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Ciço, Liseno e o bode do Jacó

O clássico livro “A arte de furtar”, do Padre Manoel da Costa – atribuído ao Padre Antônio Vieira por questões mercadológicas, apenas para vender mais – continua muito atual, embora tenha sido escrito em 1652. Lendo parte do primeiro capítulo, assaltou-me a idéia de que ele se referia – profeticamente – ao nosso Senado da República, envolto em escândalos que ruborizariam até Ali-Babá.  Principalmente quando vemos os senadores saírem ilesos dos suspeitos imbróglios.

Se os membros da nossa Câmara Alta fossem cidadãos comuns – pelo menos o José Sarney, o presidente Lula disse que não o é – certamente seriam condenados impiedosamente. Mas como são julgados por seus próprios pares em conselhos ditos de ética, ou pela nossa Suprema Corte, que jamais condenou um político em toda a sua história, todos sabem, com antecedência, o final da estória: tudo acaba em pizza, paga pelo contribuinte...

A coincidência se dá, principalmente, quando o autor atesta haver arte para furtar e, em sendo arte, é ciência verdadeira. Senão, vejamos, na ortografia da época: “... E quando os vejo continuar no officio illesos, não posso deixar de o atribuir à destreza de sua arte, que os livra até da justiça mais vigilante, deslumbrando-a por mil modos, ou obrigando-a que os largue, e tolére.”  Precisamos, como se vê, exercitar mais a nossa tolerância com os políticos...

Como uma coisa puxa outra, lembrei-me de Porteirinha, em meados da década de 60 do século passado, quando dois amigos de infância resolveram se aventurar em um furto de bode, para um churrasco. Como não eram especialistas na arte de furtar, nem no ofício de açougueiro ou magarefe, acabaram se dando mal...

Tudo foi engendrado por Ciço Capeta, que bispava de longe o gordo bode do “seu” Jacó, que o filho Jurão utilizava em seu carrinho para buscar água no rio Mosquito.

Liseno de Bráu foi o escolhido por Ciço para ser seu companheiro de empreitada. Ele estudava em Montes Claros e passava as férias de julho na cidade. Era filho único de Bráulio, dono de bar e salão de sinuca, na Rua Baiana, esquina com a Travessa Milton Teles, onde havia um pequeno quintal.

À noite, sorrateiramente, foram aprender, na prática, a arte de furtar um bode. Para este não berrar, usaram a tática de cuspirem no focinho do bicho. Enquanto estava ocupado em lamber o cuspe, não berrava. Além disso, levaram um providencial e subornador embornal de milho, para o mangueiro de Tião Teixeira, onde o caprino pastava. Dali, amarraram-no e o levaram para o quintal do bar de Bráulio e lá o deixaram  comendo o resto do cereal.

No dia seguinte, um sábado, por volta das 10 horas, Ciço e Lizeno se encontraram e resolveram dar sequência ao plano: matar o bode, salgar a carne e fazer um churrasco quando ninguém mais falasse do assunto. O bar do Bráulio estava lotado.  No quintal, Liseno e Ciço amolam uma faca sob o olhar piedoso do bode.  Liseno diz não gostar de ver sangue e não quer matar o animal, mas se oferece para segurá-lo pelos chifres retorcidos, enquanto Ciço daria a facada fatal.

Não entendendo bem da anatomia caprina, Ciço dá a estocada, mas não atinge a veia certa do pescoço. Ferido, o bode pula e berra forte, lançando golfadas de sangue sobre Liseno, que tenta contê-lo  pelos chifres, mas não consegue.

- Segura o bode, Liseno!!! – implora Ciço.

Aproveitando-se que havia uma parte do muro mais baixa, o bode por ali se escafedeu, num espetacular salto, deixando os dois adolescentes encarando um ao outro no quintal. Com toda aquela latomia, Bráulio corre para ver o que estava acontecendo e depara-se com uma cena tétrica: Ciço com uma faca suja de sangue em riste e Liseno com a roupa ensanguentada. Achando que seu único filho estava ferido, Bráulio desmaia. Ciço, ao ver Bráulio desmaiado, e também achando que havia atingido o amigo, foge em desabalada carreira pelo beco e vai parar no Curral Velho, fazenda do seu pai.

Depois de uma semana embrenhado no mato, comendo jatobá e bacupari, e fugindo de todo e qualquer barulho de carro, Ciço resolve voltar à cidade. Desconfiado, passa em frente ao bar do Bráulio e vê tudo funcionando normalmente. Mas só ficou tranquilo mesmo quando soube que Liseno havia voltado para Montes Claros e que o bode, depois de alguns pontos no pescoço,  voltara a carrear o precioso líquido para a residência do “seu” Jacó...

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Atualizado em: Seg 5 Out 2009

Comentários  

#3 tania_martins 20-12-2009 22:12
Divertido e como sempre bem escrito seu texto.
#2 Itamaury Teles 11-10-2009 22:23
Nadi.
Fico feliz que tenha se divertido com meu texto. De fato, tudo com dantes, no Quartel de Abrantes e no Congresso Nacional...
Quanto ao Ciço, é uma forma reduzida do seu nome real, xará que é do Padre Cícero Romão Batista...
Agradeço-lhe pelo comentário.
Abraços.
#1 Nadi 11-10-2009 21:46
Me diverti lendo teu texto.
Qto à política, nada de novo sob o sol.
Ah,o Ciço!!!!
O nome da minha cadelinha é Sissa, não sabia que existia Ciço.
Bela narrativa.
Abraços

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