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O SONHO DO PAÍS DOURADO (Como Raul já dizia...)

“Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho, que ele me falou...”

- Rio de Janeiro!!!

Ganhamos!!! Como não me emocionar, não me deixar envolver e contagiar?

Se “nunca antes na história desse país” olhos experimentados pela seca nordestina e tão cuidadosamente seletivos ao ponto de não enxergarem o Mensalão foram capazes de reagir com lágrimas à luz e ao som daquela explosão de alegria, por que não eu, “um cidadão comum, como esses que se vê nas ruas” não me comoveria também?

Se até os pés que encantaram o mundo fazendo uma bola - para desespero de nossos adversários – escrever “olé” com trajetórias improváveis e desconcertantes estavam por lá, por que não poderia eu – como tantas outras vezes – estar plantado em frente à TV, querendo vibrar de novo com aquele quase sagrado gesto de socar o ar? Por que não eu, um fidelíssimo súdito de sua alteza real, o Atleta do Século, e passageiro de todas as naves tipo “buzão” que conduzem ao planeta emoção brasileira, não me deixaria também arrastar por esse instante de desabafo, por este sentimento de gol de placa que abalou o país?

Se mesmo ele, o parceiro brilhante e perpétuo do inesquecível e iluminado Raul, o mago das palavras, o escritor consagrado em cujo séquito figuram até estadistas e reis, como um saltimbanco dos sonhos, quer plantar bananeira em plena rua, por que não eu, “um dito cidadão respeitado”, não poderia deixar meu coração criança levar minha imaginação para “longe das cercas embandeiradas que separam quintais” e, “aprendendo a ser louco”, “fazer tudo igual”?

Mas também - e até - no dia em que a gente ganhou, a tarde caiu e a noite chegou... Com assaltos na esquina e tiros na escuridão. Com a lei do silêncio e o toque de recolher. E com a insônia de quem de repente se dá conta de que nós brasileiros, que tanto buscamos ser algo mais do que coadjuvantes do espetáculo, agora seremos também palco e platéia. Nós que, como artistas de inegável talento sempre estivemos sob os holofotes recolhendo aplausos pelo que de bom mostramos, agora corremos o sério risco de sermos ensurdecedoramente vaiados pelo que, em nossos bastidores, tentamos, em vão, esconder...

“Mas quem não tem colírio usa óculos escuros”...

E eu, um fracassado aprendiz de maluco beleza, um anônimo raptor de retalhinhos de canções (ou seriam lições?), eu que “devia estar contente e feliz por ter conseguido tudo o que eu quis”, “confesso abestalhado que estou decepcionado”! E eu, que já gastei toda a minha euforia, mas ainda tenho meu velho, sofrido, impulsivo e nem sempre lógico “coração de estudante”, “quero falar de uma coisa”...

Uma coisa assim meio improvável e distante como minha esperança andarilha, que de tanto perambular pelos becos do desencanto, logo se agarra a qualquer tiquinho de qualquer coisa, para, como uma tocha olímpica, permanecer sempre acesa...

Assim meio fora de moda, como esse sentimento de brasilidade momentaneamente revivido, como que renascido das cinzas daqueles velhos dias de luta verde-e-amarela, e que tantas vezes duvidei que ainda pudesse existir...

Assim devagar e sempre, como essa marolinha de indignação que, ainda que lentamente, nos move... Porque se hoje somos reconhecidamente craques em provas não olimpicamente corretas como “sobrevivência familiar com um mísero salário mínimo”, “tempo de espera por um atendimento médico nos postos do INSS” ou em diversas modalidades de “tráfico de drogas”, “de crianças”, “de órgãos” e até mesmo “de influências”, entre tantas outras, sequer temos ousado sonhar um dia sermos classificados para as olimpíadas da decência, da moralidade, da dignidade, do respeito à vida e ao meio ambiente, do direito à saúde, à educação, ao emprego, à cidadania, etc, etc, etc...

Quero falar uma coisa, ainda que assim meio adolescente e rebelde! Uma coisa brasileiramente óbvia, incomodamente atual e politicamente incorreta, assim como uma “mosca na sopa”!!! Alguma coisa sobre sermos um país verdadeiramente dourado na modalidade “vergonha na cara”...

Por que sem isso, tudo o mais – como Raul já dizia – é “ouro de tolos”...

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Atualizado em: Qua 7 Out 2009

Comentários  

#8 PauloLeandroValoto 26-12-2009 20:46
a introspecçao era a grande virtude de Raul.
sua analogia ficou ótima.
parabens!
#7 Abreu 15-12-2009 01:57
E vamos continuar a escrever sobre as mazelas pois é assunto para uma vida toda...
#6 brunoteenager 04-11-2009 23:57
Muito bom o seu texto. Parabéns!
#5 Catucha 22-10-2009 08:04
:D PARABÉNS! ADOREI SUA CRÔNICA. É MUITO BOM TE LER. BJS DA CATUCHA.
#4 tania_martins 14-10-2009 22:12
Parabéns pela ótima crônica.
Abraços.
#3 PaolaRhoden 09-10-2009 22:24
Entristeço-me sempre que vejo 'o ouro de tolos' brilhando por aí. Parabéns mesmo pela crônica. Abraços
+1 #2 Nadi 07-10-2009 21:08
Parabéns, Celiodubanko.
Precisamos de patriotas, menos mídia.
e no futuro, bem próximo até, o qto pagaremos para nos exibirmos ao mundo????
Qta coisa vai para 'baixo do tapete'.
Abraços
#1 marcello 07-10-2009 15:57
Excelente! Continue juntando seus pedacinhos de lições prá que a gente possa aprender com eles! Parabéns! Pelo texto, pela brasilidade e pelo coração de estudante.

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