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XAMPU DE LIMÃO

A primeira vez que vi aquele frasco, não tive como não me encantar com ele. Era de um verde diferente, quase amarelado. Depois me veio seu cheiro: um cheiro adocicado, cheiro este que entrou pelas minhas narinas adentro e permaneceu em meu nariz e em minha mente até os dias de hoje, quase trinta anos depois daquele, diríamos, encontro.
Minha mãe estava na seção de frutas e legumes do pequeno supermercado e por lá ficou por quase meia hora escolhendo o que levaria para casa naquele dia.
            Menina ainda, nunca havia usado xampu.
            – Seus cabelos não precisam dessas coisas, minha filha – disse minha mãe quando lhe falei sobre aquela preciosidade que havia encontrado. – Você tem os cabelos lindos, como lindos são os cabelos de quase toas as meninas na sua idade.
            A partir daquele momento comecei a me imaginar já crescida, com os cabelos ressecados, cheios de pontas quebradas.
            Saímos do supermercado e em poucos minutos estávamos em casa. Ao entrar avistei minha irmã mais velha junto à pia da cozinha.
            Mariana era mais velha que eu exatos doze anos. Era já quase adulta.
            Adulta! Mas por certo seus cabelos já tinham pontas duplas, quebradiças...
            Por certo precisavam de um novo tipo de xampu.
            Mas ela cuidadosa que era, já usava certamente o xampu adequado para seus cabelos, os quais estavam sempre bem penteados e lustrosos.
            Mas qual mulher se nega a experimentar um novo produto, principalmente em se tratando de coisas daquela natureza?
            Pensei em falar com ela sobre a novidade que eu havia encontrado no supermercado, entretanto logo mudei de ideia.
            Faria a ela uma surpresa qualquer dia daqueles.
            Na sexta-feira seguinte, lá ia eu de novo em companhia de minha mãe ao supermercado.
            A cada passo que dava, me vinha à cabeça a imagem do frasco e o perfume inconfundível do xampu de limão.
            Mal adentrei o supermercado, me dirigi quase correndo à prateleira onde se encontrava o produto que tanto queria levar para casa.
            Grande foi a minha surpresa quando ao me aproximar da gôndola, não vi meu objeto de desejo.
            Fora vendido infelizmente!
            De imediato senti um aperto no coração.
            Ansiosa, corri os olhos de cima a baixo, da direita para a esquerda ao longo de toda a extensão da prateleira.
Nada!!
            Definitivamente não estava mais ali. Outra mulher por certo o havia comprado e àquela hora já desfilava pelas ruas de minha cidadezinha exibindo os mais belos e perfumados cabelos da região.
            Desapontada e visivelmente irritada, balbuciei:
            – Infeliz!
            – Está procurando alguma coisa, garota? – procurou saber um rapaz que se aproximava.
            Era um rapaz chamado Marcos, um funcionário do supermercado.
            Por que sei o seu nome?
            Em seu peito estava dependurado um enorme crachá com sua identificação.
            – Bem, eu... – balbuciei.
            – Algum xampu?
            Santo Deus! Que capacidade perceptiva tinha aquele sujeito! Como ele poderia saber o que eu estava procurando?!
            Não perdi tempo.
            – É um xampu que vi aqui nesta prateleira na semana passada. Um verde limão.
            – Se não está aí, é porque já foi vendido – informou o rapaz não demonstrando nenhuma compaixão, como se aquelas suas palavras não fossem aumentar grandemente a minha tristeza.
            Mais uma vez, mentalmente, praguejei a suposta compradora do xampu de limão.
            – Como é o frasco dele? – indagou Marcos depois de um instante de silêncio.
            E para que aquele sujeito me perguntava uma coisa daquelas? Não havia sido vendido o xampu de limão?! Que importava a cor, o cheiro ou o tamanho do frasco de um produto que não estava ali para ser comprado?
            Agradeci à meia voz pelas informações recebidas e já estava me afastando em direção ao lugar onde se encontrava minha mãe quando ouvi a sua voz:
            – Dê uma olhada numa prateleira próxima aos caixas. Alguns produtos que não tem muita saída o dono do supermercado manda colocar lá. Quem sabe o tal xampu não está lá, hein? E olhe, se estiver lá, deve estar com um preço bem abaixo do preço normal. Estes produtos que ficam encalhados, a gente sempre faz promoção.
            Encalhado??!!
            Como assim, encalhado?!
            Imagina se um produto como aquele, com aquela cor e aquele cheiro iria ficar encalhado na prateleira.
            Definitivamente aquele era um dos maiores absurdos que já havia ouvira em minha vida.
            Sem pestanejar fui quase correndo à procura daquele tesouro.
            E eis que surge diante dos meus olhos o frasco de cor esverdeada.
            Estava ali ao lado de outros produtos supérfluos tais como comida para cachorro e alguns potes de plástico.
            Aquilo era algo quase inacreditável.
            Tomei o produto nas mãos, desatarraxei com cuidado a tampa, e suguei a todos pulmões o seu cheiro inebriante.
            Em seguida vi o preço: quase a metade do que custava na semana anterior.
            Compraria, tinha certeza.
            Mas não naquele momento. Isto porque nada tinha em se tratando de dinheiro. E convencer a minha mãe da necessidade daquilo ali, seria tarefa impossível.
            Mentalmente calculei quanto havia em moedas no meu cofrinho.
            Era o suficiente.
            Para não perder novamente o xampu de limão, cuidadosamente coloquei o frasco deitado atrás das latinhas de comida para cachorro.
            Ali ninguém o veria e, portanto, estava garantido que seria meu logo logo.
            Durante mais de uma hora minha mãe mexeu e remexeu batatas, tomates, bananas e laranjas.
            Aquele tempo foi uma eternidade para mim que não via a hora de voltar para casa, pegar muito bem contado dinheirinho e retornar ao supermercado para fazer literalmente a minha primeira compra “solo”.
            E foi exatamente isto que aconteceu. Depois de dar uma desculpara para minha mãe, dizendo que precisava ir à casa de minha prima Salete buscar um caderno que lhe emprestara no dia anterior, saí em disparada rumo à minha compra.
            Já na fila do caixa, sentia minhas pernas tremerem. Era como se estivesse fazendo alguma coisa errada e que por isso seria punida mais tarde.
            Em minutos estava na rua, abraçada ao frasco de xampu de limão, de cor esverdeada e de perfume inesquecível.
            Ao chegar em casa, entrei logo para o quarto e tranquei a porta. Sentei-me na cama e pus-me a admirar aquele que era o meu primeiro objeto de desejo.
            “Xampu de limão para cabelos oleosos”, li.
            Para cabelos oleosos??!!
            Mas meus cabelos eram secos, muito secos por sinal.
            E lá se foi embora o meu xampu de limão, dado de presente à minha irmã Rose.
            Ela sim, tinha cabelos oleosos, lindos e brilhantes.
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Atualizado em: Qui 13 Dez 2018
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