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Unicórnios

É que às vezes as coisas me sentem mais do que eu as sinto, e me fazem entrar nelas. É bem assim mesmo. É que às vezes eu quero desistir de tudo, não encontrar ninguém na escada e não ser salva. É que às vezes comprimem tanto meu peito-cérebro que não sei o que sai lá de dentro, essas gotas escorrendo pela mão do repressor, compressor, opressor, ofensor. Quem é? Quem bate tanto nessa porta Tum Tum Tum não pára mais e não aparece, bate e corre, aperta a campainha e se esconde, quem são vocês? Minha cabeça ferve e meu corpo cansa, cansa.

Odeio estar indiferente e sempre tenho tentado estar, estranho né? Mas hoje acordei sem querer ser nada do que sou e sendo cada milímetro do que não pretendo. Acordei despretensiosa, diferente do pedantismo habitual, acordei inerte, como sempre, mas acordei indiferente, como nunca. Como se uma bomba caísse em sua cabeça e pouco lhe fizesse diferença, morreu mãe pai avó cachorro papagaio e daí, deixe-me aqui. Sou uma idealistazinha de merda, nada disso vai resolver mesmo. Uma indiferença cheia de expectativas. Tem coisas que só com a idade se resolve, ou com pauladas na cara. Ando querendo arrumar uns muros pra meter minha cabeça de bode.

Porque juvenis como eu sofrem por antecipação por algo que pode nem causar dor? Isto sim é sofrível, a antecipação do nada posto como prato principal. Como sou patética, me respondo nas perguntas e nem percebo.

Como se pode ouvir, com apenas um ouvido, o estardalhar dos pássaros-celulares ecoando na branquidão do céu de chuva sem ao menos comover-se com a ave sentinela que pousa ao lado direito de minha face enrubrescida, fazendo pouco caso de meus temores. Que ave é essa, penso a todo o momento, pois certas vezes me aparece negra feito corvo, vezenquando cintila amarelo feito sabiá.

Qual teu segredo transgressor, ave azul grená, que me empesteia a mente feito erva daninha? Ei, o que plantaram em mim, que doçura grotesca se explica a inexatidão do horror, que me cativa, polui e deslumbra?

Agora não poderia discernir a cor da grama, tanto quanto não poderia fazê-lo com o vento. Nunca tento entender lógicas ilógicas da subjetividade do ser humano que nem humanizar-se consegue, quiçá ser divino. O que há entre eu e o incerto mastigado por bocas com poucos dentes, vomitando credos e dogmas que parecem bromélias ressecadas?

Ai de mim, deveria pensar, tão patética e poética sou que tenho medo que me conheçam e que conheçam os dias que sempre compartilho com a vastidão do Universo, sabendo que nunca esquecerei cada um deles encostada na parede tentando decifrar a ave, a planta, a luva, o aço e principalmente o sucesso nunca alcançado por mim ou por mim apenas entendido por insucesso. Sabe essa sede do tudo em si e o nada em tudo? Então.

Busco sempre o inatingível aos semideuses, com meu pedantismo intrínseco que ousa questionar os deuses e os humanos, com a questão que faz a si e de si, com o que é meu e seu e não consigo desvencilhar o certo do errado, o transe maquiavélico, a transa maniqueísta, purpurinas sem valor ou gracejo algum.

Era tão jovem quando deixei de ser, mas tal juventude me pulsa como “cercas embandeiradas que separam os quintais”, mas a parede alta com arames cortantes nunca me bastou, vivi muito tempo dando pontos e tomando vacina antitetânica. Não quero as passagens que nunca me passam, não quero o renascimento, pois já me julgo morta e por estar assim faço o que fiz e o que farei, e quem importa a mim senão eu?

Que coisa ridícula além disso poderia ser, heroína da própria heroína. Mas são apenas nevoeiros, só posso olhá-los, eles sempre me escapam entre dedos.

Unicórnio quer dizer você, e tudo o que seu infinito pode significar.

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Atualizado em: Sáb 9 Out 2010

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