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AS ISABELLAS QUE NINGUÉM VÊ

Menos mal que, desta vez – ao contrário de tantas outras – o mal se deu mal no final de uma história sem final feliz, onde todos saíram perdendo...

Menos mal que ela, a Ana de Oliveira, a Ana do bem, a guerreira, embora profundamente ferida, soube resistir ao inexplicável e revoltante confinamento “imposto” pela vã tentativa de se defender o indefensável e se justificar o injustificável, assim como fosse ela culpada – como na verdade o é – pelo “inominável crime” de deixar que pelos seus olhos – espelhos de sua alma e de seu sofrimento – brotassem a dor incontida de quem, mesmo faltando um pedaço, jamais deixará de ser mãe por inteiro...

Menos mal que o Cembranelli estava por lá, para, auxiliado pelo laborioso e eficiente trabalho dos peritos, provar irrefutavelmente os detalhes uma verdade tão medonha que nossas virtudes e valores mal consentiam em acreditar, e que até nossos mais obscuros pensamentos se horrorizariam em conceber...

Menos mal que o juiz Maurício Fossen também estava por lá, para, num pronunciamento irretocável, proferir a mais que justificada e merecida sentença condenatória, dura e exemplar, se considerarmos as leis brasileiras, mas imensuravelmente pequena para servir como consolo ou reparação pelo encantamento perdido, pela paz estrangulada, pela vida jogada pela janela, silenciada como mágico o som daquele sorriso...

Menos mal que a imprensa e o povo por lá se fizeram presentes, para, por todos os meios possíveis, mostrar ao país e ao mundo que a sociedade brasileira não compactua nem silencia, tampouco se intimida, quer seja diante de práticas hediondas cuja monstruosidade as torne maiores que os limites da nossa humana compreensão, quer seja perante aquelas outras silenciosas e refrigeradas como os bastidores que lhes servem de ninho, mas também criminosas, covardes e vergonhosas, e para as quais os holofotes nunca se voltam, e mesmo quando o fazem, por virem de um único lado, deixam o outro na cômoda proteção das sombras...

Menos mal que uma parte de nós ainda não perdeu a capacidade de se indignar, de se revoltar! Principalmente aquela que não possui colarinhos-passe para transitar impunemente pelos corredores e salas dos labirintos do poder, nem cuecas ou meias-cofre que lhes permitam possuir qualquer coisa que não o mísero e sofrido salário de cada mês! Aquela mesma, a que tem cara do Brasil que rala, rola e subvive, sabe Deus como, a madrugar, esperar e, faminto, sofrer vertigens na suada fila do pão...

Talvez seja por isso, por toda essa ânsia mal contida por uma dignidade cada vez mais escassa, por esse clamor por uma justiça cada vez mais ausente e distante do cidadão, por esse estupor diante da infindável cartola negra da maldade humana e seus incontáveis coelhos imolados em cada esquina em nome da improbidade nossa de cada dia, é que uma nação inteira, num misto de esperança e repúdio, de crença e medo, varou as horas diante da TV, na angustiada espera de, numa única palavra - Condenados! - largar um pouco da raiva pelo caminho e deixar a esperança seguir em frente, na direção de um futuro que Isabella jamais verá...

Nem ela, nem os milhares (ou milhões) de enteados do descaso e do silêncio conivente que perambulam por aí, se amontoando pelos becos da vida, pelas favelas da existência, adotadas pelo tráfico, estranguladas pela prostituição, arrastadas até os buracos sociais abertos pela corrupção na rede pública que de amparo deveria lhes servir, e finalmente jogadas pela janela do desencanto, numa descida sem volta, em queda livre para uma “morte” nada casual, igualmente brutal e degradante!

Até quando? Difícil de dizer! – Porque enquanto os olhos do povo continuarem a ser confinados pelas negras cores da impunidade, o mal será feliz no final! E as “Isabellas” sem nome vitimadas pelos “Nardonis” de colarinho branco continuarão a existir, sem “Cembranellis” para representá-las e sem peritos para auxiliar, condenadas à própria sorte e sentenciadas pelas leis da má vontade política a serem aprisionadas nas celas da indiferença geral, entre as mil e uma paredes do esquecimento! Assim, sem defesas, sem julgamento, sem júri, sem imprensa, sem mobilização popular...

Exatamente assim, sem vez, sem voz, e sem uma “Ana” sequer para chorar por elas!

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Atualizado em: Dom 4 Abr 2010

Comentários  

#8 azara 21-02-2013 20:08
Muito bom texto.Parabens.
#7 L_Dzki 11-02-2011 02:00
ótimo texto!Parabéns!
#6 Geraldocoelho 12-06-2010 08:08
Não devemos nos esquecer que um certo "PRESIDENTE(?)",ignorante,amigo de assasinos ITALIANOS,Estadistas IRANIANOS,irmãos de FIDÉIS CASTROS;que vivia dizendo "EU NÃO SABIA,não sabia
da podridão de "antonios paloccis"ou coisa assim e seus capangas:"zés dirceus"e companhia limitada;-)isse naquela ocasião que muito alarde da imprensa,poderia acabar condenando "INOCENTES"!!!(?)...A NOSSA VOZ ESTÁ NAS URNAS;SE NÃO TEMOS ESPERANÇA EM NINGUÉM;ANULEMOS NOSSO VOTO;SOMENTE ASSIM APARECERÁ VERDADEIROS CANDITADOS DE VERDADDEIRA BOA VONTADE...Que todos parem para pensar...Gostei do texto,meu amigo...Parabéns.
#5 lindinha 28-04-2010 13:43
linda retratação de uma tragédia tão recente que chocou o brasil. parabéns
+1 #4 Abreu 08-04-2010 15:39
De uma coisa sabemos: 200 milhões de habitantes reunidos em um mesmo país, ainda em desenvolvimento, em sua maioria formada por pessoas incultas, seguramente vai gerar inúmeros crimes hediondos por dia, dos quais, algum repercutirá a nos afetar. Para o bicho-homem não existe solução.
#3 tania_martins 07-04-2010 22:53
Ótimo texto. Parabéns!
#2 Nadi 06-04-2010 21:16
E como há Isabellas! As vítimas.
Nada justifica 'jogar para fora' uma vida, e temos visto que muitas são descartadas de diversas maneiras, pedofilia, estúpros, maus tratos de toda espécie...Parece que a vida está passado ao nosso lado, tão somente.
Abraços estrelas.
#1 Kokranne 05-04-2010 23:34
Bravo! Adorei seu texto! Ótimo...estrelas. Abraços

Gracias pela visita....volte sempre.

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