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Dormir em pé

Quando eu era adolescente, sem maiores compromissos com o mundo, costumava dormir doze, quatorze horas por dia. Inconformado, meu pai me acordava e me censurava, sabiamente:

- A vida está passando lá fora e você está perdendo o espetáculo!

Eu abria o olho, dava uma olhada no espetáculo e voltava para o travesseiro.

Naquela época, é bom que se diga, eu praticava esporte nas minhas poucas horas vagas e traçava dois pratos de comida no almoço e no jantar. Não tomava café da manhã porque já levantava ao meio-dia.

Mais tarde, homem feito e com responsabilidades de pai de família, as horas disponíveis para dormir reduziram-se a um quarto das 24 horas do dia.

Quanto mais velho vai ficando, diz a medicina, menos tempo de sono o organismo da gente precisa para se restabelecer. Desconfio que essa redução não é um fenômeno de origem fisiológica, e sim decorrente das preocupações que se vai adquirindo pela vida. Com o trabalho, os filhos, as contas a pagar, os compromissos sociais etcétera, etcétera, etcétera, como dizia o Rei do Sião.

Alguns anos atrás, eu trabalhava fora da cidade uns 30 quilômetros e estava sem carro. Vivia dormindo nos ônibus, na ida e na volta. Minha mulher se indignava.

- Quem dorme em ônibus é pobre, é peão de obra. Que vergonha!

Eu não dava atenção a essas manifestações de quem só andava de carro. Enquanto encontrasse o ombro do vizinho pra encostar a cabeça, eu ia cochilando na viagem. Por sinal, nessas horas é que eu via a solidariedade humana. A gente revezava a cada dez minutos.

Ninguém sabe, só pobre e eu, que era pobre com cara de rico, o que é você se sacolejar todos os dias por uma hora, uma hora e meia, em um ônibus entupido de gente que pára de cem em cem metros para renovar o estoque. E me dava por satisfeito quando encontrava um lugar para sentar. Na maioria das vezes, dormia em pé, mesmo, apoiado no companheiro ao lado. Na companheira, não, pois podia pensar que era sacanagem.

Aliás, venho dormindo em pé muito amiúde nos últimos tempos. Trabalho durante a noite, que nem guarda noturno, vigia de farol, gari e revisor de jornal. Acordo cedo com a movimentação de minha mulher saindo para o serviço. Então, passo o dia caindo pelas tabelas.

Quando estou dirigindo eu não durmo. Só duas vezes: uma, quando um poste me acordou, e outra, parado na sinaleira, com os carros buzinando atrás de mim. Em fila de banco eu chego a sonhar. Na empresa, dou cada cochilo elegante em frente ao computador que o pessoal pensa que estou prestando uma atenção enorme ao texto na tela. Outro dia, fui almoçar em um restaurante a quilo. Uma senhora na minha frente demorou tanto em escolher o que iria se servir que dormi na fila com o prato vazio na mão. Quando acordei, não encontrei mais nada. Tinham passado na minha frente e comido tudo. E ainda me cobraram a solitária azeitona preta que me coube.

Ando muito preocupado com o meu futuro. Quanto mais velho vou ficando mais em pé vou dormindo. Uma madrugada dessas, ao voltar do trabalho, fui acordado por um vizinho quando estava parado frente à porta do apartamento, segurando a chave no buraco da fechadura.

Outro dia assisti a um vídeo na internet onde uma velhinha atravessava na sinaleira e de repente parou no meio da faixa de pedestres pra dormir. Acho que de agora em diante vou ter que sair na rua com uma tabuleta pendurada no pescoço: "Cuidado, sujeito a dormir em qualquer lugar!"
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Atualizado em: Seg 24 Set 2007

Comentários  

#24 Abreu 07-03-2010 20:55
Esse mesmo sono que lhe afeta me acompanha. Principalmente porque quando o dito cujo chega ainda não o quero. Isso a dificuldade de acordar na hora certa. E essas mesmas cochilada frente ao com[censored]dor já são diárias. Bom texto!
#23 Abreu 07-03-2010 20:55
Esse mesmo sono que lhe afeta me acompanha. Principalmente porque quando o dito cujo chega ainda não o quero. Isso a dificuldade de acordar na hora certa. E essas mesmas cochilada frente ao com[censored]dor já são diárias. Bom texto!
#22 Abreu 07-03-2010 20:55
Esse mesmo sono que lhe afeta me acompanha. Principalmente porque quando o dito cujo chega ainda não o quero. Isso a dificuldade de acordar na hora certa. E essas mesmas cochilada frente ao com[censored]dor já são diárias. Bom texto!
+1 #21 Abreu 07-03-2010 20:55
Esse mesmo sono que lhe afeta me acompanha. Principalmente porque quando o dito cujo chega ainda não o quero. Isso a dificuldade de acordar na hora certa. E essas mesmas cochilada frente ao com[censored]dor já são diárias. Bom texto!
#20 camposnet 28-09-2009 13:54
Adorei a forma e o conteudo de seu texto. Fala de transformações bioquimicas do corpo,em função do tempo, assunto que me interessa por estar apto a falar sobre. Tenho sentido coisas estranhas, pensado mais ainda sobre o que está acontecendo. E sei que é tudo igual. Infelizmente meu ideal de imortalidade e beleza está indo por agua abaixo. E outras coisas que muito me interessavam e que agora...num sei...as vezes sim...o sentimento de saudade está virando nostalgia. E doí a realidade!
#19 camposnet 28-09-2009 13:54
Adorei a forma e o conteudo de seu texto. Fala de transformações bioquimicas do corpo,em função do tempo, assunto que me interessa por estar apto a falar sobre. Tenho sentido coisas estranhas, pensado mais ainda sobre o que está acontecendo. E sei que é tudo igual. Infelizmente meu ideal de imortalidade e beleza está indo por agua abaixo. E outras coisas que muito me interessavam e que agora...num sei...as vezes sim...o sentimento de saudade está virando nostalgia. E doí a realidade!
#18 camposnet 28-09-2009 13:54
Adorei a forma e o conteudo de seu texto. Fala de transformações bioquimicas do corpo,em função do tempo, assunto que me interessa por estar apto a falar sobre. Tenho sentido coisas estranhas, pensado mais ainda sobre o que está acontecendo. E sei que é tudo igual. Infelizmente meu ideal de imortalidade e beleza está indo por agua abaixo. E outras coisas que muito me interessavam e que agora...num sei...as vezes sim...o sentimento de saudade está virando nostalgia. E doí a realidade!
+1 #17 camposnet 28-09-2009 13:54
Adorei a forma e o conteudo de seu texto. Fala de transformações bioquimicas do corpo,em função do tempo, assunto que me interessa por estar apto a falar sobre. Tenho sentido coisas estranhas, pensado mais ainda sobre o que está acontecendo. E sei que é tudo igual. Infelizmente meu ideal de imortalidade e beleza está indo por agua abaixo. E outras coisas que muito me interessavam e que agora...num sei...as vezes sim...o sentimento de saudade está virando nostalgia. E doí a realidade!
#16 Lekkerding 28-09-2009 05:36
Parabéns, texto singelo e envolvente. Gostei.
#15 Lekkerding 28-09-2009 05:36
Parabéns, texto singelo e envolvente. Gostei.

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