamante. Tinha as costas largas, uma berruga no pescoço e algumas cicatrizes no mesmo. O cheiro do seu charuto preenchia toda a sala.  De costas , Parecia impaciente falando ao telefone.
- Estou com medo.
Ela sussurrou no ouvido da outra.
- Não deixa o chefe saber disso.
Foi então que ele se virou e MEL ficou com um grito preso na garganta. O chefe percebeu o seu pavor e seus olhos expressaram um brilho irado.
- O que é que  eu não posso saber?
A voz soou como trovão.
- Eu disse que o senhor vai adorar saber: achamos a nova dançarina.
Mel foi examinada da cabeça aos pés.
- É exatamente isso que eu estou procurando.
Isso?
- E então? Satisfeito?
- Nem preciso dizer. Cuide de todos os detalhes para a apresentação dela essa noite, sei que vai fazer o melhor não é? Depois volte na minha sala. A menina vai continuar. Pode sair agora.
- Com licença.
- Tem toda.
A vontade dela foi de impedir a saída da outra, mas não teve como e agora ela se encontrava sozinha em uma minúscula sala com um mascarado. Isso mesmo, o homem tinha o rosto coberto por uma mascara preta que provocava arrepios de pavor e até ânsia de vômito. Mel nunca estivera diante de uma pessoa como aquela. Quando poderia imaginar quando o vira pela primeira vez que passaria noites delirantes em sua cama? O chefe a dominava de maneira total e irremediável. No momento não conseguia pensar em algo para falar e nem um jeito de continuar encarando-o. Mel tremia cada vez mais desconfortável.
- Se estiver muito ocupado, volto depois.
- Fecha a porta e sente-se.
- Fechar a porta?
- Algum inconveniente?
- Não!
- Então faça o que mandei. Vamos ter uma longa conversa.
- Como o senhor quiser.
MEL teve que obrigar as suas pernas a lhe obedecerem. Elas estavam moles feito gelatina. Finalmente, mesmo contra a sua vontade, ela se sentou.
- Eu sou Raul Gular, dono do CCB.  CALIENTE CORPUS BAR. Casa de shows em que passa a se apresentar a partir de hoje. Você gosta da noite?
Mel riu.
- Adoro!
Declarou com entusiasmo.
- Já dançou alguma vez?
- Nunca na minha vida. Acho melhor o senhor procurar outra dançarina, eu não estou apta para assumir o lugar de ninguém.
- Nada disso! Você é perfeita. Como eu disse, começa hoje mesmo.
- Quando na minha vida eu ia imaginar ser uma...
- Gogo Dance.
- Gogo Dance...
- Não gosta?
- Não é isso!
- Você trabalha a partir de hoje sete horas por dia, quatro dias por semana.
- Sim senhor.
Meia hora depois ela se sentou no bar.
- Sobreviveu?
Perguntou a garota que a recepcionou.
- Parece mentira, mas sim. Qual seu nome?
- É mesmo! A gente ainda não se apresentou. Todos aqui me chamam de pantera.É o nome com que me apresento. Aqui dentro temos que esquecer nossa identidade.
- Mas...
- Você bebe?
- Sim.
Pantera Pediu ao barman que preparasse a especialidade da casa: All Green para a nova integrante do clube. Bebida feita de Tequila, curação blue e domecq.  Mel adorou.
Ela se sentia mais a vontade para observar tudo ao seu redor. Curiosa, ela se encantava com cada detalhe. Estava excitada em fazer parte de tudo aquilo.
- Vem cá... Você já viu o rosto dele?
- Nunca! Eu acho muito excitante esse mistério! Ele fica tão charmoso!
- Por que ele usa essa mascara?
- Ele usa desde que sofreu um acidente de carro que desfigurou o seu rosto.
- Tem muito tempo?
- Uns cinco anos! Nossa Docinho! Como você é curiosa!
- Desculpe, sou mesmo! E o que é que eu vou ter que fazer agora?
- A gente vai tirar umas fotos! Eu vou te apresentar o camarim e o seu figurino! E vamos ensaiar a coreografia!
- Tirar fotos?
- Para a publicidade! Precisamos promover a sua estréia gata!
- Não! Por favor! Eu não posso aparecer! Se o meu marido souber que eu arrumei esse emprego! Capaz de ele me matar!
- E que desculpas vai dar para ele para poder se ausentar tanto tempo?
- Vou dizer que preciso cuidar da minha mãe. Ela está muito doente e na idade em que chegou, é perigoso que fique isolada em um apartamento, sozinha. Será que vai funcionar?
- Se não,  Eu tenho certeza de que depois dessa noite, você vai dar um jeitinho...
Elas riram.
- Quem sabe.
Divertidas e ainda conversando, foram para o camarim. Pantera apresentou MEL para as outras colegas. Eram doze CCB girls.
BABI, LEONA, RUBI, CALISTA, ESMERALDA, DESIDÉRIA, FLOR DE LIZ, COLEGIAL, FRANFRAN, PITANGA, MORANGUINHO, PANTERA e agora MEL, para completar o time desfalcado por BOMBOMZINHO.
Ao final do ensaio, pantera suava e se abanava com uma revista. Estava corada e arfando. A coreografia erótica que MEL executara fez subir a temperatura que já estava a 30ºgraus. Encharcada de suor, Melissa  desabou sob as escadas do palco e despejou todo o conteúdo da garrafinha de água  sob si. Não resolveria, mas ajudaria para que o calor diminuísse um pouco.
- Menina! Arrasou! Eu não posso nem imaginar o estrago que vai causar quando tirar aquele micro biquíni. Vou te falar uma coisa , com todo o respeito.
- O que é?
- Ah se eu fosse homem... Você não me escapava! Você é um pecado,morena!
- Pára com isso! Por favor! Eu não acho que estou com essa bola toda.
MEL sorriu constrangida. As lembranças daquele primeiro dia não saiam de sua cabeça. A estréia da moça fez com que o caliente corpus bar atraísse milionários egocêntricos que pagavam rios de dinheiro apenas por uma apresentação sua. Apresentação essa que era a mais esperada da noite. MEL era a ultima a subir no palco. Era tão desejada E seu corpo tão cultuado , assim como sua dança erótica , a mais apelativa de todas que em uma noite inacreditavelmente MEL provocou três infartos.
Ninguém até aquele dia havia esquecido a sua estréia. MEL subiu no ccb e explodiu deliciosamente feito um vulcão para o delírio de todos. E era por isso que ela se envergonhava pelo que fizera no palco na noite anterior.
Pela primeira vez insegura, entrou na boate. Ás cinco da tarde, ela não se parecia em nada com o ccb glamuroso em que se transformava. As paredes eram todas forradas por espelhos, o globo girava freneticamente as suas luzes, contagiando a todos. As caixas de som de ultima geração enchiam o ambiente com musica apropriada para o local. As mesas começavam a lotar. Apesar do glamour, o local não deixava de ser pesado. Tirava toda a energia de suas dançarinas. Mas MEL tentava esquecer os perrengues que passava ali, atraída pelo dinheiro. Ela ganhava cerca de três mil reais por semana.
se preparava para ensaiar. Pegara o costume de se sentar no bar assim que chegava. Naquele exato momento era vitima do olhar Do barman.
- E então, como vai ?
- Escuta, eu já te pedi, por favor, para não me dirigir a palavra.
- Por que você me odeia tanto?
- Eu não gosto de mulheres como você. Odeio as vagabundas do caliente  corpus bar.
- Você não tem o direito de me ofender desse jeito.
- Que nome eu tenho que dar para uma pessoa que faz o que você faz em cima do palco e passa as noites na cama do chefe para ganhar mais dinheiro? Santa?
- Eu não sou prostituta!
- Estou sabendo! E eu sou o papa.
Mel estava profundamente magoada. Encontrava-se a beira das lagrimas quando pantera chegou.
- Atrasada!
- Demais!
- O chefe quer te ver!
- Será que ainda não recebi castigo suficiente?
- O que ele fez?
- Me bateu.
Eram duas horas da manhã. Morto de calor, Carlos desceu para tomar uma água e ao passar pela sala, começou a ouvir tosses. Acendeu a luz. Era o avô, deitado no sofá. Sentou-se ao lado dele.
- Vôzinho, o que aconteceu? Não conseguiu pegar no sono? Não é bom para o senhor ficar acordado até essa hora.
- Como é que eu vou dormir filho? O vô está muito preocupado com você. Conseguiu o emprego?
- Eu já te disse que não precisa ficar com isso na cabeça! Eu vou resolver!
Carinhosamente ele beijou o rosto já castigado pelas rugas, mas que com 87 anos ainda conservava belos traços.
- Bom garoto! Confio no Carlão, velho de guerra! Durão como o vovô.
- Valeu! É assim que se fala. Eu não vou deixar vocês na mão. Vai dar tudo certo. Pode ter certeza disso. E a gente vai fazer um churrasco daqueles quando eu conseguir um trabalho novo. Que tal?
- Aí falou bonito!
Carlos riu.
- O que o senhor acha de subir agora, hein? Vai deixar a vovó sozinha naquele quarto enorme, tadinha?
Ao ouvir aquelas palavras, senhor Albério, numa agilidade que deixou o neto de boca aberta, pulou do sofá e calçou os chinelos, rumando com pressa para o andar de cima.
- Boa noite filho.
- Boa noite! Cuidado para não escorregar, vai devagar.
E ria vendo o bom velhinho desaparecer. O riso sumiu. Precisava encontrar um emprego com urgência. As coisas estavam começando a se complicar. Sua mãe não falava mais com ele. Achava que o filho se acomodara. Não era verdade. A diretora do sobrinho já cobrara dele a mensalidade da escola pela segunda vez. Carlos, constrangido, pedira que ela esperasse mais um pouco. Completando a situação , os remédios de pressão da avó estavam terminando , era caro, ele não tinha como comprar e a senhora não podia ficar um dia sequer sem eles. O azar era tanto e não tinha fim. Carlos foi  acusado de vender drogas na porta da danceteria onde trabalhava. Só não foi preso porque o  policial que ficou encarregado da ocorrência sabia muito bem quem era. Mesmo tendo ciência de que deveria separar o trabalho do pessoal, não permitiu que Carlos fosse autuado. Até o momento ele não sabia como a droga fora plantada no seu bolso. Foi a noite mais humilhante da sua vida. De repente viver passara a não ter sentido para Carlos. Amava os avós mais do que tudo.muito mais do que podia mensurar e eles não podiam contar com sua ajuda para nada.Eles que sempre o fizeram. Tinha vergonha. Angustiado, começou a chorar. O relacionamento com os pais era distante. A irmã só se aproximava dele por interesse. Senhor Albério e dona Alaor eram os mais afetuosos. O amavam realmente. Carlos podia sentir.
O CCB fervia. MEL estava esgotada e prestes a viver mais uma noite cheia de surpresas, mas nenhuma delas seria tão grande quanto a que teria no dia seguinte. MEL se tornava cada vez mais requisitada pelos clientes do CCB e com isso conseguira algumas inimizades.
Subiu no palco. Faria uma apresentação de 15 minutos e pretendia que superasse todas as outras em sua perfeição e principalmente a última. A casa estava lotada. MEL nunca a vira tão cheia. Todas as mesas estavam ocupadas. O barman tinha seu dia de garçom, juntamente com pantera, esmeralda e pitanga, serviam coquetéis e vodka. Surreal mas MEL conseguira enxergar algumas mulheres entre os freqüentadores que sempre fora masculino em sua totalidade. Era engraçado. Ao subir as escadas, se esqueceu de todo o cansaço e a excitação veio logo a dominando por completo. Estava ansiosa por fazer aquele show. As luzes se apagaram, as cortinas se fecharam e MEL, perita, assim que ouviu o som da musica subir, virou de costas para  o público. Aos aplausos, Soltou os cabelos castanhos e cacheados jogando-o sobre os ombros. Começaria sua apresentação assim. De costas, rebolava sensualmente, em ritmo lento, ao som da melodia. Quando a mesma começava a esquentar a dançarina virou-se e todos foram ao delírio. MEL, excitada, abriu de uma só vez o velcro que colava a roupa especial ao corpo e  maliciosa, em seguida tornou a fechar para deslizar as mãos em suas próprias coxas e acaricia-las suavemente. Com a sua performance , conseguia arrancar as mais diversas exclamações.A maioria clamava para que ela se desnudasse logo.Mel pouquíssimas vezes olhava para o publico e percebeu que um expectador em especial  ........ O chefe a olhava como se a estivesse possuindo. MEL sabia o que ele faria mais tarde e isso a inspirou. Gostaria mas não conseguia se livrar do magnetismo daquele homem. Seu chefe. Seu amante. Quanto mais se lembrava do que faziam na cama, mais se sentia empurrada para os braços dele. Quanto mais ele dominava, quanto mais vociferava, mais gostava e mais queria. Precisava se livrar disso o quanto antes. Ou sofreria muito mais. Nas mãos de Jésus. Arriscou-se a atravessar a passarela e dançar no meio de alguns clientes. Geralmente, os homens mais velhos eram os mais afoitos e naquela noite, muitos não se contentaram em apenas olhar. MEL, ao abaixar-se em sua performance, teve varias partes do corpo acariciadas , principalmente os seios. Ela sorria sedutora, instigando o público. Novamente deu uma olhadinha para o chefe. RAUL estava vermelho feito pimenta.
Se não fosse ela a stripper que mais lhe rendia, MEL jamais subiria no palco novamente. O problema era que ela não lhe pertencia. Sentia como se aquela morena tivesse nascido apenas para ser  dele. Apaixonara-se como um burro. Estava literalmente de quatro. Suando em bicas o chefe desabotoou a camisa e se livrou da gravata. Ela lhe jogou um beijo. Com a ajuda de seu quadril, desenhou um Oito no chão e alguns aproveitaram o movimento para colocarem notas em sua calcinha. Quando ela sentiu que a peça estava para ser puxada, levantou-se com perícia em movimentos sensuais e continuou performando no palco. Ameaçou tirar a sandália de salto alto e muito fino. Não o fez, todos novamente deliraram. Por fim tirou a roupa, alguns minutos depois, toda molhada, MEL desceu até o chefe que a esperava com um roupão. Tratamento vip.
 Pela primeira vez desde que entrara no CCB, MEL viu uma briga. O lugar que a as levava ao camarim ficou lotado, impossível de passar. Então o chefe a conduziu a passos largos pela frente do palco. Até que alguém os deteu.
- E aí gatinha? Me diz o quanto você quer para  continuar esse showzinho só para mim , em particular , em um quartinho fechado.
O chefe respondeu por ela.
- Minha dançarina não está disponível para esse tipo de serviço. Se desejar, combine com as minhas outras garotas. Tenho certeza de que vai adorar. Com licença.
E apressado, ao invés de deixar que MEL fosse para o camarim, levou-a para o seu quarto.
- Não posso ficar aqui. Desculpe-me, eu vou embora.
- Onde pensa que vai?
- Eu preciso sair. Decidi que não vou mais trair meu marido.
- Seu marido! Acho melhor esquece-lo.
- Não!
- É comigo que você tem que ficar. Sabe que tenho o poder de fazer esse cara rodar com um estalar de dedos, não tem medo?
- Você não faria isso.
- Faria tudo. Tudo o que fosse preciso para ter você só para mim.
- Não pode estar falando sério.
- Guarda bem isso que eu te disse.
Em seguida o chefe fechou a porta. Ela tremeu com a batida.
- Me deixa . Me deixa ir...
MEL pediu , sem sucesso. Raul a aprisionou possessivamente em seus braços e beijou-a. Ela tentava se esquivar.
- Não adianta morena. Não adianta fingir que não me quer. Eu vejo o quanto adora delirar com as minhas caricias.
- Me solta RAUL , eu já pedi.
- E eu já disse que não. Se quiser, pode relutar. É só uma questão de tempo. Sei que daqui a pouquinho... Vamos estar ali, gemendo juntos, não é verdade?
O chefe apontou para cama.
- Não.
MEL negou com um soluço preso na garganta. Novamente sua boca foi tomada e ele só parou de beijá-la quando conseguiu que seu protesto se transformasse em gemidos de prazer e quando MEL, rendida, por fim  Pediu mais. Eram seis horas da manhã quando ele finalmente abriu a porta. MEL sabia que agora a sua vida estava arruinada. Ela sofria com esse pressentimento. Pressentimento que se concretizaria assim que ela olhasse para Jésus. Eram quatro horas da tarde quando o mesmo lhe dirigiu a palavra.
- Então você passou a noite na casa da mamãe, não é?
- Jésus, me desculpe, ela estava agitada, não deixou que eu pregasse o olho a madrugada inteira e não pude te ligar, avisando.
- Mentirosa!
Vociferou  para em seguida esbofetear o rosto de porcelana , deixando a fúria gravada na forma de cinco dedos . O corpo delicado foi parar no chão tão grande a força do tapa.
- Querido o que é isso?
- Não abre essa boca suja para falar comigo. Eu descobri.
- Sobre o que está dizendo?
- Você é uma dançarina de boate, ordinária! Já sei que você vende seu corpo para outros homens.
- Me deixa explicar... Está tendo um equivoco.
- Você não vai explicar nada.
- Escuta eu tenho que ir agora, mas quando eu chegar , conversamos melhor. Você tem que me ouvir.
- Não temos nada para conversar. Você vai me pagar. Minha mãe e minhas irmãs estão certas. Sempre estiveram esse tempo todo alias, só eu não quis enxergar que tipinho de mulher era você, mas agora ... Meu DEUS! Como fui burro! Mas vai ter troco. Espera que terá. Essa cachorrada não vai ficar assim.
Jésus não parava de falar. Parecia um louco.
- O que vai fazer?
- Espere e vai ver. Por hora eu quero você longe das minhas vistas! Some antes que eu faça uma loucura. E não volte. Se colocar de novo seus pés aqui, vai arcar com as conseqüências.Providenciarei para que levem todas as roupas para a casa da minha ex-sogrinha.
- Acabou?
- Tudo. Adeus eu e você.
- Eu sinto muito.
MEL não sentia nada. Nunca amara o marido. Casou-se para fugir da rotina e da educação rígida dos pais. Mas fora um erro. Duvidava que um dia chegasse a conhecer o que era amor por um homem.
Quando chegou ao CCB ainda arfava. Pantera estranhou o seu estado.
- O que aconteceu morena? Estava correndo?
- Você não imagina.
- O quê?
- Meu marido. Descobriu que eu sou uma stripper e me expulsou de casa. Disse que vai me matar.
- E agora?
- Eu não tenho medo dele.
- Você o ama?
MEL respondeu movendo negativamente a cabeça. Em seguida dirigiu-se ao barman.
- Mosca. Me dá uma água! Por favor!
Seu pedido foi ignorado. O barman simplesmente virou as costas. Aquela sua hostilidade começava a preocupar a dançarina.
- Esquece  Mel. Vamos até o camarim, escolher o seu figurino para essa noite.
- Depois amiga. Agora eu preciso ver o chefe.
- Ele está apaixonado.
- Por mim?
- Não! Imagina! Por mim! É claro que é por você e sabe disso.
- Eu me envolvi! Não queria! Juro. Acredita em mim? Eu não sei o que aquele homem fez comigo.
- Vocês se enfeitiçaram. Eu nunca vi o chefe desse jeito.
- Ele já te levou para a cama?
- Nunca. Uma estatua e as CCB girls para ele são as mesmas coisas. Ou ainda não percebeu? Nós somos negócios. E você é paixão, é tara... Tudo o mais.
- Eu tenho medo.
O medo era superado pelo desejo, pelas lembranças das noites e principalmente da anterior. Como que puxada por um imã, foi levada até o quarto isolado nos fundos da boate, levada por uma força que ela não saberia explicar. Abriu a porta. RAUL não estava lá. Imediatamente então, seus passos a levaram até a sala administrativa.
O chefe falava ao telefone e ao visualizá-la, Fez sinal para que MEL entrasse. A dançarina fechou a porta e encostou-se nela, observando-o. Ele era cheio de mistérios. Gostaria de saber tudo sobre sua vida. Aquela  figura fazia com que se sentisse muito insegura. Precisava saber se estava lidando apenas com um dono de uma casa de shows e amante apaixonado ou de repente um algo mais. Não sabia o que pensar. E se fosse melhor não descobrir nada? Esperando, ouvia as ordens que o chefe passava para a pessoa do outro lado da linha.
- Espero que tenha registrado tudo o que conversamos anteriormente. O preço não importa! Definitivamente isso não é problema nenhum. Te garanto que não tem com o que se preocupar. Se houver atrasos , irão arcar com as conseqüências. O pagamento vai ser a vista. Tem desconto? Sim. Tudo bem. Aguardo vocês mais tarde.
Desligou pedindo que ela se sentasse.
- Muito ocupado chefe?
- Para você , nunca! O que deseja meu doce?
- Gostaria de saber se tem alguma recomendação ou dica para a minha performance de hoje á noite.
- Não. Confio em você.O palco é seu e tem carta branca para mudar o que quiser. Só faça o que sentir vontade. Mas não precisa se preocupar. Tudo o que fizer será perfeito.
- Você acha?
Mel sorriu lisonjeada.
- Não vai me perguntar se estou com saudades?
A ccb girl corou. A voz do chefe mudou. De profissional, ela passou a uma entonação romântica e muito suave. De repente , ágil circundou a mesa e puxou MEL para junto de seu corpo. Imediatamente , essa lhe enlaçou o seu pescoço.
- Gostaria de acariciar seu rosto.
- Não!
- Pensei que nunca me negaria nada. Se não me engano, achei ter ouvido que estava apaixonado.
MEL cobrou simulando um principio de choro.
- Realmente estou. Por isso , se eu te conceder o que me pede, vou destruir o que sente por mim. O que já é tão frágil por sinal.
- O que sinto por você não tem nada a ver com a aparência. Sabe? É química. Sua imagem não vai influenciar em nada. Quer saber?seja você preto , branco , azul ou até verde... o que realmente vai contar é a pele. Não acha?Por exemplo ,  o que acontece quando a gente se encosta e se toca assim?
Ela demonstrava.
- MEL...
Aquilo lhe soou como uma advertência que foi ignorada.
- Não explode?
Sorrindo sedutora ela olhava as diversas emoções que os olhos do chefe sofria. MEL era capaz de identificar cada uma delas e sabia ser a única responsável pelo que via.
Desejo, fúria, amor, ternura, ansiedade, tara, angústia, esperança...
- MEL!
Exclamou o chefe. MEL interrompeu as caricias e RAUL levou a mão delicada á boca para beijar.
- Tira a máscara para mim. Por favor.
- Não. Ainda não. Peça-me outra coisa. O que mais você quer?
- O que eu quero? Deixa eu te mostrar...
  MEL sentiu que suas mãos deslizavam sobre todo o peito  cabeludo do chefe por debaixo da camisa. Passou a brincar com os mamilos masculinos e ao arranhá-los, pode sentir o quanto o coração batia forte. Sorriu divertida para em seguida, morder seus lábios.
Ansioso por corresponder, Raul deslizou as mãos enormes da cintura delgada para os seios fartos que tanto adorava e foi detido. MEL impediu imediatamente.
- Quer me matar agora morena?
- Fica quieto.
- Não é justo!
Reclamou.
- Cale a boca. Não me aborreça.
MEL determinou. O chefe estava adorando aquele lado de comando da dançarina. Ela tinha a pegada. Seus corpos se encaixavam perfeitamente. MEL  adorava quando os pêlos negros e grossos roçavam em seu braço e a faziam sentir calafrios intensos. em seguida, surgia aquela ânsia que não poderia sentir com mais ninguém.Era muito forte.Quase desesperadora e quando chegava a levava a níveis inimagináveis de tesão. Ainda mais quando o olhar do chefe a queimava como naquele momento. Ter as mãos delicadas acariciando levemente sua terrível cicatriz o surpreendeu e o excitou mais ainda.Sempre que MEL sentia que o chefe estava para dizer alguma coisa , o beijava e quando ele tencionava corresponder , Mel se desvencilhava.  Aquela era a tortura mais deliciosa que ele já vivera até o momento, pois não podia fazer nada. Absolutamente nada. Estava impedido de tocar, de beijar,enquanto a boca suave deslizava pelo seu pescoço , as mãos continuavam a acariciar a cicatriz, a língua quente sugava sua orelha. Usava e abusava.
MEL sentia a respiração do chefe ficar cada vez mais entrecortada e por isso mesmo decidiu intensificar tudo o que fazia. O chefe estava a um passo de perder a cabeça. Ou naquele caso, a uma caricia. De repente, era ele quem estava novamente no controle. E quando RAUL, ainda com seu corpo grudado ao dela, arrastou-se até a cadeira e sentou-se , sentando-a no seu colo e tirando-lhe lentamente a roupa , estava realizando uma fantasia secreta da dançarina.
- Você é o pecado mais delicioso que já cometi até agora na minha vida, sabia? Um pecado que quero continuar praticando. Não importa o preço que eu tenha que pagar. É um pecado que envenena que mata. Um pecado moreno.
O chefe poetizava.
- Raul, eu quero você. Acho que estou me apaixonando.
Declarou trêmula, o rosto afogueado e os olhos brilhando. O coração começou a bater descompassado , num ritmo preocupante.Aquele sentimento pelo chefe não estava nos seus planos. A relação jamais poderia ter saído do profissional. MEL gostaria de ter evitado aquela declaração, mas não conseguiu. Saiu de seus lábios espontaneamente surpreendendo até a si própria. O que faria agora? O que lhe custaria aquela declaração? Olhava para o chefe, completamente zonza.
Pantera foi flagrada por Esmeralda.
- Te peguei Garota. Também posso ver?
- Não tem nada para ver Esmeralda.

Ela tentava dispistar , mas estava aborrecida e não convencia a colega de trabalho.

- E quem está lá? Aquela dançarinazinha de quinta? está ali com o chefe?

Insistiu Esmeralda.

- Já te disse que não tem ninguém nessa sala. E não chama a  Mel assim.

- Se você quiser continuar defendendo aquela lá...

- Aquela lá a qual você se refere é minha melhor amiga.

- Só?

- Escuta aqui , você está começando a me irritar.

- Desculpa , não falo por maldade. É que vocês são tão intimas. Vivem pelos cantos , trocando carinhos... e....

- E?

- Cuidado com o chefe.

- O que quer dizer com isso?

- Chefe pode achar que está querendo roubar o brinquedinho dele e torcer seu pescoço.

- Vê lá como fala sua garota idiota.

- Quanta ingratidão. Estou preocupada com você.

- Não há motivos.

- Então, não tem ninguém aí mesmo?

 - Não. Vim trocar uma idéia com o chefe e quando cheguei aqui a sala estava trancada.

- Mas Você olhava tão interessada!

- Tentava ver se ele estava lá mas não tem ninguém. Está vazia.

- E vem cá, o que vai fazer agora ?

- Nada.

- Então me acompanha até o palco. Estou precisando de ajuda com a coreografia. 

- Está bem mas é melhor não se acostumar.

MEL e RAUL, gemidos sincronizados traduziam a urgência que era saciada em partes por beijos cada vez mais famintos sem imaginarem que tinham telespectadores. Pantera assistia ao desempenho sexual nos mínimos detalhes por uma fresta da porta. Do ângulo onde estavam não era possível que a vissem e ela podia ouvir MEL falar aos sussurros.
- Santo Deus! não vou aguentar tanto calor! estou derretendo.
Em seu desejo delirante, MEL visualizava as paredes do escritório do chefe serem consumidas por labaredas de fogo.
- Acho que posso resolver seu problema.
- Mesmo?
Quando o chefe se afastou , a ccb girl sentou-se em sua mesa. Não conseguia tirar as vistas de cima daquela figura máscula por um só segundo , mas muito melhor do que olhar , era tocar. Arranhar o peito cabeludo como uma gata selvagem, explorar sem pressa o centro de todo o poder do chefe que a levava aos céus , do jeito que ele gostava. Ao aproximar-se novamente , RAUL beijou toda a coxa até o tornozelo.
Pantera estava com a respiração em suspenso.
MEL tinha o corpo escultural nu e totalmente entregue. O chefe beijava a barriga cheia de Tônus e gominhos. Os quais pantera só vira assim em um homem. Estava impressionada.
- O que é isso?
Mel perguntou sorrindo dengosa.
- Gelo.
- Mas para quê?
- Você não disse que estava quente?
- RAUL , você não vai fazer isso!
Exclamou gemendo em antecipação.
- E por que não?
Mordia o queixo da dançarina e a parte inferior dos lábios.
- O que faz para me enlouquecer desse jeito? Você é um bruxo.
Melissa Travos era a mulher que todos queriam, mas que apenas o chefe tinha o prazer de ver deliciosamente rendida nos seus braços.
Pantera sabia que MEL exalava sensualidade e sexualidade por todos os poros, mesmo nos momentos em que mais se parecia com um bebezinho, mas o que via...
MELISSA suspirava em expectativa.
Virando a ccb girl de costas sobre a mesa, o chefe segurou sua cintura com uma mão. Com a outra, deslizava o gelo sobre a nuca feminina, substituindo por vezes, o mesmo por sua língua. Repetiu o procedimento por toda a espinha de MEL. Parou no cóx.
A sensação gelada percorrendo seu corpo , misturada com o calor da respiração do homem que a tocava , deixava a dançarina eletrizada.
- Que delicia essa pele!  Parece veludo! Tudo o que eu toco é delicioso.
Pantera estava com a garganta seca. As lágrimas queimavam o rosto... A vergonha queimava a alma. Precisava sair dali o quanto antes. Não sabia o que a levara até aquela sala. Sabia que os dois estavam ali. MEL e RAUL estavam novamente frente a frente. A dançarina se agarrava a ele. Pantera tentou evitar um soluço, o chefe derreteu praticamente todo o gelo no centro da feminilidade da ccb girl, fazendo-a chorar de prazer. Saiu correndo dali, cuidando para que não ouvissem um passo seu.
Agora estavam na cama. Como haviam chegado ao quarto do chefe? MEL não se lembrava.
- Foi incrível.
Declarou a dançarina ainda acariciando-o e deixando que o chefe a aconchegasse mais em seus braços.
- Você é incrível!
Raul enfatizou.
- Agora só falta uma coisa.
- O que seria?
Perguntou o chefe.
- Isso.
MEL respondeu removendo sua máscara lentamente. Dessa vez ele não impediu. Deixou que a dançarina visse seu rosto. Não ter visto o choque que esperava ver nos olhos adorados o surpreendeu. Mel ficou olhando-o em silêncio, acariciando e beijando a face do chefe que via pela primeira vez, sem se importar com as queimaduras que desfigurava boa parte de sua aparência. O tempo passou voando. Não poderia ficar nem mais um minuto naquele quarto ou senão, adeus apresentação. Mesmo se conseguisse acertar os novos passos da coreografia e decorar o ritmo da música, a ccb girl não via expectativas para aquela noite. Estava morta de cansada, com muito calor e seu corpo todo mole. Tão grande era o seu cansaço que muito tempo se passou até que ela percebesse que pantera estava sentada do seu lado, no bar.
- Que tal um cafezinho para despertar?
- Não gosto de café.
Fez-se um breve silencio. Pantera acariciava os cabelos castanhos da colega. Brincava enroscando os dedos em alguns cachos, provocando sorrisos .
- Agora eu sei por que ele ficou louco por você.
- Sobre o que está falando?
- Tem certeza que não sabe?
- Absoluta.
- Esquece. Por que não fica essa noite depois do show?
- Eu adoraria. Afinal de contas agora sou uma mulher livre. Pela primeira vez na vida vou poder fazer o que sempre quis e ninguém vai me impedir. Não é demais?
Pantera compartilhava da felicidade de MEL.
Raul fez uma surpresa para as dançarinas do caliente corpus bar ao aparecer no camarim. Melissa olhava para ele temerosa e ansiosa. O chefe voltou a colocar a máscara e parecia não estar de bom humor.
Se vestir sob a analise daquele olhar duro e pavoroso fazia com que o nervosismo que dominava todas as meninas antes da apresentação, aumentasse ainda mais. Inclusive o de MEL.
- Babi.
- Sim senhor, chefe.
- Faltam apenas dois minutos para você subir no palco.
- Estou quase pronta.
Ele circulava pelo local com passos firmes, atento a todos os movimentos. Não dirigiu uma palavra sequer á dançarina que transformara em amante. E ela esperava ansiosamente apenas por um olhar.
As suas mãos enormes espalhavam óleo nas coxas grossas de Desidéria. Ordenou que Flor de Liz trocasse a lingerie com que se apresentaria.
- Pantera.
- Pois não.
- Gostaria que não usasse nada nos pés hoje. Suba no palco descalça. Eu vou adorar. Nossos clientes também.
- Mais alguma coisa?
- Sim. Coloque uma peça masculina no figurino. Muitos homens têm esse fetiche.
- Mas que peça?
- Te empresto a minha gravata. Tudo certo com a sua coreografia?
- Perfeito.
- FRAFRAN.
- Pois não, chefe.
- Precisa caprichar mais nesse bronzeado.
- Pode deixar.
- Pitanga.
- Sim?
- O que significa essa gordurinha localizada? Como pôde deixar que isso acontecesse? Você sabe muito bem como deve ser esse corpo como uma dançarina do CCB
_ Exagerei na pizza! Me desculpa chefe.
- Você vai ter que dormir na academia. Entendeu?
- Não acha que está pegando muito pesado?
- Eu não quero perder clientes. É o que vai acontecer se não reparar essa sua forma já. Não tem quem goste de dançarinas gordas.
- Tudo bem Chefe.
- Trate de fechar essa boca. Babi, você pode ir.
O camarim começava a ficar vazio. MEL também começava a se afastar quando o chefe a segurou pelo braço. Tirou a máscara e a puxou para o seu corpo. Não precisaram dizer nada, apenas se beijaram. Beijaram-se longa e apaixonadamente.
- Se eu soubesse que seria assim, não tinha resistido tanto. Como eu fui burra meu DEUS!
O chefe a convidou para tomar um drinque antes dela se apresentar. Não foi uma boa idéia. Estava muito difícil para o dono da casa de shows driblar o assédio em cima da dançarina. Temia inclusive pela segurança da moça. Angustiado ele tentava protegê-la de um ataque. Levou a garota para um local isolado, onde teriam mais privacidade.
- Por que  a minha morena está tão calada?
- Eu não estou com um bom pressentimento. Tenho sentido arrepios estranhos no corpo como um sinal de aviso, eu acho.
- Relaxa! Não deve ser nada. Acredita em mim.
- Tomara que esteja certo.
- Toma seu coquetel.
- Está uma delicia você pode assumir o lugar do barman.
- Só pode estar brincando comigo, não é morena?
- Por que estaria? Falo sério.
Enfim, MELISSA TRAVOS conseguiu se distrair. Nada lhe fazia tão bem quanto à mão enorme acariciando os braços delicados. Quando o chefe a tocava ela não resistia. Tinha que pedir um beijo e ele atendia.
- Mel, vamos até o meu escritório. Quero lhe dar outra coisa.
E a puxou pela mão. Chegando lá pediu que ela se sentasse na cadeira. Todas as lembranças da tarde que viveram voltaram na mente da ccb girl.
- O que tem para me dar essa vez, hein chefinho?
Perguntou brincando curiosa.
Raul sacou de uma arma.
- É sua.
- Uma arma? Para mim?
- Estou com a impressão de que vai precisar usar logo.
As mãos trêmulas, deixaram que o revolver caísse no chão e uma bala disparou. MEL gritou e atirou-se nos braços do chefe.
- Eu não sei atirar. Nunca seria capaz de ferir alguém.
- Meu MEL, é para que se proteja! Você não está em condições de recusar. Viu  o que te aconteceu agora a pouco?
- Mesmo assim...
- Sei que está nervosa agora, pensa um pouco. Eu vou guardar na gaveta. Caso mude de idéia, é só pegar. Vamos?
- Vamos.
Acompanhou-o obediente.
Finalmente chegou a vez de MELISSA subir no palco. Naquela noite ela preparara uma performance na gaiola , que por sinal não era a sua favorita mas deu tudo o de si. Vestida com um biquíni cor de rosa,com seus cabelos Soltos ,Segurou na grade. descendo até o chão ela subiu novamente, rebolando. Passou as mãos pelos cabelos e deu uma voltinha. Atravessou lentamente uma perna pela grade e abraçou a barra de ferro com a mesma, acariciando-a com suavidade e lentidão tirou a sua liga e jogou para o público. Ao avistar o dono do calient corpus bar, piscou. Ele correspondeu e ela o chamou com um gesto sexy. Todos gritavam e aplaudiam. O chefe, nervoso, balançou a cabeça e suspirando profundamente, acendeu um cigarro. MEL novamente o chamou. Caso o chefe não aceitasse participar da performance da dançarina , havia quem gostaria de substituí-lo. Quando MELISSA  repetiu o gesto pela terceira vez, RAUL resolveu atende-la. Ao aproximar-se, o chefe recebeu um doce sorriso, foi puxado pela gravata e teve um beijo leve roubado. Em seguida, MEL segurou as mãos enormes na sua, conduzindo as do chefe até a alça da calcinha, fazendo com que ele a abaixasse. RAU obedeceu de pronto. Quando estava prestes a tirar a parte de baixo do biquíni, MEL sinalizou um tchauzinho e tirando a parte de cima, jogou para o publico  deixando  a gaiola, terminando assim a sua apresentação. O chefe ficou ali parado olhando a enorme armação vazia, até que a dançarina desse a volta e fosse parar diretamente em seus braços. Escondendo o corpo parcialmente nu com o enorme paletó, não deu para evitar a excitação.
MEL pediu que ele a levasse até o camarim para que pudesse se vestir e foi aí que teve a surpresa. Abriu a porta que antes estava trancada e ao acender as luzes todo o local estava tomado de pétalas de rosas vermelhas, balões em forma de coração, frases românticas grafitadas na parede. Era para ela, tudo para ela. Seu nome estava por todos os lados,  de todas as formas, tamanhos e cores. Os olhos da dançarina brilharam. MEL abraçou o chefe, emocionada. Nunca em toda a sua vida sonhara em receber uma homenagem como aquela. Se quisesse poderia nadar em pétalas de rosas.
- É para mim?
- Claro! Tudo para você. Queria expressar um pouco do que sinto. Espero ter me saído bem, eu acho que os homens não são muito bons nisso. Gostou?
Perguntou inseguro.
- Se gostei? Não, eu não gostei. Eu amei! Obrigada chefe. Obrigada, obrigada.
Feliz como uma criança, pulou em seu colo, fazendo com que aquele homem que inicialmente lhe parecera ter um gelo no coração, soltasse deliciosas e espontâneas gargalhadas. Como prometera a pantera, ficou na boate depois do show. As duas bombavam na pista. MEL se jogava inteira ao som da dança. A noite era dela. As amigas se entreolhavam cúmplices e sorriam. Dançaram juntas. Quadris colados, coxas entrelaçadas se tocavam seguindo o som sensual da música. A mesma com a qual MEL fez sua performance da noite. Sob o efeito de algumas taças de vinho,sussurrava no ouvido de Pantera para que ela se ajoelhasse  sentou-se em uma das pernas da ccb girl e começou a dançar, rebolar e conduzir as mãos da amiga a acariciar a parte mais sexy do seu corpo. Quando saíram da pista, MEL estava encharcada de suor. E um pouco tímida. Lembrar-se-ia de nunca mais beber mais do que uma taça. O vinho a deixava leve. Leve demais.
- Sua bandida! Conseguiu acabar comigo! Olha o que você fez!
Melissa brincou assim que voltaram para a mesa.
- Finalmente resolveu devolver minha morena, hein pantera?
- Mel já te contou a novidade?
- Que novidade?
- Ela e o marido se separaram.
- Estou livre agora.
MEL complementou.
O casal comemorou com um abraço. Assumidos. Assim estavam o chefe e sua dançarina. Assumidos. Pantera sentiu que alguém puxava discretamente pelo braço.
mais tarde , ela encontrou o chefe na porta do banheiro.
- O que está fazendo aqui?
Perguntou espantada. E Raul respondeu com seu costumeiro bom humor, para não dizer o contrario.
- O que te parece? Mudei de sexo e agora só uso o banheiro feminino.
- Foi uma simples pergunta.
- Tudo bem, tudo bem. Tinha um maluco perseguindo a MEL. Ela ficou muito assustada e achei melhor traze-la aqui.
04h30min da manhã, o casal estava na porta do caliente corpus bar, trocando beijos, caricias e recebendo olhares de impaciência do motorista de táxi que o chefe chamou.
- Agora eu vou embora.
MEL disse pela terceira vez, beijando-o de novo.
- Quero te levar para a casa.
- E quebrar suas próprias regras?
- Que regras?
- Disse que não se permitiria qualquer tipo de aproximação ou intimidade com nenhuma das meninas que dançam no caliente corpus bar.
O chefe soltou um sorriso tão sensual e envolvente que quase fez com que ela se derretesse inteira. Ela o abraçou. Era um romance. MEL não tinha mais dúvidas. Estava adorando a novidade.
- Que engraçado! Quem te disse isso? Não me lembro de ter falado nada parecido.
- Vou fingir que acredito.
O motorista do táxi buzinou furiosamente e começou a disparar uma série de impropérios. MEL olhou para o chefe, rindo travessa.
- É melhor ir agora mesmo!
- Ele vai acabar nos matando se eu não entrar nesse táxi agora.
- Não diga isso nem brincando.
De repente o sorriso morreu nos lábios de MEL que sentiu seu corpo ser novamente invadido por arrepios sinistros , eles pareciam anunciar a tragédia que estava prestes a acontecer. Soltou um suspiro angustiado e quando colocou o pé na rua para atravessar e chegar ao táxi, dois motoqueiros apareceram do nada, praticamente voando sobre o asfalto, frearam o veículo rente a seu corpo e apontando uma metralhadora em sua direção,  atiraram. O primeiro tiro acertou seu braço de raspão. Como um relâmpago, RAUL empurrou MELISSA no chão e deitou seu corpo sobre o dela para proteger a dançarina que gritava apavorada enquanto aqueles bandidos descarregavam suas armas. MEL estava sendo vítima de um atentado.
Vinte e cinco minutos depois, a dançarina e o dono da boate se levantaram. MELISSA estava suja, toda arranhada e sangrava. Olhavam em volta.
A rua estava deserta, o silêncio ensurdecedor foi cortado com o choro compulsivo do taxista. Se estavam vivos era por um verdadeiro milagre. Ainda tontos, se aproximaram do carro que tinha o capô e as portas furadas de bala.
O motorista se encontrava no piso do veículo, rezando.
- O senhor, como está?
Questionou o chefe.
- Vivo!
- Peço perdão pelo transtorno. Jamais poderia supor... Diga-me, por favor, em que posso recompensá-lo.
- Eu não quero nada. Só sair daqui. A sua dama vai ter que ir embora a pé. Nunca mais boto os pés neste lugar.
MEL estava em estado de choque. Furioso, algumas horas depois, o chefe observava Pantera fazendo um curativo no braço ferido da amiga.
- Como arde essa droga!
A dançarina esbravejava.
- Dos males o menor MELZINHA.
- Foi o meu marido. Foi ele.
- Como pode ter certeza MEL?
Questionou RAUL.
- Jésus jurou que me mataria.
- Ultimamente você tem sido muito assediada.  Também Pode ser algum cliente enfurecido por ter negado um serviço extra, não?
- Pantera, Me deixa a sós com a minha namorada.
- Namorada?
Repetiu a dançarina, rindo.
- Você não ouviu o que eu pedi?
- Ainda não terminei de cuidar dela.
- Esse curativo está ótimo. Depois ela toma um analgésico. Agora vai.
- Vou até o bar.
A CCB girl levantou-se relutante. MEL olhava para o chefe confusa. Esse  media a sua temperatura.
- Está com febre.
- Raul. Eu não quero morrer. Ele vai tentar de novo.
- Se tentar, vai acabar tendo uma surpresinha.
- O que você vai fazer?
- Não sei ainda.
O chefe a levou para o seu quarto para que descansasse e tão grande era o seu susto, que poucos minutos depois de colocar a cabeça no travesseiro, a dançarina adormeceu.
Carlos, irado, jogou o jornal com força excessiva em cima da mesa. Não encontrara nada nos classificados. Todo dia a cena se repetia. Ele se levantava ás sete, fazia o café e corria para a banca de revistas, comprava o jornal e devorava as páginas em que ofereciam empregos. Por vezes comprava até três exemplares diferentes, na esperança de encontrar uma oportunidade em pelo menos um deles, mas não era isso o que acontecia.
- O que o senhor achou hoje, tio?
Questionou o sobrinho.
- Nada Pedrinho.
Carlos abaixou a cabeça desolado e cobriu o rosto com as duas  mãos.
- Tio, o senhor está muito nervoso. Precisa relaxar.
- Como?
- Por que não dá uma volta essa noite? 
- Ah Cara! Seu tio não está a fim de noitada viu!
- Vai Tio. Se continuar socado dentro de casa , bem capaz de ficar até doente. sai e esfria a cabeça. Entra na minha que vai se dar bem.
-  Até Parece moleque. Agradeço mas Minha prioridade agora é outra, Pedrinho.
- O senhor não pensa em casar? Se não pensa, está mais do que na hora. Já passou dos trinta.
- Casar? E como ia sustentar minha mulher? Onde a gente ia morar?
- Me esqueci desse detalhe.
- Acho que vou seguir seu conselho. Talvez eu dê uma voltinha mais tarde.
-Legal!
MELISSA foi até o palco. Pantera ensaiava. Quando a amiga lhe fez um sinal, ela desligou o som.
- O chefe quer falar com você. Pediu para que não se demorasse, por favor.
- O que ele quer comigo? É melhor eu ir logo. Ele detesta esperar.
- Você pode  avisar que eu vou para a casa? Tenho que dar uma olhadinha na minha mãe. Volto ás seis.
- Pode deixar.
Pantera bateu na porta entreaberta.
- Entra.
- Oi chefe.
- Senta aí pantera.
- Com licença.
Ela o fez.
- Pega um uísque.
- Não obrigada.
- E MEL?
- Foi para a casa. Disse que precisava cuidar da mãe. O senhor precisa de ajuda? Parece preocupado.
- Eu estou, e te chamei para fazer dois pedidos.
- Quais seriam?
- Quero que me ajude a proteger a MEL, pelo menos aqui dentro da boate, até que eu veja o que posso fazer. Conto com você?
- Claro que sim chefinho. O que exatamente quer que eu faça?
O chefe levantou-se, foi até a dançarina e estendeu a arma que antes oferecera a MELISSA.
- Se alguém se aproximar, usa isso.
- E eu posso atirar?
Pantera perguntou empolgada.
- Se tocarem nela, pode apertar o gatilho, sem dó. Assim que terminar seu show, você desce e quando a MELISSA subir, você se senta na frente do palco. Preciso que fique atenta a todos os movimentos. Eu não quero nenhuma baixa na minha equipe. MEL está jurada e o corno do marido dela não está para brincadeira. Deixou isso bem claro quando mandou aqueles caras executarem o serviço.
- Depois do que eu ouvi aquela madrugada , e pelo que MEL me contou , tenho certeza de que ele não vai sossegar enquanto não vê-la morta.
- Vira essa boca para lá.
- O senhor a ama, chefe?
- Me apaixonei, e acho que isso está virando amor. Por isso eu quero que se afaste dela.
- Por quê?
- Você está secando demais a minha garota e se continuar, isso não vai acabar bem.
- Ela não é a sua garota e eu não vou abrir mão da companhia dela. Estão apenas tendo um caso. Tenho certeza de que não vai passar disso chefe. A MEL ama  liberdade. Ela não conseguiria viver presa a alguém.
- Como se atreve menina?
O chefe trovejou e as mãos enormes apertaram o pescoço delicado. Pantera começou a debater-se.
- Chefinho... Me solta.
- Se afasta da MEL.
- Não.
Ele a soltou e com tanta violência que a CCB girl caiu da cadeira e foi parar no chão. Com ar desafiador, ela se levantou. O chefe tinha a mão erguida, ameaçava esbofeteá-la.
- Qual é a sua?
- Como assim?
- Eu te vi espiando aquele dia que eu fiz amor com a MEL aqui, nessa sala.
- O senhor me viu? Como? Estavam tão envolvidos que eu pensei...
- Pensou errado. O que você queria?
- Calma chefe. Não dá para passar uma borracha nesse assunto?
- Eu gostaria, mas não dá. Você invadiu a minha privacidade. Ultrapassou os limites que eu impus. Acha que vai ficar impune?
- O que vai fazer comigo?
- Se abrir o bico eu não faço nada. Me diz pelo amor de Deus ! O que deu nessa sua cabeça? Ficou louca?
- Se prefere pensar assim tudo bem, mas eu não vou dizer.
- Não brinca comigo!
- Eu não estou brincando. Quero esquecer aquela tarde. Se o senhor puder colaborar...
- Isso é um absurdo. Que tal assim? Você me faz um strip-tease particular e a MEL não fica sabendo do que aconteceu. Ela ia se aborrecer bastante. O que me diz?
- Chefe, como o senhor tem coragem de me pedir uma coisa dessas? Eu jamais ficaria nua na sua frente.
- Deixa de recato. Quantas vezes não te vi nua? Se esqueceu que eu sou o dono desse buraco? Se esqueceu de que tira a roupa toda a noite para muito mais do que 500 homens?
- É diferente, por favor.
- Amanhã, lá pela madrugada passa aqui. Duas horas está bem para você? Mel nunca fica na boate depois do show. Passa no meu quarto.
O chefe insistia.
Pantera pegou a arma e saiu correndo deixando o chefe ainda mais irado. Ele esmurrava a mesa e derrubava cadeiras, tamanha a sua fúria.
Algumas horas depois MEL chegou ao CCB sorrindo. Acenava para RUBI, BABI e FRAFRAN que saiam na porta.
- Já vão passear meninas?
Questionou bem humorada.
- O chefe pediu para a gente comprar umas guloseimas para ele.
Respondeu FRAFRAN.
- Que tipo de guloseimas?
MEL não hesitou em perguntar.
- Ele quer Capuccino, um pedaço de torta de nozes e bombons.
- O chefe nunca sai?
- Eu nunca vi.
- Eu também não.
- E vocês todas precisam ir? Por que não vai só uma?
- Está com ciúmes MEL?
Babi questionou agressiva.
- Estou. Algum problema?
- Não tem nenhum problema MEL. É que a maioria das meninas não gosta de você.
- Mas eu nunca fiz nada!
- É que você é a única aqui que faria a Angelina jolie querer nascer de novo se a visse. Só para ter a sua beleza.
- Não é assim.
MEL protestou constrangida.
- Elas sentem inveja. Queriam ter a sua beleza e o sucesso que fez aqui.
- Está nos atrasando MEL, não podemos continuar paradas aqui.
Babi puxou as amigas pelo braço e FRAFRAN olhou para a CCB girl, como que se desculpando.
MEL ficou por um bom tempo com aquela conversa na cabeça.
Carlos sentiu que era alvo dos comentários assim que pisou na boate. Aquela blusa  e calça brim, ambas as peças azul escuro, eram muito caretas para ocasião. A balada pedia jeans e camiseta, mas ele não fazia questão de seguir os padrões e não se importava que falassem ás suas costas como naquele momento.
Champanhe estourava no camarim. Naquela noite fazia um mês que MEL passara a integrar o corpo de dançarinas do CCB. Nada a faria imaginar que ocuparia além do palco, um lugar na cama do dono do estabelecimento. Sorria.
- Amiga, você tem que arrasar hoje. Mais do que nunca.
- Isso é comigo mesma.
Os beijos trocados entre ela e o chefe eram calientes como aquele bar e incomodavam as meninas.
Quanto mais a dançarina percebia o incomodo, mais provocava, despertando a ira das  CCB girls. MELISSA TRAVOS sabia que as colegas odiavam , mas jamais reprimiria sua libido  e deixar de usá-la com um homem como chefe... Nem sonhando, MEL pensava. Arriscou um olhar para as dançarinas e naquele momento identificou cada uma delas que gostaria de estar no seu lugar. As coisas começavam a fugir do seu controle. Ela fez com que  o desejo do chefe subisse feito um foguete e quando ele estava prestes a explodir, a CCB girl puxou pantera pela mão e saiu correndo com ela do camarim.
Sugestiva, MEL sorria para a amiga. As duas se sentaram em uma das mesas.
-  Como você consegue ir para a cama com um mascarado?
- A máscara não atrapalha em nada. E depois, você ainda não sabe, eu vi o rosto dele.
- O chefe te mostrou seu rosto?
Pantera se espantou.
- Que tal a gente tomar alguma coisa?
MEL sugeriu.
Carlos encostou-se no balcão.
- Colega, por favor, me vê uma cervejinha.
Pediu ao barman.
MEL e Pantera aproximaram-se descontraídas. Pantera fez  seu pedido.
- Mosca, descola o de sempre para mim.
Solicitou.
MEL agitava ao som da musica, chamando a atenção de CARLOS que se encantou imediatamente pelo perfume e pelos cachos  dos cabelos.
Ele lhe sorriu e ela correspondeu piscando.
- E você, moça? Não pede nada?
- Vou Dividir com minha amiga.
Respondeu sorrindo.
- Campari.
Observou Carlos, brincando com pantera.
- Você gosta?
- Adoro.
-  Você vem sempre aqui? Nunca tinha te visto.
- Venho pela primeira vez.
- Bem, a gente tem que ir agora. Quem sabe não trombamos mais tarde?
- Tomara.
Gracejou o ex - segurança.
- Como se chama mesmo?
- Carlos.
Eles trocaram beijinhos e um aperto de mão.
- Então Carlos, foi um prazer conhecer você.
- Igualmente.
- Vamos amiga?
- Vamos.
Saíram de mãos dadas. A casa estava lotada. O animador anunciou a primeira apresentação. BABI subiu no palco arrancando aplausos. Os telespectadores se levantaram. BABI vestia um espartilho preto todo bordado de lantejoulas. Calcinha preta, fio dental e cinta-liga. Mas o que mais chamavam a atenção no figurino eram as enormes asas negras que ela tinha aclopada as costas.
Naquela noite eram os idosos que ocupavam a maioria das mesas do caliente corpus bar. Apenas quatro mesas eram ocupadas por homens relativamente jovens. Um em particular chamou a atenção de melissa. A dançarina parou no meio do caminho e ficou dura feito uma estatua. Mal podia acreditar no que via. Mas para o seu desapontamento, não era ilusão. Ele estava ali. O sorriso cínico, terno impecável, cabelos armados com gel, os olhos azuis brilhando muito espertos percorriam todo o ambiente á procura de sua presa e ela era a presa. Lagrimas quentes banhavam seu rosto. A mão que segurava a de Pantera, ficou gelada instantaneamente.
- Amiga, por que parou?
- Meu marido.
- O que tem ele?
- Meu marido está aqui. Não deixa ele me ver !
Pediu Mel desesperada.
- Calma! Mas onde ele está?
- Está ali, sentado na terceira mesa à direita, próxima a janela.
Pantera virou-se a fim de  identificar o expectador indesejado.
- Meu Deus! amiga! Que homem feio!
- Quer fazer o favor de ser discreta e pensar em como vamos sair daqui, ou então ele vai perceber que está olhando?
MELISSA repreendeu a amiga.
- Tudo bem, tudo bem. Não precisa se desesperar, vai dar tudo certo.
- Ah você acha mesmo? Esse monstro veio me matar e estamos aqui, paradas. Como eu vou sair daqui?
A histeria começava a tomar conta da dançarina do caliente corpus bar, sem que ela pudesse evitar .
- Primeiro se acalma. Vamos dar a volta. Passar por ali, olha.
- Minhas pernas.
MEL gemeu.
- O que tem suas pernas?
- Elas não me obedecem.
- Pode parar com isso Mel! Esse seu nervosismo não vai nos levar a lugar algum. Alias, vai sim. Para o buraco. Precisamos sair daqui agora. Ou será que ainda não percebeu que estamos começando a chamar a atenção paradas no meio da pista?
- Culpa sua.
- Culpa minha? Como assim? Está louca?
- Se não tivesse flertado com aquele bonitão, a gente já teria voltado para o camarim a muito tempo.
- Eu não flertei com ele. Conversamos menos de meio segundo. Ah e quer saber?não vai adiantar nada a gente ficar discutindo isso aqui.
Irritou pantera, arrastando mel pelo braço. Ambas só respiraram quando chegaram ao camarim. Foram logo questionadas pelo chefe.
- Alguma coisa errada?
- Não. Tudo sobre controle. Chefe.
Pantera resolveu mentir. MEL foi imediatamente para os braços do dono da casa.
- Vocês duas já deviam estar prontas há muito tempo.
- MEL ainda tem um tempinho chefe. Eu me troco em cinco segundos. Não vamos atrasar nada.
- Assim espero. Babi já está terminando a sua apresentação.
Depois de mais uns beijinhos de amor, MEL não perdeu tempo e foi escolher o figurino. Para ela, era a parte mais difícil. Sempre ficava na dúvida.
BABI continuava a arrasar no palco.
Desabotoava o espartilho lentamente, provocando os telespectadores com o olhar. Deslizando as mãos pelos quadris enquanto se remexia em ritmo suave como o da musica, fingiu que tiraria a calcinha. Voltou-se para a parte de cima e a tirou. Antes de se livrar dela, passou-a sensualmente sobre o corpo e jogou para o publico.
Em seguida, abriu  o zíper lateral  da peça de baixo e depois fez o mesmo com o zíper central. Abriu-o até a metade e tornou a fechar, sempre dançando sensualmente. As palmas eram esfuziantes e ela retribuía aquela gentileza sorrindo, jogando beijinhos e  brincando com algumas partes de seu corpo que ela já desnudara. Preparava-se para encerrar a apresentação. Daria os passos finais. Virou-se de costas, tomando o cuidado para que as asas negras se movimentassem de acordo com o gingado do seu corpo. Rebolava, devagar e depois freneticamente, mas sem ser vulgar. Então, num piscar de olhos, arrancou de uma só vez a calcinha. O CCB em peso gritava. As cortinas se fecharam e ela desceu o palco correndo. Pantera  a esperava com um roupão para que se cobrisse. Babi  desejou boa sorte, rumando para o camarim. Estava super satisfeita com sua performance daquela noite.
MEL ainda tinha as mãos geladas e tremia. Duvidava até que conseguisse se apresentar naquela noite. No camarim, não estava totalmente sozinha. FRANFRAN se aproximou.
- MEL, você pode me emprestar seu rimel? Estou sem.
- Claro que sim FRANFRAN. Está na minha valise. Se conseguir vencer o desafio de encontrar alguma coisa aí dentro, pode usar a vontade.
- Você é muito desorganizada?
- Eu sou. Você já ouviu falar naquela bagunça organizada?Pois é menina! Eu sou capaz de achar uma agulha aí dentro. As mais finas, mas se arrumarem... Aí já era.
Confessou rindo, mais relaxada.
- Eu te entendo. Também era assim.
Faltavam 10 minutos para a apresentação. MEL estava emocionalmente trucidada e para piorar, se enrolou toda na produção do cabelo. Manejava tão mal a   prancha que se queimou por duas vezes. Gemeu alto. Nada dava certo.
- Droga! Mil vezes droga.
- Problemas princesinha?
Ironizou colegial. FRANFRAN a repreendeu com o olhar.
- O que aconteceu MEL?
- Não consigo me acertar com meu cabelo.
- Quer ajuda?
- Agradeceria.
- Se eu fosse você, não usaria isso. Seu cabelo é lindo! Deixa ele assim, cacheado.
FRANFRAN opinava.
- Será?
- Lógico.
- Eu queria fazer alguma coisa diferente nele.
- Faz o seguinte, você não vai colocar aquele arranjo?
- Vou.
- Então, Deixa  natural. Só prende num rabo de cavalo, bem lá no alto. Vai ficar irado. Se quiser eu faço para Você.
- Quero sim.
- Já escolheu a sua roupa?
- Até agora não consegui decidir. Definitivamente, essa não é a minha noite.
Lamentou.
Como em um piscar de olhos, FRANFRAN deixou o cabelo da colega pronto para a apresentação. Em seguida, percorreram todas as araras do camarim, a fim encontrar o figurino perfeito.
- MEL, eu sempre adorei as suas roupas sabia?
- Sério? Eu fico tão insegura em escolher! Vocês são profissionais.
- Essa foi a roupa que eu usei na minha primeira apresentação. Lembro-me como se fosse hoje.
- É linda.
- Nosso manequim tem que estar em dia para entrar em peças tão justas como essa, não é?
- É verdade.
- Por que não veste essa daqui?
FRANFRAN sugeriu, destacando um cabide. Nele, estava pendurada uma peça única.
- Gueixa?
- Eu acho a sua cara. É uma gracinha. Experimenta.
MEL alisava o tecido. Era um vestido oriental. Olhou-se no espelho e depois, para o vestido novamente. Era lindo. Vermelho, todo de seda. corte envelope, broches de flores típicas do Japão adornavam os ombros e as costas. Era estampado por galhos de flores e folhas em tom bege. Para acessório, sandálias orientais, meias e a sombrinha. MEL aprovou sorrindo divertida. O principal era que ele era muito fácil de tirar.
- Acho que essa noite vai ser esse.
- Excelente escolha.
- FRANFRAN, obrigada por ter aceito a minha amizade. Fico feliz que não pense como as outras.
Era chegada à vez de Pantera que deixou o camarim, preocupadíssima com a amiga.
Naquela noite, a CCB girl vestia para se apresentar, um sutiã cor de gelo, rendado. A calcinha compunha o conjunto. Era em formato de asa delta, também na cor gelo e no meio era cheia de lacinhos e tramas cor de rosa. Era por ali que a dançarina a tiraria. Os pés calçavam sandália de salto alto, prateada.
Carlos tentava ver quem estava dançando. Encontrava-se longe do palco e como o público assistia ao show de pé, apesar do seu tamanho, ficou em desvantagem. Isso, até o momento em que a dançarina resolveu performar no meio de todo mundo. A casa quase desabou. Foi aí que ele pôde ver de quem se tratava. Mal coube em si de tanta surpresa. A garota que conheceu quando pedia sua bebida era uma stripper! Nunca conseguiria imaginar. Pantera não tinha características. Nenhuma. A não ser pelo corpo escultural que tinha as curvas e medidas generosas destacadas pela lingerie que usava no momento. Com os cabelos muito pretos, de franginha, estilo channel, abdômen sarado, pernas bem torneadas, apesar de ser linda, não era o tipo de garota que agradava a Carlos, mas ele teve que admitir. Aquela ali roubava o fôlego fácil e tirava qualquer homem do eixo, fosse santo ou não. Assistia atento a apresentação, cada vez mais surpreso com a ousadia e sensualidade. Ela caminhava elegantemente entre as mesas e provocava o publico com sorrisos e executava alguns movimentos de pantera, que aprendera ao fazer tai chi chuan. Aquele era o ponto forte da sua performance daquela noite. De repente parava no meio da pista, ameaçava se despir, mas adiava esse momento. Na verdade pantera queria mesmo era chegar à mesa onde o marido de MEL se sentava. Precisava ver o sujeito de perto para poder saber. MELISSA corria ou não algum perigo? Sabia muito bem captar a energia das pessoas e dependendo dos seus gestos e de seu olhar, quem sabe pantera conseguiria identificar quais eram as suas intenções. Ao passar por CARLOS, sorriu. Ele correspondeu. A casa de show era enorme, pantera não seria louca de percorrê-la por inteiro fazendo a sua performance.
O chefe assistia tudo de camarote e aplaudia entusiasmado. No seu colo estavam as maiores inimigas de MEL. BABI e ESMERALDA. Cada uma sentada em uma perna. Quando conseguiam o mínimo de atenção do chefe, sentiam-se verdadeiras rainhas. Mas para ele, aquilo não significava nada. Absolutamente nada.
Finalmente Pantera chegou á mesa que ficava perto da janela. A mesa onde vira anteriormente o marido de MEL. Para a sua decepção, se encontrava vazia. Onde fora parar aquele homem? Não podia demonstrar toda a sua preocupação, tinha que continuar performando. Será que Jésus já tinha ido embora? Será que desistira de falar com MEL? Ou será que já a encontrara? Não, não acreditava na ultima hipótese. Ou melhor, tinha medo de acreditar. Na mesa onde ele estivera sentado, havia 4 garrafas de uísque vazias. Estremeceu. Esperava o pior. Tinha que alertar mel. Com o coração disparado, continuava dançando. O melhor seria que ele esquecesse a existência de MEL. Promoveria a tranqüilidade de todos. Mas ao se virar, deu de cara com o tal. Que segurava sua cintura e a acariciava lascivamente.
Pantera tentou conter o pavor. MEL não devia estar em seu juízo perfeito quando decidiu trocar alianças com um homem como aquele. Não conseguia encontrar outra explicação.
Jésus tirou  varias notas do bolso e enfiou o volume considerável de dinheiro na alça da calcinha de pantera que rebolou, subiu e desceu bem rente ao corpo dele. Sempre dançando, segurou as mãos enormes e geladas, convidando-o a tirar a parte de cima da lingerie.Jésus não perdeu tempo.
Homem nenhum tirava os olhos. Muito menos Carlos.
Para a surpresa do público, Pantera não estava totalmente nua. O sutiã escondia duas estrelas de metais que cobriam parcialmente os seios e seguras por uma corrente prateada.
De repente uma multidão avançou em sua direção e ela teve que sair correndo. Estava admirada. Aquele tipo de assedio realmente lhe era uma novidade, pois ela não se considerava a CCB girl mais bonita.
Carlos permanecia boquiaberto. Pantera entrou arfando no camarim. Trocou de roupa e tirou a maquiagem. Sem passar pelo salão da casa, bateu na porta da sala do chefe.
RAUL foi ver quem era, mas não a deixou entrar.
- Fala.
- Chefe, por favor, coloca a ESMERALDA para se apresentar no lugar da MEL essa noite!
- Nada disso!
- Chefe!
- Não ouviu o que disse? Eu disse não. Eu vou abrir mão da melhor apresentação da noite? Não posso decepcionar os meus clientes.
- O bem estar dela não conta? Você não disse que a ama?
- O que sinto pela minha morena não é da sua conta.
- Claro que não se interessa! É só sexo.
- Eu acho melhor você calar essa boca e parar de se intrometer antes que eu...
- Antes que o quê? Que me bata? Pode bater! Uma vez mais, uma vez menos... Não faz a menor diferença.
- A MEL já deve estar pronta. Agora vai. Já sabe o que deve fazer.
- Sim senhor. O seu dinheiro.
Pantera tirou da bolsa o maço de todas as notas que recebeu naquela noite.  O chefe sorriu satisfeito. Inesperadamente, deu um beijo em sua testa, e pedindo que se fosse, fechou a porta.
A dançarina seguiu corretamente as ordens do chefe.
Pitanga estava no palco. Pantera sentou-se em uma mesa perto da passarela, de frente para o mesmo. Faltavam poucos minutos para MEL se apresentar, já que o chefe não aceitou que ESMERALDA fizesse dois shows aquela noite. Era uma situação de extrema urgência. Ele bem que poderia abrir mão da rotina. Pelo bem de MEL. Pantera balançou a cabeça, contrariada. De repente percebeu que tinha companhia.
- Oi.
Era Carlos.
- Oi amiguinho! Não vi você se sentar.
- Vim te parabenizar pela performance.
- Muito obrigada, mas hoje não foi a minha melhor noite. Estava nervosa.
- Ainda está.
Pantera sorriu surpresa. Em seguida, soltou um suspiro profundo.
- Um pouquinho.
- Você dança á muito tempo?
- Muito, muito tempo. Desde os meus vinte anos.
- Ah, então não tem tanto tempo assim.
- Imagina! Tem sim. Você é muito simpático Carlos. Não é esse o seu nome?
- Carlos. Exato.
- Se divertindo?
- Ô! Se não! Como há muito tempo não me divertia.
Exclamou.
- Que bom. Seja bem vindo. A nossa casa sempre estará de portas abertas.
- Obrigado. Está cheio hein?
- Bastante. Desde que a MELZINHA veio se apresentar aqui, o caliente corpus bar não é o mesmo!
- MELZINHA!
- MELISSA TRAVOS, dançarina. Eu a chamo carinhosamente assim.
- Sua amiga?
- Sim. A que estava comigo.
- Me lembro.
- A MEL é a melhor! Nunca tinha dançado na vida. Quando subiu naquele palco pela primeira vez conseguiu enfartar três.
- Três homens?Você está brincando comigo?
- Não! É verdade. As meninas ficam loucas de inveja.
- Mas não tem porquê! Achei todas muito bonitas.
- MEL bonita? Mel é um espetáculo, toda fina , sensual, inocente.Ela é diferente.
- Desse jeito está me deixando ainda mais curioso! Não vejo a hora da sua amiga subir naquele palco.
Pantera soltou um sorrisinho rápido e se calou. E foi o silêncio que predominou naquela mesa por pelo menos uns dois minutos. Carlos não entendeu o motivo pela repentina mudança da dançarina que se mostrara tão expansiva até o momento, apesar de ele sentir que ela estava muito nervosa desde que se sentara ali. Até que a moça pediu:
- Carlos.
- Sim?
- Você me faria o favor de pegar uma vodka? Fala com o mosca que eu acerto com ele depois.
- Vou sim. Não demoro.
- Obrigada.
Pantera não podia se envolver tanto naquela conversa tão agradável e esquecer o que estava para fazer sentada ali. Não poderia perder Jésus de vista. Não poderia deixar escapar sequer um passo daquele homem pavoroso. Ele parecia firme em sua pretensão. Ela não sabia qual, mas infelizmente desconfiava. Estava ali para impedir. Olhou discretamente para trás. Se ele a flagrasse olhando, o plano fracassaria. O homem lhe dava arrepios e ânsia de vômito. Aparentemente não representava perigo. O seu porte físico nem se comparava com o do chefe. RAUL era muito mais forte e poderia facilmente vencer uma luta no braço com ex de MEL. Pantera tentou falar para o chefe que o tal se encontrava na boate,  mas ele não quis lhe dar a mínima. Carlos voltou para a mesa, despertando-a de seus devaneios. Ela  pegou a bebida e agradeceu.
- Você não tem problemas com o namorado? Tipo ciúmes.
- Eu não tenho namorado.
- Como é que é?
Pantera sorriu tímida.
- Não tenho namorado.
- Ainda não se apaixonou?
- Me apaixonei, mas estou sozinha e vou permanecer assim por um longo tempo.
- E sua amiga?
- Minha amiga? O que tem ela?
- Demora muito a se apresentar?
- Ela é a ultima. A próxima.
O chefe apareceu de repente, postando-se em uma pilastra de mármore que ficava ao lado do palco. Ele fumava seu costumeiro cigarro. Pantera arriscava pequenas olhadelas. Em uma delas ele acenou. Ela correspondeu com certo desanimo. A figura intrigara Carlos.
- Quem é? Ele não pára de olhar para você.
- Meu chefe! RAUL GULAR. É o dono do CALIENTE  CORPUS BAR.
- Esse cara ganha um dinheirão hein?
- Ganha sim.
- Parece que não gostou de me ver sentado com você.
- Não liga para ele.
- Seu chefe está com ciúmes.
RAUL se aproximou e cumprimentou Carlos com um movimento de cabeça.
- Panterinha, espero que não tenha se esquecido do que eu mandei você fazer.
- Não me esqueci não.
- Quando terminar aqui, vai direto para casa.
- Eu? Claro que não. Vou ficar aqui, quero dançar muito essa noite.
- Não sei onde vai parar com essa rebeldia. Sabe muito bem que não é sensata essa sua atitude, não é?
- Chefe, me deixa conversar em paz com o meu amigo.
As mãos enormes arrancaram o copo de bebida  da  mão da dançarina.
- Não vai beber isso.
- Mas por quê?
- Com licença, vou para a minha sala. Qualquer novidade grita lá. Não esquece.
E tomou sua bebida. Pantera ficou de boca aberta.
- Por que ele te mandou ir para a casa ?
- Não sei! O velho nunca agiu assim.
- Você tem medo dele?
- Um pouco.
- Parece que está em uma missão urgente.
- Estou sim. Se eu falhar...
- Não se preocupe. Eu não vou deixar ele te machucar.
Segurou o queixo feminino suavemente e lhe deu um beijo demorado no rosto.
- Ai que fofo! Obrigada! Você é um anjo. Adorei ter te conhecido, sabia?
- Eu digo o mesmo.
Sorriu sedutor. Segurando a mão de Pantera.
A dançarina estava tão tensa que quando o animador se pronunciou ao microfone, ela levou um susto! O chefe não  deveria ter confiscado a sua bebida.
- Atenção, atenção! Cuecas de plantão! Chegou o momento que todos esperavam. Preparem-se para se esbaldarem com a beleza mais estonteante do CCB. É! Ela vem aí! O pecado moreno! O furacão! Um favo de mel, a mais deliciosa! A sensacional! MEL!
Carlos sorria divertido. Estava mais ansioso do que todos ali para assistir aquela performance. Seu  coração batia disparado. Os olhos não conseguiam mais piscar. Tanto lhe falaram de MEL! Quem era aquela mulher? Devia ser especial. Tinha a devoção da colega de trabalho, a inveja de outras. Era o objeto de desejo de todos aqueles homens que gritavam seu nome, eufóricos. Levava o nome de furacão e pecado moreno, enfartara três homens! Devia ser mesmo muito especial.
As cortinas se fecharam. O ambiente foi envolvido por notas de melodia oriental. Melodia exótica e atraente. Quando de repente as cortinas se abriram, o CALIENT CORPUS BAR quase desabou. Carlos mal podia acreditar no que via. Aquilo era uma visão. Seus olhos não podiam mesmo estar vendo aquilo. Fantástico! No palco, ensaiando os primeiros passos, não estava uma dançarina. Estava uma deusa.
A voz da amiga o tirou do transe.
- Nossa! Ficou uma gracinha de gueixa.
Elogiou com entusiasmo. Carlos concordava. Uma gueixa sem os olhinhos puxados e  de pele morena! Era picante.
- Concordo. Você adora a gueixinha, não é?
- Não! Eu amo. Amo demais.
Como contestar a força daquelas palavras?  Bastava saber que tipo de sentimento era aquele. Suave, inocente e fraternal ou se a dançarina amava a colega de trabalho como provavelmente um homem amava.
Carlos ficou chocado com a possibilidade. Será? Pantera não tinha características de ter aquele tipo de preferência. Era muito feminina. Devia ser mesmo um amor de irmã que ela sentia pela amiga. Mas por enquanto não pensaria mais no assunto. Não perderia sequer um segundo do show. MEL desnorteava, era enlouquecedora. Carlos estava zonzo. De cima do palco ela jogava beijinhos e desenhava corações em sua direção. Será que a dançarina também já se apaixonara? Sorriu feito bobo. Foi aí que se lembrou. Aqueles gestos carinhosos não eram para ele. Estavam direcionados para Pantera. Aí Carlos percebeu que o laço entre as duas eram mais estreito do que imaginava. MEL e PANTERA estavam em sintonia.
Sintonia completa. As dançarinas pareciam estar trocando um código secreto. Código esse que Carlos tentava decifrar, mas estava difícil. MELISSA parecia estar atenta a cada movimento de Pantera, além disso, seguia com perfeição o olhar da amiga. Por onde quer que PANTERA olhasse, MELISSA captava. Ninguém parecia perceber. Elas estavam sendo muito discretas. PATERA virou-se lentamente. Inclinou sua cabeça para trás e balançou os cabelos sensualmente. Eram lindos. MEL piscou. Pantera novamente olhou por trás do ombro, dessa vez sem disfarçar. Seu coração estava para sair pela boca. Jésus se aproximava a passos distraídos. Chegara bem perto do palco. MEL acabava de tirar o vestido oriental vermelho. Carlos se levantou agitado.
A peça que caiu silenciosa no chão do palco foi graciosamente recolhida e atirada ao público.
Carlos tinha a garganta seca. O coração acelerado. Não. Aquela mulher não poderia ser real. O corpo era o mais perfeito que já vira na vida. O abdômen era o que mais o impressionara. O corpo reunia inocência, força e muita sensualidade. A escultura fenomenal era semi-coberta por uma lingerie rendada toda vermelha. O que tornava aquele pecado ainda mais original e quase impossível de não ser  cometido. O animador tinha razão. MEL era um pecado moreno e sarado. Irresistível. Estava encantado, fascinado e hipnotizado pela dançarina que tinha se transformado em uma verdadeira pimentinha no palco. Deixara de lado a personagem de gueixa e assumiu uma personalidade extremamente quente e quase devassa sem ser vulgar. A dança evocava um quarto, uma cama e um casal loucamente apaixonado. Mais precisamente ele e ela.
A performance era perfeita. Então rebolando, MELISSA brincando com as partes mais sensuais de seu corpo,  tirou o sutiã. Foi nessa hora que uma chuva de dinheiro voou sobre o palco. Carlos estava sem fôlego.
- Meu Deus! Que mulher é essa?
Ele não conseguia mais tirar os olhos dos seios fartos. Até que alguma coisa congelou todos os seus movimentos. MEL parou no meio do palco apavorada. Pantera fez um sinal para que ela encerrasse aquela apresentação e então as cortinas se fecharam. Pantera olhou para trás, também apavorada. O ex de MEL cruzava a pista e se aproximava do palco.
- Virgem Maria!
Exclamou Pantera.
- Algum problema?
Preocupou-se Carlos.
- Problema não! Uma catástrofe. Depois eu explico.
Dizendo isso, levantou-se feito um foguete e foi parar embaixo do palco. Procurava por MEL. Debruçou-se sobre o santuário e pôs a chamá-la. MELISSA abriu as cortinas.
- Amiga, ele vai me pegar.
- Não vai. Pode ficar tranqüila. Corre para o camarim.
- Estou cercada. Tem três homens ali atrás, não querem me deixar passar.
- O quê?
- Ele vai me matar.
- Desce .
- Como?
Novamente o pânico tomou conta da dançarina. Será que isso se tornaria uma constante em sua vida?
- Desce.
Pantera levou um susto quando sentiu duas mãos enormes agarrarem seu cabelo. Ela gritou.
- Corre amiga!
Aconselhou MEL.
- Corre você.
Pantera, sem hesitar, atingiu as partes baixas do brutamonte com uma joelhada e foi esbofeteada. Imediatamente, sacou da arma que estava na sua bolsa, impedindo-o de se aproximar de MEL. Ao mesmo tempo, a dançarina foi pega pelas costas. Três homens enormes seguraram-na. Ela se debatia. Carlos voou até o palco e entrou em luta corporal com os meliantes.
MEL já estava abraçada á PANTERA, tremendo inteira.
- Seu amigo! Ele está em perigo.
- Ele vai ficar bem.
O chefe chegou correndo e procurou se certificar de seu estado. Ela garantia estar bem.
- O que aqueles bandidos fizeram com você?
- Nada, eles não fizeram nada. Apertaram meu braço, mas não doeu.
- Tem certeza de que está bem?
MEL suspirou irritada com a insistência. E parecia em choque.
- Chefe! Ela já disse que está bem.
- Eu estou pedindo a sua opinião?
- Não fala assim com ela RAUL.
Protestou MEL.
Carlos que já tinha bravamente se livrado de todos, aproximou-se do pequeno grupo. MEL estava uma pilha de nervos.
- Você está bem moça?
Ela fez apenas um pequeno gesto com a cabeça.
- MEL, vem comigo até a minha sala, vamos meu amor!
Propôs o chefe.
- Não! Eu não vou. Não vou a lugar nenhum com você agora! Quero ficar com a PANTERA. Sozinha com ela.
- Mas o que ela pode fazer?
- Muito mais do que você. Te garanto. Os homens não entendem patavina sobre o que as mulheres precisam.
E saiu puxando a dançarina pela mão. Carlos observava tudo admirado.
Elas se trancaram no camarim vazio.
- Você é a primeira que fala desse jeito com o chefe e sai ilesa.
- Eu não tenho medo dele. E se ele encostar um dedo em mim novamente, eu vou colocar um ponto final no nosso rolo.
- Sinceramente? Acho que vai ser difícil você se livrar do chefe.
- Ele já te bateu?
- Já perdi a conta de quantas vezes.
- Eu odeio homens violentos.
- Não se preocupe mais com ele.
MEL seguiu seu conselho. Elas dividiam um enorme puf que descansava triunfante num canto do camarim. As CCB girls compartilhavam sorrisos.
- Essa foi por pouco! Preciso agradecer o seu amigo. Ele é lindo!
- Ele ficou louco por você.
- Todos os homens, não é miga? Vamos combinar.
PANTERA jogou uma almofada gigante na amiga.
- Você não presta para nada, não é sua cachorra?
- Cachorra?
- Foi mal? Que tal gatinha?
MEL fez careta.
- Melhorou!
Então as duas caíram na risada.
- Viu como sei ser boazinha?
- Quero carinho! Estou muito carente e não tem ninguém que entenda isso. Eu não quero o que o chefe pode me dar. Não quero sexo.
MEL aconchegou-se no colo da CCB girl.
- Mas nosso chefe me proibiu que eu me aproximasse de você.
PANTERA confessou acariciando os cabelos encaracolados.
- O que foi que você disse?
- O que você ouviu.- O Raul não podia ter ido tão longe! Pantera não faça o que ele mandou. Não deixe ele afastar você de mim. Não obedece.
- Não, dessa vez não.
Elas se abraçaram e riram.
- Eu te amo sabia? Você é uma fofa!
MEL declarou.
- Que cara é essa amiga? Pelo que te conheço, você está querendo aprontar alguma travessura.
PANTERA alarmou-se.
- Estou.
- Qual? Pelo amor de DEUS, MEL!
- Eu vou beijar seu amigo.
- O quê? Como?
- Você viu como ele bateu naqueles brutamontes? Que bonitinho! Ele se arriscou para me defender, os homens estavam todos armados.
- Só por isso vai querer beijá-lo.
- Não.
- Mas MEL! É perigoso! Como você pode pensar em uma coisa dessas?
- Homem nenhum merece lealdade PANTERA. Você sabe que eles não prestam.
- Mas não dá para brincar com um como o chefe!
- RAUL me ama! Ele não vai fazer nada.
- Você é louca. Não é? Louca de pedra. Doida varrida!
- Me fala qual é o seu nome!
- MEL! Você já sabe.
- O Raul   PROIBIU. Somos dançarinas dele. Não somos propriedades.
- Mas sabe que ele pensa assim.
- Vai! Me diz seu nome, você sabe o meu! Não é justo!
- Me chamo Paola.- Que lindo! Combina com você.
- Você acha?
- Muito!
- Vamos amiga?
- Vamos.
RAUL apertou afetuosamente a mão daquele que seria o seu futuro rival.
- Muito obrigada rapaz, você salvou a vida da MEL. É a minha melhor dançarina. Essa noite sofreu o seu segundo atentado!
- Estão tentando mata-la?
- O corno do ex-marido descobriu que ela se tornou uma stripper. Agora não sei se ele sabe que a menina está dormindo com o próprio chefe.
Carlos pigarreou surpreso.
- O senhor tem que garantir a segurança dessa moça o mais depressa possível.
- Tem toda a razão. O cara não quer deixar mais a minha dançarina em paz. Desde que descobriu a vida noturna da moça, a sua principal atividade é persegui-la.
- E o senhor já pensou na possibilidade de abrir mão da apresentação dela?
- Nunca!
Declarou isso soltando uma desagradável baforada de fumaça do seu cigarro na cara de Carlos.
- Mesmo ela correndo risco?
- E o que você faz da vida meu rapaz?
- No momento nada, infelizmente. Estou desempregado.
- E trabalhava de quê?
- Era segurança de uma casa noturna.
- Que coincidência. Você alguma vez já fez a segurança pessoal de alguém?
- Não, nunca.
- E teria competência para tal?
- Claro que sim senhor! Com toda a certeza.
- Nesse caso considera-se empregado.
- Como?
Carlos pestanejou.
- Você vai a partir de hoje fazer a segurança pessoal da MEL.
O jovem tentou conter o entusiasmo.
- Com todo o prazer.
- Eu quero que cole nela vinte e quatro horas! Entendido?
- Perfeitamente.
- Passa na minha sala depois para acertarmos o salário. Agora vou procurar a MEL para contar a novidade. Ah e mais uma coisa.
- O que é?
- Sem encostar um dedo nela.
- Pode ficar tranqüilo. Isso não vai acontecer.
Ele prometia algo impossível. Mas o chefe não poderia saber. O mataria. Afinal era um amante apaixonado. Carlos conseguiria passar vinte e quatro horas do dia ao lado de uma mulher como MEL sem tocar aquela pele suave, acariciar o rosto angelical? Conseguiria resistir ao charme e eletricidade daquela pimenta? Conseguiria? Tinha certeza de que não. Agora ele acreditava no ditado popular que sempre criticara. Carlos agora acreditava em amor a primeira vista. E o dele chegou devastando tudo.
Não estava preparado para resistir aos encantos de uma mulher tão única, especial. Jamais imaginou que conheceria uma mulher como aquela.
MELISSA cobriu-se com os lençóis até o queixo. Estava emburrada.
- Meu amor, não é possível que você não queira entender minha decisão e se recusar a aceita-la. É insano.
- Mas eu não quero!
- O que você quer então? Quer morrer menina mimada?
- Não fala assim comigo! Não grita!
- Desculpe, desculpe. É que você me tira do sério. Consegue por acaso imaginar o que seria viver sem você?
- Seria viver como vivia antes de me conhecer.
- Não, não tem mais jeito!
Raul negou veementemente.
- Por quê?
- Vê se consegue adivinhar.
O chefe a beijou sob protesto. MEL socava o peito com força, com os punhos fechados e tentava se livrar dos braços que a apertavam. RAUL adorava. MELISSA ficava ainda mais irresistível quando estava brava. Deliciosa.
- Pode fazer o favor de me soltar agora.
- Você não quer que eu a solte realmente.
Quando a dançarina tentou lhe dar um chute, ele prendeu suas pernas com as dele. MELISSA ficou ainda mais furiosa, porque o chefe ria dela.
- Eu não vou deixar você se divertir ás minhas custas.
Raul permitiu que ela se soltasse. MEL, imediatamente sentou-se na cama e vestiu-se o mais depressa possível, mas Raul a capturou com facilidade e começou a desnudar a dançarina novamente enquanto a derretia pouco a pouco com seus beijos quentes.
- Afinal, por que está assim tão irritadinha?
- Eu não quero perder a minha privacidade. É isso o que vai acontecer se aquele cara ficar colado na minha vinte e quatro horas por dia. Além disso, nem ao menos procurou me consultar. Não gostei. Está na hora de parar de mandar o tempo inteiro nas pessoas e passar a se preocupar com suas vontades e desejos.
O chefe bufou.
- Me beija.
- Não.
Raul deixou desabar sobre a cama, o corpo enorme. Desanimou.
- Estou vendo que essa noite vai ser difícil.
- Se depender de mim, vai sim.
MEL saiu do quarto do chefe sorrindo internamente. Além de a considerarem uma excelente dançarina, ela concluiu que era também uma excelente atriz, pois fez tanto doce com o chefe que ele nem imaginou que não estava furiosa por ele ter contratado o amigo de Pantera como seu segurança e que estava isso sim, era muito, muito excitada.
Sem sono, passou a perambular pelo clube vazio. O chefe dormia profundamente. Se dependesse de RAUL, estaria acordado até àquela hora, usando e abusando do seu corpo como bem queria e como ela mais gostava. só que como ela não deixou que o chefe lhe encostasse um dedo naquela noite, adormecera. O calor forte a deixara extremamente irritada. Não conseguiria ficar naquele quarto. Como não precisava voltar para a casa, levantou-se silenciosamente e saiu. A mãe passaria duas semanas inteiras em um SPA. O irmão mais velho levara. Por nada no mundo deixaria o CCB e ficaria sozinha no apartamento que se situava em uma região muito afastada do centro. Ela costumava dizer, afastado da  civilização. Percorria descalça e com a camisola fina, os salões do CALIENTE  CORPUS BAR. Aprendera a amar aquele lugar. A casa era enorme. Vazia, dava até medo. Estava escuro e banhado em um silêncio assustador. MEL acendeu uma luz e correu para o palco. Começou a dançar imediatamente. Depois, abraçou a si mesma, sorrindo muito. Foi quando virou-se e conseguiu ver , em um canto do clube , um homem alto , vestido formalmente , dormindo sentado em uma cadeira.
Aproximou-se e viu que se tratava do homem que o chefe contratara para ser seu segurança.
Muito divertida, resolveu praticar um pouco mais a veia artística que acabara de descobrir. A de atriz. Gritou assalto.
O homem levantou-se de um pulo, e muito assustado, olhava para todos os lados. MEL quase se derretia, de tanto rir.
- Ah, é você? Pelo amor de DEUS moça! Como pode me pregar uma peça dessas? O que está fazendo acordada até essa hora?
- E você? O que está fazendo dormindo? O seu papel é me defender! E desse jeito, não tem como, não é?
Carlos ria, divertido. Estava encantado. Definitiva e irremediavelmente encantado. Mas como sabia muito bem que isso poderia significar a morte, Guardaria esse sentimento só para si.
- A senhorita não estava precisando de meus serviços. Encontrava-se muito bem protegida que eu sei.
MEL fez uma careta.
- O que quer dizer?
- Você sabe. No quarto do chefe, na cama dele, você não corre nenhum perigo.
- Você sabe que somos amantes?
Carlos agora estava sério. Surpreso. Nunca conhecera uma mulher como MEL. Como ela conseguia ser tão inocente e ao mesmo tempo tão erótica e exuberante?
O segurança estava apaixonado. Tinha certeza absoluta.  Será que MEL era real? Ele tinha a impressão que não.
- Ele fez questão de me explicar e aproveitou para estabelecer umas regrinhas básicas.
- Posso imaginar quais. Desculpe-me, ele te constrangeu?
- Não tem que ligar, eu o entendo. O chefe zela pelo bem mais precioso que encontrou em sua vida. Não o culpo por querer fazê-lo.
Declarou isso analisando todo o rosto de pele suave e aveludada. Ele buscava alguma imperfeição. Em vão. Não encontrara nenhuma. Era realmente perfeita.
Ele adoraria tocar.
- Como é mesmo seu nome?
- CARLO AUGUTO MOURA. E você MELISSA.
- MELISSA TRAVOS.
- Lindo nome.
- Obrigada. CARLOS AUGUSTO combina com você.
- Você acha?
- Sim.
Ela confirmou sorrindo um pouco tímida.
Só para variar, ele ficou de queixo caído. MEL era uma caixinha de surpresas.
- Você dança muito bem.
- Gostou?
- Adorei.
- Muito obrigada! Eu nunca te vi aqui.
- Venho pela primeira vez. Se eu soubesse que logo de cara, arranjaria um emprego, teria vindo antes.
Eles riram.
- Ainda não te agradeci por ter salvado a minha vida.
MEL segurou sua mão. Ficou bem na pontinha do pé e lhe deu um beijo.
O Beijo. A surpresa de CARLOS foi tão grande que ele ficou imóvel, porque era isso que MEL lhe despertava, alem de muita paixão. Surpresas. Mas CARLOS, por nada no mundo ia fazer a indelicadeza de não corresponder a um beijo de uma dama, principalmente um beijo como aquele e principalmente um beijo de uma mulher como aquela. Ela era doce como mel e ele que se derretia inteiro. Não tinha como evitar.
O coração do segurança batia descompassado ao sentir as mãos delicadas explorando todo o peito duro. Deslizando suas mãos enormes pelo corpo delicado, ele gemia mordendo e beijando o pescoço, a boca e o queixo.
- Esse é o agradecimento mais delicioso que eu já ganhei na minha vida.
- Sério?
- Sim.
- Você merece mais.
Depois de muito se beijarem e trocarem carícias, CARLOS a afastou delicadamente.
- Eu sonhei com isso desde quando a vi pela primeira vez, não consigo desejar outra coisa. Só quero isso. Seus beijos, suas carícias.
Declarou ele com voz rouca.
- Então, por que parou?
A dançarina parecia decepcionada.
- Se eu a tiver novamente em meus braços, não largo mais e isso é um perigo. Você sabe muito bem. Por isso precisa voltar imediatamente para o quarto do chefe. Antes que ele se dê conta do que...
Ela o silenciou com um dedo. Ele o beijou.
- Raul está dormindo. Não vai desconfiar que estou aqui.
- MEL. Mesmo assim. Você mais do que ninguém conhece ele. Não dá para arriscar. Eu acabei de ser contratado... Não quero perder esse emprego. Vai, me ouve. Volta para o quarto.
- Vai ficar aqui?
- Vou aproveitar que estão em segurança para  dar um pulinho lá em casa. Pegar algumas coisas. Volto antes que acordem. O chefe me deu ordens para não arredar pé daqui. Vou buscar meu carro.
- Então está bem.
Antes de se afastar por completo, ele lhe deu um beijo rápido, mas esse não se parecia em nada com os  que tinham trocado alguns minutos antes. MEL não gostou , mas procurou não se decepcionar. Pé por pé ,  voltou para o quarto. Deitou-se na cama segundos antes do chefe acordar e enlaçar sua cintura, cobrindo-a logo de beijos. Ela tentou não demonstrar surpresa. Não contava com aquilo.
- Onde estava a minha fujona favorita?
- Como?
- Onde você estava?
A dançarina caprichou no drama.
- Você dormiu  e me deixou jogada nessa cama. Resolvi dar uma volta no salão. Está fazendo muito calor. Não agüentei ficar aqui sozinha e nesse quarto apertado.
- Poxa gatinha, não dá para você perdoar essa minha falta de cavalheirismo?
- Não.
- MEL!
- O que foi?
- E se eu te der um beijinho?
Ela se fingia de brava, magoada e depois, doce.
- Aí sim está perdoado.
Mel gemeu quando sua boca foi tomada pela boca voraz do chefe. O beijo era violento. Não tinha nada de gentil. MEL perdeu o fôlego com aquele contato  que abalou todas as estruturas do CCB e principalmente as dela. Em alguns segundos, a dançarina já sentia em cima de si, todo o peso do corpo do chefe, seu amante.
- Menina!
Quando seus lábios se afastaram ela protestou.
- Não pára Raul! Me beija.
Implorava. A tara de Mel pelo chefe crescia com uma força espantosa, fugindo do seu controle, sem que ela pudesse evitar.
CARLOS chegou em casa e foi muito mal recepcionado pela mãe.
- Custa avisar que vai passar a noite fora? Todos estavam preocupados com você.
                                      Ele a ignorou. - Vô , Vó , pedrinho... O carlão está empregado!                                       O sobrinho imediatamente pulou em cima de Carlos. O avô apertou o peito emocionado e a avó tentava segurar as pontas.- Valeu tio! estava sentindo que hoje seria a sua noite de sorte.- E onde é que você vai trabalhar meu neto! conta para esse velho avô!- ô vô...                                Carlos pigarreou constrangido. Resolveu ocultar certos detalhes. O senhor idoso e de conceitos rigidos jamais permitiria que o neto assumisse um emprego como aquele.- Conheci uma moça... vou prestar a ela meu serviço de segurança. está precisando coitadinha. como está precisando.- Ela é atriz tio?- Famosa pedrinho. ela é famosa.
                                Quando ficaram sozinhos Pedrinho não perdeu tempo.- Tio, me conta essa história direito.- Pedrinho , estou trabalho no caliente corpus bar.- Não brinca! Caraca tio! - Isso não é brincadeira rapaz. Passei por lá para dar uma distraída e uma das dançarinas sofreu um atentado. Fui contratado para fazer a segurança dela. Preciso voltar Pedrinho, o chefe dela me deu ordens para que eu ficasse em vigilancia 24 hs ela está correndo sério risco de vida.- Vai lá Tio. boa sorte.- Valeu.
Eram três horas da tarde no dia seguinte e o chefe continuava com seu costumeiro mau humor, até que MEL aparecesse. Depois de ensaiar horas, a dançarina apareceu no seu escritório.
- Raul.
- Sente-se MEL.
- Não. É que eu gostaria de dar um pulinho lá em casa, minha mãe está chegando e preciso recebê-la. Posso? Prometo voltar antes das seis.
- Claro que sim.  tudo certo com a coreografia?
- Perfeito.
- Pode ir, mas por favor, vê se não demora. Sabe que fico louco de saudades.
- Pode deixar.
Ela riu , beijando o chefe. ainda sorridente , abriu a porta e deu de cara com CARLOS. Levou um susto. Raul elogiou.
- Meus parabéns rapaz! Se continuar seguindo direitinho as minhas ordens, não vai se arrepender , te garanto.
MEL protestou irritada.
- Raul, vocês estão exagerando! Eu não acho que tenha a necessidade desse rapaz ficar me vigiando vinte e quatro horas por dia.
- Ele não está te vigiando meu doce! Está te protegendo.
- Se quer mesmo dar esse emprego a ele, o CARLOS poderia trabalhar só na hora do show. Afinal, não sou nenhuma celebridade.
- Acontece que o maluco do seu ex-marido não está de brincadeira. E depois de ontem , tenho a absoluta certeza de que ele vai intensificar o ataque. Aquele é do tipo corno inconformado.
- RAUL!
- CARLOS, a MELISSA precisa ir até a casa dela, vou chamar um táxi e nem preciso dizer que terá que acompanha-la. Não?
- Não se preocupe chefe. Vou com ela sim, mas não é necessário que chame um táxi. Estou com o meu carro.
- Nesse caso...
- Podemos ir à hora que a senhorita quiser.
- Vamos agora. Não quero me atrasar. Até mais Raul.
- Tchau, minha belezura.
Quando MEL chegou, a mãe já estava lá. Seu irmão, carrancudo, lia jornal sentado em um sofá, ao lado da cadeira de rodas da senhora. Assim que viu a filha, ela estendeu os braços. MEL correu para abraça - lá.
- MEL! Você por aqui!
Recepcionou o irmão com a maior ironia.
- Eu moro aqui, se esqueceu?
- Mora, mas só porque o maridinho não te suportou mais , não é mesmo?
- Cala essa boca!
Olhando para CARLOS, ele perguntou:
- E esse aí? É o seu novo brinquedinho?
CARLOS cerrou os punhos, irritado. Com ganas de dar bons supetões naquele cretino. Mas se controlou.
- É o meu segurança.
ela já se encontrava á beira das lagrimas.
- Onde estava filha?
A mãe questionou por fim.
- Trabalhando mamãe.
- É mentira! Essa imunda trabalha de madrugada! Como stripper!
O irmão voltou a interromper, furioso.
- A  Mel  não! Ela não precisa disso! eu não estou assim tão ruim da cabeça! Minha filha é babá. E ganha muito bem cuidando de crianças.
- Você é babá melzinha?
LEOPOLDO continuava com a ironia.
- Sou sim.
Ela abaixou a cabeça, acuada. O irmão era uma fera.
- E quanto você ganha? Espera. Eu tenho uma amiga, a NORMA , você conhece. Ela é babá. Sabe quanto ela ganha para limpar caca  de pirralho?
- Não fala assim LEOPOLDO!
- Ela ganha...
- 400...
MEL se arrependeu de ter aberto a boca.
- 400 reais dependendo do orçamento da patroa. Como é que a senhora consegue pagar o tratamento da mamãe? Uma caixinha desse remédio aqui... Custa mil. Mil reais.
Balançou com força excessiva o remédio que tirou da bolsa de sua mãe.
A dançarina estava amarela. A mãe começava a tremer. CARLOS tinha que fazer alguma coisa.
A cena era de cortar o coração. A mulher de seus sonhos ajoelhada ao lado da cadeira de rodas da mãe e chorando compulsivamente agora.
- Eu sei. Sou eu que compro.
- Eu sei que compra meu anjo. Quero saber como. Pelo que sempre pude perceber o magnata do meu ex-cunhadinho, nunca tirou um centavo do bolso para te ajudar com as fisioterapias da mamãe, os remédios, não é belíssima? Estou certo? Ou errado? Você não serve para cuidar da velha.
- Deixa a sua irmã em paz cara!
- Não te mete em assunto de família. Essa aí não é santa. Ela sabe que o que eu estou falando é verdade. Quantas vezes eu já não cheguei aqui e encontrei a mamãe sozinha chorando, sentindo dor. Quando a velha precisava da santinha dela para lhe dar o remédio, onde ela estava? Quando a velha precisava dela para que ela ajudasse a ir ao banheiro? Onde estava? Na rua! Quer dizer, ou melhor... Na boate. Conseguindo o dinheiro sujo com o qual ela paga esse tratamento. Não é mesmo MELZINHA?
- E se for? Não é da sua conta!
MEL Protestou aos gritos.
- Chega LEOPOLDO!  Está deixando a menina nervosa. Agora você pode ir. A MEL fica aqui comigo.
Dona VERA determinou.
- Se a senhora quiser assim...
E dando as costas, o grandalhão deixou a casa. MEL não parava de chorar. Solicito o segurança a estreitou entre os braços, sussurrando palavras de apoio, tentando tranqüilizar a mulher de seu chefe, a qual ele queria só para si. Que dilema! Suspirou. Absorto em pensamentos se assustou quando a mãe de MEL pediu:
- Calma Filha. Esquece o grosso do seu irmão.  Eram alvo do olhar curioso de dona Vera.
Alguns minutos se passaram. MEL levantou-se cuidadosa.
- Mamãe, eu vou precisar ir agora e vou demorar um pouquinho para chegar. A senhora quer que eu chame a vizinha para ficar aqui até que eu chegue?
- Não precisa meu anjo. Escuta não se preocupe com essa velha idiota.
- Não fale assim! Como não vou me preocupar? É a minha mãezinha querida.
- Pode ir. Vá, faça o que tem que ser feito e não dê ouvidos para o seu irmão. Vai.
Dona VERA a olhava de modo estranho.
As ultimas palavras da velha senhora não lhe saiam da cabeça. Compartilhava seus pensamentos com CARLOS.
- Sabe, eu acho que a minha mãe sempre soube que eu sou uma stripper.
- Pelo modo como ela agiu... Faz sentido.
- Você não acha?
- Acho sim e isso significa que ela te ama, não importa quem seja ou o que faça. Ela te amará incondicionalmente.
- Que garota de sorte eu sou por ter uma mãe assim.
- E o nosso chefe é um homem de sorte por ter uma dançarina assim, todinha só para ele.
- Assim como?
- Você sabe.
Foi nesse momento que MEL percebeu que eles não voltavam pelo mesmo caminho.
- Ei! Você não está dirigindo na direção errada? Não é por aqui que se chega à boate.
- Pois é estou.
- Para onde estamos indo?
- Vamos dar uma fugidinha.
- Não. Eu não posso.
- por que não pode?
- O Raul! Ele vai me matar.
- Esquece o Raul.
- Eu não poderia. Mesmo se quisesse.
- E você não quer?
- Aquele homem me fascina, ele... eu não sei explicar, não adianta. O destino quis que eu fosse dele a partir do momento em que atravessei as portas daquele lugar. Só pode ser isso.
- Então você o ama?
- Sinceramente...
- Não. Não precisa falar.
CARLOS não suportaria ouvir a resposta. Sabia que seria positiva, pois tudo em MEL indicava que ela era apaixonada pelo chefe. Apesar de ter demonstrado tanto desejo por sua pessoa.
Num minuto, o jovem encostou o carro na porta da sua casa.
- CARLOS, onde estamos? Eu não posso me atrasar.
- Relaxa! Não sei qual é a pressa. Você é a ultima a se apresentar. E bem tarde da noite.
- Mas são muitos detalhes que a gente precisa organizar antes de subir no palco. O senhor com certeza não sabe quanto tempo uma mulher gasta para se maquiar e fazer o penteado.
- Tem razão. Não sei.
- E ainda tem os acessórios.
Sorrindo encantado, o segurança desceu de seu carro e abriu a porta para ela. Ajudou-a descer e deu-lhe um selinho.
- Meu lar doce lar.
A dançarina parou admirada diante da casa.
- É linda! Como é grande!
- Vamos entrar. Eu fiquei de pegar uns documentos que estavam faltando para o chefe... Pode ficar tranqüila, não vamos demorar.
De mãos dadas com o segurança ela subiu as escadas. CARLOS tirou as chaves do bolso e abriu a porta, entrando.
A sala era enorme e em cores claras. Muito bem decorada. O que mais lhe chamava a atenção era a quantidade de porta-retratos que decoravam um rack no canto do cômodo. Eram muitas fotos. Deviam ser de toda a família. CARLOS aprovava o aparente interesse da dançarina.
- Não tem ninguém em casa?
CARLOS ia responder quando uma voz os surpreendeu.
- Namorada nova netinho?
- Vó!
A boa senhora logo se aproximou segurando as mãos delicadas da dançarina e ganhou sua simpatia de imediato.
- Boa tarde querida, seja bem vinda.
- Muito obrigada senhora.
- E então, meu netinho não me respondeu! Não está escutando mais CARLINHOS? Como eu e seu avô?
- Eu ouvi sim, vovó.
- Você está namorando essa mocinha linda?
Ele riu. Não se irritou com a insistência.
- Não. Essa não é minha namorada nova.
- Então quem é? Vem meu anjo. Vamos nos sentar.
- com licença.
- Pode ficar a vontade. Faça de conta que está na sua casa. Não precisa se envergonhar.
MEL que ainda estava com as pernas trêmulas, aceitou o convite.
- Obrigada. Carlos, você poderia me trazer um copo com água?
- Claro que sim meu anjo! Busco em um minuto.
E MEL continuou na companhia da senhorinha tão agradável.
- Esse meu netinho é um doce!
- Realmente.
- Você o conhece há muito tempo?
- Não senhora, mas percebi que ele é uma excelente pessoa e um profissional brilhante. Ele está fazendo a segurança do local onde eu trabalho.
Ela não quis chocar a senhora dizendo que era uma striper e que estava sendo perseguida por um marido com sede de vingança por ter sido traído. Corou. CARLOS voltou com a água.
- E o meu avozinho?
CARLOS questionou.
- Ah, o velho estava cochilando aqui na sala e acabou de subir para o quarto. Eu fiz um chá para ele e agora está lá...
- Mas ele não está dormindo, está?
- Ih! O velho não dorme fácil!
MEL sorria divertida.
- Quero levar MEL lá para apresentar.
- Qual é o nome dela?
- MELISSA. Mas todos a chamam de MEL.
- Mas que gracinha essa menina meu DEUS! Leva ela lá sim. Seu avô vai gostar de conhecê-la. Muito prazer, meu nome é alaor.
- O prazer é todo meu dona alaor.
- Então vamos princesa.
CARLOS segurou sua mão ajudando-a a se levantar e subiram para o quarto do avô.
Aquela visita estava sendo um presente para MELISSA. Já estava muito emocionada por conhecer dona ALAOR. E o marido, o senhor ALBÉRIO era um conquistador, igual ao neto. Ele lia seu jornal quando entraram no quarto.
- Olha se não é o meu neto favorito!
Cumprimentou com entusiasmo.
- Boa tarde vovô.
O velhinho sorriu curioso ao ver o neto segurando a mão de uma jovem.
- Ah! Vejo que tem companhia!
- Sim vovô. Essa é a moça de quem te falei.
- A MELISSA! A famosa MELISSA!
- Famosa eu?
- Aproxime-se MELISSA! Faça esse favor para um velho cegueta como eu.
MEL aproximou-se dando-lhe um beijinho suave no rosto.
- O senhor não está enxergando bem?
-   já era o tempo viu minha filha? E esses óculos? Já não estão me valendo nada. Mas isso ainda não me impede de admirar uma menina tão linda como você.
MEL riu.
- Vovô! Vê se não  envergonha a MEL.
- CARLOS! Não seja assim tão insensível com o seu avô.
- Não se preocupa querida. Ele está é com ciúmes.
- O senhor acha?
- Claro que sim! E ele deu sorte, já estou com setenta e oito anos, porque se sou mais jovem... Eu tomava você dele.
gracejou o bom velhinho , ainda diminuindo a sua idade.
- O senhor acha que eu ia deixar vovô?
- Olha! Vamos parando vocês dois. Não estou gostando nada disso! Coitadinha da dona alaor! O senhor deve ter dado um trabalho para ela!
- Imagina! Minha FLOR nunca se queixou.
- Vovô, eu sinto muito. Vocês vão ter que continuar essa conversa em uma outra hora.
- Já vai me levar a MEL?
CARLOS riu divertido.
- A MEL tem compromisso vovô. Não podemos deixar que se atrase. Não é?
- Mas promete que a traz aqui de novo.
- Prometo claro.
- MEL querida! Por favor, me deixa dar um beijinho nesse rosto tão perfeito.
Ela recebeu o beijo emocionada.
- Até breve senhor ALBÉRIO.
- Oh! Filha, não conta nada para o meu neto, mas qualquer noite dessas vou passar lá na boate para ver você dançando, está bem?
MEL sorria encantada.
- Pode deixar que eu não conto nada. Então fica combinado assim, senhor ALBÉRIO! Estarei te esperando. Tchau!
- Tchau filha.
A dançarina estava muito agradecida ao segurança por aquela visita.
MEL pensou que desceriam novamente as escadas para a saída , mas ao invés disso, ele a levou ao seu quarto.
- Não. Eu não vou entrar aí.
- Deixa de ser boba. Entra.
Segurando em suas costas ele a empurrou de leve.
- Não CARLOS! Espero-te ali fora.
- Nada disso. Não vou me demorar. Não disse para você?
- Disse, mas...
Sem alternativa, MEL aceitou entrar e sentou-se na cama enorme, com cara de aborrecida.
Uma cama de casal para um rapaz solteiro? Quantas mulheres ele já não teria deitado ali?
Olhou para o grandalhão que o chefe designou como seu segurança. Ou seria pelo tamanho? Uma simples cama de solteiro abrigaria muito desconfortavelmente um homem que mais lembrava a forma de um guarda roupas. De repente descobriu que estava com ciúmes, mas apesar de tais sentimentos ela ficou apavorada quando o segurança sentou-se ao seu lado. Apesar de já terem trocado beijos quentes, MEL tinha medo. Medo não era o que ele sentia.
- MEL! Como eu te desejo... Se eu pudesse eu a teria todinha só para mim.
- Mas você não pode.
- Droga de vida! Por que você correspondeu aquele beijo?
- Porque não resisti?
- Esse seu jogo é outra coisa que me deixa louco sabia?
- CARLOS, eu não estou fazendo jogo nenhum.
Quando se deu conta, MEL estava sentada no colo dele e o CARLOS acariciava todas as partes macias daquele corpo.
- Seria melhor se tivesse me esbofeteado, eu não estaria sofrendo como estou agora.
- Sofrendo por mim?
CARLOS suspirou desesperado.
- MEL. Faça um strip-tease.
- Não. Eu nunca fiz isso fora dos palcos, acho que não conseguiria.
- Tem certeza?
Na ausência de MELISSA, o chefe tentava se divertir com PANTERA que fazia de tudo para que ele fracasse em seu intento. O telefone tocou e ela conseguiu se desvencilhar.
RAUL atendeu aos gritos.
- Segurança! Onde é que você se enfiou com a minha garota?
- A gente está no hospital chefe.
- Hospital?
- A MEL teve uma crise nervosa muito séria, ficou descontrolada, estava chorando muito. Começou a quebrar coisas e como eu fiquei com medo de que ela se machucasse, resolvi traze-la para cá. Estou muito preocupado.
- E como está agora?
- Deram um remédio, mas não fez o efeito esperado ainda. Se o senhor puder vir para cá.
- Me aguarde que chego em instantes.Me passa o endereço.
Assim que chegou ao hospital ele foi direto ao quarto onde a dançarina se encontrava e ordenando que CARLOS o aguardasse, fechou a porta na cara do segurança, mas esse gesto não impediu que CARLOS visse a mulher amada se atirando nos braços do chefe. Seu coração começou a bater mais forte sem que ele pudesse evitar, para depois ser dominado por uma dor insuportável. CARLOS chegou a suar. Como? Como viver sem aquela mulher? PANTERA, que fora com o chefe, sentou-se em um canto, com as duas mãos no rosto. Chorando. Ele foi até lá.
- O que foi menina?
- Eu quero ver a MEL e  O chefe não deixa. Ela está bem?
- Está começando a se acalmar. Você precisa fazer o mesmo! Senão, daqui a pouco, vou ter que providenciar um quarto para você também.
- O que aconteceu com ela?
- Foi o irmão dela que a deixou nessa situação.
- Ela brigou com o LEOPOLDO?
- O cara é um monstro.
- Ela deveria ter partido a cara dele.
- Você o conhece?
- Pessoalmente não, mas ela sempre fala dele. LEOPOLDO é o irmão do meio. Ele sempre sentiu muitos ciúmes da MEL. Ali, ela só tem o apoio da mãe.
- E por que esse cara não ajuda a irmã a pagar o tratamento da mãe? Ele poderia fazer isso e parar de jogar pedra na coitadinha.
- É porque LEOPOLDO é um fotografo free-lance e faz uns bicos de vez em quando em um jornal. MEL disse que o que ele ganha mal dá para prover as suas necessidades básicas. Não teria como...
- Sei como. Ele sugeriu que MEL presta serviços sexuais por dinheiro.
- O quê?
PANTERA chocou-se.
- Ele quer fazer com que a mãe deles, a dona VERA, acredite que MEL é uma garota de programa.
- Mas isso não é verdade.
- Você saberia me dizer se MEL é daquelas dançarinas que ouvimos falar por aí que...
- Não! Não!
PANTERA o interrompeu aflita.
- Como pode ter tanta certeza? Você conhece a vida pessoal dela?
- MEL me conta algumas coisas, mas eu confio nela. Ela me disse que sempre teve uma educação muito rígida e que se casou justamente para ter liberdade. Mas a MEL não esperava que o marido fosse muito mais rigoroso do que os pais.
- Meu DEUS! E o pai dela?
- Morreu quando MEL tinha 17 anos.
- E quantos anos ela tem?
- MEL ainda não me disse.
- Como você pode ser tão leal a uma pessoa que nem conhece?
- Eu conheço. Mesmo que não conhecesse, não me importaria. As mulheres nunca se traem. E a MEL é diferente.
- Diferente?
- Vai dizer que não sabe do que estou falando? Você ficou babando por ela.
- Só porque ela é uma estrela do strip-tease não significa...
- Escuta aqui cara! Não estou entendendo! Qual é a sua?
- E a sua?
RAUL abriu a porta do quarto onde MEL estava, interrompendo o inicio da discussão.
O chefe sentou-se ao lado dos dois em silêncio e eles ficaram confusos.
Algumas horas se passaram até que o médico que atendeu a dançarina lhe desse a alta. O chefe suspirou aliviado para em seguida, ordenar a PANTERA.
- Escuta. Quero que vá até o quarto e acorde a MEL para a gente ir embora. Eu preciso ir á lanchonete, dar um telefonema importante.
- Está bem.
- Mas é rápido! Não quero que demore.
- Sim senhor!
E PANTERA saiu marchando ironicamente. Entrou no quarto estreito de hospital. Ela odiava aquele cheiro. Dava-lhe náuseas. Lembrava tragédia e morte. Não entendia como o chefe poderia ficar tão frio naquele ambiente, tendo passado o que ele passara. Aproximou-se devagar da cama hospitalar.
- Mel, melzinha, acorda.
Pedia suavemente. A dançarina continuava a dormir feito um anjinho. Dava muita dó ter que acordar. Só que ordens do chefe não podiam ser contrariadas.
Tornou a chamar. Mel dava todos os indícios de que só acordaria na manhã seguinte. Pantera sentou-se na beirada da cama. Acariciando os cabelos encaracolados e sedosos, aproveitou para tirar uma mecha do rosto. MEL virou-se, mas não acordou. O que faria?
Alguns minutos depois saiam todos do hospital. O chefe deixou PANTERA em sua casa e rumou com CARLOS e sua dançarina para o CALIENT CORPUS BAR. MEL estranhou ver a casa toda ás escuras. Ele gentilmente ajudou-a a subir alguns degraus que ficavam na entrada. Ela ficou ainda mais intrigada ao ver aquele local tão quente, vazio à uma hora daquelas. Eram dez da noite.
- Onde estão todos?
- Dispensados.
- Hoje não tem show?
- Eu fechei o CCB.
- O que deu em você?
- Hoje a noite é nossa.
Ela sorria admirada.
- Mas RAUL!
- Sem mais nem meio mais.
RAUL acendeu uma luz, iluminando todo o ambiente. MEL começou a ouvir uma musica romântica de fundo e bem no meio da pista, visualizou uma mesa  enorme toda decorada com pratos exóticos que pareciam deliciosos, flores, e no centro uma garrafa de vinho.
O chefe fez um sinal discreto para CARLOS que se afastou.
- O que é isso?
- Um jantar romântico.
Ele a levou até a mesa e puxou a cadeira para que ela se sentasse. Além de ser dominador, o chefe também sabia ser cavalheiro e isso a encantou.
- Que lindo. Ainda me custa a acreditar que tenha fechado o CCB só para mim! É verdade mesmo?
- E por que não seria? Claro que é verdade!
- Que barato! É tão excitante!
- Posso te dar um beijo?
- Você pode tudo!
Beijaram-se até que perdessem o fôlego. Era o que MEL desejara desde o momento em que ele chegara ao hospital.
- Diz que me ama. Diz que me ama como eu amo você, antes que eu fique louco.
MEL se afastou devagar, olhando-o enigmática.
Ao longe, CARLOS via tudo com um nó na garganta.
- Não vamos jantar?
- Claro que sim. Desculpe. Está com fome?
- Muita.
- Deixa eu te servir.
E eles continuaram a trocar beijos. Não tão desnorteantes como os que tinham protagonizado segundos antes, mas tão deliciosos quanto.
Muito romântico Encheu a taça da CCB girl de vinho e depositando um beijo suave na pontinha do seu nariz, tirou uma caixinha do bolso e abriu-a.
- Para você.
-O que é isso?
- Uma aliança.
- Pensei que eu fosse apenas uma aventura para você.
Confessou em tom tímido.
- Não. Quero você em minha vida. Todos os dias. Não só na minha cama.
Depois de algumas horas eles se levantaram. O jantar terminara de forma maravilhosa, inesquecível. Próximo destino, o quarto do chefe. Ele foi na frente para tomar um banho e a dançarina ainda continuava ali. Olhando tudo e recordando. Quando resolveu ir, CARLOS a barrou segurando-lhe o braço.
- MEL...
- CARLOS,  eu sou uma mulher comprometida agora. Não posso mais.
- Você vai me deixar assim MEL? Depois de tudo, depois de...
- Que remédio?
- Não. Eu não aceito! Você ainda vai ser minha.
- A gente pode conversar sobre isso depois? Eu vou para o quarto. Com licença.
O dia seguinte chegou e com ele, a revolução causada com o anuncio do noivado do chefe com a dançarina. As outras ccb girls não se conformavam. ESMERALDA  e CALISTA usaram todas as suas armas para tentar seduzir o chefe, em vão.
A fortuna que o chefe ganhava com os shows que as garotas faziam, podia ser considerada uma merreca diante do dinheiro que ele tinha. Era por isso que elas se empenhavam. Se fossem a senhora GULAR, seriam milionárias.
Enquanto assistia ao ensaio da apresentação da dançarina naquela tarde , CARLOS  questionou, entregando a toalha para que ela se secasse:
- Como pode ficar noiva de um, estando casada com outro?
- O fato de o RAUL ter me dado um anel, não significa que estejamos noivos. A jóia foi só para simbolizar mesmo o nosso relacionamento.
- E você gostou da surpresa?
- Adorei.
Confessou brincando com o objeto no dedo. CARLOS segurou a mão delicada, analisando o anel.
-É muito bonito. Você merece.
- Obrigada.
- Gostaria de ter te dado. Você ama o chefe?
- Para falar a verdade, a maioria das meninas me fez essa pergunta e eu... Falando sinceramente, eu ainda não parei para pensar.
Ela caiu na risada.
- MEL! MEL! Você é demais!
- Pois é. Eu sei.
Concordou distraída. MEL voltou a concentrar-se na coreografia. Não teve tanto sucesso, pois ao tentar acertar um passo , bem próxima á beirada do palco caiu, machucando o pé. Imediatamente, se apoiou no peito forte de seu segurança.
- Está tudo bem?
- Meu pé, dói.
Respondeu gemendo.
- Vem cá, vamos nos sentar ali.
- Espera!
- Que foi agora MEL?
- É muito bom saber que posso contar com braços tão fortes como os seus para me proteger, sempre.
Ela acariciava as partes do corpo dele que mais a atraiam.
-MELISSA! Não brinca assim comigo! Não é justo! Sabe quanto eu a desejo.
- Quem disse que estou brincando?
CARLOS não se sentia capaz de resistir por mais tempo e fez o que os amantes faziam. Agarrou-a sem pudor e a beijou ansioso, desesperado. MEL relutou em corresponder, mas por fim, proporcionou ao segurança o que ele mais desejava. Sentir que era desejado também. Isso foi uma questão de segundos, pois assim que se afastou ele viu na dançarina um ar de indiferença, frieza.
- Você está louco? O RAUL!
- Esquece o RAUL! Dessa vez não vou deixar que escape. Ou você achou que iria me provocar e eu deixaria por isso mesmo?
- Escuta CARLOS, vamos conversar!
- Não! Não quero mais! Vai acabar me enrolando que eu sei. Quem tem que me escutar agora é você! Depois do show, vá para a casa. Encontro-te lá.
- O quê?
- Isso mesmo o que você ouviu. E eu não quero protesto! Não adianta.
- Está bem! Não vou discutir, mas...
- Então ótimo.
CARLOS estava prestes a beijar a dançarina novamente quando ouviu passos. Era o chefe. Antes que ele se aproximasse totalmente, MEL correu para os braços do dono da boate. CARLOS cerrou os punhos tentando se controlar. Se o chefe desconfiasse de seus sentimentos, o segurança com certeza seria um homem morto.
- Algum problema por aqui?
Quis saber.
- A MEL caiu do palco!
- Se machucou?
- Machuquei o pé,  mas não foi nada grave.
- O que foi que aconteceu? Precisa tomar mais cuidado princesa!
- Raul! Me solta! Estou toda suada!
- Está cansada, meu amor! Toma um banho para relaxar e ficar fresquinha, cheirosa.
- Até gostaria, mas não trouxe nada, como sempre. Você sabe, e depois as meninas não gostam de emprestar as suas coisas.
- Mas não precisa das meninas! Eu tenho toalha e algumas peças que podem servir para você.
- Nesse caso eu aceito.
Uma delas ouviu o final da conversa. Particularmente CALISTA sempre quisera conhecer o quarto do chefe e nunca tiveram acesso. Agora, chegava MEL roubando o coração de RAUL, ocupando o espaço que elas nunca tiveram...
CALISTA sabia que a dançarina não tomaria banho sozinha. RAUL iria para o chuveiro com ela e no meio com certeza o desejo presente entre ambos vinte e quatro horas do dia, falaria mais alto.
A dançarina interrompeu os pensamentos com ódio e juntou-se a CARLOS.
Muitas horas depois, mel se encontrava na própria cama. Mas não estava sozinha. Estava com CARLOS. Entregava seu corpo inteiro a ele, sem reservas, sem nenhuma restrição. Com gemidos, aprovava os beijos quentes que a boca masculina distribuía por toda a pele suave. CARLOS lhe deu todo o seu melhor, ela não ignorava isso. Mas MEL não podia ignorar o fato de que achou tudo muito normal. Ela esperava mais e faltava alguma coisa. De repente descobriu que RAUL era quem tinha o que ela realmente gostava.
No dia seguinte, assim que viu PANTERA, correu para abraçá-la.
- Ai amiga!
Choramingou.
- O que foi?
- Não consigo! Amiga! Descobri que eu não consigo ser fiel! O que eu faço?
PANTERA queria rir, mas procurou ficar séria. A situação para MEL piorou, pois RAUL a esperava com um café da manhã completo e com os cereais que ela adorava. A culpa a invadiu. Eles estavam tendo um relacionamento.
- Nossa amor! Que delicia!
- Delicia é você MELZINHA!
- Você acha mesmo?
Provocou sorrindo travessa. O chefe colocava uvas em sua boca e MEL retribuía o gesto carinhoso com beijinhos.
MEL  agora estava dividida entre dois amores. Á noite, antes que todas as mesas de bar começassem a lotar, encontrou-se com CARLOS no meio do salão. Todos os dias depois do show, CARLOS aparecia no seu quarto. Ele segurou em seu braço. Dizia que estava com saudades, perguntou se a noite anterior fora boa e a beijou. O beijo apaixonado colocava fogo nas veias do segurança. MEL correspondeu, e apertou-se contra o corpo enorme, cheia de desejo, mas eles  foram  interrompidos por um forte pigarro.
- chefe?
- Muito bonito morena! Perfeito! O que significa isso?
Carlos imediatamente colocou-se na frente da dançarina.
- Significa exatamente isso o que viu. A gente estava se beijando.
- Raul. Não vá fazer nenhuma loucura.
- MEL, vamos até a minha sala.
- Nada disso! Eu não vou deixar ela ir a lugar nenhum com você.
- Eu não estou lhe dirigindo a palavra, segurança.
E puxou MEL pelo braço, arrastando-a até a sala. Sentou-se e ficou olhando-a por um longo tempo.
-  não vai falar nada RAUL?
- O que quer que eu fale?
- Que me perdoa, que eu...
- Eu bem que imaginei que um dia presenciaria uma cena como essa. Para ser bem exato, desde quando o contratei. Não sei onde estava com a cabeça.
- Raul, não vai ser preciso usar de nenhuma violência, você vai conseguir  tomar uma decisão de cabeça fria.
- Já tomei uma decisão.
- E qual seria?
MEL perguntou ansiosa.
- Pode ficar com o segurança o tempo que achar necessário para as coisas ficarem claras na sua cabeça.
- O que foi que você disse?
- Não lhe parece uma boa decisão?
- Mas e a gente?
- Deixamos as coisas como estão não está bom para você?
- Você está propondo um triangulo?
- Exatamente.
A dançarina custava  a acreditar no que estava ouvindo. O que explicava a atitude de RAUL? Era amor? Ele a amava tanto que não se importava de dividi-la para não perdê-la  ou aquela era uma atitude típica de uma pessoa totalmente sem caráter?
MEL desabafava com a colega de trabalho.
- Não queria estar na sua pele amiga.
Garantiu pantera.
- Nunca, mas nunca na minha vida imaginei que iria passar por uma situação como essa. Vê se me entende. Quando eu olho para o Carlos, eu penso: esse é o homem da minha vida. Onde é que eu vou encontrar outro desses no mundo? Não existe! A peça é rara. Por outro lado quando ele me toma em seus braços e sussurra palavras de amor no meu ouvido eu fico pensando no chefe. Eu o quero na minha cama, amiga, o que faço?
- faça o que seu coração mandar.
O coração mandou. Algum tempo passou e MEL  assumiu um romance sério com CARLOS. Ele era tão possessivo que exigiu que a dançarina cortasse definitivamente todos os laços com o dono do caliente corpus bar. A dançarina, mesmo a contra gosto, acabou aceitando as imposições do atual namorado.  CARLOS agora fazia a segurança de um médico famoso  da cidade e quando dizia que só voltaria no dia seguinte, MEL tirava do guarda-roupa a peça mais sensual que tinha e rumava para a boate onde trabalhava. Estava morrendo de saudades. Queria dançar. Assistia aos shows das meninas, tomava uma bebida e ia embora. Mas a sua real vontade era ir até o quarto do chefe. Com medo de não resistir à tentação, ela pegava um dos táxis que ficavam na porta e ia embora. Assim foram três meses. Até que MEL não agüentou. Em certa noite de sábado, fez o jantar cedo. Vestiu uma roupa fresquinha e esperou que CARLOS chegasse. Quando ele se sentou, propôs terem uma longa conversa. Conversa que ele não gostou, mas que MEL esperava ter um desfecho favorável ás suas vontades. Não podia trair seus sentimentos, não podia trair seus desejos. E agora CARLOS se encontrava sozinho na casa, sentado na mesa da cozinha , afogando suas mágoas esvaziando uma garrafa de vinho. Como poderia suportar aquela nova realidade? Ele poderia alimentar a esperança de que aquilo fosse só um pesadelo e de que MEL, sua amada, o acordaria a qualquer momento? Infelizmente não.
O sono conturbado do chefe foi interrompido. Deliciosamente, docemente interrompido. Assim, acendeu as luzes, ainda confuso.
- O que você está fazendo aqui?E o Carlos?
- Eu pedi um tempo para ele.
Respondeu MEL tirando a roupa. Como seus dedos tremiam, foi ajudada por RAUL.
- Ele aceitou?
- Não teve escolha! Disse que por enquanto eu queria ficar com você.
Não havia espaço para palavras. Os corpos já estavam nus e grudados, saciando a saudade e a voracidade que com certeza nunca teria fim. Os amantes em delírios se beijavam voluptuosamente e MEL arranhava com perícia aquele corpo que a fazia sentir-se completa. Como nunca, como ninguém. Gemia e arfava, chamando seu nome. Dizendo que era sua escrava, dizendo que o seria para sempre.
- Eu ficaria louco se tivesse que te perder.
Os amantes se ajoelharam na cama. Sem fôlego.
- Mas eu te disse chefe, estou confusa.
- Você vai ter que escolher.
Passaram-se algumas horas e as palavras do chefe não saiam de sua cabeça. A semana chegou ao fim e não voltaram a se falar. CARLOS voltara a procurar a dançarina e não foi rejeitado.  MEL tinha medo de ficar louca, não sabia o que fazer.  Sábado, no meio da tarde recebeu um convite para jantar. Era de Carlos e Raul. Tiveram seus pedidos negados. MELISSA recusara. No dia seguinte, antes dela subir no palco, foi interpelada pelos dois, que novamente propuseram que ela escolhesse com quem deveria ficar.
E chegara o dia d, o dia em que determinaram a  mel tomar uma decisão na pressão. Olhou no espelho, Pegou sua bolsa e saiu. Ao chegar ao local combinado, pôde ver que Carlos e Raul já a esperavam. Abriram um sorriso quando ela desceu do carro e se aproximou.
Colocou-se na frente dos dois homens e ficou um bom tempo calada , completamente muda , olhando de um para o outro, até que Raul fez o pedido.
- Pelo amor de DEUS meu anjo! Acaba de vez com essa tortura! Você não imagina a ânsia que tenho de te estreitar novamente em meus braços pequena!
MEL suspirou.
- MEL,  Pede para esse cara te deixar em paz e diz que me ama.
Pediu CARLOS.
MEL balançou a cabeça negativamente. Carlos e Raul estenderam as mãos para a dançarina. Melissa ficou na ponta dos pés e deu um beijo suave no rosto de Raul, dirigiu-se em direção a Carlos que segurou sua mão. Ela o olhou sorrindo carinhosamente e a puxou.
Mel soltou-se das mãos de Carlos e saiu correndo. Não se permitiria ficar ali um instante a mais. Correu em disparada rumo à liberdade. Liberdade com a qual sempre sonhou e a qual tivera pouquíssimas oportunidades de viver. A dançarina não permitiria que a tirassem novamente por nada desse mundo. Os rivais se entreolharam estupefatos. Carlos não conseguia se conformar.
Aos dois só restava conviver com lembranças. As lembranças do pecado mais delicioso que já viveram em suas vidas. Um pecado moreno.
Fim


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Atualizado em: Seg 30 Nov 2015

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