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Um inusitado começo de dia

A preguiçosa manhã de domingo foi rasgada por um carro de som. Brasília está cheia deles. Passam anunciando bingo na igreja, desconto em restaurante, liquidação na lojinha. Eles vendem abacaxi, pão de queijo e pamonha “de doce e de sal”. Essa é a última característica interiorana que nos restou. Acordei a contragosto e levantei-me para fechar as janelas, fantasiando maneiras de jogar ovos no insolente. Antes de voltar para a cama, arrisquei uma olhadinha. Queria ter certeza de que acertaria o alvo, caso estivesse com o ovo nas mãos. Lá estava ele, bem pertinho, mas não se assemelhava em nada os carros de som que costumam passar por aqui. O antigo utilitário, com apresentação de gosto discutível, era preto e trazia enormes corações pintados em vermelho, no capô e teto. "Love Car", diziam as letras em azul, cortando os corações. Firmei a vista. Seria um cabo, saindo do painel? Sim. E, na outra ponta, um microfone e três crianças, de costas para minha janela. Curiosa, fiquei aguardando a ação.
Visivelmente atrapalhado, o motorista trocou o fundo musical, deu sinal para o grupo e voltou correndo para abaixar o volume, para não encobrir a voz da criança que começava a falar. Na leitura mal pontuada, um gaguejante jovenzinho dizia palavras de carinho para a "mãe mais compreensiva e amiga do mundo". Dos três, somente a menina recusou-se a falar -- pensei em como a mulher é, em geral, pouco atirada.
Satisfeita minha curiosidade, dirigi-me para a cama, acalentando o sonho de voltar a dormir. Foi quando ouvi a voz de um homem feito. Voltei correndo para a janela. Estaria o motorista arriscando uma palinha? Não. Era um apaixonado marido, gorducho, calvo e sem camisa, segurando um buquê de rosas vermelhas acima da protuberante barriga, e jurando amor eterno à aniversariante.
A família conseguiu trazer às janelas os moradores de quase todos os apartamentos no meu raio de visão e, ao final, todos aplaudimos a performance, cúmplices. Confesso que a minha primeira reação foi de deboche. Aquilo tudo era de muito mau gosto. Tentei me colocar no lugar da aniversariante e senti um calafrio de mal-estar. Que mico! Mas acabei aplaudindo com a audiência. Afinal, era de amor que estávamos falando. Abandonei os planos de voltar a dormir e fui tomar café, com um sorriso nos lábios.
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Atualizado em: Sáb 19 Maio 2018
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