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Lado lago negro

Ameaçador, brutal, o vento açoita 
Os choupos envergados, há poucos despidos 
E das chaminés desprende-se a fumaça 
Que revoluteia. Soprados, batidos 
Cartazes rasgados flutuam. 

(George Orwell) 



Não se conhece mais pessoas em praças, foi o que me disse um estranho quando eu o questionei sobre essa vida hologramática que temos vivido. Desde então percebi realmente o sentido do desassossego, e foi só isso que me dominou. 
Estava no ônibus, trivial, patética, inerte, quando criei minha primeira conjectura caeiriana. Na verdade foi semana passada. Me veio a epifania das manhãs frias juntamente com o medíocre questionamento sobre o sol que, por si e somente por isto, nos aquece com seu egoísmo deveras altruísta. Quantas vezes negue à mim a oportunidade que me dou (ou deveria dar) todos os dias, a tal risada solta e musicada, tropicália. 
Digo isto sem a essência de um fato concreto e completo, porque tudo fora instantaneamente inusitado, que ando sendo narradora de mim e das pessoas que cruzo em parques e ruas, penso em como adoraria conhecê-las e ao mesmo tempo em como isto me causaria tédio ou quanto estranheza traria a cada ser estanque ou luxurioso que troco passos e respirações. 
Acho que vivemos a todo o momento salvando a vida alheia, sendo salvos pelos outros, nessa troca de gases vitais, via narinas até o pulmão, que processa cada bactéria expelida ou bobagem dita, porque creio realmente que isso tudo seja questão de pulmão e não de cérebro. Tenho fumado demais e meus brônquios e veias andam debilitados e suplicantes. Dá um medo começar algo, menos medo que concluir. E deve ser por isso que quase nunca concluo nada, senão o próprio, procrastinado em si. 
Maçãs verdes rolam como nuvens correm pelo céu antes da chuva. São tantas ausências que a própria falta não me alucina mais. São tantas as conversas que a própria verborragia não me angustia, mas... A ausência do certo da acidez, das lágrimas e risos frenéticos, ah como me angustia. 
Ter amigos é ter poetas passeando dentro de um cérebro que mais parece sofás de consultório. Tem o paciente fixo, os pacientes pacientes e os cavaleiros andantes. 
Tenho em mim, com notória satisfação ébria, metade de meia dúzia. Pacientes, paciente, cavaleiros, todos em um, um pouco em três. Tenho furacões, vendavais, veteranos, destroçados. Acho que tenho fé. 
Blá, blá, blá... 



Deixavam apenas correr o barco, sem rumo, em uma atmosfera de fracasso semi refinado. (...) onde nada jamais acontecia.

(George Orwell)

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Atualizado em: Sáb 9 Out 2010

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