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Adverso a mim

Uma vez um professor me solicitou um epílogo sobre a minha própria vida. Onde eu contasse algo pessoal, talvez ate peculiar, para que eu pudesse assim, me definir. Isto é, que por hora, me fizesse enquadrar ou desenquadrar em algo, e de alguma forma pertencer há alguma objetificação. E ser aspirante a escritora, é cômico. Em sua cabeça, quando solicitado alguma escrita, é sempre sobre os outros, sejam eles quem forem, ou ate às vezes fica a critério da capacidade imaginária e vagante do seu próprio inconsciente. Entretanto, dificilmente é sobre você mesmo. Tal pedido soa muito íntimo. Se autoanalisar para entreter algo ou alguém, e soa também intimidador, ser forcado a olhar para suas sombras no desejo de seguir surpreendendo um possível leitor, positiva ou negativamente. As minhas trajetórias sempre foram complexas, algumas ate demais. Mas, sem nenhuma intenção de me tornar um livro aberto, eu vou me deliciar em contar apenas alguns fragmentos sobre mim — não os melhores, e nem os piores — apenas fragmentos dessa mulher que me tornei hoje. E para isso, eu vou começar fazendo uma analogia a água, assim acredito que será mais fácil compreender a sequência de dores e sabores, de partes dessa trajetória. Imagine comigo uma cachoeira, e pense em seus diversos elementos: o que a compõe, qual o seu fluxo, quais são as suas fases, e qual é o seu início e o seu fim, mas sempre mantendo em mente sua interminável jornada. E assim, podemos começar analisando seu elemento chave, a própria água. Um conglomerado de átomos que se materializa em algo que podemos definir, palpar. Fluida, adaptável, onipresente, e o mais fascinante, eterna. E a água sempre me seduziu muito, e se estou sendo bem sincera, continuadamente me sinto perseguida por ela. Sou leonina ferrenha, e com muitos componentes de fogo no mapa astral — sem um elemento de terra para promover um nivelamento — e me vejo com um ascendente e uma lua em peixes. Nunca cheguei a uma conclusão se isso seria um carma cósmico ou uma dádiva. Logo, durante um momento de angústia em minha vida, esbarrei com uma taróloga, que além do baralho convencional, ela também abriu um oráculo para mim, de forma intuitiva, e era o oráculo dos cristais de água. Ele é baseado nos estudos do Dr. Masaru Emoto, que chegou a conclusão em suas análises que as moléculas da água são afetadas pelos nossos pensamentos, sentimentos e palavras. E na primeira carta de três, onde eu supliquei por um conselho de vida, a carta contava a história de uma montanha milenar no Japão. Eu fiquei deslumbrada com aquela coincidência e me sentei focada, enquanto escutava atentamente cada palavra que ela me dirigia. E ela começou me explicando que em uma das maiores montanhas do Japão, era encontrada a nascente mais pura em seu pé. Mas, que a água passava por poucos bocados, como ela gostou de dizer, para chegar ate lá intacta. Ela precisava mudar de forma, se transmutar, ser esmagada e comprimida, por rochas e por terra, para chegar em seus afluentes, e que, mesmo com tantas adversidades, ela resistia aos infortúnios, e chegava em seu destino como era em sua essência, pura. E eu, enfeitiçada com a história, esperei inquieta meu conselho de vida, que acabou na hora sendo um pouco desapontador, ela me disse: “Seja como a água, Rafaela.”. Porém, com o passar do tempo, tudo foi se tornando mais claro, e eu realizei que foi um dos melhores conselhos que já havia recebido. Até porque, na vida, muitas vezes queremos e buscamos incansavelmente, o ápice. O ápice de um momento, o ápice de uma história, o ápice de um relacionamento fracassado, ou o ápice máximo de prazer em diversas lascas de nossas vidas. E dessa maneira, esquecemos de apreciar as circunstâncias, esquecemos de refletir que dessa vida que nos foi dada, não terá outra igual. Então, como humana, como carne, eu decidi que era o momento de parar com os excessos e curtir os processos — sejam eles de dor ou de amor — e pensar nas coisas simples que estão todos os dias aqui me fazendo feliz. Um sorriso, um flash, o beijo que você me deu. O meu coração acelerado toda vez que eu vejo aquela fotografia. Tão trivial. Tão surpreendente bom de viver.
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Atualizado em: Qui 25 Mar 2021

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