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Só mais um cigarrinho...

Ele só queria morrer em paz. Só queria mesmo era fumar um último cigarrinho. Mas, que nada! Era alvo de todo lado, raquetada de um lado, raquetada do outro, de um lado a irmã, do outro lado a ex-mulher. Jogo de pingue-pongue.
 
“Eu já não aguento mais, Rejane. Você tem que dar um jeito de tirar este homem daqui. Transformou a minha vida em um inferno. Não sou mais criança e mal tenho condição de cuidar de mim. Quanto mais de um velho, ranheta e teimoso como uma mula.” Ana, a irmã, tinha ligado para Rejane, a ex-mulher, para desabafar. Marcelo não tinha mais condição de morar sozinho. Estava com um câncer terminal e o médico tinha dado somente mais algumas semanas.

Rejane pensava. A mãe-de-santo tinha dito que a semana ia ser cheia de oportunidades. “Vou ver o que eu posso fazer. Aqui perto de casa tem um apartamento vago, três quartos. Com a atual crise não vão alugar nunca. Vou tentar regatear. A Silvinha está procurando casa para morar e ela bem que podia dar uma ajudazinha para cuidar do Marcelo.”

Em um quarto ela colocava o Marcelo. Tinha que cuidar bem que é para ver se ele durava mais um pouco. Afinal, deles ali, era o único que tinha grana. Ex-funcionário do Banco do Brasil, tinha uma bela aposentadoria que daria para pagar o apartamento e ainda sobrariam uns trocados.

O outro quarto ficava com a Silvinha. Ela tinha ligado há dois dias, voz chorosa: “Mãe, acabou. Vou ter que sair daqui.” Era outra que o jogo da vida não dava descanso. Passava de mão em mão, as vezes mão de homem, as vezes mão de mulher que ali não havia fidelidade ideológica. Era o que pintava, o que o momento permitia, ou o tesão.
 
Silvinha era menina bonita. Traços finos, nariz afilado, boca pequena, mas carnuda, tez morena. Passava o maior tempo na praia, vendendo artesanato. Pena eram aqueles penduricalhos, anéis, ganchos a perfurar a carne, argolas penduradas no lóbulo do nariz, orelha, alfinetes espetados no umbigo e sabe-se lá mais aonde. Também, pudera, tinha a quem puxar! Rejane não tinha anéis, ganchos, brincos a perfurar o corpo, não tinha alfinetes espetados na carne, mas eram tantos os balangandãs, pulseiras, colares, fitas, que o efeito era quase o mesmo. As carnes fartas derramavam-se por todos os rasgos, decotes e aberturas da roupa e quando ela caminhava pela calçada mais parecia uma barca em dia de mar agitado, chacoalhando e balançando de um lado para o outro.

Rejane continuava pensando. Sobrava um quarto. Bem que ela podia colocar todas aquelas tralhas que estavam atulhando o seu apartamento e infernizando a sua vida. Como  o novo apartamento era pertinho, cada vez que fosse visitar o Marcelo levava uma sacola e assim ia liberando espaço. E Rejane concluiu: “Ana, vai levando com calma, que a gente vai encontrar uma solução. Concordo com você, o Marcelo não é mole. Eu bem que sei. Deixa eu desligar que já estou atrasada. Passo hoje lá no apartamento novo e vou estudar as condições. Ligo para você mais tarde.” Rejane desligou o aparelho e saiu zunindo.

Rejane falou com Silvinha que topou. Ia poder fumar o seu baseado que o Marcelo nem ia notar. Falou também com o Marcelo, mas nem precisava porque na situação em que ele se encontrava, tinha mesmo era que aceitar. Ia morar aonde, agora que a Ana não o queria mais?

O dono do apartamento novo aceitou a oferta. O lugar era espaçoso e cabia tudo, o Marcelo, a Silvinha e mais a tralha . O banheiro era grande, dava até para cadeirante, o que, por hora não era necessário, mas, nunca se sabe. O problema era o fiador. O dono não abrira mão da exigência. Rejane coçava a cabeça, cenho enrugado. Ali ninguém tinha apartamento. Ela morava em imóvel alugado, Ana também. Silvinha não tinha nada. Só se o João Eduardo...

João Eduardo era filho do primeiro casamento do Marcelo. Depois da separação de Rejane, pai e filho tinham ido morar no apartamento do primeiro. Em função da doença, João Eduardo tinha convencido Marcelo a passar o apartamento para o seu nome. Como este ia morar com a irmã, não precisava mais de moradia própria. Marcelo, conformado, concordara. João Eduardo nunca aceitara Rejane, e a concessão era uma maneira de tentar a reconciliação.

O problema era que João Eduardo era osso duro de roer. Vagabundo, não fazia nada. Passava os dias ao léu, alegando estar à procura de emprego. Tinha estudado administração de empresas. Ora, administrador todo mundo é. Quero ver, pegar no pesado, descascar o abacaxi. Assim pensava Rejane. Na família dela todo mundo trabalhava. Até mesmo a Silvinha fazia os seus bicos.
 
Rejane pensava. Era melhor deixar a tarefa ingrata do contato com o João Eduardo para a Ana. Ela era a tia, eles que se entendessem. Era Ana quem tinha maior interesse na questão, livrar-se daquele peso morto, ou melhor, quase morto.
 
Ana concordou. Ligou para o João Eduardo e explicou a situação, tim-tim por tim-tim, as dificuldades, a idade avançada, a ranhetice do irmão. Não dava mais. Deixou até subentendido, muito vagamente para não ofender, que o dever de cuidar do pai era do filho e não da irmã. Falou cheia de dedos, com muito cuidado, mas era preciso mencionar, despertar os sentimentos, o remorso, a consciência. Só o que Ana não precisava ter falado era que a idéia do novo apartamento era da Rejane. Nem precisava ter dito que a Silvinha ia morar lá.

“A Silvinha? A Silvinha não suporta o velho. Como é que o velho aceitou, isto é que eu não entendo. Deve estar gagá. Vai ver que nem falaram com ele. Montaram a arapuca e botaram o velho à força. Do jeito que ele está, tem que aceitar. É tudo armação da Rejane. Quer resolver os seus problemas às nossas custas. O dindim para pagar esta orgia, vai ser do velho. É nisso que ela está de olho.” João Eduardo fez uma pausa que Ana aproveitou para insistir. Mas já não adiantava mais. João Eduardo a interrompeu e deu o argumento definitivo, infalível: “No mais, tia, nem adianta, porque eu não posso ser o fiador. O dono não vai aceitar. Nós fizemos a escritura, o velho passou o imóvel para o meu nome, mas não fiz o registro. Não fiz por falta de grana.”

Ana colocou o telefone no gancho e ligou para Rejane para comunicar o resultado. João Eduardo não estava com a documentação em dia e o proprietário do apartamento novo não ia aceitá-lo como fiador.

O jeito era voltar para o pingue-pongue. Uma semana Marcelo passava na casa da irmã, e uma semana na casa da ex-mulher. Silvinha? Silvinha logo arrumou um namorado com casa em Búzios. E João Eduardo, é claro, não providenciou o RGI. Agora ele sabia que além de economizar a grana, isto tinha lá as suas vantagens. O único problema não resolvido era o cigarrinho. Nem mesmo no táxi que o levava da casa da irmã para a casa da ex-mulher Marcelo tinha liberdade para fumar.

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Atualizado em: Seg 14 Jun 2021

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