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VINICIUS, TRABALHO E ACESSO DO POETA

Hoje me peguei pensando em Vinícius de Moraes, o poeta de corpo e alma. Grande poeta, grande boêmio. Uma força criativa da Natureza.
Até então só havia me dedicado a audição de sua arte, ao deslumbre de sua obra, mas, com a facilidade interativa patrocinada pela Google tive a curiosidade de conhecer um pouco da biografia desse gênio brasileiro.
O material é farto. Me chamou a atenção uma auto denominação cantada pelo poetinha: “Sou o branco mais negro do Brasil.”
Frase de efeito, bem riscada e recheada de uma ideologia contestadora do jeito que cabe aos poetas.
Vinicius não nasceu pobre. Há bem da verdade deve-se dizer que era rico e com uma rica tradição. ”...seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais d. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes” .
Tinha berço o poétinha.
Batizado na maçonaria por disposição do avo, estudou no “Colégio Santo Inácio, na rua São Clemente, onde conheceu gente como Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este, sobrinho de Raul Pompéia”, (amigos de infância).
Era meu colega, Bacharel de Direito da Rua do Catete. Mas não tinha vocação para a advocacia, ramo apertado em regras e prazos que por certo sufocariam o poeta, que era poeta e vivia a vida de poeta como constatou Drummont.
Há gente que não considera arte como trabalho. Você diz: “Sou escritor”; e a pessoa completa: “mas trabalha com quê?”
Já tentou escrever um livro? Um conto? Uma matéria de internet? Pois é...
Escritor, poeta, blogueiro... Tudo isso é trabalho e dá trabalho. Posso ouvir a voz de meu pai dizendo: “trabalho é algo que alguém te paga pra fazer, se você faz de graça é hobby”.
Mas meu pai é sem graça como todo pai. Fica se preocupando com detalhes como aluguel e comida, enquanto o mundo precisa é de poetas como Vinícius, que não se preocupavam com esses detalhes materiais.
Tô brincando.
Todo mundo se preocupa com o material. Até o poeta que desde muito cedo trabalhou como escritor e compositor e era Bacharelado em Letras. Mais tarde, formou-se como Oficial da Reserva (CPOR). Substituiu Prudente de Morais Neto, como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica, foi Diplomata, escreveu críticas de cinema, colaborou com jornais e revistas, foi agitador cultural (dos bons) e de quebra estudou cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Ou seja, trabalhou pra caramba o poétinha.
Mas a bola que eu quero levantar não é a do poeta, que já tem a bola no espaço infinito. Quero me ater à questão do acesso.
Aqui o meu texto dá uma virada e fica meio sisudo, mas vale à pena.
Já pensou em quantos poetas estão “esnucados” (pra quem joga bilhar) numa situação de falta de acesso. Quanto vale saber ainda na infância que existe uma escola de Oficiais e que existe uma carreira militar.
Já perceberam que na biografia de grandes personagens sempre aparece o nome da escola primária seguida dos amigos de infância que estudaram na mesma sala e que se tornaram “gente importante”.
Pôxa, é impossível concorrer. Tem gente que começa o network no berçário...
Quanto vale o acesso a uma escola básica decente?
E para ser diplomata? O português perfeito deve vir seguido do inglês mais que perfeito. Como adquirir tal fluência se o máximo de cultura da população é novela que diz “Eu amo ela, Eu amo ela da galinha?”
Acesso!
Quem sabe das coisas desde cedo leva vantagem na vida.
Já ouvi falar de gente que faz tradução livre de coisa que lê no inglês, no Frances, no alemão... e publica como texto inédito no português. Faz isso porque tem acesso e a maioria das pessoas não. Assim o plágio se torna genial. Quem vai saber?
Quanto vale um o acesso a um segundo idioma? Uma ida ao museu ainda na infância? Conhecer teatro e realmente ler os clássicos da literatura?
A maioria dos brasileiros não teve acesso às mesmas coisas que Vinícius e seus amigos.
Se fizermos o recorte racial (já que Vinícius era o “branco mais negro do Brasil”) a questão do acesso vira piada de mau gosto.
O negro representa nada em termos de diplomacia no Brasil, por isso há o programa de bolsa para negros nesta área.
Em matéria de network então... Na minha biografia vai constar que estudei no EEPG Profª Maria de Lourdes Guimarães, em Santo André, onde conheci gente como Esquerdinha, Bolinha, Waltão, Tripa e Pelézinho (em memória).
(Desculpa se me esqueci de alguém e aproveito pra mandar um salve pros manos do outro lado da muralha, vida loka é nóis).
Fica difícil quando não se tem acesso ao básico.
Como se pode ver, A negritude de Vinícius não estava na biografia, nem na afrodescendência. Tinha uma negritude de curioso sincero, deslumbrado com a religiosidade e musicalidade do negro. Amava nosso gingado, nossa mandinga e nossas mulheres.
Se bem que de seus nove casamentos nenhum se deu com mulher negra ou pobre. Talvez a baiana Gesse (a bruxa) possa fechar essa lacuna. Em todo caso, amava-nos platonicamente como cabe aos poetas.
Olhando sua intensa jornada neste planeta penso que não deve ter sido fácil fazer os sambas que Vinícios fez, sem contar piada (pois quem faz samba assim não é de nada) .
Fácil foi, para alguém com sua formação, se considerar e ser considerado o branco mais negro do Brasil.
Um orgulho para os brancos ou para os negros?
Para os brasileiros, claro.
Seria igualmente fácil se ele resolvesse ser o branco mais branco do Brasil ou se nascido negro resolvesse ser o negro mais branco do Brasil.
Mas penso que talvez, difícil... Mas difícil mesmo, é decidir ser o negro mais negro do Brasil, no Brasil.

Helton Fesan é fã de Vinicius e Johny Alf.

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Atualizado em: Seg 12 Jul 2010

Comentários  

#1 tania_martins 23-07-2010 20:13
Parabéns pelo texto!

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