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O bosque

O isolamento social me aproximou desta cidade, que, apesar de eu a julgar entediante, é a que tem saciado meu ócio neste período. Ao aceitar um convite a mim feito, de caminhar por ela – fazendo uso da escusa de preencher o tempo ocioso provocado pelo isolamento -, consegui vê-la de uma forma que antes eu não era capaz. Talvez a atual conjuntura tenha me forçado a fazer uso daqueles olhos que antes observavam tão somente a Cidade Sorriso.
Lá andava eu, de forma despretensiosa, próximo àqueles casarões, imaginando as histórias já vividas ou contadas naquelas varandas; perambulava pelas praças, às vezes sozinho, a fim de observar o que não estava totalmente visível. Buscava, de alguma forma, encontrar algo que me fizesse conectar à nostalgia que tenho de um tempo que tanto gosto, apesar de nunca o ter vivenciado. Acreditava eu que jamais pudesse fazer o mesmo nesta cidade. Estava errado. Talvez aquela caminhada tenha sido responsável por redescobrir em mim a identidade com este local, provavelmente, por poder reativar memórias realmente a mim pertencentes.
Na idade de cinco, pouco passeava eu pela cidade que fizera morada. Afinal, nem tinha muito o que ver. A passeio com a escola, anualmente eram feitos piqueniques num bosque, só que não podia correr para muito longe dali, ainda que o longe fosse somente à outra esquina. Era perigoso. Nem mesmo era permitido ir à parte mais isolada daquele bosque. Sequer poderia subir nas mesas que lá tinha para poder observar aquela casa mitificada em castelo por algum provável fã da Disney que tanto alimentou a imaginação das crianças desta cidade invadida pelo sossego. Também era perigoso. A fascinação pelo novo era posta sob pena de castigo; ficar um dia sem recreio talvez nem fosse tão ruim assim. Quando criança, poucas coisas que nos deixavam entusiasmados nos era permitido, talvez por isso que, ocasionalmente, as fazíamos.
Passando por lá, durante a caminhada, pude perceber coisas imperceptíveis ao meu eu de cinco ou seis. Como poderia eu, naquela idade, perceber que os postes que ali iluminavam a noite eram inspirados no estilo francês, com a afiação sob o solo? Postes estes, que, por estarem quebrados, curiosamente preferem fazer morada ali os pássaros do que naquelas tamarineiras. É quentinho, ora.
Fazendo uso das observações por mim feitas, cheguei à conclusão de que aquele lugar não era mais o mesmo – e não é nem porque já não tem mais ali o parquinho que antes era responsável pela euforia de estar naquele lugar. Sei lá. Talvez, por não ter mais limites a mim impostos, aquele lugar tenha diminuído. À minha ótica, tudo o que é grande é aquilo que é de difícil acesso, agora que já posso acessá-lo, não é mais grande.
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Atualizado em: Seg 15 Fev 2021

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