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Dia da Pátria

Era o penúltimo 7 de setembro do governo FHC e estávamos no Setor Militar Urbano, em Brasília. Acenei para o Presidente que, corajoso, veio pelo Eixo Monumental, em pé, num carro aberto. Meia dúzia de pessoas o aplaudiu, mas ninguém o vaiou por ali. Eu estava logo atrás de um alambrado da minha altura, próxima à esquina da rua do palanque oficial, sendo literalmente esmagada pelos dignos representantes do povo que, a exemplo do presidente, têm “um pé na cozinha”.

Fui para ver os aviões, aqueles escuros que passam e o som vem correndo atrás, fazendo esforço para alcançá-los, sabe quais? E dei sorte. Naquele ano foram oito deles e ainda deram duas voltas sobre o público. De lambuja, sobrevoaram o evento outros dois, também de combate, mas que voam junto do barulho produzido por seus motores.

O desfile atrasou e, quando começou, se arrastava pelo Eixo. Tudo lento e sem sal. Os blocos de componentes estavam distantes uns dos outros, deixando um grande intervalo entre eles, preenchido por pescoços esticados, ansiedade e empurra-empurra. Uma senhora baixinha se postou atrás de mim e, sem cerimônia, debruçava-se sobre as minhas costas, permitindo-me sentir, sem querer, o volume dos fartos seios. Como a criança dela infiltrou-se entre mim e o alambrado, eu fiquei numa situação desconfortável. Sem espaço para os pés, por causa da criança, fiquei sem base para amparar o peso da senhora e evitar encostar o meu corpo no menininho de uns seis anos. Arrisquei uns olhares para a tal mãe, mas estava claro que ela é do tipo que precisa que as coisas sejam ditas. Então perguntei: “A senhora acha que, se me empurrar bastante, eu vou ficar transparente e terá melhor visão da pista?” Ao invés de um pedido de desculpas, recebi uma enxurrada de impropérios.

Calada, resolvi deixar para ela o lugar conquistado bem cedinho, e comecei o caminho de volta ao carro. Os aviões já haviam passado mesmo e, para assistir aquela chatice, não valia a pena o esforço físico. As bandas não se empenhavam muito para nós, simples mortais. Parece que deixavam o melhor da festa para a centena de metros da rua do palanque oficial. Também, não as aplaudíamos, oras.

Um pouco mais adiante, em direção à concentração do desfile, topei com um local privilegiado em comparação ao que eu estava. Sem alambrado, numa subidinha, espectadores aparentemente mais comedidos e lugar na primeira fila. Resolvi ficar um pouco por ali, observando um grupo de mocinhas que estavam tendo ataques histéricos por causa de rapazes fardados. Interessante ver como as fantasias se manifestam. Elas não faziam segredo do que estavam sentindo, e o sorriso dos rapazes que desfilavam dava a entender que aprovavam e saboreavam a demonstração delas. À minha esquerda, um senhor visivelmente embriagado perguntou-me se já teriam desfilado “aqueles velhinhos”, referindo-se aos Pracinhas. E sentiu necessidade de me esclarecer que eles eram os combatentes “da primeira, da segunda e da terceira guerras mundiais”.  Ah!  O pitoresco povo brasileiro.

Nos jornais do dia seguinte circulou uma foto da primeira dama bocejando no palanque oficial, durante o desfile. Não tiro a razão dela. Tudo parecia burocrático, asséptico, vazio e sem graça. Para as avenidas tão largas de Brasília, é preciso muita gente e muito empenho para que o evento tenha corpo e sangue circulando, e aquele não teve nada disso. Participei de desfiles do Dia da Independência realmente vibrantes, na minha infância e juventude. Neste, foi impossível sentir amor pátrio emanando quer do público quer dos integrantes do desfile, o que é uma lástima. Aparentemente, continuamos confundindo pátria com políticos.
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Atualizado em: Seg 7 Maio 2018
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